100 anos do mito

A Harley Davidson comemora este ano seu primeiro centenário. no mundo todo pessoas se reúnem para fazer tributos à motocicleta que virou ícone da cultura pop


Marcelo Araújo

 
Daniel Madsen
Os Carcarás começaram com pequenos encontros entre amigos
 
Em agosto elas completam 100 anos de vida e, mesmo depois de um século de quilometragem, as motocicletas Harley-Davidson permanecem como um símbolo de juventude, rebeldia e liberdade. De um pequeno galpão de uma cidade americana, Milwaukee, para o mundo, as Harleys tornaram-se parte do imaginário da cultura pop, guiadas pelos famosos Hells Angels ou acompanhando astros do cinema e do rock como Peter Fonda e Dennis Hopper, no imortal Easy Rider (Sem Destino), Mickey Rourke e Elvis Presley.

  Como não existe uma data certa de ‘‘criação’’ da Harley-Davidson, as comemorações do centenário acontecem no mês de agosto, quando ela foi apresentada pela primeira vez ao público. No Brasil, os festejos devem acontecer em setembro, em um evento ainda com data e cidade a serem definidas.

  Elas não são famosas pela velocidade. Nesse quesito, os modelos japoneses ganham com seu aparato tecnológico. O fascínio pela Harley está associado ao mito, às qualidades mecânicas e ao design clássico, que pode ser ainda mais incrementado com os acessórios.

  No Brasil, a Harley-Davidson vende em média 350 motocicletas por ano. Em 2003, o Grupo Izzo, que representa há 10 anos a companhia no país, aumentou a meta para 500 veículos. São onze modelos à disposição do público, com preço médio de R$ 55 mil, e que rendem um faturamento, no Brasil, de R$ 33 milhões anuais — sem contar o comércio de acessórios.

  A Harley-Davidson nacional tem 4.500 clientes catalogados, 70% deles em São Paulo. Mas esse número pode ser superior, se forem levadas em conta as pessoas que adquiriram as motos por outros caminhos, fora da concessionária. Há revendas da marca em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba (PR), Porto Alegre (RS), Belo Horizonte (MG) e Campinas (SP). Segundo o diretor comercial da Harley-Davidson do Brasil, Álvaro Julio Sandre, até o fim do ano devem ser inauguradas oito novas lojas, e Brasília pode ser contemplada com uma delas. ‘‘O mercado brasiliense é importante. Temos muitos clientes na cidade. Faz tempo que queremos abrir uma revenda, mas não o fizemos pela conjuntura econômica.’’

  Em Brasília, como em tantas outras cidades do mundo, existe um séquito de cultuadores das Harley-Davidson. Eles podem ser vistos com mais evidência em dois clubes de motociclistas: Os Carcarás e os Sarracenos. Em calorosas reuniões semanais, celebram a paixão pela motocicleta. Agregam membros de várias partes da cidade e de diversos segmentos profissionais. Não se espante se você encontrar com o seu dentista, médico, professor ou patrão com jeans rasgados, casaco de couro, capacete aberto e uma camiseta de caveira, pilotando uma Harley pelas ruas. Ter uma Harley pode provocar atitudes assim, que reforçam o mito. No entanto, Sarracenos e Carcarás garantem que, apesar do visual, são pacíficos e nada têm a ver com o estigma violento dos Hells Angels.

  Os Carcarás surgiram em 1982. No começo eram encontros de amigos, como lembra o agente de segurança da Câmara dos Deputados Leonel Niemeyer, 42, o Tio Léo. Todas as noites de quinta-feira é possível vê-los no Café da Rua 8, na 408 Norte, em um espetáculo de Harleys de vários modelos e épocas. O próprio Tio Léo tem cinco exemplares em casa, em um condomínio perto de Sobradinho. ‘‘Tenho duas WLs, uma de 1928 e outra de 1929, uma Pan Head 54, uma Chopper de 66, a que mais uso, e uma FL 72’’, lista com orgulho.


Máquinas diferentes

  Cinegrafista e membro dos Carcarás, Ricardo Bahia adquiriu sua Harley, uma Flathead (47), em 1982, em Feira de Santana (BA). ‘‘Vi a moto da janela do ônibus, no meio da rua, e me apaixonei. Corri até o dono e insisti tanto que ele me vendeu.’’ Bahia conta que comprou a moto por uma bagatela, com o dinheiro que tinha no bolso. ‘‘Ela estava pouco conservada. Precisei fazer uma restauração.’’

  Restaurações e customizações — colocação de acessórios — são comuns entre os donos de Harleys. Pinturas, caveiras, descanso em forma de garra de águia, enormes bancos, pequenas geladeiras. Vale tudo para dar um toque pessoal à moto. ‘‘Não existem Harleys iguais, mesmo que você encontre duas do mesmo ano e modelo’’, fala Bahia, que diz preferir um modelo com poucos detalhes. Por sua vez, o vendedor Milton Borba, 36, outro carcará, tem a pintura de uma índia nua estampada em sua Sofpail 1948. ‘‘O desenho é único, criado por um amigo que já morreu’’, fala.

  Milton conheceu a Harley-Davidson na infância assistindo a paradas militares. ‘‘Eu via o pessoal das forças armadas dirigindo e ficava louco. A Harley-Davidson é o sonho de qualquer motociclista. É o veículo que onde você estaciona as pessoas olham.’’

  O empresário Marcos Leão é outro apaixonado pelas estradas e por Harleys. Percorreu cerca de 28 mil quilômetros de costa a costa dos Estados Unidos em uma Fat Boy. Atualmente, pilota uma Elektra Glide. ‘‘Culturalmente a Harley carrega a filosofia da liberdade em uma moto. Ela é uma referência dos Estados Unidos.’’ Leão confessa preferir a solidão da estrada do que a companhia de grupos de motociclistas, como os Carcarás e Sarracenos. ‘‘Os membros de motoclubes gostam mais do lado social, dos encontros. Minha ligação com a Harley é mais apreciativa, de sentir a moto na estrada’’, explica o empresário.

Glauber Nunes, 37, dos Sarracenos, mantém uma oficina onde cuida exclusivamente de motos Harley, na sede do grupo, no Núcleo Bandeirante. Glauber aprendeu o que sabe na prática, nos 17 anos dos Sarracenos, e em cursos de mecânica nos Estados Unidos. Recebe uma média de cinco clientes por semana. ‘‘É gente de alto poder aquisitivo’’, garante Glauber, dono de uma Harley Panhead 1963. Nunes compra peças importadas que, embora não sejam oficiais, ele assegura a qualidade. ‘‘Algumas delas são até melhores que as da Harley-Davidson.’’

  Na opinião de Glauber, a Harley-Davidson sobrevive há um século não só pelo mito como pela qualidade da moto. ‘‘Como mecânico gosto de coisas duráveis. ‘‘A Harley tem uma mecânica simples e um motor eficiente e potente’’, elogia.

  Conhecido nos Carcarás como Coro Seco, o mecânico Miguel Keller, conserta Harleys e outras marcas em sua oficina em São Sebastião. Ele elogia a durabilidade das Harleys. ‘‘Encontram-se por aí Harleys de 1913, porém não se vê uma moto japonesa com mais de 20 anos’’, compara. ‘‘As japonesas inovaram na tecnologia e perderam na longevidade’’, avalia Keller, dono de uma Elektra Glide 76.

Na Internet:
Para o mundo inteiro: www.harleydavidson.com.
O site oferece imagens e informações sobre vendas, serviços, história, encontros e outros dados. Especificamente para o Brasil existe o site www.harleydavidson.com.br.

 
  

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