Diligência no Baixo Meretrício
- Levi Herberth *
Quando o oficial de
justiça, Jobel, se deparou com um mandado em que a executada tinha domicílio no
baixo meretrício, ele cismou.
Um dos principais points
da Ribeira Velha de Guerra sempre foi a Rua 15 de Novembro (outrora bastante
freqüentada pela juventude e velhitude potiguar) e, para lá, ele se dirigiu
para levar a bom termo as determinações do juiz federal do feito.
O endereço indicado no
mandado batia com o do cabaré que Jobel estava postado em frente. Era ali -
pensou. Bateu palmas. Uma voz fanhosamente sexy do interior do
estabelecimento o convidou:
- Meu filho, entre!
Ele tomou fôlego e
adentrou naquele recinto de paredes providencialmente umedecidas. Uma senhora
de meia-idade, obesa e maltratada pelos ossos de seu ofício, sentada na beira
de seu instrumento de trabalho, pintando as unhas dos pés com as pernas
formando um ângulo de 90 graus, indagou ao nosso herói:
- O que tu quer, meu
coração?
- Procuro Dona Bela.
Tenho em mãos um mandado em que o juiz federal determina penhora nos seus bens.
Ele retrucou.
- Ah, meu querido, Dona
Belinha tá no céu há muitos anos. Mas... Topa fazer um menino prá você não
perder a viagem?
Jobel ainda pensou em
informar que tinha competência legal apenas para citar e não excitar
pessoas. Preferiu girar nos calcanhares e mais que ligeiro comprovar se
realmente Dona Bela tinha passado dessa para melhor.
* Levi Herberth, Oficial
de Justiça da 6ª Vara Federal
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Levi Herberth*
Depois de penhorar o
telefone indicado no mandado, Marco Aurélio tentou - sem sucesso - encontrar o
executado para intimá-lo do feito. Foram tantas as diligências para localizar o
dito cujo que o oficial resolveu jogar duro.
- Se o homem era
candidato a deputado estadual e estava em plena campanha (conforme lhe
disseram) ele teria que ser abordado de manhã bem cedo. Com certeza dormiria em
casa. Candidato em época de eleição não dorme em outras camas - deduziu brilhantemente
o nosso Sherlock.
Às seis e trinta da
matina estava Marco Aurélio tocando campainha da residência do
executado/candidato. Uma adolescente, em traje escolar, abriu a porta,
confirmou que o intimando se encontrava - viva! -, disse que iria chamá-lo,
mandou o oficial sentar no sofá, fechou a porta e desapareceu.
Vivalma não aparecia
naquela sala de estar há, aproximadamente, trinta minutos, quando, então,
surgiu uma moça muda para fazer companhia ao Marco. Ele perguntou pelo dono da
casa e ela, através de gestos sutis e sons altos dava seu recado: as duas mãos
juntas e coladas ao rosto, acompanhados de um ronco gutural, ajudavam a muda a
informar que o executado ainda dormia e que, apesar do oficial insistir, não
iria acordá-lo.
Como ouvia vozes nos outros
cômodos da casa, Marco Aurélio se levantou e quando pensou em adentrar um pouco
mais no seu interior, entreviu, de soslaio, um senhora, en passant, em
trajes sumários. Ela não o percebeu e ele resolveu sentar, de novo, no sofá e
ver que bicho dava.
E o bicho deu. Kafka não
imaginaria melhor. Irrompeu no recinto, aos gritos, uma criança portadora da
síndrome de Down. A muda ao vê-la, gritou alegremente e a colocou no colo.
Marco Aurélio enquanto assistia ao "upa, upa, cavalinho" desconcertante,
planejou ir embora. Tentou a fechadura mas a mesma não cedeu. A porta estava
fechada.
Marco Aurélio gritou para
o interior da casa. Ninguém respondia. Resolveu esperar para ver se
desengrossava (já tinha mais de duas horas naquele local). Eis que subitamente
adentra no recinto uma senhora e o oficial de justiça a ela se dirige,
comunicando o descaso com que foi recebido naquela casa. Exige que o executado
compareça imediatamente a sua presença sob pena do telefone penhorado ser
desativado à revelia. Ato contínuo, chega o intimando. Bem asseado e
alimentado, indagando enquanto assinava a intimação:
- Mas rapaz! Por que você
não mandou me chamar antes? Eu já estava de saída quando me avisaram. Mas,
diga-me o seguinte: você já tem candidato a deputado?
* Levi Herberth, Oficial de Justiça da 6ª Vara
Federal/RN
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