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Fernando Pessoa (1888-1935)
ÁLVARO DE CAMPOS
por Ricardo Reis...
NOTA PRELIMINAR
Um poema é a projeção de uma idéia em palavras através da emoção. A emoção não é a base da poesia: é tão-somente o
meio de que a idéia se serve para se reduzir a palavras. Não vejo, entre a poesia e a prosa, a diferença fundamental, peculiar da própria
disposição da mente, que Campos estabelece. Desde que se usa de palavras, usa-se de um instrumento ao mesmo tempo emotivo e intelectual. A
palavra contém uma idéia e uma emoção. Por isso não há prosa, nem a mais rigidamente científica, que não ressume qualquer suco emotivo. Por
isso não há exclamação, nem a mais abstratamente emotiva, que não implique, ao menos, o esboço de uma idéia. Poderá alegar-se, por exemplo,
que a exclamação pura - "Ah", digamos- não contém elemento algum intelectual. Mas não existe um "ah", assim escrito isoladamente, sem
relação com qualquer coisa do anterior. Ou consideramos o "ah" como falado e no tom da voz vai o sentimento que a anima, e portanto a idéia
ligada à definição desse sentimento; ou o "ah" responde a qualquer frase, ou por ela se firma, e manifesta uma idéia que essa frase
provocou. Em tudo que se diz poesia ou prosa - há idéia e emoção.
A poesia difere da prosa apenas em que escolhe um novo meio exterior, além da palavra, para projetar a idéia em palavras através da emoção.
Esse meio é o ritmo, a rima, a estrofe; ou todas, ou duas, ou uma só. Porém menos que uma só não creio que possa ser. A idéia, ao servir-se
da emoção para se exprimir em palavra contorna e define essa emoção, e o ritmo, ou a rima, ou estrofe, são a projeção desse contorno, a
afirmação da idéia através de uma emoção, que, se a idéia a não contornasse, se extravasaria e perderia a própria capacidade de expressão. É
o que, em meu entender, sucede nos poemas de Campos. São um extravasar de emoção. A idéia serve a emoção, não a domina. E o homem - poeta ou
não poeta - em quem a emoção domina a inteligência recua a feição do seu ser a estágios anteriores da evolução, em que as faculdade de
inibição dormiam ainda no embrião da mente. Não pode ser que a arte que é um produto da cultura, ou seja do desenvolvimento supremo da
consciência que o homem tem de si mesmo, seja tanto mais superior, quanto maior for a sua semelhança com as manifestações mentais que
distinguem os estados inferiores da evolução cerebral.
A poesia é superior à prosa pois que exprime, não um grau superior de emoção, mas, por contra, um grau superior do domínio dela, a
subordinação do tumulto em que a emoção naturalmente se exprimiria (como verdadeiramente diz Campos) ao ritmo, à rima, à estrofe. Como o
estado mental, em que a poesia se forma, é, deveras, mais emotivo que aquele em que naturalmente se forma prosa, há mister que ao estado
poético se aplique uma disciplina mais dura que aquela [que] se emprega no estado prosaico da mente. E esses artifícios - o ritmo, a rima a
estrofe - são instrumentos de tal disciplina. No sentido em que Campos diz que são artifícios o ritmo, a rima e a estrofe, se pode dizer que
são artifícios: a vontade que corrige defeitos, a ordem que policia sociedades, a civilização que reduz os egoísmos à forma sociável. Na
prosa mais propriamente prosa - a prosa científica ou filosófica , a que exprime diretamente idéias e só idéias, ato há mister de grande
disciplina, pois na própria circunstância de ser só de idéias vai disciplina bastante. Na prosa mais largamente emotiva, como a que
distingue a oratória, ou tem feição descritiva, há que atender mais ao ritmo, à disposição, à organização das idéias, pois essas são ali em
menor número, nem formam o fundamento da matéria. Na prosa amplamente emotiva - aquela cujos sentimentos poderiam com igual facilidade ser
expostos em poesia - há que atender mais que nunca à disposição da matéria, e ao ritmo que acompanhe a exposição. Esse ritmo não é definido,
como o é no verso, porque a prosa não é verso.
O que verdadeiramente Campos faz, quando escreve em verso, é escrever prosa ritmada com pausas maiores marcadas em certos pontos, para fins
rítmicos, e esses pontos de pausa maior, determina-o a ele pelos fins dos versos. Campos é um grande prosador, um prosador com uma grande
ciência do ritmo; mas o ritmo de que tem ciência, é o ritmo da prosa, e a prosa de que se serve é aquela em que se introduziu, além dos
vulgares sinais de pontuação. Uma pausa maior e especial, que Campos, como os seus pares anteriores e semelhantes, determinou representar
graficamente pela linha quebrada no fim, pela linha disposta como o que se chama um verso. Se Campos, em vez de fazer tal, inventasse um
sinal novo de pontuação - digamos o traço vertical (|) para determinar esta ordens de pausa, ficando nós sabendo que ali se pausava com o
mesmo gênero de pausa com que se pausa no fim de um verso, não faria obra diferente, nem estabeleceria a confusão que estabeleceu.
A disciplina é natural ou artificial, espontânea ou refletida, O que distingue a arte clássica, propriamente dita, a dos gregos e até dos
romanos, da arte pseudoclássica, como a dos franceses em seus séculos de fixação. é que a disciplina de uma está nas mesmas emoções, com uma
harmonia natural da alma, que naturalmente repele o excessivo, ainda ao senti-lo; e a disciplina da outra está em uma deliberação da mente
de não se deixar sentir para cima de certo nível. A arte pseudoclássica é fria porque é uma regra; a clássica tens emoção porque é uma
harmonia.
Quase se conclui do que diz Campos, de que o poeta vulgar sente espontaneamente com a largueza que naturalmente projetaria em versos como os
que ele escreve; e depois, refletindo, sujeita essa emoção a cortes e retoques e outras mutilações ou alterações, em obediência a uma regra
exterior. Nenhum homem foi alguma vez poeta assim. A disciplina do ritmo é aprendida até ficar sendo uma parte da alma: o verso que a emoção
produz nasce já subordinado a essa disciplina. Uma emoção naturalmente harmônica é uma emoção naturalmente ordenada; uma emoção naturalmente
ordenada é uma emoção naturalmente traduzida num ritmo ordenado, pois a emoção dá o ritmo e a ordem que há nela, a ordem que no ritmo há.
Na palavra, a inteligência dá a frase, a emoção o ritmo. Quando o pensamento do poeta é alto, isto é, formado duma idéia que produz uma
emoção, esse pensamento, já de si harmônico pela junção equilibrada de idéia e emoção, e pela nobreza de ambas, transmite esse equilíbrio de
emoção e de sentimento à frase e ao ritmo, e assim, como disse, a frase, súdita do pensamento que a define, busca-o, e o ritmo, escravo da
emoção que esse pensamento agregou a si, o serve.
Ricardo Reis