A minha Lília morreu.

GLOSA

Assim como as flores vivem
A minha Lília viveu;
Assim como as flores morrem
A minha Lilia morreu.

Assomando o negro dia,
Ave sinistra gemeu;
Cumpriu-se o funesto agouro:
A minha Lilia morreu

Desfalece, ó Natureza,
Acelera o fado teu;
Esta voz te guie ao nada:
A minha Lilia morreu.

Fadou-me o caso medonho
Vate, que nos astros leu;
Os vates são como os numes:
A minha Lilia morreu.

Que é do Sol? Que é do Universo?
Tudo desapareceu;
Foi-se toda a Natureza:
A minha Lilia morreu.

A minha ventura, e Lília
Num só laço Amor prendeu:
Morreu a minha ventura,
A minha Lilia morreu.

Em parte da minha essência
Minha essência pereceu;
Não vivo senão metade:
A minha Lilia morreu.

Oh quanto ganhava o mundo!
Oh quanto o mundo perdeu!
Doce lucro, e triste perda!
A minha Lilia morreu.

Para exultar o Universo
A minha Lília nasceu;
Para os numes exultarem
A minha Lilia morreu.

Meu coração desgraçado,
Desgraçado porque és meu,
Evapora-te em suspiros:
A minha Lilia morreu.

As estrelas se apagaram,
A Natureza tremeu,
Os promontórios gemeram,
A minha Lilia morreu.

Disse, ao ver sereno eflúvio,
Que o puro Olimpo correu:
Aquela é a alma de Lília,
A minha Lilia morreu.

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