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Fernando Pessoa (1888-1935)
RICARDO REIS
por Álvaro de Campos...
NOTA PRELIMINAR
Nosso Ricardo Reis teve uma inspiração feliz sé que ele usa inspiração pelo menos por fora das explicações, quando reduziu a seis linhas a sua arte poética: Não a arte poética, mas a sua Que ele ponha na mente altiva o esforço só da "altura" (seja isso o que for), concedo, se bem que me pareça estreita uma poesia limitada a pouco espaço que é próprio dos píncaro. Mas a relação entre a altura e os versos de um certo número de sílabas é-me mais velada. E, é curioso, o poema, salvo a história da altura, que é pessoal, e por isso fica com o Reis, que aliás a guarda para si, é cheio de verdade:
Que quando é alto e régio o pensamento,
Súdita a frase o busca
E o scravo ritmo o serve.
Ressalvando que pensamento deve ser emoção, e, outra vez, a tal altura, é certo que, concebida fortemente a emoção a frase que a define espontaneíza-se, e o ritmo que a traduz surge pela frase fora. Não concebo, porém, que as emoções, nem mesmo as do Reis, sejam universalmente obrigadas a odes sáficas ou alcaicas, e que o Reis, quer diga a um rapaz que lhe não fuja, quer diga que tens pena de ter que morrer, o tenha forçosamente que fazer em frases súditas que por duas vezes são mais compridas e por duas vezes mais curtas, e em ritmos escravos que não podem acompanhar as frases súditas senão em dez sílabas para as duas primeiras, e em seis sílabas as duas segundas, num graduar de passo desconcertante para a emoção. Não censuro o Reis mais que a outro qualquer poeta. Aprecio-o, realmente, e para falar verdade, acima de muitos, de muitíssimos, A sua inspiração é estreita e densa, o seu pensamento compactamente sóbrio, a sua emoção real se bem que demasiadamente virada para o ponto cardeal chamado Ricardo Reis. Mas é um grande poeta - aqui o admito -, se é que há grandes poetas neste mundo fora do silêncio de seus próprios corações.
Álvaro de Campos