O leitor no ato de estudar a palavra escrita

(trechos extraídos de LUCKESI, Cipriano et al. In: Fazer universidade: uma proposta metodológica. São Paulo: Cortez, 1987 - texto para uso na Disciplina ECZ 5102 Conservação de Recursos Naturais)

Por hábitos arraigados, decorrentes de nossa prática diária, da ideologia vigente sobre a leitura e das exigências dos exercícios escolares, temos assumido uma posição "passiva" enquanto leitores. Posição esta que nos conduz a reter o texto e encerrar por aí a nossa atividade. O texto, assim sendo, termina nele mesmo. Ele é o fim da leitura.

Contudo, o texto é tão-somente um instrumento intermediário. Ele mediatiza leitor e mundo. Ele serve de intermediário elucidativo entre o leitor e a realidade. Se um texto não nos auxiliar a entender melhor o mundo, ele nada fez; não cumpriu o seu papel.

Na discussão que se segue, vamos, pois, tentar fazer uma reflexão sobre a postura que deve assumir o leitor ao ler, fazendo desta atividade um processo de entendimento do mundo e, pois, um ato de conhecer. Caso isto não ocorra, a leitura será somente uma forma mecânica ou semimecânica de identificar símbolos, sem que eles façam sentido como instrumento de compreensão da realidade.

A vida universitária, mais que qualquer outra situação existencial, é o lugar onde o leitor se apresenta como uma figura constante: leitura em casa, leitura na sala de aula, leitura na biblioteca. A vida universitária, em alentada parte do seu tempo, é vivenciada junto aos textos de leitura.

O leitor poderá ser sujeito ou objeto da leitura, a depender da postura crítica ou a-crítica que assuma frente ao texto sobre o qual processa o seu ato de estudar. O leitor como sujeito deve estar atento para três pontos fundamentais:

  1. Ter o objetivo de compreender e não memorizar a mensagem. No primeiro caso, entra "por dentro" do mérito daquilo que o autor quis dizer e executa um processo integrativo de conhecimentos, no segundo caso permanece na "periferia" do que o autor quis dizer e executa um conhecimento somativo de partes isoladas.
  2. Ter como atitude básica a postura de avaliar o que lê, tendo como critério de julgamento a compatibilidade da expressão com a realidade expressada. Após compreender a temática transmitida por alguém, é fundamental que se verifique a validade da expressão em termos de objetividade. Vale ressaltar, aqui, que não se pode Ter uma atitude de avaliação adequada sem que se tenha, previamente, executado uma compreensão adequada da mensagem. A avaliação só pode ocorrer sobre dados e estes necessitam ser explícitos. Muitas vezes o leitor julga, inadequadamente, uma mensagem devido ao fato de sua má compreensão da temática abordada.
  3. Ter uma atitude de constante questionamento, de pergunta, de busca, de diálogo com o autor do texto. É preciso ler, observando, de um lado, aquilo que é relevante para o autor, tendo em vista compreender a sua mensagem global; mas também ler, observando aquilo que é relevante para nós, leitores. Por vezes, aquilo que o autor deixou nas entrelinhas é o que mais nos interessa; outras vezes, um comentário à parte. Só a partir desse diálogo com o autor, compreendendo sua mensagem, questionando-a, é que podemos caminhar para a criação de novas mensagens.

O leitor-objeto não tem condições de capacitar-se para a criação de uma nova mensagem e transmiti-la para outras pessoas. Pela retenção de informações, no máximo, ele terá condições de "reproduzi-las", desde que gravads em seus esquemas mnemônicos. Ao contrário, o leitor-sujeito, pelos seus processos de compreensão, avaliaçào e questionamento do lido, estará capacitado para criar e transmitir novas mensagens, que se apresentarão como novas compreensões da realidade, garantindo o processo de multiplicação e ampliação da cultura.

O leitor-objeto, em termos de história da cultura, se coloca tão-somente como instrumento de armazenamento de informação; no máximo, um arquivo de má qualidade, desde que a nossa memória tem os seus percalços de esquecimento pela vivência emocional, pelo obscurecimento decorrente do desgaste do tempo etc. O leitor-sujeito, ao contrário, deixa a tarefa de armazenamento para instrumentos muito mais eficientes que a própria civilização já criou, tais como livros, revistas, computador, tapes etc. e dedica-se a uma atividade que não pode delegar a nenhum instrumento: criar novas interpretações da realidade, dar-lhe novos sentidos. A atividade de criar novos conhecimentos não é um capricho, mas uma exigência da realidade. Esta não se dá a conhecer de uma só vez. Ela se transforma, se modifica, é multifacetada e, por isso, constantemente, está desafiando o homem no seu ato de estudar, que deve ser criativo e não repetitivo.

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