A IMPORTÂNCIA DE UMA PROFISSÃO


Por Jorge Galvão*


Sou do tempo em que as profissões eram mais respeitadas. Pertenço a uma geração, nem velha nem nova, considerada intermediária, também chamada da meia idade, em que a aptidão do trabalhador, independentemente da natureza ou da mão de obra empreendida - se física ou intelectual pouco importava - valia como uma espécie de garantia para um tratamento reverencial, quase divinal.


Que me entendam os evolucionistas: em certos momentos e diante de algumas situações a que a vida impõe encarar, considero-me, isto sim, algo saudosista. E suspeito que muito pouca gente, num ou noutro sentido, não me terá feito companhia. Mas não sou retrógrado - minha personalidade está longe de ter sido moldada no puro conservadorismo - nem ando na contramão do progresso, da modernidade. O que não posso é deixar de admitir não estar ainda de todo preparado para compreender algumas alternâncias, no mais das vezes drásticas, entre o que foi importante ontem , o que é relevante hoje e o que preponderará amanhã; menos ainda para digerir certas andanças dos tempos, destes tempos que têm pressa de chegar, pouco importando o destino.


É o que acontece com as profissões, que passam a desindexar-se dos seus protagonistas.Houve época em que o chefe da estação rodoviária, o porteiro de cinema, o vigia de rua, o profissional liberal cujo ofício se anunciava através da placa na fachada da casa, a dupla de policiais de bairro, tipo Cosme e Damião, que subia e descia ladeiras, dava voltas e voltas em torno dos quarteirões, o gerente de um clube, o vendedor de sorvete da esquina, o verdureiro de porta em porta, o dono da cantina do colégio, o açougueiro, o fornecedor de leite a domicílio, o barraqueiro da feira, o bodegueiro, o entregador de jornal, a quem chamavam de gazeteiro, o líder de classe, o pintor de paredes, o motorista de aluguel, o presidente do grêmio estudantil, o atendente de banco, o carpinteiro, o médico da família, o corretor de seguros, a lavadeira, o arquivista, o verdureiro ... a despeito da escolaridade requerida pelo cargo exercido, detinham importância real no âmbito de sua atuação. Eram conhecidos, chamados pelo nome - ou apelido, conforme o caso - e respeitados. Até pela proximidade física maior com a população a que serviam ou com os usuários e consumidores de suas especialidades e mercadorias, dela se tornavam íntimos. Hoje tudo é virtual.


Lembro do caso de um soldado engajado no antigo 16o. RI, que levava a simpática alcunha de "laranjeira" , como todo o recruta que, como ele, continuava aquartelado além do período obrigatório,a serviço do NPOR, na minha época de aluno. Pois num dos exercícios de campo aberto, o sujeito foi nomeado chefe do pelotão encarregado de abrir latrinas. E passou a ser respeitado pela função para que escalado, que ocupou e exerceu com dignidade, habilidade e teve o devido reconhecimento, por todos nós que, por uma ficção legal, detínhamos superioridade hierárquica; na prática, éramos absolutamente iguais e desfrutávamos de descompromissada convivência e saudável amizade.


Seguíamos outra cartilha, já distante: a do respeito de uns, pela função dos outros, independentemente de escalões. Adotávamos um código de condutas e posturas em que até turma de rua possuía cúpula; informal e não remunerada, é bem verdade; mas reconhecida e respeitada.


Percebo, contemporaneamente, que essa valorização, essa espécie de personalização da profissão vem, pouco a pouco, vazando fôlego, perdendo vitalidade e cedendo espaço para uma outra realidade. Estamos saindo da vida comum para entrar no dito e decantado mundo globalizado, em processo e direção ao que tudo indica irreversíveis. Globalização que retira do sujeito o nome e lhe inscreve um número ou sigla; transforma os requisitos pessoais em mero item; o critério de avaliação nos resultados que auferir; valoriza, demasiadamente, o ter, em detrimento do ser, que passa a "ser" nada.


A vida, por exemplo, me fez gente e me tornou advogado, conferindo muito mais daquilo que efetivamente merecia. Um profissional mediano, mas advogado. Senhor das muitas limitações que carrego, mas advogado. Ganhador sempre, seja qual for o resultado da causa patrocinada, pois que uma sentença, concorde-se ou não com seu conteúdo, é a expressão do lograr êxito da prestação jurisdicional. Protagonista de um cotidiano efervescente e estressante, mas advogado. Sujeito a incompreensões de toda a ordem, mas advogado.


Valorizo a profissão dos outros, da mesma forma como procuro honrar a minha própria e tenho saudade dos tempos em que todos faziam disso uma espécie não de um dogma, que sugere obrigação ou encargo, mas ato de espontânea e instintiva manifestação de reconhecimento aos predicativos de cada um e de todos.
Daí que, volta e meia, quando sou inquirido sobre a razão de não adotar outras qualificações quando assino textos banais e despretensiosos como este, respondo com o óbvio: porque não sou médico, escritor, enfermeiro, engenheiro, jornalista, agricultor, cronista, doméstico ou odontólogo. Porque sou só advogado!

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* Dr. Jorge Galvão, Advogado






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