Colunista:
Maurício Thuswohl

02/07/2007

 

AQUECIMENTO GLOBAL

Os perigos de um frágil otimismo

Terceira parte do relatório do IPCC sobre as mudanças climáticas foi recebida com entusiasmo pela mídia internacional. Mas o fato é que jamais haverá, sob o signo do capitalismo e da maximização dos lucros, a “salvação ambiental”.

Data: 08/05/2007

A terceira parte do relatório do IPCC sobre as mudanças climáticas em curso no planeta foi recebida com entusiasmo pela mídia internacional. Alguns dos “especialistas em meio ambiente” que surgem a cada dia beiram a euforia ao garantir que o bicho não é tão feio como parecia. Afinal, os cientistas do IPCC afirmam que o combate ao aquecimento global pode ser “barato e viável” e que o custo das ações mitigadoras de seus efeitos, desde que iniciadas logo, seria de, no máximo, 3% do PIB global em 2030. Se adotar as medidas necessárias, diz o documento, a humanidade pode “estabilizar o aquecimento global em 2ºC”, além de “alcançar, até 2050, uma redução de 85% nas emissões de CO2 e outros gases em relação ao volume de 2000”.

Ou seja, após descrever nas duas primeiras partes de seu relatório o ameaçador cenário das mudanças climáticas no futuro próximo e também as terríveis conseqüências sociais que elas trariam, o IPCC agora nos indica o “caminho da salvação”. O problema é que nesse caminho os perigos e armadilhas são muitos. A começar pela absoluta falta de indicativos de que os líderes mundiais, sejam eles representantes de nações ricas ou pobres, tenham vontade política de adotar as sugestões feitas pelo IPCC.

Por enquanto, apesar do otimismo de fachada, o que os governantes da maioria dos países fazem é empurrar uns para os outros a responsabilidade pela adoção de medidas rápidas e concretas. Com a honrosa exceção da Alemanha - que deve apresentar na próxima reunião do G8, em junho, uma proposta unilateral de redução de 80% de suas emissões de gases provocadores do efeito estufa até 2050 - os países ricos demonstram que não aceittarão facilmente, na prática, grandes mudanças nos seus modos de produção e consumo.

Do lado dos pobres (ou países em desenvolvimento, como queiram), a vontade de assumir politicamente a tarefa de combater o aquecimento global também é quase nenhuma. Os mandatários de China e Índia não cogitam, ao menos por enquanto, refrear a forte expansão de suas economias, ambas baseadas em matrizes energéticas sujas, como a queima de carvão. A China deve roubar ainda este ano dos Estados Unidos o título de maior emissor mundial de gases provocadores do aquecimento da atmosfera.

O governo do Brasil, em que pese a redução nos índices de desmatamento anunciada no ano passado, está mais preocupado em garantir a expansão do agronegócio do que em combater o que quer que seja. Mesmo em termos energéticos, apesar do potencial hidrelétrico brasileiro, o governo admite a possibilidade de criar mais usinas termelétricas. Isso é um claro sinal de que, para além dos discursos, o Brasil pouca importância dá ao combate às mudanças climáticas.

Nesse contexto, o que se viu em Bangcoc nos dias que antecederam a divulgação da terceira parte do relatório do IPCC foi uma batalha diplomática entre os ricos e os “em desenvolvimento” para ver quem deixava o pepino no colo do outro. A União Européia queria que o relatório destacasse que 65% do potencial para as futuras ações mitigadoras do aquecimento global está localizado nos trópicos (o que é verdade). Os pobres - não por coincidência liderados por China, Brasil e Índia - pressionavam para que o documento afirmasse, logo em sua abertura, que os países mais industrializados são historicamente responsáveis por 75% dos gases hoje acumulados na atmosfera (o que é mais verdade ainda).

No fim das contas, nem uma coisa nem outra recebeu destaque no relatório, fato que sintomaticamente foi comemorado por gregos e baianos. A preferência dos líderes mundiais por dar destaque às “boas notícias” de como será barato deter o aquecimento global ao invés de tratar de responsabilidades e compromissos concretos é preocupante, sobretudo se levarmos em consideração os perigos desse frágil otimismo que está sendo disseminado pela grande imprensa. Na verdade, nenhum governante parece muito disposto a abraçar, com seriedade e sem hipocrisia, as sugestões dadas pelo IPCC.

Superar o capitalismo
Revelando uma ferida na qual nenhum governo parece ter coragem ou vontade para botar o dedo, o relatório do IPCC deixa claro que, se não houver uma alteração profunda nos modos de produção e consumo, ou seja, no modo de viver das pessoas, a “estabilização em 2ºC” do aquecimento global não será alcançada. Isso, meus amigos, é um questionamento direto a nossa atual estrutura econômica e social e ao conceito de desenvolvimento econômico difundido pelo pensamento dominante. É um questionamento direto ao sistema capitalista que, infelizmente, não é amplificado por nenhum governo.

A insensibilidade do sistema atual face à problemática ambiental é notável. Em vez de andarmos para frente nessa área, o que se viu nos últimos anos é que a busca do lucro e do acúmulo capitalista como sentido para a vida nos trouxe novas tentativas de dominação com forte viés ambiental. O maior exemplo é a tentativa de controle da produção mundial de alimentos por algumas poucas megaempresas transnacionais através da introdução das sementes transgênicas e sementes suicidas.

O fato é que jamais haverá, sob o signo do capitalismo, a “salvação ambiental”. Não virá o freio no crescimento econômico predatório ou a adoção massiva de matrizes energéticas não poluentes. Jamais será realidade, no mundo capitalista que busca a maximização dos lucros privados, o fim do desmatamento ou a conquista da soberania alimentar dos povos. Por isso, a luta socioambiental é hoje o instrumento mais importante para a superação do capitalismo e para a adoção de um novo conceito de revolução. A humanidade necessita superar o capitalismo antes que o capitalismo acabe com as condições para que a humanidade exista nesse planeta.

 

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