PARA SER USADO EXCLUSIVAMENTE NA DISCIPLINA ECZ 5102 CONSERVAÇÃO DOS RECURSOS NATURAIS
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E PARTICIPAÇÃO:
algumas reflexões em voz alta
Marcos Sorrentino
In: Loureiro, C.F.B. et al. (orgs.) Educação ambiental: repensando o espaço da cidadania. São Paulo: Cortez, 2002. p. 15-21.
Convido o leitor ou a leitora a viajar comigo neste texto/ conversa. Não como um espectador ou espectadora, que, diante da televisão, embarca nas aventuras, dramas e emoções do outro, como, por exemplo, dos atores do filme Titanic, diante do qual rimos e choramos, emocionamo-nos, mas nem sequer molhamos os pés. Terminado o filme, voltamos ao nosso cotidiano como se nada, ou quase nada, tivesse acontecido. Vamos embarcar de verdade e construir juntos nossa própria história/ reflexão no espaço da leitura deste texto. Vamos molhar os pés, tornando nosso, de cada um, o desafio de pensar, expor e ouvir o outro sobre a questão da sustentabilidade, iluminados pela necessidade de decidirmos sobre os destinos desse navio, sem delegar a um único capitão a responsabilidade pela sobrevivência ou submissão a essa profunda crise em que nos encontramos (todos) envolvidos.
Para isso, proponho que o leitor pare imediatamente essa leitura e pense por alguns instantes na questão da sustentabilidade, no desenvolvimento sustentável e nas demais questões afins que lhes sugerirem seus sentimentos e raciocínio.
Converse sobre idéias, vivências e conhecimentos na área, faça suas anotações e reaproxime-se criticamente desta leitura. Cada indivíduo faz diferença nesta conversa sobre o futuro, sobre nosso futuro neste planeta. Como conseguir o envolvimento de cada um?
O compromisso de cada um dos bilhões de habitantes deste planeta é essencial e insubstituível para a implementação das mudanças radicais que o momento exige. Os excluídos acabam por cobrar a parte que lhes cabe nesse latifúndio e o manifestam de diferentes maneiras. No mínimo, não se identificam com as decisões da "chefia" e não se responsabilizam por elas. Inúmeros são os exemplos de fracasso de belas iniciativas que não contaram com o comprometimento de todos os supostamente interessados.
Em uma perspectiva planetária, não basta contemplar o olhar do homem branco ocidental. É necessário incluir as mulheres, os negros, os jovens, os idosos, as crianças, os homossexuais, os países do sul, o interior, a periferia, os artistas, os pacifistas e outras minorias étnicas, ouvindo-os em suas especificidades e aprendendo a expressar seus sonhos, demandas e propostas. É no diálogo da diversidade de olhares que buscamos respostas para o impasse que esse modelo de desenvolvimento nos impôs. Devemos somar o olhar das outras espécies e elementos que coabitam o planeta e mesmo a própria Terral/Gaia e o Universo a esses novos olhares. Precisamos aprender a dialogar com eles. Precisamos apurar nossas ferramentas para compreendê-los e incluí-los na tomada de decisões de uma grande assembléia planetária que definirá nossa sobrevivência no próximo século/milênio. Precisamos aprender a ouvi-los! Para isso, eles devem acreditar que vale a pena falar. É necessário explicitarmos como se materializa nosso compromisso com a viabilidade dessa participação.
Se queremos que decidam sobre temas de nossa Agenda — os problemas, impasses e crises que criamos, como, por exemplo, as mudanças climáticas, o buraco na camada de ozônio, a redução da fertilidade humana e os mais diversos tipos de câncer — devemos:
• fornecer-lhes informações (acompanhadas de pedidos de desculpas, pois não os convidamos para a festa das maravilhosas conquistas desse modelo civilizatório e pretendemos "dividir a conta" com eles e pedir-lhes que nos ajudem a resolver os problemas);
• criar
ou apontar os espaços de locução/troca efetiva e afetiva de olhares e saberes que possibilitem a formação de opinião sobre os diversos temas e políticas específicas para seu enfrentamento;• definir mecanismos claros e transparentes de tomada de decisão. Para isso, faz-se necessário delimitar o poder de decisão de cada um e do grupo, com o aprofundamento do debate sobre autonomia e interdependência, participação e responsabilidade;
• possibilitar-lhes condições objetivas de participação efetiva:
horários livres, inclusive de suas atividades profissionais e de sobrevivência; facilidade de deslocamento e/ou condições de transporte adequadas, dentre outros a serem pesquisados junto a cada grupo envolvido.
Além disso, é importante trabalhar nosso interior e também propiciar aos outros a realização desse exercício de uma nova sensibilidade (por exemplo, ouvir mais nossa intuição, nosso corpo, o outro, os elementos da natureza, pensar e ser simples na complexidade, críticos e questionadores das obviedades) que possibilite uma participação que ultrapasse a presença física em reuniões e nas instâncias de decisão e se manifeste nas atitudes e comportamentos cotidianos de compromisso com a vida.
Questões como as mudanças climáticas e a redução da fertilidade humana exemplificam a crise e insustentabilidade desse modelo civilizatório que se expandiu por todo o planeta. Resultam de uma complexa teia de fatores, dispersos no tempo e no espaço, e exigem para seu enfrentamento uma grande capacidade analítica e organizacional que permita elaborar uma matriz de nexos causais para o ordenamento da alteração do modo de produção e de consumo, de forma que tais mudanças não sejam por demais traumáticas.
Como diminuir o nível de emissão de gases que provocam o efeito estufa (GEE), se ninguém quer abrir mão do automóvel particular, do ar condicionado, do sistema de calefação, da geladeira, da televisão, do micro — seu Kit civilização, como diz Ailton Krenak; ou se nenhum industrial ou agricultor quer abrir mão de seu modo de produção, o qual, comprovadamente, lança GEE para a atmosfera, arcando, assim, com mudanças que tomem seu produto mais caro e com possível perda de competitividade em relação a outros que não promovam tais mudanças?
Como promover uma ampla e significativa mudança na utilização de elementos químicos que as pesquisas associam à redução da fertilidade do homem a níveis que inviabilizarão a reprodução de nossa espécie, se fazem parte de produtos que passamos a identificar e a desejar como sinônimo de progresso e de felicidade?
Que políticas públicas darão conta desses desafios, que exigem um acordo entre todos os países e sua implementação em cada país?
Não podemos reagir com atitudes do tipo "pára que eu quero descer!" ou "tô fora!". Descobrimos que nossos destinos estão irremediavelmente ligados e que a complexa matriz de tomada de decisão exige uma capacidade expansiva de inclusão, negociação, descentralização, enraizamento, autogestão e compreensão da interdependência entre tudo e todos, sobre a qual não temos dado muitas provas de competência.
Diante do aparente paradoxo de promover uma cidadania planetária que encare o desafio de decodificar e enfrentar essa complexa matriz de fatores que ameaçam nossa existência na Terra, além de incentivar e apoiar ações locais, inovadoras e criativas para a superação da miséria, pobreza, desemprego, niilismo e uso de drogas, entre outras questões relacionadas à luta cotidiana pela sobrevivência e pela melhoria da qualidade de vida, precisamos despertar em cada indivíduo o sentido de "pertencimento", participação e responsabilidade na busca de respostas locais e globais que a temática do desenvolvimento sustentável nos propõe.
É possível enunciar a existência de duas grandes tendências no campo do desenvolvimento sustentável. A primeira volta-se para a proposição de soluções que se coadunem com a necessidade de preservação da biodiversidade, conservação dos recursos naturais, desenvolvimento local e diminuição das desigualdades sociais, por meio de novas tecnologias, políticas compensatórias, tratados internacionais de cooperação e de compromissos multilaterais, estímulo ao ecoturismo, certificação verde de mercados alternativos, entre outros. A segunda volta-se para finalidades semelhantes, mas por intermédio da inclusão social, da participação na tomada de decisões e da promoção de mudanças culturais nos padrões de felicidade e desenvolvimento.
A primeira parece-nos fragmentada quanto à percepção do conjunto de fatores que leva aos impasses que vivemos e limita-se a propor soluções dentro da lógica de mercado. Já a segunda pretende uma compreensão da totalidade das causas da não-sustentabilidade e da crise civilizatória, mas se limita à formulação de propostas regionais, pois a exigência de participação de todos a toma pequena e artesanal.
Se, para além de um desenvolvimento sustentável, voltado para um novo ciclo do ouro, que enriquece alguns e mantém muitos na miséria, desejamos a construção de sociedades sustentáveis que beneficiem a todos os habitantes e elementos com os quais compartilhamos este planeta, precisamos superar as limitações dessas duas tendências, o que exige políticas públicas voltadas para a inclusão e a participação. Por sua vez, é necessário um rigoroso exercício de decodificação desses conceitos, de forma que as iniciativas locais/pontuais obtenham das políticas públicas o necessário apoio para sua efetivação (valorização; financiamento; capacitação; entre outros), para sua consolidação e ampliação local e para sua ressonância, multiplicação e intercâmbio com outros setores da sociedade (por intermédio, por exemplo, de redes de comunicação, rádios e TV’s comunitárias e encontros).
Compete ainda às políticas públicas atentarem para o constante fomento da interligação entre as decisões locais e as demandas globais (e vice-versa) junto aos distintos atores envolvidos em tais iniciativas.
Paralelamente, não podemos abandonar as expectativas de novos ciclos do ouro e caminhos rápidos e efetivos que alavanquem nosso desenvolvimento. Faz-se necessário reunir as melhores capacidades de diagnóstico e análise das vocações locais, das demandas globais, da conjuntura e da estrutura para, sem comprometer o fluxo fundamentado no fomento às iniciativas locais em toda a sua diversidade, optar por produtos e processos produtivos a serem incrementados para a ocupação imediata do mercado. Dos dois mercados! O interno, de serviços e produtos que muitas vezes continuam sendo abastecidos/ atendidos por meio de demanda externa, por falta de apoio à competitividade das iniciativas locais (dos hortifrutigranjeiros ao leite e seus derivados; da energia para abastecimento das cidades à energia para o beneficiamento, que incrementa o valor dos produtos; entre outras) e o mercado externo, nacional e internacional, de modo que tenhamos melhores condições de competição.
É essencial que as análises não sejam realizadas apenas por economistas com olhos no mercado, mas que a equipe formuladora das políticas públicas também seja composta por analistas da modernidade e suas tendências, incluindo-se aí questões como as mudanças climáticas, com todas as exigências que implicam (como, por exemplo, conservação de florestas, eliminação das queimadas, plantio de árvores e sua utilização para fins duráveis; mudanças na matriz energética e de transportes); a necessidade da substituição de plásticos constituídos de elementos químicos responsáveis pela dramática redução da fertilidade masculina; as políticas de enfrentamento do desemprego e da fome em grande parte da Terra; dentre outras.
Na expectativa de termos contribuído para os debates e reflexões que possibilitam molhar os pés e sensibilizar a alma, e convidando para o engajamento de corpo inteiro, reafirmamos nossa convicção de que a superação do fracionamento das respostas desenvolvimentistas (fundamentadas em ciclos econômicos milagrosos — do café, da borracha, do mogno — que, propiciam a emergência de novos ricos e mantêm na miséria a grande maioria da população, além de degradarem as condições de sustentabilidade das futuras gerações) passa pelo compromisso das políticas públicas com a inclusão na diversidade e com o questionamento dos valores e obviedades da sociedade de consumo, pelo estímulo do grupo e do indivíduo ao debate e à busca de respostas para a melhoria da qualidade de vida e a felicidade material, física e espiritual.