Matéria da Editoria:
Meio Ambiente

02/07/2007

 

AQUECIMENTO GLOBAL

'É preciso ter ações concretas e não somente planos', avalia cientista

Para o físico da USP Paulo Artaxo, que integra o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), o governo brasileiro precisa se preparar para enfrentar e mitigar os efeitos do aquecimento global no país.

Data: 21/04/2007

SÃO PAULO – Desde que os dados do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) foram divulgados, a população mundial se alarmou diante de cenários catastróficos possíveis para as próximas décadas e intensamente explorados pela mídia. O professor do Instituto da Física da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Artaxo é um dos 2500 cientistas de 130 países que produziram os relatórios para os resultados do IPCC.

Nesta entrevista à Carta Maior, ele avalia como os efeitos do aquecimento global podem afetar o Brasil. Para ele, as questões sobre as quais as mudanças climáticas incidem não se restringem ao meio ambiente. “É um problema econômico, de planejamento estratégico e de saúde”. Diante disso, defende que o governo se prepare e afirma que ainda hoje as ações governamentais não foram suficientes. “Não se pode esperar o cenário acontecer para depois pensar o que vai fazer com ele”, diz.

Na avaliação de Artaxo, o Brasil terá que enfrentar sérias alterações na agricultura, mas por outro lado observa que o país tem grandes oportunidades no setor industrial, especialmente no que se refere à conservação de energia. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Carta MaiorMuitas previsões sobre biomas inteiros, como os da floresta Amazônica, foram feitos a partir dos dados do IPCC. É possível prever os efeitos em realidades mais locais?
Paulo Artaxo – Os modelos climáticos globais ainda não têm capacidade de fazer previsões precisas e concretas sobre áreas pequenas, como uma cidade que nem São Paulo. A razão disso é devido à limitação dos computadores e à grade espacial de 300 quilômetros com que esses modelos trabalham. Para regiões grandes como a Amazônia, o nordeste, o Pantanal e o sul do Brasil, é um pouco mais confiável. Mas isso são previsões de modelos, que têm limitações físicas e químicas e é importante reconhecermos isso, como cientistas. O fato de os modelos não serem perfeitos, não significa que a gente não vai ter que se preparar para um clima mais quente no futuro; ele vai chegar e não há menor dúvida.

CM Há como prever alterações para a economia brasileira decorrente do aquecimento global?
PA – Na região central do Brasil, a previsão é de uma queda pronunciada na precipitação, e isto vai afetar toda a vegetação do cerrado e todos esses últimos investimentos que o Brasil fez para a expansão da fronteira agrícola com a soja no centro-oeste. Em teoria, na configuração de hoje, vai reduzir a produtividade agrícola. Nós temos que nos prevenir para isso: é papel da Embrapa desenvolver espécies de soja que sejam mais tolerantes à seca. Por exemplo, o café é um produto muito sensível à temperatura. A Embrapa já fez simulações mostrando que em 20 ou 30 anos, vai ser muito difícil ter alta produtividade de café aqui no Estado de São Paulo. Então, ele vai se deslocar para as terras mais altas do sul de Minas Gerais. Exemplos similares certamente têm na cultura no arroz, algodão... Todo o panorama agricultura brasileira vai mudar. Sem dúvida vamos ter problema de distribuição de água e alimentos no Brasil.

CM O país, então, tem que se preparar já contando que essas alterações vão ocorrer e não no sentido de tentar evitar essas mudanças?
PA – Tem que trabalhar num plano para reduzir a vulnerabilidade dos ecossistemas naturais e também planejar o que se vai fazer se o cenário se realizar. Não se pode esperar o cenário acontecer para depois pensar o que vai fazer com ele. É importante fazer um planejamento estratégico cuidadoso de como tratar os problemas de hoje das mudanças climáticas. É preciso pensar em quanto preparar o país do ponto de vista de desastres naturais (enchentes e secas), da produção agrícola, da perda de biodiversidade e de todos os outros aspectos relacionados a mudanças globais.

CM Como o governo brasileiro tem apreendido os resultados do IPCC?
PA – O governo brasileiro não tem ainda uma capacidade de dar as respostas de que a sociedade precisa. A falta de articulação entre os vários ministérios é muito forte. Não adianta só o Ministério do Meio Ambiente agir sem ter uma ação conjunta com o Ministério da Agricultura, da Ciência e Tecnologia, da Saúde, porque a questão do clima permeia a atividade socioeconômica do país inteiro. Não é só um problema de meio ambiente, é um problema econômico, de planejamento estratégico e de saúde. A incidência de doenças vai mudar no Brasil. Como o Ministério da Saúde vai reagir a essas mudanças?

CM Há críticas sobre o fato de o Brasil não ter dados próprios obre o aquecimento global e as mudanças climáticas.
PA – A rede observacional da rede ambiental no Brasil é realmente muito precária, deixa muito a desejar. E você tem que fazer investimentos realmente pesados para adequar a rede de observações meteorológicas e ambientais do país para as novas necessidades. Nós precisamos monitorar com precisão, curácia e qualidade muito maior do que a gente fazia há 10, 20 ou 30 anos, exatamente para isso delinear políticas públicas para o futuro. E isso deixa muito a desejar no Brasil e, particularmente, na Amazônia.

CM Há como o Brasil se atualizar e alcançar esse compasso das rápidas mudanças climáticas?
PA – Sim, mas é preciso ter ações concretas e não somente planos. O governo federal adora montar comitês interministeriais e comissões. Você precisa ter um trabalho de longo prazo para você dar instrumentos para o país enfrentar as questões climáticas, que não é de cinco ou dez anos.

CM Qual a sua avaliação sobre as ações mais recentes da comunidade internacional em resposta aos resultados do IPCC?
PA – Muitos países, como os da Comunidade Européia, estão estabelecendo metas de gases de efeito estufa de uma maneira rápida, forte e com um plano concreto e com uma legislação para fazer isso. Isso não se via há cinco ou dez anos; não aconteceu na Rio92, não aconteceu na implementação do Protocolo de Kyoto, mas está acontecendo agora. Antes tarde do que nunca. É um ponto muito positivo e pode ser o começo para a humanidade ter um plano eficiente e concreto para lutar contra as questões das mudanças climáticas.

CM Como a sociedade pode agir para mitigar esses efeitos?
PA – O padrão de consumo da população em geral vai ter que ser alterado: o consumo de matérias primas básicas e de energia vai ter que ser fortemente reduzido. Isso pode ser feito por meio de um número enorme de processos. A sociedade brasileira e a sociedade em geral desperdiçam muita energia. Reduzir o consumo de energia em 30% não é difícil, há inúmeros processos para isso, basta fazer programas de conservação que sejam eficientes tanto na indústria, quanto no consumidor final. Investir em conservação de energia dá lucro e gera recursos.

CM O que significa o Brasil estar pronto para evitar essas alterações?
PA – Significa o país ter um plano concreto, ligando todos os ministérios no nível do governo federal, estaduais e municipais, fortalecendo a defesa civil e o planejamento da economia, e que leve em conta as mudanças climáticas. Particularmente, no setor agrícola e mesmo no industrial, há alternativas. Há ótimas oportunidades em exploração de energias eólica e solar, em desenvolvimento de biodiesel, em melhoria do processo de produção de álcool e em novos motores mais eficientes do ponto de vista de usos energético e residencial. Tem oportunidades de ouro de negócios e as companhias que souberam aproveitar essas oportunidades e identificá-las o mais cedo possível, talvez venham a se tornar as grandes corporações no final da metade desse século.

 

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