As conseqüências ecológicas
das atividades tecno-industriais
Vincent Labeyrie
In: Morin, E. (2001) A Religação dos Saberes, O desafio do século XXI - Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, pp 125-139.
A contradição fundamental
Já há quarenta anos, o sociólogo americano Keneth Boulding denunciava os perigos da economia cow-boy. A conferência mundial de Quioto questionou mais uma vez o esquema de um desenvolvimento sem limites num mundo com limites fixos.
Ora, desde o século XIX, a sociedade industrial está organizada segundo o modelo mecanoprodutivista do positivismo: progresso científico progresso técnico desenvolvimento econômico progresso sociocultural. Esse modelo corresponde, como assinalou o ecologista Barry Commoner, aos interesses profundos do capitalismo. Este, com o aumento do capital fixo constituído pelos investimentos, deve imperativamente fazer crescer seus lucros concretizados pelos ganhos obtidos com a venda das mercadorias; daí a necessidade de impelir ao consumo e de desenvolver indefinidamente a produção. O drama é que a ideologia produtivista impregnou toda a sociedade, incluindo a ex-URSS e os países da Europa do Leste, que, tendo nacionalizado todos os meios de produção, continuaram ainda assim a privilegiar e a estimular o desenvolvimento da mesma. Isso mostra que o socialismo, mesmo sendo uma condição necessária para controlar a produção, não é condição suficiente para mudar seus rumos.
Ciência e economia
Uma grande parte da população, especialmente os jovens, põe em causa atualmente a ciência, responsabilizada pela crise ecológica, devido ao esquema mecanoprodutivista. Mas esse esquema é falso. Não somente é claro que o desenvolvimento econômico não é sinônimo de progresso sociocultural, mas, ainda, é também inexato que a ciência conduza necessariamente a um desenvolvimento da produção mercantil. Ela pode, ao contrário, contribuir para uma melhoria do valor de uso das mercadorias, reduzir o cansaço e os esforços humanos. Substituir a lata d’água sobre as costas de uma habitante da região do Sael por canalizações deve ter, como objetivo primeiro, liberar os camponeses dessa labuta. Da mesma forma, a mecanização dos portos deve permitir, em primeiro lugar, liberar os dockers do transporte de cargas perigosas e de peso esmagador. Introduzir tarefas automáticas na siderurgia e na indústria química deve ter como objetivo diminuir os riscos de acidente para os operários que manipulam os produtos tóxicos e em alta fusão. Penso que é inútil sublinhar a importância das inovações no campo da medicina. Controlar a produção daria também uma nova legitimidade à ciência.
Não à obsolescência artificial
No início do século XIX, Charles Fourier denunciava a obsolescência artificial já perceptível, então, nos processos de fabricação: "Produzem-se móveis ruins e péssimos tecidos para vender-se o máximo possível», ele escrevia. Hoje, a obsolescência artificial atinge seu máximo. As mercadorias são transformadas para responder à modificação do gosto dos consumidores, gosto que é provocado e orientado por uma publicidade concebida cientificamente por psicossociólogos. São organizados salões de apresentação de novos modelos de mercadorias em todos os campos comerciais. Novas camadas de consumidores até então negligenciadas são visadas, e os produtos são modificados para que sua eventual reparação seja impedida por meio da troca de peças de substituição, cuja produção foi suprimida. Muitos conhecem a piada da americana que troca de carro porque a fechadura de uma das portas está quebrada.
Reciclagem, utilização, consumo
O desperdício provocado pela obsolescência artificial é acrescentado ao da ausência de reciclagem. Por ser a venda de mercadorias o objetivo final, a cadeia de produção é truncada, limitada ao segmento compreendido entre a extração da matéria-prima e a venda da mercadoria, erroneamente considerada como consumida, segundo a terminologia devida a Jean-Baptiste Say. Nessas condições, não pode haver um circuito completo de circulação da matéria.
O termo consumo pede uma definição mais precisa. Será que não seria correto falar de consumo apenas quando há destruição da estrutura de um produto ou de um material? Há destruição do pão quando o comemos; há destruição do carvão quando o queimamos: não existe mais carvão, mas sim gás carbônico e água. Isso também é verdade para os produtos derivados do petróleo nos motores a explosão ou para os materiais radioativos nos reatores.
Ao contrário, não existe consumo, mas sim utilização da água e dos metais. A água permanece água, com freqüência maculada ou evaporada, mas sempre água, após sua utilização. Ela pode e deve ser reciclada; aliás, isso é o que se faz nas cápsulas espaciais. O mesmo se passa com os metais. O ferro, o chumbo, o mercúrio são sempre ferro, chumbo, mercúrio, depois de utilizados. Eles são muitas vezes misturados, sempre deslocados e dispersados, mas continuam sendo metais. A reciclagem é indispensável para manter a quantidade desses materiais disponível e para evitar sua dispersão perigosa, com contaminação do solo e dos lençóis freáticos pela descarga dos mesmos e de adubos, provocando contaminação da atmosfera, em seguida, pelos incineradores.
Todo produto, todo material reciclável é um produto que contém uma matéria-prima renovável, que não é produzida, mas sim explorada. Não se produz cobre, explora-se o cobre. Não se produz água, ela é explorada, e pode-se torná-la potável purificando-a, como também se pode torná-la não-potável, poluindo-a. Até mesmo o carvão e o petróleo são recursos renováveis, á condição de serem utilizados como matéria-prima para a química do carvão. A química orgânica de síntese amplia consideravelmente a Paleta dos materiais oferecidos pela natureza. Essas moléculas de síntese devem imperativamente ser recicladas e não enterradas em "lixões". Elas não são biodegradáveis, pois, como estão ausentes das sínteses naturais, nenhuma bactéria pôde adquirir enzimas que permitam a hidrólise das mesmas.
Portanto, não-reciclagem = poluição, enquanto reciclagem significa dejetos transformados em riquezas. Entretanto, a reciclagem esbarra às vezes contra dificuldades ligadas ao preço muito baixo dos produtos do Terceiro Mundo. Por exemplo, os metais reciclados na Europa custam muitas vezes mais caro do que os metais extraídos no Terceiro Mundo, pois as normas sociais européias não são atualmente aplicadas naqueles países. Os ecologistas são, portanto, naturalmente internacionalistas e a favor da aplicação mundial das leis sociais dos países europeus desenvolvidos.
Desde o início do século XIX, a formação de engenheiros foi concebida de maneira setorial, em função de interesses industriais. Eles não se preocupam com as conseqüências colaterais de suas atividades, consideradas como coisas externas.
O pai da química moderna, Mendeleïev, escrevia há cento e cinquenta anos: "Queimar carvão é uma loucura comparável à loucura de pôr fogo em notas de dinheiro." No início do século XX, Arrhenius, criador da teoria iônica, acrescentava: "Não somente Mendeleïev tinha razão, como também o que ele disse é ainda mais válido para o petróleo."
É um drama o fato de os economistas e geógrafos não terem recebido uma formação em ciências experimentais; nós não leríamos alguns absurdos nas estatísticas sobre uma pretensa produção de energia! Mesmo d’Alembert já explicara: a energia não se cria nem se destrói, ela se transforma Essa é a lei fundamental da termodinâmica. Produz-se eletricidade, capta-se energia solar, queimando carvão e petróleo transforma-se a energia contida nas moléculas em calor, mas não se destrói a energia, ela é transformada.
A segunda lei da termodinâmica estipula que, a cada transformação de energia, uma fração é dispersada sob a forma de calor. Eis por que é absurdo, apesar da publicidade de EDF,* aquecer as casas com eletricidade, posto que essa é proveniente da transformação do calor em eletricidade numa central térmica clássica ou nuclear, e que, a seguir, o utilizador transforma a eletricidade em calor. O rendimento global é baixo, pois ocorrem duas transformações de energia inúteis.
Bioenergética e seres vivos
Da mesma forma, é absurdo produzir biocarburantes (etanol e diester). Por quê? Porque para obter esses biocarburantes são necessários campos de trigo ou de girassóis e, conseqüentemente, máquinas agrícolas, material de irrigação, adubos, herbicidas e pesticidas cuja fabricação exige um forte consumo de produtos derivados do petróleo. Destroem-se os derivados de petróleo para que se obtenham sucedâneos deles, e tudo isso supõe sucessivas transferências de energia...
Todo organismo, consumindo um outro, tira dele energia, mas para cada uma dessas transferências ocorre uma perda. É por isso que nos países em que a terra arável é rara (ilhas Caraíbas, deitas do sul asiático), a alimentação é essencialmente vegetal, e o complemento em proteínas animais é assegurado por animais aquáticos (peixes, crustáceos, patos). Vários dieteticistas da FAO recomendam o consumo de produtos vegetais (arroz, trigo...) em vez de animais de criação. De fato, o rendimento consumível por hectare é, nesses casos, pelo menos dez vezes superior. A carne dos animais carnívoros é luxo ainda maior, pois seu rendimento por hectare cai consideravelmente. O ecologista Odum teve uma grande influência sobre outros ecologistas lembrando essas leis da termodinâmica. Disso foram deduzidas as pirâmides das biomassas, que se traduzem, numa biocenose, por uma biomassa vegetal superior à dos herbívoros, ela própria superior à dos carnívoros. A biomassa das bactérias torna-se de novo considerável, pois elas decompõem tanto as plantas quanto diferentes categorias de animais. É por isso que se pode estimar, grosso modo, a riqueza de um ecossistema pela importância das biomassas dos diferentes níveis tróficos. Mas atenção! Os animais se deslocam, e seu território de alimentação pode exceder em muitas vezes o espaço em que foi avaliada a biomassa vegetal.
Recursos esgotáveis e recursos renováveis
O conceito de matéria-prima renovável pode ser modificado pelo uso que se faz dessa matéria. O carvão e o petróleo podem fornecer matérias-primas renováveis (produtos de síntese artificial) ou serem destruídos por combustão. Essa observação tem grande importância na análise dos problemas energéticos mundiais. Freqüentemente os ecologistas ______________
*Companhia francesa de energia elétrica. (N. T.)
agitam o espantalho do esgotamento definitivo das jazidas de carvão e de petróleo, mas esse risco existe apenas no âmbito das práticas atuais. Eles têm razão, caso continuemos a queimar carvão e petróleo; mas essa idéia é falsa, caso queiramos enfim escutar Mendeleïev e Arrhenius e caso passemos a utilizar esses elementos como matérias-primas.
Agricultura e indústria
Também se diz com freqüência que os produtos agrícolas são renováveis, posto que na origem do crescimento das plantas está a energia solar captada e transformada em energia química durante a fotossíntese. Mas isso é uma idéia incorreta, pois ela negligencia a quantidade de energia utilizada para obter as ferramentas e os produtos empregados pela agricultura. David Pirnentel e seus alunos da Universidade Comeu, nos Estados Unidos, calcularam o rendimento energético das principais culturas e dos diferentes tipos de agricultura. Eles mostraram especialmente que o aumento dos rendimentos ligado ao desenvolvimento da agricultura moderna tal como apresentado pelos economistas não corresponde a realidade alguma. Pois três ou quatro operários urbanos trabalham para cada camponês norte-americano. O que ocorre é apenas um deslocamento de parte das atividades alimentares do campo para a cidade. Esse cálculo é verdadeiro para a agricultura dos países desenvolvidos da Europa Ocidental. As estatísticas econômicas proclamam falsamente que, nesses países, 7 a 8% dos camponeses são suficientes para alimentar o país inteiro. Na verdade, trata-se de três ou quatro vezes mais pessoas, já que existem três ou quatro técnicos ou operários trabalhando para cada camponês. Assim, a agricultura moderna libera pouca mão-de-obra, lá que é preciso a mesma quantidade de pessoas para alimentar a população. As vítimas americanas do romance As vinhas da ira e as vítimas soviéticas das grandes campanhas de coletivização, entre outras, morreram inutilmente. Os pequenos produtores camponeses franceses têm razão ao protestar contra as pretensões hegemônicas da agricultura intensiva. Dado que as estatísticas utilizadas pelos planejadores da agricultura são falsas, é realista, do ponto de vista econômico, o apoio à agricultura familiar.
Não gostaria de terminar essas reflexões sobre os problemas de produção sem denunciar a absurda pretensão de industrializar a agricultura. É impossível industrializar a agricultura. A indústria pode, de fato, utilizar os mesmos procedimentos técnicos em qualquer parte do mundo. Um motor elétrico é rebobinado da mesma maneira em Tóquio, Cingapura, na Cidade do México, em Paris, Bombaim ou Detroit. Por outro lado, não se pode cultivar o trigo da mesma maneira no Middle West, na região da Beauce ou na de Causses, na Ucrânia, no Kazakistão ou no Sael. Não é possível plantar bananais na região da Champagne, nem na Alemanha ou na Polônia. Da mesma forma, o milho cresce muitíssimo bem no Béarn, onde o índice pluviométrico é superior a um metro na primavera e onde o solo é geralmente ácido; na Beauce e no Lauragais, ao contrário, a chuva é insuficiente para que o milho cresça bem. Ë preciso então irrigar abundantemente, até mesmo esgotando os lençóis freáticos e secando os rios. Na verdade, a agricultura não pode ser industrializada porque ela é ecologicamente dependente. Não se pode cultivar qualquer coisa, em qualquer lugar, em qualquer época. O mesmo se passa corri a criação de animais. Ninguém teria a idéia de criar hipopótamos a beira do rio Sena ou ursos brancos em volta do lago do Bourget; mas há quem queira criar vacas da Normandia em regiões áridas. Vi essas pobres vacas "leiteiras" procurando desesperadamente comida nos "lixões" do Altiplano mexicano. Houve também quem tenha conseguido vender vacas de leite charolesas e normandas ao Malí. Felizmente esses pobres animais, em sua desvairada busca de erva verde, ignoravam que suas irmãs que tinham ficado para trás, na França, pastavam em pastos de mais de 15 centímetros de altura. Espero que esse vendedor que conseguiu vender ao Mali essas vacas não tenha sido condecorado por ter contribuído com a melhoria da balança comercial da França!
Gigantismo, economia de escala e limites de tolerância
Antes de terminar a análise dos problemas econômicos fundamentais, faço questão de sublinhar as conseqüências do gosto pelo gigantismo e seu corolário, a economia de larga escala, enunciada como uma lei pelos economistas. Desde nossa infância, somos submetidos ao culto do gigantismo. Aprendemos os nomes das montanhas mais altas, dos rios mais extensos, dos países mais povoados, das cidades mais importantes. A mídia insiste sobre o maior estádio, sobre o filme cuja produção custou mais cara, sobre os filmes e livros que mais venderam a cada mês. Existem também as listas de carros e aviões mais rápidos e até mesmo a das armas mais poderosas. Além disso, devemos também nos felicitarmos pelas fusões de empresas que se tornam, assim, as maiores do mundo, O culto do gigantismo é profundamente arraigado em nossa cultura.
Cada civilização, cada chefe incontestado em diferentes países desejam marcar sua passagem por realizações grandiosas. Depois da Liberação da França, De Caulle quis marcar a renovação do poder francês com o Concorde e a bomba atômica. Todo ditador (Mussolini Com a Roma moderna, Hitler com sua arquitetura, Stálin com seus grandes empreendimentos) quer mostrar ao mundo sua superioridade. Quanto aos economistas, eles justificam as concentrações empresariais por uma lei circunstancial: a lei da economia em larga escala. Segundo essa lei, os custos evoluiriam inversamente ao tamanho da empresa. Em nome dessa lei, as empresas industriais médias foram absorvidas. Os anos 50 levaram ao desaparecimento de 800.000 explorações agrícolas.
Ora, existe com certeza um efeito ecológico de escala, mas no sentido contrário. Quando os limites de nocividade são ultrapassados, graves efeitos aparecem: não há mais peixes nos rios, a circulação na cidade torna-se impossível, o ar irrespirável, o efeito estufa ameaça o planeta. A nocividade aumenta geralmente em progressão geométrica ou mesmo exponencial, enquanto que o tamanho da empresa ou da população aumenta apenas aritmeticamente. Hoje, um habitante dos Estados Unidos polui diversas dezenas de vezes a mais que um habitante da Índia. Um milhão de pessoas reunidas numa cidade poluem mais um rio do que 1.000 aldeias de 1.000 habitantes. Uma criação industrial de porcos contendo 5.000 animais polui mais do que 5.000 pequenas criações individuais. Schumacher, em Small is Beautiful, mostrou o quanto o gigantismo é incompatível com um desenvolvimento harmonioso.
Escolhas tecnológicas, direito a escolha,
pluralismo tecnológico
É claro que não é a ciência a responsável pela gravidade da situação. Ao contrário, o desenvolvimento do conhecimento multiplica as possibilidades das escolhas tecnológicas e, assim, as possibilidades de se encontrarem as tecnologias que se adaptam melhor ás circunstâncias locais e gerais, ecológicas e humanas. A ciência aumenta o número de graus de liberdade, na condição de que aqueles que têm o poder de decisão possam escolher entre diversas propostas.
É preciso acabar com as decisões que emanam de um organismo único CEA, EDF, grandes grupos privados, DDE ou DDA. É preciso que os particulares e as associações possam dispor de todas as informações necessárias para fazer contraprojetos. Esse direito ao projeto implica, pois, a obrigação de transparência técnica. Esse direito ao Projeto corresponde a uma ampliação indispensável dos direitos democráticos nesse final do século XX. Lado a lado com o pluralismo político, é preciso insistir sobre o pluralismo tecnológico. A importância dessas escolhas pode ser considerável, como por exemplo: a prioridade dada a uma ferrovia ou a prioridade dada ao petróleo e ao nuclear em detrimento das energias renováveis, uma agricultura intensiva em detrimento de uma agricultura familiar, grupos transnacionais em detrimento de empresas de tamanho humano. Ora, todas essas escolhas jamais foram objeto de um debate público.
Os Próprios indicadores de crescimento, como o PNB, levam Permanentemente a estratégias desastrosas. Por exemplo, tomando o PNB (Produto Nacional Bruto), que corresponde ao volume total das transações para definir a riqueza de um país, múltiplos absurdos são gerados. Assim, quando os acidentes automobilísticos o número de pessoas a serem tratadas e os veículos batidos aumentam, a atividade econômica se intensifica e o PNB eleva-se. Chega-se a uma conclusão absurda: quanto mais acidentes de circulação, mais um país torna-se rico. De maneira geral, a guerra seria um meio de enriquecimento para todo e qualquer país. De fato, para prepará-la, é necessária grande quantidade de armamentos que se tornam ultrapassados e são rapidamente substituídos, o que aumenta o PNB. Quando a guerra acaba, é preciso reconstruir, o que aumenta ainda mais a atividade econômica do país. A guerra seria assim um meio excelente, que deveria ser privilegiado, para enriquecer as nações e evitar as crises econômicas, O exemplo do PNB ilustra os Perigos dos indicadores Universais e a impossibilidade de se adicionarem atividades de tipo completamente diferente. É evidente que a ecologia não deve aceitar tais medidas, que acarretam também o efeito de uma sobrecarga da natureza, uma destruição do meio ambiente e um esgotame~~0 dos recursos naturais, não-renováveís
As reações dos ecologistas
Os elementos que intervém nas contradições entre a economia humana e a ecologia, considerada como economia da natureza, são tão numerosos e tão variados que as reações de natureza ecológica são múltiplas e muito diversas. A análise de Barry Commoner mostra muito bem que com o modelo mecanoprodutivista a pressão humana sobre a natureza aumenta cada vez que a população cresce, bem como quando cresce seu nível econômico. Diante disso, de acordo com suas orientações próprias, os ecologistas de diferentes tendências privilegiam um desses parâmetros ou outro.
1. O ecofascismo
Para os ecofascistas, o parâmetro determinante da crise é o parâmetro demográfico. Alexis Carrel já escrevia, antes da Segunda Guerra, que era necessária uma política eugênica com eliminação ou, pelo menos, esterilização dos indivíduos considerados como perigosos. Na Alemanha, essa teoria era o fundamento de Mein Kampf. Não se deve esquecer que Hitler era um vegetariano militante que pregava o retomo à natureza. Essa ideologia é encontrada novamente hoje em diversos países, e o racismo deve ser denunciado com firmeza em todos os lugares. Não existe nenhuma espécie de organismo sexuado que tenha raças puras. A espécie é um conjunto de indivíduos interfecundos que podem dar descendentes fecundos. O polimorfismo de populações politípicas é uma constante na natureza imposta pela heterogeneidade geográfica e pela instabilidade ecológica. Para a humanidade, as diferentes culturas correspondem a populações que evoluíram em condições variadas, cada qual adaptando-se a tais condições. Não existe, portanto, cultura inferior e cultura superior, mas sim, em cada situação, populações que conseguem sobreviver e outras que desaparecem. Se a população de uma aldeia provençal fosse transferida para a Groenlândia, ela demonstraria sua inferioridade com relação à população local de esquimós.
Quando se conhecem as precauções que devem tomar os zootécnicos a fim de manter puras as raças de animais domésticos, compreende. se que as raças puras não existem na espécie humana. Aliás, a consangüinidade é um fator de degenerescência devido ao aparecimento de homozigotos de caracteres recessivos patológicos. Ao contrário, a mistura de populações de origens geográficas diferentes é um fator biologicamente favorável que causa vantagens ao grupo humano resultante dela. Culturalmente, o fenômeno é do mesmo tipo, e o anti-semitismo hitlerista favoreceu a América do Norte e as ilhas britânicas pela imigração de intelectuais europeus, especialmente os judeus, em detrimento da Europa.
Medidas contra a consangüinidade foram constatadas em todas as civilizações isoladas. Durante as guerras da Antiguidade mediterrânea, da mesma forma que durante as guerras tribais africanas de hoje, os vencedores raptavam as mulheres do grupo vencido para incluí-las em sua população e ampliar o pool gênico. As civilizações fechadas e limitadas praticaram por muito tempo a hospitalidade sexual. Diderot, no Suplemento à viagem de Bougainville, relata com humor as reações do capelão de uma expedição a quem um chefe de aldeia propôs, sucessivamente, que fizesse amor com sua mulher, depois com suas filhas. Os exploradores polares assinalaram fenômenos da mesma ordem nas populações esquimós. Pode-se conjeturar que as bacanais da civilização romana, os carnavais do Mardí gras e a devassidão das grandes quermesses da Idade Média eram medidas empíricas de luta contra a degenerescência de populações rurais isoladas e caracterizadas por uma alta taxa de consangüinidade. Assim, tudo leva a crer que, da mesma forma que a corrente racista é milenar, as medidas para limitar a consangüinidade são também tão antigas quanto ela. Creio que é nesse sentido que é preciso compreender todas as civilizações que condenaram o incesto. Portanto, toda análise científica séria leva os ecologistas responsáveis a serem anti-racistas.
Mais freqüente e mais sutil é uma variante desse ecofascismo que pretende tornar o Terceiro Mundo responsável pela pressão demográfica. Ora, todos os estudos sociológicos têm mostrado que quando o nível de vida se eleva, o número de crianças por mulher diminui. Ë a miséria do Terceiro Mundo que é responsável pelo crescimento demográfico na
África, na América do Sul e na Ásia meridional. Da mesma forma, alguns declaram que é preciso limitar o desenvolvimento do Terceiro Mundo, a fim de evitar que suas populações poluam tanto quanto os habitantes dos Estados Unidos, da Europa Ocidental ou do Japão. Após tudo o que indiquei, é claro que o nível de vida das populações do Terceiro Mundo pode ser consideravelmente elevado, com a condição de que seu desenvolvimento não se faça segundo o modelo mecanoprodutivista dos países dominantes. O perigo é sério. Em Quioto, a delegação americana propôs aos países pobres, que poluem pouco a atmosfera, que vendam seus "direitos de poluir" aos países industrializados que ultrapassam os limites autorizados. Os Estados Unidos, campeões mundiais de poluição, gostariam, assim, de adquirir o direito de continuar a poluir.
Há cerca de vinte e cinco anos, organizei na cidade de Tours, com o apoio da FAO, um colóquio científico internacional sobre a ecologia de um pequeno inseto coleóptero, chamado brucha, que destrói os grãos das plantas leguminosas, especialmente os feijões, a soja, as favas, a lentilha e a ervilha. As leguminosas são uma fonte essencial de proteínas para as populações pobres da América Latina, da África intertropical e da Ásia meridional. A proteção dessas plantas contra a brucha e os trabalhos de pesquisa sobre este inseto apresentam um interesse público de primeira importância. Ora, um colega americano, eminente ecologista em seu país e especialista desses insetos, recusou a participação no colóquio por uma razão estonteante: para a população do mundo, sendo já grande demais, não é conveniente ajudar os pobres a disporem de quantidades suficientes de leguminosas, pois eles já são por demais numerosos. Entretanto, esse cientista se dizia interessadíssimo pelo estudo das bruchas, só que não queria proteger delas as leguminosas, pois não queria contribuir para a melhoria da alimentação dos pobres da América. Todas essas tendências ao ecofascismo têm a pretensão de não fazer política. Elas ousam justificar suas atitudes por razões "científicas".
2. O ecointegrismo
Para esse outro tipo de ecologista que raciocina sempre no âmbito do esquema mecanoprodutivista, a ciência seria a fonte de todos os males. Eles preconizam o retorno a uma economia patriarcal pré-industrial. Eles privilegiam uma vida monacal que suprima todos os produtos da tecnologia. Rousseauístas, um pouco místicos, às vezes vegetarianos, pregam sempre as medicinas naturais e rejeitam radiografias e vacinações. Eles são muitas vezes as presas perfeitas das seitas. Sua volubilidade e seu senso de comunicação endossam geralmente as declarações dos mais diversos técnicos imbuídos de cientificismo que gostam de acusar os ecologistas de retrógrados que pregam o retorno á época da luz das velas. Os ecointegristas são um perigo para a ecologia, pois a conduzem ao isolamento. Eles imaginam que campos abandonados possam voltar a um estado natural, como se isto pudesse ser realidade.
3. A ecologia social e política
Há mais de vinte anos tenho militado, ao lado de militantes operários franceses e de meus amigos ecologistas, por uma aproximação e pela ação comum dos Vermelhos e dos Verdes.* Só posso, portanto, regozijar-me pela orientação dada aos Verdes por Dominique Voynet** e pela criação, em 1997, de um governo de esquerda plural. A ecologia social e política é uma necessidade. Suas propostas no campo dos transportes, por exemplo, favorecendo a ferrovia e pregando a diminuição da circulação automobilística, têm obrigatoriamente conseqüências sociais importantes, o que implica reformas. Quanto mais tergiversarmos para atacar esses problemas, mais os setores da economia que deverão ser reformados e convertidos serão maiores. O problema é político, posto que é a economia mundial que tem como eixo central a prioridade do desenvolvimento do automóvel. O mesmo ocorre com relação às modificações das bases de produção de eletricidade, que tem como eixo, atualmente, o desenvolvimento das centrais térmicas clássicas ou nucleares. Enfim, uma agricultura ambientalmente limpa e sã permitiria a sobrevivência das explorações agrícolas familiares, de dimensões humanas. Mas ela exigiria também a conversão de uma parte importante da indústria (máquinas agrícolas, herbicidas, pesticidas...). As condições sociais dessas conversões devem acompanhar todas as propostas de mudança das estratégias econômicas, pois para a população trata-se de ter como viver agora, no dia-a-dia, mesmo sendo verdade que, a longo prazo, as propostas dos ecologistas são justas. Se o produtivismo mecanicista deve ser incansavelmente combatido em prioridade, nem por isso devemos deixar de nos interessar pelas condições sociais de vida da população.
Ao longo dessa palestra, indiquei o quanto é urgente adaptar o ensino a essas realidades.
Continuamos a utilizar expressões falsas como Taça humana, gênero humano, quando na verdade trata-se unicamente de espécie humana.
Quantos supõem ainda que é possível cruzar espécies diferentes? Eles ignoram que tais cruzamentos são, no melhor dos casos, infecundos. O que significam as expressões equilíbrio da natureza e clímax, a não ser dois conceitos perigosos e sem valor científico?
_________________
* Na França, chamam-se assim as tendências de esquerda (Vennelhos: socialistas, comunistas) e aquelas ligadas ao Partido Verde. (N. T.)
** Líder do Partido Verde francês, atual ministra da Agricultura do governo de Lionel Jospin. (N. T.)
Quantos falam ainda de produção de energia? De consumo de água? Quantos acreditam que é racional e inevitável, posto que mais rentável, promover a concentração das atividades humanas?
A natureza evoluiu sem o homem, ela deve poder continuar a evoluir na presença de uma humanidade feliz, pois a natureza não pode ser colocada numa lata de conserva.