PARA SER USADO EXCLUSIVAMENTE NA DISCIPLINA ECZ 5102 - CONSERVAÇÃO DOS RECURSOS NATURAIS
TEXTO B - ECOLOGIA PROFUNDA
A Ecologia Profunda Encontra o Mundo em Desenvolvimento
Retirado de Nations, James D. (Diretor de Pesquisa, Centro de Ecologia Humana, Austin, Texas). In: Wilson, E. O. (org.) 1997. Biodiversidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 101-106
Há um movimento em marcha nos Estados Unidos que os ambientalistas chamam de ecologia profunda. Em poucas palavras, seu principio básico é o de que todos os seres vivos têm o direito de existir — que os seres humanos não têm nenhum direito de levar outras criaturas â extinção ou de brincar de Deus ao decidir quais as espécies que nos servem e que portanto podemos permitir que vivam. A ecologia profunda rejeita a visão antropocêntrica de que a humanidade fica no centro de tudo que tem valor e que as outras criaturas só têm valor enquanto nos servem. Ao invés disso, diz a ecologia profunda, todas as coisas vivas têm um valor intrínseco — animais, plantas, bactérias, vírus —, e os animais não são mais importantes do que as plantas, e os mamíferos não são mais valiosos tio que os insetos. A ecologia profunda é parecida com muitas religiões orientais no que diz respeito a considerar todas as coisas vivas corno sagradas. Como conservacionista, sou atraído pela filosofia central tia ecologia profunda. Assim como os budistas e taoístas e partidários do movimento "A Terra Primeiro!", eu também acredito que todas as coisas vivas são sagradas. Quando as atividades humanas levam uma de nossas espécies à extinção, considero isso uma traição à nossa obrigação de proteger todo tipo de vida no úinico planeta que ternos.
Eu começo a ter problemas com a filosofia da ecologia profunda em lugares como a América Central rural ou na fronteira agrícola da Amazônia Equatoriana -- lugares em que os próprios seres humanos estão vivendo à margem da vida. Nunca tentei dizer a um fazendeiro latino-americano que ele não tem o direito de queimar a floresta para transformá-la em terreno para plantar porque as árvores e a vida selvagem têm tanto valor quanto ele e seus filhos. Corno antropólogo e corno pai, não estou preparado para essa tarefa. Você pode chamar a isso de dilema entre a ecologia profunda e o mundo em desenvolvimento.
O dilema é suavizado de certa maneira pela conscientização de que o fazendeiro, no mundo em desenvolvimento, provavelmente dá mais valor à floresta e à vida selvagem do que nós, em nossa sociedade de fornos de microondas, aviões e dinheiro de plástico. O fazendeiro do Terceiro Mundo aprecia a sua dependência da diversidade biológica, porque essa dependência é muito visível para ele. Ele sabe que sua vida é baseada nos organismos vivos que o rodeiam. A partir da diversidade biológica que forma seu ambiente natural ele colhe frutas comestíveis, animais selvagens para proteína, fibra para roupas e cordas, incenso para cerimônias religiosas, inseticidas naturais, venenos de peixe, madeira para casas, mobília e canoas, e plantas medicinais que podem curar uma dor de dente ou uma mordida de cobra.
Há povos indígenas em algumas partes do mundo com uma apreciação da diversidade biológica que faz corar nossos teóricos conservacionistas. Urna vez, fiquei no sudeste do México com um fazendeiro Maia que colocou sua visão dessa maneira: "Os estrangeiros vêm para nossa floresta", disse ele, "e cortam o mogno e matam os pássaros e queimam tudo. Então eles trazem o gado e o gado come a selva. Eu acho que eles odeiam a floresta. Mas eu planto minhas colheitas e retiro as ervas daninhas, e observo os animais e observo a floresta para saber quando plantar meu milho. No que me concerne, eu protejo a floresta".
Hoje, o fazendeiro Maia vive em um pequeno pedaço da floresta tropical cercado de campos e pastagem de gado de 100.000 colonos imigrantes. Ele está sujeito ao planos de desenvolvimento de uma nação faminta por terras aráveis e moeda estrangeira. Os colonos foram forçados pela pressão da população e pela necessidade de reforma agrária para colonizar uma floresta tropical sobre a qual nada sabem. As realidades econômicas de uma economia global moderna os estão levando e a seus lideres nacionais a destruir os próprios recursos biológicos cm que suas vidas estão baseadas.
Os colonos são gente boa que está pronta a convidá-lo a repartir sua parca refeição. Mas se você quiser conversar com eles sobre proteger a diversidade biológica que ainda os cerca, esteja preparado para falar como isso os afetará diretamente. Se você encarar um fazendeiro da fronteira e disser que ele não deve limpar a floresta ou caçar na reserva de vida selvagem e a razão pela qual ele não deve fazê-lo é que você está tentando preservar a diversidade biológica do planeta, ele educadamente dirá: "Claro".
Mas ele não acreditará em você. Em vez disso, você deve estar preparado para demonstrar como ele pode produzir mais alimentos e ganhar mais dinheiro ao proteger os recursos biológicos de sua terra. O colono do mundo em desenvolvimento pode entender sua dependência da diversidade biológica, mas seu interesse em proteger essa diversidade está em como isso pode melhorar sua vida e as vidas de suas crianças. Os colonos na fronteira agrícola não têm o luxo de debater os pontos mais admiráveis da ecologia profunda.
A mesma coisa pode ser dita do planejador do governo da nação onde vive o fazendeiro pioneiro e do banqueiro desenvolvimentista em Washington D. C. O planejador e o banqueiro podem apreciar os valores morais e estéticos da diversidade biológica. Eles podem lamentar a erradicação da região e da vida selvagens. Mas se você quiser que eles protejam uma área crítica da floresta ou que coloquem sua usina hidrelétrica fora de uma área protegida, esteja preparado para falar sobre o valor econômico de bacias hidrográficas, renda do turismo e análise de custo-benefício.
Num mundo em desenvolvimento, assim como em nosso mundo superdesenvolvido, somos obrigados a apresentar argumentos econômicos e utilitários para preservar a diversidade biológica que fundamentalmente nos beneficiará. A ecologia profunda proporciona uma excelente conversa em torno de uma mesa de seminário, mas não funciona na fronteira agrícola do Terceiro Mundo ou nas salas de reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Pode ser que chegue o dia em que as considerações éticas a respeito da diversidade biológica se tornem nossa mais importante razão para a conservação das espécies. Mas, enquanto isso, se quisermos garantir a diversidade biologia de nosso planeta, temos que falar no popular. E o popular é utilidade, economia e o bem-estar dos seres humanos.
Nos anos 80, a questão parece ser "O que a diversidade biológica tem feito por mim ultimamente?" A boa notícia é que a resposta a essa pergunta é: "Muito, e mais do que você é capaz de saber". Nossas vidas são exemplos da lógica da preservação das plantas e animais dos quais dependemos como espécies.
Nossa comida é um bom exemplo. Os seres humanos comem uma riqueza de plantas e animais nas refeições feitas um casa e nos pratos feitos nos restaurantes que freqüentamos no dia-a-dia. Não obstante, uma das ameaças mais imediatas da perda da biodiversidade é a redução das cadeias genéticas de plantas disponíveis aos fazendeiros e aos cientistas agrícolas. Durante as últimas décadas, aumentamos nossa capacidade de produzir grandes quantidades de comida, mas ao mesmo tempo também aumentamos nossa dependência de apenas alguns tipos de plantação. Cerca de 80% do suprimento mundial de alimentos são baseados em menos de duas dúzias de espécies de plantas e animais. Estamos acabando com a diversidade genética das plantações das quais dependemos cada vez mais, e estamos erradicando os ancestrais selvagens dessas plantações à medida que destruímos os hábitats selvagens pelo mundo afora.
Somos dependentes da diversidade biológica em relações menos perceptíveis do que as plantas e animais que comemos e vestimos. Também dependemos deles para matérias-primas e remédios. Dependemos da diversidade de plantas e animais para fibras industriais, gomas, temperos, tinturas, resinas, óleos, lenha, celulose e biomassa de madeira. Testamos as plantas selvagens quimicamente, em busca de novas drogas que sejam benéficas para a humanidade. Importamos milhões de dólares em plantas medicinais para os Estados Unidos e as utilizamos para produzir bilhões de dólares em remédios.
Também usamos animais em pesquisa médica, embora às vezes com resultados brutais. Importamos dezenas de toneladas de primatas para testes de segurança de drogas e para a sua produção. Utilizamos tatus do Texas na pesquisa da lepra. Quando as atividades humanas ameaçam a sobrevivência desses animais e seus hábitats selvagens, elas também ameaçam o bem-estar humano.
Ao mesmo tempo, temos que reconhecer que nunca seremos capazes de demonstrar uma razão utilitária imediata para preservar todas as espécies na Terra. Algumas delas podem não ser de utilidade alguma para a humanidade, além de fazerem parte do grande mistério. Mas quem nos dirá que espécies são importantes? Quem poderá nos dizer qual o nível de extinção que criará uma ruptura séria na teia tia vida da qual dependem os seres humanos?
O escritor conservacionista Erik Eckholm diz que uma das tarefas chave com a qual se confrontam tanto cientistas quanto governos é identificar e proteger as espécies cujas funções ecológicas são especialmente importantes para as sociedades humanas. "Enquanto isso", continua Eckholm, "a prudência manda dar aos organismos existentes, tanto quanto possível, o benefício da dúvida".
Um dos fatores importantes ao se dar a essas espécies o beneficio da dúvida que elas merecem é nos educar e aos condutores da política de nossos governos sobre a nossa dependência, como seres humanos, da diversidade biológica. Essa educação tende a enfatizar o valor utilitário da proteção às espécies. Um dos resultados é que há uma ética pragmática crescente entre cientistas e conservacionistas. É uma ética centrada na conscientização de que nossa capacidade de preservar a diversidade biológica depende de nossa habilidade em demonstrar os benefícios que essa diversidade traz ao seres humanos.
Em um nível, esses benefícios tomam a forma de renda econômica imediata através de atividades como o extrativismo vegetal e animal, o turismo e a manutenção da produção agrícola. Em outro nível, eles focalizam um potencial inexplorado — novas colheitas, novos remédios, novos produtos industriais. Juntos, os benefícios da diversidade biológica fornecem renda a curto para os indivíduos e melhorarem o bem-estar a longo prazo de nossa espécie como um todo.
Esses dois níveis de benefícios trabalham juntos, de maneira que, se esperamos os benefícios a longo prazo da diversidade biológica, temos que focalizar primeiro — ou pelo menos simultaneamente — os benefícios imediatos e a curto prazo para as pessoas individualmente. Poucas das cadeias genéticas selvagens — a matéria-prima para futuros remédios, alimentos e combustíveis —devem sobreviver intactas em lugares onde as pessoas têm que lutar simplesmente para poderem ter suas necessidades básicas atendidas.
Um dos nossos objetivos de longo prazo como espécie é aproveitar os incontáveis benefícios que a diversidade biológica de nosso planeta pode eventualmente nos trazer. Mas a curto prazo, pelo menos pelas próximas décadas, nossa estratégia básica tem que se concentrar em assegurar que as pessoas, tanto aqui quanto nas fronteiras do mundo em desenvolvimento, recebam incentivos materiais que as permitam prosperar protegendo a diversidade biológica, em vez de destruindo-a. Isto feito, podemos retornar aos argumentos éticos e estéticos da ecologia profunda sabendo que, quando sairmos de nossa discussão, ainda haverá bastante diversidade biológica para experimentar e aproveitar.