|
NEGÓCIOS
Empresas
investem no filão evangélico
Mercado
formado por 26 milhões de religiosos movimenta R$ 500 milhões
anuais. Além de bíblias e CDs, indústrias já produzem jogos, calçados,
cadernos e até cosméticos dirigidos à legião de fiéis que
cresceu 70% nos últimos dez anos
Luciana
Vieira de Sousa
Da equipe
do Correio
|
Ronaldo
de Oliveira
|
|
|
|
Rodrigo
costuma reunir os amigos para jogar o Bíblia em Ação:
‘‘Ele promove diversão e crescimento’’
|
|
|
A indústria brasileira descobriu um
novo filão de consumidores: os evangélicos. Uma legião de fiéis
que cresceu 70% nos últimos dez anos e hoje chega a 26 milhões de
pessoas — 15,45% da população do país, segundo o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para o diretor-geral
de atendimento da agência DM9, Alexandre Isnenghi, os números
mostram que se trata de um mercado em franco crescimento.
O poder de compra desse público será testado nesta
semana em São Paulo na 1ªFeira Internacional do Consumidor Cristão.
De quinta-feira a domingo, 60 empresas (seis delas católicas) estarão
reunidas para expor quase cinco mil produtos. A idéia da feira
surgiu com a revista Consumidor Cristão, um veículo de mercado e
vendas com notícias sobre produtos cristãos, entre outros.
De acordo com um dos organizadores do evento, Eduardo
Pacheco, que atua como consultor de vendas há dez anos, a feira
deve movimentar cerca de R$ 50 milhões. ‘‘O mercado evangélico
está mais profissional’’, afirma. ‘‘Já não tem como
preocupação única levar a doutrina de uma igreja.’’ Segundo
ele, o segmento movimenta anualmente R$ 500 milhões, entre vendas
de cds, livros, camisas, jogos, brinquedos e outros produtos.
Um exemplo é o jogo Bíblia em Ação, que custa R$
44,50 e assumiu o posto de predileto entre os evangélicos. O
dentista Rodrigo Ponce de Leon, 30, é um exemplo. Ele comprou o
jogo há dois anos e não raro o utiliza até altas horas da
madrugada no apartamento onde mora na quadra 102 do Sudoeste.
‘‘Ele promove diversão e, ao mesmo tempo, crescimento’’,
afirma Leon, que costuma jogar com amigos. O dentista acha
interessante o lançamento de produtos evangélicos diferentes. Mas
ressalta que só está disposto a comprar artigos de qualidade.
‘‘Se não for bom, não levo para casa apenas porque tem o nome
de Jesus.’’
Aliás, a qualidade é uma das grandes preocupações de
quem investe em produtos direcionados a esse público. Para que
tenha boa aceitação, é importante que o artigo traga algo além
do rótulo evangélico. ‘‘É necessário algum diferencial que
se identifique com o estilo de vida cristão’’, destaca
Alexandre Isnenghi, que está à frente de uma das agências de
publicidade mais importantes do país.
Além do crescimento das igrejas, outro fator que
colabora para o incremento do mercado, conforme Isnenghi, é a mudança
de mentalidade dos brasileiros sobre religião. Hoje as pessoas
assumem a fé sem receio e a crença é vista com mais respeito.
Como o preconceito diminuiu, os fiéis se sentem mais à vontade
para vestir a camisa do evangelho. ‘‘Prefiro divulgar o nome de
Jesus a fazer propaganda de marcas’’, atesta o promotor de
vendas Raimundo Nonato Pacheco, 26 anos, morador de Sobradinho. Ele
usa chinelos do tipo kenner. Produzido em uma fábrica de
Taguatinga, o calçado traz nas tiras e no solado a frase
‘‘Jesus é o caminho’’.
Novos Rumos
O mercado cristão tem levado até a mudança de planos traçados
para algumas empresas. Há dois anos, o empresário Delano Carvalho
decidiu mudar o ramo da livraria Maranata, instalada no Conic, que
na época vendia livros evangélicos, jurídicos e técnicos. O
objetivo foi investir apenas no segmento cristão, aumentando a
variedade de produtos. Seis meses depois da decisão, a loja passou
por uma reforma geral. Carvalho, que é evangélico, investiu R$ 30
mil e hoje tem uma das principais livrarias evangélicas de Brasília.
A mudança deu certo. O faturamento aumentou 60%. Para o publicitário
Alexandre Isnenghi, a vantagem do mercado evangélico é a
fidelidade do público. O gerente da Maranata, Wellington Raposo,
concorda. Segundo ele, os clientes freqüentam a loja pelo menos a
cada 15 dias e nunca deixam de comprar algo. Além disso, o
crescimento das igrejas anima ainda mais o mercado. ‘‘Se a cada
dia dez pessoas se converterem, serão dez novas bíblias que
precisarão ser compradas’’, diz o gerente.
Muitas empresas que não são cristãs também estão
entrando no ramo. É o caso da Caderbrás, uma das cinco maiores
fabricantes de caderno do país. Em 2000, a empresa lançou uma
linha de cadernos que traziam nas capas a palavra Jesus. As vendas
superaram a expectativa, que era vender 100 mil unidades. O número
total chegou perto dos 300 mil.
Por isso, a Caderbrás decidiu não apenas lançar uma
nova linha cristã, mas também colocar no mercado cadernos da
Ovelhinha de Jesus, personagem que faz sucesso entre adolescentes
dos Estados Unidos. A expectativa de venda da linha cristã está na
casa dos 300 mil. E a da linha licenciada americana, o dobro. Mesmo
não sendo evangélico, o gerente comercial da empresa, Wanderley
Carro, sabe bem qual é o segredo desse sucesso. ‘‘É
interessante porque leva a palavra de Deus e esse é um mercado
crescente.’’
O mesmo acontece com a Luigi Calçados, que também é
fabricante da marca feminina Firezzi, instalada em São Leopoldo,
Rio Grande do Sul. Neste ano, a empresa lançou a linha de sapatos
infantis Smilingüido, formiguinha que representa a Ovelhinha de
Jesus aqui no Brasil. A Luigi investiu R$ 300 mil na produção da
Smilingüido e espera levar ao mercado 60 mil pares de sapatos por mês.
|