Ações Pedagógicas Relacionais
Texto para o curso "Ações Pedagógicas Relacionais" ministrado a professores da Escola Básica José Boiteux, Florianópolis, SC, 2001.
Edmundo Carlos de Moraes
Laboratório de Pesquisa para um Conhecimento Integrado - LABORPECI
Departamento de Ecologia e Zoologia
Centro de Ciências Biológicas
Universidade Federal de Santa Catarina
1. Tomando Decisões
A tomada de decisão diante de um problema, qualquer que seja ele, ocorre mediante um processo, ou seja, uma seqüência de eventos até chegarmos à ação. Segundo o pesquisador inglês Peter Allen, esse processo tem como fase inicial e fundamental a compreensão do problema que desejamos (ou somos obrigados) a solucionar. A solução a ser implementada vai depender essencialmente do modo como entendemos a questão: é a partir daí que poderemos antecipar as possíveis conseqüências de medidas a serem tomadas para chegarmos à decisão propriamente dita e finalmente à ação.
Esse processo de tomada de decisões acontece a todo momento conosco de tal modo que quase sempre não nos damos conta dele. O simples ato de buscarmos um copo de água para beber pode ser um bom exemplo. A ação de buscarmos alguma coisa para beber resulta do modo como compreendemos a sensação de sede que sentimos, diante das circunstâncias que a envolve. Dependendo desse entendimento podemos concluir que precisamos beber alguma coisa imediatamente, ou que podemos esperar um pouco mais, ou que não é possível beber alguma coisa naquele momento, etc., e em função dessa conclusão tomamos a decisão mais adequada. Por exemplo, buscamos um copo de água para beber ou aguardamos o melhor momento para fazê-lo.
A nossa experiência prévia, armazenada na nossa memória, faz com que determinadas decisões sejam tomadas rapidamente pois a compreensão do problema já havia sido construída anteriormente. Assim, tendemos a evitar uma situação que represente algum perigo por entender que ela irá nos trazer alguma coisa desagradável. Diante de um objeto vindo em nossa direção, nos desviamos ou nos defendemos, imediatamente, por compreender que ele pode representar um possível dano. Entretanto, por exemplo, se entendemos que tal objeto se trata de uma bola jogada por uma criança, a partir dessa compreensão tomamos uma outra decisão, uma vez que nesse caso o objeto não representa mais nenhum perigo aparente. Esse entendimento nos leva a decidir por agarrar a bola ou devolvê-la com as mãos ou com os pés. A tomada de decisão depende essencialmente do modo como compreendemos a situação.
Diante de um problema que requer ou possibilita um tempo maior para que a decisão seja tomada o processo é o mesmo. Qualquer medida a ser adotada irá surgir da compreensão que temos da situação em questão. Isso é válido para as decisões pessoais, comunitárias, empresariais, políticas, econômicas, etc..
2. Um exemplo: as questões ambientais
Estudos têm mostrado diferentes modos de se conceber o que seja "meio ambiente" o que obviamente resulta em diferentes modos de se compreender as questões ambientais. Assim, a representação predominante é aquela que associa "meio ambiente" aos elementos considerados "naturais", sem a presença dos seres humanos, e portanto as questões ambientais passam a ser compreendidas como resultado da ação humana sobre a "natureza": florestas, animais, atmosfera, rios, etc.. Essa representação pode ser chamada de "naturalista" como proposto inicialmente por Marcos Reigota. Uma outra representação, encontrada de forma minoritária, é aquela que inclui no conceito de "meio ambiente" os seres humanos e desse modo, as questões ambientais assumem uma perspectiva mais ampla incluindo-se neste caso questões que normalmente tem sido excluídas tradicionalmente da problemática ambiental como a miséria, a violência urbana, entre outras. Essa segunda forma de se representar "meio ambiente" tem sido denominada de "globalizante".
Para tentarmos entender melhor essas duas formas de se conceber o que seja "meio ambiente" podemos lançar mão de um trabalho publicado em 1984 por um pesquisador francês chamado Olivier Godard. Godard argumenta que "meio ambiente" é um conceito relacional, ou seja, ele necessita de um referencial para ser definido. Isso significa que quando falamos em "meio ambiente" estamos sempre nos referindo à alguma coisa, ou seja, estamos nos referindo ao "meio ambiente de alguma coisa". Assim, é essa "coisa" a que nos referimos que estabelece o seu meio ambiente a partir das relações nas quais ela está envolvida. Segundo essa interpretação, só faz sentido falar em meio ambiente de alguma coisa. Por exemplo, uma pulga possui o seu meio ambiente (meio ambiente da pulga), um elefante tem o seu meio ambiente (meio ambiente do elefante), os seres humanos têm o seu meio ambiente (meio ambiente dos seres humanos). Ou seja, cada coisa que existe tem o seu meio ambiente.
Ainda segundo Olivier Godard, um sistema e o seu meio ambiente podem ser visto de dois modos (aqui podemos considerar como sistema alguma coisa organizada a partir das relações dos seus elementos de modo que ela passe a apresentar características próprias não existentes nos seus componentes isoladamente):
1) o meio ambiente como co-sistema de mesmo nível hierárquico que o sistema de referência e exterior a ele. Isso significa dizer que o sistema e o seu meio ambiente são considerados como sendo dois sistemas separados
2) o meio ambiente como sistema "englobante" que não pode ser compreendido sem se incluir o sistema de referência que faz parte dele. Neste caso, o sistema é considerado como um "sub-sistema" do seu meio ambiente, ou seja, o meio ambiente é entendido como um sistema que contém o sistema que lhe dá origem e portanto eles não podem ser compreendidos separadamente.
De um modo geral quando se fala em "meio ambiente" fala-se em Meio Ambiente, um nome "próprio", e na realidade as pessoas estão se referindo ao meio ambiente dos seres humanos. Assim , diante do exposto no parágrafo anterior, o sistema passa a ser "os seres humanos". Podemos agora entender que a representação "naturalista" de meio ambiente pode ser vista como uma conseqüência do primeiro modo de se relacionar um sistema e o seu meio ambiente. Neste caso, como o meio ambiente é considerado como algo distinto do seu sistema de referência ("os seres humanos") ele é entendido como sendo constituído por aquilo que existe tirando-se os seres humanos, ou seja, florestas, rios, mar, atmosfera, etc..
Seguindo-se essa linha de raciocínio, podemos considerar que a representação de meio ambiente chamada de "globalizante" pode ser entendida como resultado do segundo tipo de relacionamento entre o sistema e o seu meio ambiente. Ao se considerar o sistema de referência ("os seres humanos") como um sub-sistema do seu meio ambiente, o meio ambiente é concebido como algo que contem os seres humanos.
A partir da identificação desses dois modos de entender o que seja "meio ambiente" não temos nenhum argumento para dizer que uma forma é "correta" e a outra é "errada". Elas são simplesmente diferentes. O que se deve considerar é que, pelo que já vimos anteriormente, as conseqüências em termos de decisões a serem tomadas serão também diferentes.
3. Visões de Mundo e conseqüências.
Numa perspectiva mais geral, os dois tipos de representações de "meio ambiente" podem ser associados a diferentes visões de mundo: a representação "naturalista" de meio ambiente pode ser associada à uma visão de mundo fragmentada, onde as conexões e as interdependências dos seus elementos não são devidamente consideradas. Neste caso, meio ambiente e o seu sistema de referência são percebidos como dois sistemas separados e o meio ambiente torna-se sinônimo de natureza, sem a inclusão dos seres humanos. A representação "globalizante" de meio ambiente pode ser associada à uma visão de mundo integrada, onde o sistema de referência, mantendo a sua autonomia, é entendido como parte (sub-sistema) do seu meio ambiente.
As visões de mundo, ou seja, o conjunto de crenças, valores e conceitos que dão forma e significado ao mundo que uma pessoa vivência, constituem a base de referência para os seres humanos relacionarem-se com o mundo (outras pessoas, instituições, coisas, natureza não humana, etc.). As visões de mundo irão fundamentar e direcionar as atitudes (posicionamento diante de um assunto que leva à tomada de decisões) que resultarão no comportamento (ação). As atividades dos seres humanos (comportamento individual e coletivo) determinam os modelos de desenvolvimento das sociedades humanas que dão origem às diversas formas de organização humana (social, econômica, política e cultural).