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Fernando Pessoa (1888-1935).

ALBERTO CAEIRO
por Ricardo Reis...

NOTA PRELIMINAR

Nestes poemas aparentemente tão símplices, o crítico, se dispõe a uma análise cuidada, hora a hora se encontra defronte de elementos cada vez mais inesperados, cada vez mais completos.
Tomando por axiomático aquilo que, desde logo, o impressiona, a naturalidade e espontaneidade dos poemas de Caeiro, pasma de verificar que eles são, ao mesmo tempo rigorosamente unificados por um pensamento filosófico que não só os coordena e concatena, mas que ainda mais, prevê objeções, antevê críticas, explica defeitos por uma integração deles na substância espiritual da obra. Assim, dando-se Caeiro por um poeta objetivo, como é, nós encontramo-lo, em quatro das suas canções, exprimindo impressões inteiramente subjetivas. Mas não temos a satisfação cruel de poder supor-nos s indicar-lhe que errou. No poema que imediatamente precede essas canções, ele explica que elas foram escritas durante uma doença, e que, portanto, têm por força que se diferentes dos seus poemas normais, por isso que a doença não é a saúde. E assim o crítico não chegue a conduzir aos lábios a taça da sua satisfação cruel. Se quiser ter a alegria, um pouco menos concreta, de apontar outros pecados contra a teoria íntima d obra toda, vê-se confrontado por poemas como ... ° e o ...°, onde a sua objeção já e feita, e a sua questão respondida. Só quem pacientemente, e com o espírito pronto. ler esta obra pode avaliar o que esta previsão, esta coerência intelectual (mais ainda do que sentimental, ou emotiva) tem de desconcertante.
Tudo isto, porém. é verdadeiramente o espírito pagão. Aquela ordem e disciplina que o paganismo tinha e o cristismo nos fez perder, aquela inteligência raciocinada das coisas, que era seu apanágio e não é nosso, está ali. Porque, se fala na forma aqui está na essência. E não é forma exterior do paganismo - repito que Caeiro veio reconstruir; é a essência que chamou do Averno, como Orfeu a Eurídice, pela magia harmônica (melódica) da sua emoção. Quais são, para meu critério, os defeitos desta obra? Dois só, e eles pouco empanam o seu fulgor irmão dos deuses. Falta, nos poemas e Caeiro, aquilo que devia completá-los: a disciplina exterior, pela qual a força tomasse a coerência e a ordens que reina no íntimo da Obra. Ele escolheu, como se vê, um verso que, embora fortemente pessoal como não podia deixar de ser, é ainda o verso livre dos modernos. Não subordinou a expressão a uma disciplina comparável àquela a que subordinou quase sempre a emoção e sempre, a idéia. Perdoa-se-lhe a falta, porque aos inovadores muito se perdoa; mas não se pode omitir que seja uma falta, e não uma distinção. Semelhantemente, a emoção enferma ainda um pouco do meio cristão em que surgiu para este mundo a alma do poeta. A idéia, sempre essencialmente pagã, usa por vezes um traje emotivo que não lhe é adequado.
Em "O Guardador de Rebanhos" há um aperfeiçoamento gradual neste sentido: os poemas finais - e sobretudo os quatro ou cinco que precedem os dois últimos - são de uma perfeita unidade idéia-emotiva. Eu perdoaria ao poeta que ele houvesse assim permanecido ainda escravo de certos apetrechos sentimentais da menta idade cristista, se ele nunca, até o fim da obra, se conseguisse libertar deles. Mas se, a cada altura da sua avaliação poética, ele o fez, culpo-o, e severamente o culpo (como severamente, em pessoa, o culpei) de não voltar aos poemas anteriores, ajustando-os à sua disciplina adquirida, e, se alguns a essa disciplina se não sujeitassem, riscando-os inteiramente. Mas a coragem de sacrificar o que se fez é a que mais escasseia ao poeta. Tão mais difícil é refazer que fazer a primeira vez. Verdadeiramente, ao invés do que diz o prolóquio gálico, é o último passo o que mais custa. Assim eu acho o ...º poema, tão irritantemente enternecedor para um cristão, absolutamente deplorável para um poeta objetivo, para um reconstrutor da essência do paganismo.
Nesse poema desce-se às últimas baixezas do subjetivismo cristista, indo até àquela mistura do objetivo com o subjetivo que é o distintivo doentio dos mais doentios dos modernos (desde certos pontos da obra intolerável do infeliz chamado Victor Hugo até à quase totalidade da magma amorfa que faz as vezes de poesia entre os nos sos contemporâneos místicos). Exagero, porventura, e abuso. Tendo aproveitado a ressurreição do paganismo que Caeíro conseguiu. e tendo como todos os aproveitadores conseguido a fácil arte secundária de aperfeiçoar, é talvez ingrato que me revolte contra os defeitos inerentes à inovação com que aproveitei. Ma, se os acho defeitos, tenho, embora os desculpe, que os apelidar de tais. Magis amica veritas.

Ricardo Reis

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