Posfácio


 

O

 que foi escrito apresenta, creio, informações que têm o apoio de evidência factual suficiente para fazê-lo digno, no mínimo, de séria consideração. Acho igualmente que os princípios essenciais expostos têm sólida base bíblica. Se a informação terá algum efeito sobre os que a lerem ou o que farão depois é, e deve ser, algo que depende unicamente da decisão deles.

O que agora escrevi são essencialmente minhas próprias idéias, baseadas nas evidências apresentadas e no efeito que tiveram em minha própria vida. Estão aqui independentemente de seu valor. Faço isso sem intenção de oferecê-las como modelo que acho que outros devam seguir. Devo dizer que a própria franqueza das Escrituras em certas áreas deve tornar-nos cautelosos neste aspecto. O fato de Cristo, o cabeça da família cristã ― cujo espírito, junto com o de Deus, dirigiu os apóstolos e discípulos na elaboração das Escrituras Cristãs ― ter achado melhor deixar tanta coisa sem ser dita sobre certos assuntos importantes (ou pelo menos, os que talvez achemos importantes) é certamente digno de nota. Estes incluem a freqüência, a forma e o modo de realizar as reuniões cristãs, e até seu conteúdo. Conforme já vimos, as declarações vistas no capítulo 14 da Primeira Carta aos Coríntios são nossa fonte mais abundante do que os primitivos cristãos faziam nestas ocasiões, e o que temos ali é incrivelmente breve e escasso de detalhes. Do mesmo modo, embora as cartas apostólicas revelem que alguns homens serviam a seus concrentes da comunidade cristã em várias capacidades e modos, temos no máximo uma descrição muito genérica dos serviços que prestavam ― nada que possa sequer ser visto como uma lista básica de deveres específicos.

Em resumo, se buscarmos nas Escrituras Cristãs algum tipo de manual organizacional explícito buscaremos em vão. Por isto, creio que seria presunçoso que um de nós, seja quem for, fale sobre o que Deus não falou, defina e ordene algo que o chefe da família, Cristo, não definiu nem ordenou, e espere que outros sintam qualquer obrigação em resultado do que fazemos. Somos aconselhados a fazer as coisas em paz e boa ordem, e isso pode ser conseguido de comum acordo entre os associados, sem necessidade de imposição por uma autoridade. A liberdade, em todos os aspectos da vida, constitui uma prova para os que dela partilham, uma prova de seu altruísmo e de sua devoção a princípios e ideais corretos. Apenas a falha em demonstrar estas qualidades é que faz o controle autoritário parecer uma solução desejável. O autoritarismo e o controle por meio de regras podem trazer ordem, mas também encobrem e disfarçam a realidade do que as pessoas verdadeiramente são. A liberdade permite que se tornem manifestas suas verdadeiras qualidades e atitudes.1

 

Finalmente, na questão da associação em si, temos de reconhecer que, embora seja notável a simplicidade dos princípios bíblicos, o cenário que se seguiu foi tornado complicado. As Escrituras previam a  adulteração da pureza da comunidade cristã. Não estabelecem, porém, uma fórmula precisa dizendo como podemos hoje identificar determinada religião como a ÚNICA associação religiosa verdadeira com que devemos nos alinhar. Pelo contrário, Cristo Jesus nos assegurou que a separação da mistura de cristãos genuínos e falsos no campo mundial de trigo e erva daninha (ou joio), e a colocação destes em categorias claramente definidas, é algo além da capaciddae humana.2 Estou convencido de que esta mistura prevalece em todas as denominações (e as Testemunhas de Jeová não são exceção) e, com toda probabilidade, com o joio ultrapassando o trigo em número. A separação e a clara identificação deles tornar-se-á manifesta somente no dia de julgamento de Deus.

Para os que foram motivados pela consciência a desligar-se de um sistema religioso, a solução óbvia para a falta de associação pode parecer simplesmente ingressar numa outra religião. Há centenas de denominações para escolher, todas tendo uma medida de verdade e uma medida de erro, embora a proporção entre uma e a outra possa variar. Não me sinto pessoalmente inclinado a juntar-me a qualquer delas. Não que eu esteja procurando alguma totalmente livre de erros. Estou convicto de que isso não existe. Tenho certeza de que eu mesmo não estou livre de erros assim como ninguém mais está.

O fato de que há sérios erros na religião das Testemunhas de Jeová não torna de repente correto tudo o que há nas outras religiões. Elas também têm sérios problemas, que às vezes admitem abertamente. Estou convicto de que muitas organizações religiosas são menos autoritárias do que a que deixei, que muitas permitem um grau razoável de liberdade de expressão. Existe hoje, em alguns aspectos, maior liberdade para expressar diferenças na Igreja Católica do que em algumas religiões menores, incluindo as Testemunhas de Jeová.3 Este fator do menor controle autoritário parece oferecer certo grau de vantagem. Sei porém que, quando alguém se filia a uma denominação, espera-se dele, no mínimo, que aceite e apoie os ensinos específicos que distinguem essa denominação das outras. Embora os membros da denominação possam minimizar a seriedade das diferenças que a separam das outras, especialmente quando encorajam as pessoas a entrar, os que deram início à denominação obviamente consideraram esses ensinos distintivos como suficientemente importantes e sérios para fazê-los separar-se da religião de que antes faziam parte. E a liderança atual deve considerá-los no mínimo como sérios o suficiente para impedir a reunificação com a religião anterior, ou a união a alguma outra.

Revendo a situação mundial, o ex-teólogo católico romano Charles Davis fez este comentário:

 

Os cristãos precisam urgentemente de uma expressão social adequada e apropriada para sua fé. Penso nos inúmeros cristãos independentes que existem hoje. Pessoas que em sua perspectiva essencial são cristãs, que talvez professaram a fé cristã no passado, mas que simplesmente não podem conceber ou não foram capazes de suportar a vida dentro das igrejas atuais. Não tendo visto nenhum modo alternativo de vida cristã, desviaram-se da fé cristã. A fé de muitas delas poderia ser levada à maturidade se lhes tivessem mostrado como viver e estruturar socialmente a fé cristã sem se tornarem prisioneiras das estruturas obsoletas das denominações existentes. . . .

Continuar fazendo o jogo institucional atual dentro e através das estruturas denominacionais atuais, é impedir que uma forma radicalmente diferente e melhor de presença cristã no mundo se torne plenamente visível. E significará assistir um crescente número de pessoas deixar de professar a fé cristã em virtude de elas não a identificarem com as igrejas atuais. Não reconhecem que muitas vezes é a fé cristã que os leva a rejeitar as estruturas institucionais contrárias à auto-compreensão do homem e à verdade e ao amor cristãos.4

 

Ele reconheceu que a maioria dos que professam o cristianismo hoje devem obviamente se encontrar nos sistemas denominacionais e que muitos estão trabalhando sinceramente dentro de suas estruturas. Ao mesmo tempo, explicou por que, mesmo assim, achava pessoalmente aconselhável a atitude do “desligamento,” dizendo:

 

O desligamento é necessário porque deve-se reconhecer que as estruturas socias existentes nas igrejas são inadequadas e obsoletas. Em que pese o fato de se poderem tornar úteis, elas têm de ser consideradas como limitadas em função, relativas em valor e essencialmente inconstantes. O cristão tem de assumir sua condição livre e recusar-se a ser enquadrado em qualquer organização totalitária. A obediência ao Evangelho e à comunidade cristã como um todo exigirá freqüentemente que se oponha às alegações, prescrições e posturas oficiais das instituições eclesiásticas existentes. Isto não é um convite à licenciosidade individual. O cristão individual empenhar-se-á em fundamentar seu pensamento na tradição cristã como um todo e estará em contato com outros cristãos. Mas a submissão completa à linha oficial de sua igreja é uma irresponsabilidade para o cristão.5

 

Não pretendo poder atender aos pedidos de oferecer algo que seja “atraente” no sentido do que alguém poderia gostar para vir a filiar-se ou associar-se. Acho que cada um de nós precisa meditar no quadro retratado pelo escritor de Hebreus na parte final de sua carta. Ele primeiro descreve como, após seu sangue ser derramado em sacrifício, os corpos dos animais eram levados para fora do acampamento de Israel para serem queimados, e então diz:

 

Assim, Jesus também sofreu fora das portas da cidade, para santificar o povo por meio do seu próprio sangue. Portanto, saiamos até ele, fora do acampamento, suportando a desonra que ele suportou. Pois não temos aqui nenhuma cidade permanente mas buscamos a que há de vir.6

 

O que significa para nós “sair até ele, fora do acampamento”? “Fora do acampamento” é aqui equivalente a “fora da cidade.” A primeira menção de uma cidade nas Escrituras é com relação a Caim e revelava sua falta de confiança na declaração de Deus de que sua vida não seria tirada por outros humanos. A cidade torna-se assim simbólica da busca de segurança pelos próprios meios.7 Esse mesmo espírito logo aflorou no período pós-Dilúvio, e a ânsia de edificar uma cidade sintetizava o desejo de segurança por meios humanos, junto com o desejo de poder e proeminência que a cidade oferecia.8 O conceito oposto é apresentado como evidência da fé de homens como Abraão, Isaque e Jacó, que não buscavam a proteção das cidades, mas viviam em tendas porque aguardavam “a cidade que tem alicerces, cujo arquiteto e edificador é Deus.”9 Tudo isto confere significado mais profundo às palavras do escritor cristão de que “não temos aqui nenhuma cidade permanente, mas buscamos a que há de vir,” uma cidade descrita em outro lugar como celestial, a “Jerusalém de cima,” a “cidade do Deus vivente.”10

Embora o mundo todo, não só as grandes cidades, seja simbólico da busca humana de segurança, poder e proeminência, o contexto das palavras da carta aos Hebreus parece focalizar uma área mais específica, a religiosa. Jesus foi executado “fora das portas da cidade” e a cidade era Jerusalém, na época centro da adoração a Deus, adoração que sob o antigo pacto podia ser chamada de “adoração organizada.” Hoje, a adoração dos servos de Deus não está, ou pelo menos não devia estar, centralizada em nenhuma cidade deste mundo. Muitos podem corretamente alegar que não buscam em nenhuma cidade literal a sensação de segurança religiosa ou a fonte de poder e proeminência. Mas já que não “saímos até ele [Cristo]” fora das portas literais da cidade ou fora de um acampamento literal, a prova não se refere a mostrarmos disposição de buscar segurança em outro lugar que não seja uma cidade literal. Muitos daqueles a quem se dirigia a carta aos Hebreus não moravam em Jerusalém, e nós, como eles, somos chamados a ir para fora de um acampamento figurativo. Hoje, vemos que se desenvolveu uma grande “instituição” religiosa, composta de muitas denominações. Formam, em si, muitos “acampamentos” separados, e todavia, em conjunto, formam um enorme “acampamento,” constituindo uma instituição religiosa combinada semelhante a uma cidade. Podemos ver isto no fato de que geralmente se obtém reconhecimento como parte dessa instituição por tornar-se membro de uma das denominações que a compõem. Não fazer parte desse “acampamento,” em um ou mais de seus setores, significa muitas vezes ser visto como forasteiro, não importa a força de sua fé ou de sua devoção a Deus, ou a intensidade com que se mantém unido ao Filho dele.

Em escala menor, mais individual, os novos movimentos religiosos muitas vezes começam com a aparência de tendas. A maioria, porém, logo se esforça para ser uma organização com aparência de cidade, que ofereça a sensação de segurança e tamanho, junto com isto, poder e, devido a esses fatores, bastante influência. Isto permite aos que se associam a ela participar da sensação de importância e poder grupal, bem como da sensação de estar mais comodamente instalados. As cidades literais, apesar de oferecerem aparente segurança e capacidade de satisfazer o desejo de poder e proeminência, tinham seus males, inclusive “a redução dos indivíduos à condição de membros da multidão.”11 O mesmo efeito se vê nas “cidades” religiosas figurativas. Elas provêem os meios para que uma minoria atinja a proeminência, mas quanto maiores ficam mais o indivíduo se reduz a um mero apoiador (um segmento da base de poder). O contato íntimo se torna menos freqüente, menos fácil, resultando em relações que se tornam mais frágeis, não mais fortes. Contudo, a tendência humana natural é ficar longe das “tendas,” de sua aparente insignificância e falta de sinais exteriores de força e permanência, e preferir a “cidade” ou “acampamento” com tudo que parecem oferecer. O orgulho certamente inclina as pessoas a achar as “tendas” irritantes, insatisfatórias. O orgulho aponta em direção à “cidade.”

Para os Hebreus a quem se dirigia a exortação o cristianismo significava dispor-se a ir para “fora do acampamento,” pelo preço de perder as antigas associações e ser rotulados como proscritos, sem direito a certos privilégios usufruídos pelos “do acampamento.” Mas suportar esta dificuldade e o aparente isolamento não os isolaria de Cristo; os traria para mais perto de Cristo. Como Abraão e outros, eles podiam mostrar que não tinham aqui “nenhuma cidade permanente,” mas buscavam uma cidade com alicerces eternos. Distanciar-se do “acampamento” não significa distanciar-se de Deus, mas pode em vez disso trazer maior sensação de intimidade com ele. É por isso que, depois de seu convite para seguir a Cristo “fora do acampamento,” o escritor da carta aos Hebreus fala imediatamente em dar “a Deus um sacrifício de louvor.”12

Creio que aceitar a vida “fora do acampamento” é uma das coisas mais difíceis que as pessoas enfrentam, talvez não menos difíceis que para os Hebreus aconselhados naquela época. Minhas opiniões neste respeito não se devem a simples aversão à “cidade” no sentido de grandes organizações religiosas estruturadas, mas porque creio sinceramente que coisas muito valiosas se perdem quando voltamos ao “acampamento” ou fixamos “residência” em alguma “cidade,” especialmente coisas como a simplicidade da fraternidade, o espírito familiar, a ênfase ao espiritual em vez do tangível, do visível e do fisicamente impressionante. Acho razoável crer que a humildade talvez seja mais bem cultivada no ambiente das tendas que no da cidade. Viver “fora do acampamento” pode significar falta de reconhecimento público e trazer a sensação de estar “de mudança” em vez de comodamente instalado, mas creio que isso traz benefícios espirituais e eternos mais que gratificantes, que enchem o coração.13   

 

O que foi dito, tanto aqui como ao longo deste livro, não visa defender o isolacionismo do eremita. Todos nós precisamos nos relacionar com outros. Temos íntima consciência disto. A questão essencial, porém, é se o fato de nos associarmos com outros resultará num relacionamento que permita o exercício da consciência pessoal e o direito de atuar como indivíduo responsável, ou se, ao invés, implicará na perda destes direitos para uma associação que no final das contas priva a pessoa da liberdade e da integridade pessoal.

Quanto a mim, não desejo filiar-me a qualquer denominação. Não por não querer confraternizar com as pessoas, ou por um exagerado sentimento de independência, nem devido a uma presunçosa sensação de auto-suficiência, ou a uma farisaica relutância em correr o risco de ser “contaminado” pela associação com aqueles cujas crenças incluem algumas que considero erradas. No geral, acho que sou talvez menos propenso a condenar os membros das denominações do que estas muitas vezes de julgar umas às outras.14 Meu sentimento de sinceridade não é para com os sistemas aos quais as pessoas estão ligadas, mas para com elas como pessoas.

O fato de eu permanecer livre de laços denominacionais, pois, não reflete uma perspectiva puramente negativa ou pessimista, mas deve-se primariamente a fatores positivo. É porque creio que posso prestar maior e melhor serviço a Deus, a Cristo e a meu semelhante sem me ligar a nenhum sistema, quer seja a uma única denominação ou à “instituição” religiosa multi-denominacional como um todo. Considero-as, sinceramente, mais estorvo que benefício. Os argumentos de que podemos fazer mais sendo parte de um sistema que à parte dele não me convencem. O registro bíblico mostra que os profetas atuavam basicamente fora do “sistema.” João Batista fez isso e o próprio Jesus também. E não creio que entre os cristãos dos tempos apostólicos houvesse algo parecido com a “instituição” ou “sistema” religioso atual. O poder de Deus e de seu Filho certamente ultrapassa qualquer poder derivado que se possa obter mediante a filiação a uma organização, muito embora a organização possa ser, como são algumas, de tamanho gigantesco. Acho esse tipo de poder altamente ilusório, pois traz consigo suas próprias condições limitadoras e restritivas como requisitos para a filiação, condições prévias que debilitam o indivíduo como pessoa, em vez de fortalecê-lo. E acredito que é aquilo que somos como pessoas que no fim significará mais em nossos esforços de beneficiarmos outros.

Em minha situação atual, gosto de sentir-me totalmente livre para mostrar interesse em toda e qualquer pessoa, seja ela de alguma denominação ou de nenhuma, sem me predispor em favor de umas contra outras e sem que sintam que estou promovendo os interesses de alguma denominação. Não há dúvida de que a maioria de meus contatos é com pessoas que eram ou ainda são filiadas às Testemunhas de Jeová. Isto todavia não se deve a um interesse menor por outras pessoas. Isso ocorreu naturalmente É de onde vem a maior parte das comunicações, bem como a maioria das expressões de necessidade. Reconheço, é claro, que talvez possa prestar maior ajuda a pessoas que foram ou são Testemunhas de Jeová, já que meus antecedentes me permitem entender melhor as circunstâncias e pontos de vista delas do que os de pessoas com outros antecedentes. Minha esposa e eu temos, contudo, convidado vários casais vizinhos nossos para refeições em nossa casa, pessoas de diferentes origens religiosas, de modo a nos conhecermos melhor. E em todos os casos nossas palestras incluíram assuntos espirituais, não porque nós planejássemos introduzi-los, mas por causa do normal interesse de nossos vizinhos. Um católico romano da Itália nos visitou e tomou refeições conosco várias vezes, e sempre achei suas visitas estimulantes devido a sua clara preocupação com as pessoas e seu interesse pessoal nas Escrituras. Estou à disposição de todas estas pessoas, e creio que qualquer delas, sentindo necessidade, sente-se livre para recorrer a mim para qualquer ajuda que eu possa dar tanto de modo espiritual como em outros aspectos da vida. Espero aumentar e ampliar tais contatos nos próximos anos futuros.15

Creio que o costume do primeiro século de reunir-se nos lares para associação cristã é tão praticável hoje quanto naquela época. Não creio que isso exija a presença de algum indivíduo notavelmente informado, ou de uma pessoa do tipo “carismático,” para haver proveito. Não temos o Filho de Deus em pessoa entre nós, como foi o privilégio dos do primeiro século. Tampouco temos apóstolos entre nós. Mas temos as palavras do Filho de Deus, o registro de sua vida e as palavras de seus apóstolos. Simplesmente ler juntos as Escrituras e considerar o que significam para nós pode ser uma fonte de encorajamento e vigor. Pelo menos, descobrimos que isso é veraz no nosso caso.

Não há, obviamente, uma regra restringindo as reuniões a grupos relativamente pequenos.16 Tampouco há ordem para reunir-se apenas nos lares. Prefiro isso não por crer que somos obrigados a fazer as coisas exatamente como no primeiro século, mas por causa dos benefícios que vejo nestas reuniões comparativamente pequenas nos lares. Acho que fator decisivo deve ser de o arranjo aumenta ou diminui a sensação de relacionamento familiar, a simplicidade que nos permite dar atenção ao que é espiritual, a sensação de que a reunião não é uma espécie de compartimento distinto, separado, mas simplesmente um dos muitos fios de atividades que, trançados juntos, formam o tecido de uma vida de serviço a Deus, a expressão natural de amoroso interesse nos outros. Sinto pessoalmente que esses fatores são fortalecidos pelas reuniões nos lares e muitas vezes obscurecidos nos cultos das igrejas.

Às vezes surge a questão do batismo. Pode haver a tendência de pensar no batismo no contexto de uma comunidade religiosa, como um evento patrocinado ou até autenticado por uma comunidade desse tipo. Ao contrário, é difícil imaginar um ato mais pessoal que o batismo. O relato do eunuco etíope e seu batismo espontâneo à beira da estrada durante uma viagem ilustra maravilhosamente isto.17 O ato nada tem a ver com tornar-se membro dum sistema religioso mas simboliza a confissão de fé no Filho de Deus feita publicamente e “a solicitação de uma boa consciência a Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo.”18 Nas Escrituras, os batismos não aparecem como ocasiões programadas, nem mesmo o batismo de milhares em Pentecostes. Não eram parte de um programa de “congresso.” Eram realizados espontaneamente, quando surgia a ocasião e administrado por quem estivesse presente.19 Não há, pois, razão alguma para aguardar circunstâncias especiais ou uma ocasião especial para um batismo. Um varão pode até batizar pessoas de sua própria casa.

Há também a questão de batizar-se de novo. Certamente que, em si, o fato de alguém deixar uma organização religiosa não exige isto, como se a validade ou a falta de validade do batismo dependessem da filiação à organização. Visto que o ato é totalmente pessoal, o fator determinante é: o que significou seu batismo na época, o que tinha você na mente e no coração? Para mim significou oferecer meu próprio ser a Deus através de Cristo à base de seu sangue derramado; esse pensamento destacava-se na minha mente e enchia  meu coração no exato momento em que fui batizado. Jamais tive dúvida de que Cristo era meu Senhor e Amo. É verdade que eu estava numa organização religiosa específica e a apoiei plenamente por muitas décadas. Mas fiz isto porque acreditava que a organização estava genuinamente servindo a Deus e a Cristo, submissamente obedecendo a eles. Quando, com o tempo, surgiu a questão que tornou evidente que eu tinha de enfrentar uma escolha, não tive nenhuma incerteza quanto a escolha que devia fazer, ainda que esta significasse encerrar um aspecto da herança religiosa que vinha de três gerações. Não encerrou um outro aspecto, o principal, pois meus pais Testemunhas nunca inculcaram em mim a crença de que a organização vinha em primeiro lugar, mas que Deus sempre vinha em primeiro lugar. Imagino que no caso de outros possa não ter sido assim. Eles estão livres, é claro, para tomar suas próprias decisões quanto à sinceridade de sua motivação na época do batismo.

Alguns falam que “se tornaram cristãos” e “aceitaram a Cristo” após deixarem as Testemunhas de Jeová. Pode ser verdade no caso deles. No meu caso foi precisamente por ser cristão e ter aceito a Cristo como meu Cabeça e Amo designado por Deus que tomei a  atitude que tomei. Minha separação da organização Torre de Vigia não resultou em eu aceitar a Cristo, mais foi o resultado de eu tê-lo aceito muitas décadas antes.

São então cristãos as Testemunhas de Jeová? Os que fazem essa pegunta geralmente querem dizer: são cristãos “autênticos”? Os que perguntam amiúde têm suas próprias definições do que constitui esta “autenticidade,” definições influenciadas pelo credo que elas apoiam no momento. Minha resposta é que creio que há entre as Testemunhas de Jeová o mesmo percentual de cristãos autênticos que há em qualquer outra igreja. Sei, pelos meus sessenta e poucos anos de convivência com elas, incluindo a associação íntima com os homens da liderança, que muitas estão interessadas de coração em promover a adoração a Deus. Fazem o que fazem por acreditarem, correta ou incorretamente, que seus esforços promovem tal adoração. Creio que a própria organização manifesta sérios desvios do cristianismo em seus ensinos e práticas. Esses fatores constituem definitivos obstáculos ao apreço mais pleno e mais rico dos ensinos da Palavra de Deus. Eles obscurecem num grau perceptível a relação que devemos ter com Deus e seu Filho, e restringem as pessoas de expressaram plenamente os frutos do Espírito de Deus e do amor que têm no coração. Mas creio que os obstáculos existem também em outras denominações, embora tomem formas diferentes. Não creio que os obstáculos em si possam impedir a pessoa de ter um coração devotado a Deus e a Cristo se ela não permitir isso.20 Com o tempo, os aspectos não-cristãos de uma organização podem forçar a pessoa a uma escolha que demonstrará onde está sua verdadeira lealdade, em que deposita sua verdadeira fé. A sinceridade de seu cristianismo será então provada. Por um lado, parece que seria vantajoso se ela viesse a reconhecer a realidade dos fatos sem necessidade de passar por uma situação de crise. No entanto, pôr plenamente à prova qualquer ligação, de fato “empurrando-a contra a parede,” antes de encerrá-la por ser fútil, pode também ter o efeito de amadurecer a pessoa, torná-la mais sóbria. Tendo se esforçado para trabalhar dentro de um sistema, tendo feito tudo o que podia no sentido do aprimoramento ou da influência para a correção das falhas, em vez de simplesmente abandonar o sistema ao primeiro sinal de erro ou falha, pode ser uma experiência valiosa. De outro modo, a pessoa poderia imaginar se a decisão de desligar-se foi realmente apropriada. Tomei aquela atitude, e desde então não tive dúvidas quanto à correção da decisão que tomei.

 

Tal como podemos resolver rapidamente o problema de com quem se associar entrando para alguma denominação, podemos rapidamente resolver o problema de em que crer adotando o que se chama “ortodoxia.” O termo em si é excelente, vindo das palavras gregas ortho e doxa, que significam simplesmente “ensino correto.” Na verdade, este passou a representar o conjunto de crenças que foram definidas e instituídas em resultado dos diversos concílios realizados nos primeiros séculos. Algumas destas crenças são simples reafirmações das Escrituras e são obviamente “ensino correto.” Outras são fruto de interpretações, argumentações e debates, e foram proclamadas “ortodoxas” por homens em autoridade. Como certa fonte descreve: “o cristianismo ortodoxo é algo puramente descritivo, referindo-se simplesmente à opinião da maioria.”21 A “opinião da maioria” vinha dos votos de homens que constituíam o que apropriadamente podemos chamar de “corpos governantes” do passado.22 Minha própria experiência íntima num corpo governante religioso me dá pouca razão para achar que o voto da maioria dos líderes religiosos que compunham um corpo governante do passado confira necessariamente força genuína para que certa crença seja aceita. Na minha vida religiosa anterior, descobri que, com muita freqüência, as pessoas acreditavam em algo porque a “organização” tinha falado. Não vejo progresso ou melhoria, agora, em acreditar em algo porque a “ortodoxia” falou, através do mesmo agente de autoridade religiosa. Muitos que hoje são “ortodoxos” tornaram-se tais por meio do mesmo processo de doutrinação e intimidação intelectual, e com a mesma falta de raciocínio independente e análise crítica de argumentos que caracteriza tantos dentro do movimento da Torre de Vigia. O mero fato de que certa crença é mantida há muito tempo ― ou obtida por ampla aceitação no passado ― pode torná-la tradicional mas não a torna correta em si mesma.23

Não vejo igualmente nenhum real progresso se as pessoas fazem um giro de 180 graus nas crenças mas conservam o mesmo dogmatismo e a auto-justiça que as caracterizava antes da mudança de crenças. Temos de adorar a Deus “em espírito e em verdade,” e o espírito que manifestamos é o exemplificado pelo Filho de Deus, um espírito muito oposto ao dos fariseus sentenciosos, auto-justos e tradicionalistas.24 Vim a concluir que grande parte daquilo em que eu antes acreditava não tinha sólida base bíblica. Não afirmo ter solucionado todas as questões bíblicas ou fixado conclusões sobre todos os ensinos na época que se seguiu. Mas com respeito aos ensinos dos quais tenho firme convicção, creio que posso dizer sinceramente que são baseados na Palavra de Deus e não mero prolongamento da minha religião anterior. O fato de que uma crença foi aprendida nessa religião não faz com se torne recomendável para mim. De fato, a decepção com um sistema religioso pode facilmente gerar a tendência de passar a ver de modo negativo e suspeito qualquer entendimento particular das Escrituras simplesmente porque este coincide com certa crença anteriormente adotada no sistema religioso agora rejeitado. Todavia, não vejo razão para descrer em algo simplesmente porque isso se acha nos ensinos daquela religião. Minha anterior religião inegavelmente inculcou-me o respeito básico pelas Escrituras, a crença na importância suprema da adoração e da obediência a Deus, da esperança da vida vinculada ao sacrifício de resgate de Cristo e sua ressurreição, da autoridade soberana expressa mediante seu Reino. Não quero descartar estas coisas. É verdade que, ao mesmo tempo, seus outros ensinos minaram e desvirtuaram grande parte desta força, ainda que não a ponto de roubar das verdades essenciais todo o seu poder, como se pode ver no fato de que essas mesmas verdades, e a convicção de que eram corretas, levaram a meu eventual desligamento. Reconheço que poderia ter aprendido essas mesmas verdades básicas em muitas outras religiões cristãs. Por acaso, eu as aprendi onde estava, na religião adotada por meus pais, a religião na qual fui criado.

Creio que muitas pessoas confundem certos conceitos como sendo exclusivos das Testemunhas de Jeová, ou daquilo a que elas chamam de “seitas,” um termo que, conforme já comentado, é muitas vezes aplicado a qualquer religião da qual se discorde firmemente. Por descrever certas crenças ou conceitos como “sectários,” tais pessoas deixam de reconhecer que, embora divergindo (e às vezes, bastante) em detalhes, o mesmo ponto de vista básico pode ser encontrado nas obras de muitos teólogos respeitados, inclusive de teólogos dignos de serem classificados como “ortodoxos.”

Como exemplo, a opinião comum de muitos sobre a alma humana é descrita por S. C. Guthrie, professor do Seminário Teológico de Colúmbia (uma instituição presbiteriana), desta maneira:

 

Segundo esta doutrina, apenas meu corpo pode morrer, mas eu mesmo não morro realmente. Meu corpo é apenas a casca do meu verdadeiro eu, e não eu; é apenas a prisão física terrestre na qual meu verdadeiro “eu” é prisoneiro. Meu verdadeiro eu é minha alma, a qual, por ser espiritual e não física, é como Deus, e partilha, portanto, da imortalidade (impossibilidade de morrer) de Deus. O que acontece na morte, pois, é que minha alma imortal escapa de meu corpo mortal. Meu corpo morre, mas eu próprio continuo vivo e retorno ao domínio espiritual do qual vim e ao qual realmente pertenço.

 

Dizendo isto, este respeitado teólogo, passa então a afirmar:

 

Se nos ativermos à esperança genuinamente bíblica para o futuro, temos de rejeitar firmemente esta doutrina da imortalidade da alma por diversas razões.

 

Ele passa então a detalhar biblicamente essas razões. Antes de fazê-lo, porém, considera a origem da crença que antes descreveu, declarando:

 

Esta doutrina [da imortalidade inerente da alma] não foi ensinada pelos próprios escritores bíblicos, mas era comum nas religiões gregas e orientais do mundo antigo no qual nasceu a igreja cristã. Alguns dos primitivos teólogos cristãos foram influenciados por ela, leram a Bíblia à luz da mesma e a introduziram no pensamento da igreja. Ela está conosco desde então, influenciando até as confissões reformadas (veja a Confissão de Westminster, XXXII; a Confissão Belga, Art. XXXVII).25

 
Não apresento isto como algo definitivo ou como opinião que todos devam aceitar. Para determinar se este ponto de vista é convincente é preciso ler e pesar a validade de suas razões bíblicas, as quais não incluí. Embora seja possível encontrar dezenas de outros eruditos que expressem o mesmo ponto de vista do teólogo citado, o número ou a reputação deles não são o fator decisivo; pode-se igualmente encontrar teológos de renome que argumentem em favor da opinião contrária. Meu objetivo aqui não é defender a validade da opinião declarada mas simplesmente mostrar que, embora haja a tendência de rejeitá-la como fruto do “pensamento sectário,” há, na verdade, eruditos conceituados que expressam esse ponto de vista.

O mesmo se dá com a relação entre o Pai e o Filho conforme revelada nas Escrituras. Não há dúvida de que se atribui divindade ao Filho, pois o termo theos é aplicado a ele em certos textos.26  O que de fato interessa é o que significa essa divindade.27 O anti-trinitarismo é um ponto destacado da crença das Testemunhas de Jeová, embora não se limite à religião delas.28 Nenhum erudito ortodoxo apoiaria os conceitos ensinados pela organização Torre de Vigia com respeito à natureza de Cristo. Não tenho interesse em defender esses conceitos, pois creio que alguns são falhos. Exige isto que se aceite como “ensino correto” o ensino ortodoxo tradicional acerca do assunto? A única razão para que se deva ― ou possa, no meu caso pessoal ― fazê-lo é se houver claro apoio bíblico para isso.29

Não há dúvida de que as publicações da Torre de Vigia às vezes citam fontes de uma forma que não representa fielmente o que a fonte estava de fato dizendo. No entanto, permanece o fato de que as declarações com respeito à origem e desenvolvimento da doutrina em consideração foram feitas com tal clareza que seria difícil entendê-las de modo errado. Faço aqui citações de duas fontes teológicas, ambas conhecidas e respeitadas. As citações não visam contradizer ou refutar o ensino trinitário. Ambas as fontes são trinitárias e o que apresentam não tem a intenção de refutar a doutrina. Se não fossem trinitárias ou menos conceituadas eu não as teria citado neste assunto.

A primeira citação é de um artigo sobre “Trindade” encontrado na The International Standard Bible Encyclopedia (edição de 1988 [revisão da edição de 1929]), escrita por Cornelius Plantinga, professor de teologia sistemática no Seminário Teológico Calvino. O que acho notável nas afirmações do artigo dele é o grau de cautela demonstrado, a admissão franca das incertezas. Diz o parágrafo introdutório do artigo:

 

Embora “Trindade” seja um termo do segundo século que não se encontra em parte alguma da Bíblia, e as Escrituras não apresentem nenhuma declaração trinitária definitiva, o NT contém de fato a maioria dos materiais de construção da doutrina posterior. Em especial, enquanto insiste que há um só Deus, ele apresenta Jesus Cristo como o Filho divino distinto do Deus Pai, e provavelmente apresenta o Espírito Santo ou Paráclito como uma pessoa divina distinta de ambos. Problemas óbvios reconhecidamente ligam-se a ambas as afirmações; de fato, a palavra “pessoa” como termo trinitário (triunidade) tem sido controversa em si mesma desde Agostinho [354-430 A.D.], especialmente no período moderno. Além disso, a doutrina da trindade está  mesmo nas Escrituras “em estado soluto” (B. B. Warfield, ISBE [1929], s.v.); isto é, o NT apresenta eventos, afirmações, práticas e problemas a partir dos quais os pais da igreja cristalizaram a doutrina nos séculos sucessivos.30

 

Vale a pena reler este parágrafo, tomando nota de todas as expressões restritivas que traz. Com cautela, a matéria só afirma que os “materiais de construção” da doutrina se acham nas Escrituras, não a própria doutrina existente, e que os “os pais da igreja cristalizaram” a “doutrina posterior.”31 Diz que as Escrituras “provavelmente” apresentam a ‘personalidade do Espírito Santo.’ Admite igualmente que há “problemas óbvios” e controvérsia contínua, até mesmo sobre o uso do termo “pessoa” descrever três pessoas da trindade. Embora em seu todo o artigo busque, sem dúvida, demonstrar a validade da doutrina, a mesma cautela e franqueza aparecem intermitentente.

A informação desta matéria de modo algum é a única. A segunda citação ilustra mais amplamente o aspecto “controvertido” da doutrina “no período moderno.” A citação é do internacionalmente respeitado teólogo suiço Emil Brünner. Ele é trinitarista e na citação que segue de seu livro The Christian Doctrine of God (página 226), fala até mesmo de ‘Deus tornar-se homem e suportar a cruz.’ Ainda assim, afirma o seguinte:

 

Jamais foi intenção das testemunhas originais de Cristo no Novo Testamento colocar-nos um problema intelectual ¾ o das Três Pessoas Divinas ¾ e então nos dizer silenciosamente que adoremos o mistério dos “Três-em-Um.” Não há vestígio de tal idéia no Novo Testamento. Este “misterium logicum,” o fato de que Deus é Três e assim mesmo é Um, fica totalmente fora da mensagem da Bíblia. É um mistério que a Igreja coloca perante os fiéis em sua teologia, pelo qual ela embaraça e dificulta a fé deles com a heteronomia [isto é, o oposto da autonomia, a sujeição a outros] que está em harmonia, é verdade, com uma falsa alegação de autoridade, mas sem nenhuma conexão com a mensagem de Jesus e Seus Apóstolos. Nenhum Apóstolo sonharia em imaginar que existem Três Pessoas Divinas, cujas relações mútuas e unidade paradoxal estão além de nosso entendimento. Nenhum “misterium logicum,” nenhum paradoxo intelectual, nenhuma antinomia [conflito aparentemente insolúvel] de Trindade e Unidade, tem qualquer lugar em seu testemunho, mas apenas o “misterium majestatis et caritatis”: a saber, que o Senhor Deus, para o nosso bem, tornou-se homem e suportou a Cruz. O mistério da Trindade, proclamado pela Igreja e entronizado em sua Liturgia, do quinto e sexto séculos em diante, é um pseudo-mistério, que brotou de uma aberração do pensamento teológico a partir de linhas traçadas na Bíblia, e não da própria doutrina bíblica.

 

Como na citação anterior, não apresento isto como espécie de “prova” de que determinado aspecto da doutrina da trindade é válido. Apresento-o porque muitas vezes se alega que a relutância em aceitar o que geralmente se chama de trinitarismo ortodoxo ou tradicional é devido à pessoa desconhecer as línguas originais das Escrituras (hebraico, e especialmente grego), ou ter sido doutrinada num conceito tendencioso e parcial da história religiosa, ou devido à sua compreensão de certos textos ter sido torcida por uma tradução ou interpretação tendenciosa destes textos. O domínio deste teólogo protestante suiço sobre os idiomas bíblicos, a extensão de seu conhecimento da história religiosa e de seus escritos sobre o período pré-niceno e os séculos seguintes são inquestionáveis. O mesmo certamente se aplica a seu conhecimento dos vários argumentos, a favor e contra, relativos aos textos bíblicos usados na disputa trinitária. Todavia, ele deixa evidente que sua aceitação do mistério da trindade é fruto do pensamento teológico, não por crer que o ensino em si esteja explicitamente presente nas Escrituras.32

Da mesma forma que fiz esta citação de Brünner, poderia citar outras contrárias às dele. Não concordo com alguns de seus pontos de vista. Pode-se discutir textos bíblicos relevantes versículo por versículo e apresentar-se alegações contra e a favor. Não é este meu propósito aqui. Minha intenção neste caso não é argumentar contra certas doutrinas mas contra o dogmatismo e a atitude crítica que às vezes as acompanha.33 O que citei visa unicamente demonstrar que há eruditos altamente respeitados que, embora de modo algum apoiem as afirmações da Torre de Vigia, não encaram a análise das bases bíblicas desta doutrina na sua forma ortodoxa e tradicional, quer por ignorância quer por terem mentalidade sectária.34 O que acho ainda mais importante é que isto ilustra a razão pela qual não simpatizo com os que condenam outros por não terem a mesma opinião que eles, com os de cada lado negando categoricamente aos do outro lado a condição de cristãos. Incrível é que, em contraste com o grau de moderação, cautela e equilíbrio mostrado pelas fontes já citadas, muitas vezes são as pessoas cujas credenciais acadêmicas são imensamente inferiores que estão entre as mais insistentemente dogmáticas e críticas com relação a estes mesmos pontos. Não tenho dúvida de que alguns dos argumentos e raciocínios que empregam seriam vistos como totalmente indignos de consideração por estas mesmas respeitadas fontes eruditas. Quer sejamos instruídos quer não, creio que devemos guardar-nos contra o dogmatismo e a atitude condenatória, pois estes denotam não sabedoria e discernimento, mas espírito e coração tacanhos.

Em resumo, pois, assim como estou convencido de que a única religião verdadeira é o cristianismo em si, não algum sistema religioso que afirme representá-lo e exemplificá-lo, creio também que a verdade se acha nas Escrituras, não num determinado conjunto de interpretações que homens elaboraram ou venham a elaborar. Essa verdade não está só nas próprias palavras, mas principalmente na revelação que nos trazem de Deus e seu Filho. É quase inevitável que venhamos a divergir em nossa compreensão de alguns pontos mas, se nos guiarmos pelo Espírito de Deus, não teremos grande dificuldade em concordar nos ensinos declarados de modo claro e simples.

 

Obviamente, seria muito mais fácil poder atender aos pedidos de ajuda oferecendo soluções simples e rápidas. Muitos que me escreveram evidentemente queriam isso. Alguns querem poder transferir-se de uma organizável de considerável tamanho para outra com pelo menos algum tamanho e poder. Minhas respostas devem tê-los desapontado. Nesses casos, eles evidentemente procuraram isso em algum outro lugar e não mais tive notícias deles.

Seria agradável poder fazer grandes coisas pelos outros, satisfazer seus desejos e necessidades de modo a preencher suas expectativas. O que sei é que isso está simplesmente além da minha capacidade. Não tenho fórmulas mágicas para soluções rápidas e fáceis dos problemas, e os resultados de meus esforços de ajudar outros não têm nada de espetacular. Os resultados geralmente chegam por correspondência ao longo de meses e até anos, e costumam se manifestar de modo gradual ― pessoas que pareciam dominadas pela amargura livram-se de seu efeito destrutivo, pessoas que pareciam muito inseguras de sua posição diante de Deus manifestam maior confiança e paz mental. Consolo-me com as palavras de despedida de Paulo a um grupo de irmãos em Éfeso quando, após declarar que não esperava mais vê-los e advertir sobre o surgimento de homens ambiciosos que distorceriam a verdade para atingir seus próprios fins, disse:

 

Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados.35 

 

Não acho que falhei com as pessoas, encorajando-as a depositar sua confiança íntima não em homens, mas em Deus. Encorajando-as na fé de que os pedidos feitos a Ele, tanto explicitamente em oração como implicitamente mediante nosso próprio proceder de vida, não deixam de ser ouvidos, que as respostas vêm, e que precisamos reconhecer que aquilo que nosso Pai celestial sabiamente nos dá é aquilo de que genuinamente precisamos, não aquilo que simplesmente queremos. Acreditar que, se buscarmos intensamente, com todo o esforço que essa busca requer, encontraremos aquilo que verdadeiramente vale a pena encontrar. Que se persistirmos em bater, estar alertas às oportunidades de nos beneficiarmos espiritualmente e de servir aos outros ― não meramente ver as oportunidades, mas fazer uso de todas que surgirem à nossa frente ― então abrir-se-ão para nós caminhos que são tanto gratificantes como estimulantes.36

E, tal como Paulo expressou, tenho plena confiança no poder da palavra de Deus graciosamente provida, sua mensagem, de estabilizar, apoiar, fortalecer e edificar os que a aceitam na mente e  no coração. Não posso conceber um Pai amoroso que deixe de transmitir sua opinião, sua vontade e suas promessas a seus filhos de modo que estejam disponíveis a todos, que não se comunique com os outros só por meio de alguns favorecidos, mas que fale a todos, a cada um, com igualdade de interesse e amor. Essa comunicação pode ser achada nas Escrituras, disponível para ser lida por todos, de forma que todos ouçam a mesma mensagem essencial, e também mediante os tratos de Deus conosco pessoalmente por meio de seu Filho em nossa vida diária individual e suas experiências, ao passo que agimos em resposta a essa mensagem básica. Seu Filho exultou no fato de que seu Pai se revela não só aos instruídos e sábios, intelectuais e inteligentes, mas também aos que têm a natureza simples e descomplicada das crianças.37 Se tivermos a tendência de duvidar que temos a força ou a capacidade necessária para cumprir a vontade de Deus para nós, precisamos reler estas palavras do apóstolo de Cristo:

 

Vede, pois, quem sois, irmãos, que recebestes o chamado de Deus; não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família prestigiosa. Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e, o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e, o que no mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é, a fim de que nenhuma criatura se possa vangloriar diante de Deus. Ora, é por ele que vós sois em Cristo Jesus, que se tornou para nós sabedoria proveniente de Deus, justiça, santificação e redenção, a fim de que, como diz a Escritura, aquele que se gloria se glorie no Senhor.38

 

A fé nos assegura que esse poder existe, o poder que nos sustém para enfrentar qualquer problema, o poder que nos habilita a achar soluções, a ultrapassar obstáculos na nossa vereda cristã, que nos mantém firmes no nosso rumo até nossa herança ser finalmente alcançada. A força e a sabedoria de que precisamos estão disponíveis; cabe a nós fazer uso delas. O clima de liberdade que Cristo nos apresentou e todo o espírito de sua revelação nos abrem as melhores oportunidades para fazer isto. Podemos aceitar e prezar essa liberdade com a garantia de que ela é ideal para nos fazer alcançar nossos alvos de conhecimento, de força espiritual, de confiança, de uma vida gasta de modo sábio, significativo e, acima de tudo, amoroso, com a herança da vida eterna em vista. Que tenhamos a coragem e a fé de aceitar, prezar e usar plenamente essa liberdade.

                           ¾¾¾¾¾¾¾¾¾¾¾

Onde se acha o Espírito do Senhor aí está a liberdade. E nós todos que, com a face descoberta, refletimos como num espelho a glória, somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente, pela ação do Senhor, que é Espírito. ¾ 2 Coríntios 3:17, 18, Bíblia de Jerusalém.

 

 

 

 

 

1         Gálatas 5:13; 1 Pedro 2:16, 17.

2         Mateus 13:28-30, 39-43.

3         Isto de modo algum implica em ter havido alguma renúncia ao alegado poder das autoridades papais. Embora haja uma maior liberdade para debates, os líderes da igreja são rápidos em reagir quando alguma declaração pública é vista como criando qualquer dúvida quanto à sua autoridade e alcance. Como diz Charles Davis: “Hoje em dia, na medida em que [um teólogo] possa permanecer dentro do domínio da teologia pura . . . é cada vez menos provável que ele seja perturbado. Ele tem de ser cauteloso, mas as autoridades da igreja estão começando a entender que há pouco que possam fazer para controlar o pensamento teológico. Mas toque num aspecto prático, que nem precisa afetar a própria fé cristã mas simplesmente a política oficial ou a ordem estabelecida, e vem o rebuliço.” (A Question of Conscience, página 236.)

4         A Question of Conscience, páginas 237, 238.

5         A Question of Conscience, página 238.

6         Hebreus 13:12-14, NVI.

7         Gênesis 4:13-17.

8         Gênesis 11:1-9.

9         Hebreus 11:8-16 (NVI).

10      Hebreus 12:22; 13:14; Gálatas 4:25, 26; Revelação 21:1-7.

11      The International Standard Bible Encyclopedia, Vol. I, página 714. Esta obra comenta também: “A vindoura cidade de Deus é definida pela presença de Deus, que é tudo em todos . . . . Esta seria nossa ‘identidade urbana’ primária, implicando em que residimos como peregrinos e estrangeiros nas outras cidades do mundo. Nossa tarefa é ser a ‘cidade erigida sobre a colina’ e a ‘luz do mundo.’”

12      Hebreus 13:15.

13      Empregando diferente analogia, o autor e educador John A. Shedd certa vez disse: “Um navio no porto está seguro ― mas não é para isso que servem os navios.”

14      O protestantismo, por exemplo, geralmente se divide ao longo de ampla variedade de linhas ― evangélica, reformada, carismática, fundamentalista, liberal e assim por diante ― enquanto dentro de cada uma destas amplas divisões existem dezenas de linhas denominacionais que geram mais separações. Qualquer unidade mostrada é geralmente apenas na forma de declarações simbólicas. O sentimento de competição, infelizmente, é amiúde mais evidente.

15      Apreciamos ter tido também pelo menos algumas pessoas que não foram Testemunhas de Jeová comparecendo a muitos dos debates bíblicos em nosso lar.

16      Em Atenas, Grécia, os que participam de reuniões nos lares ― ex-Testemunhas e outros que eram Testemunhas ― chegam a atingir normalmente até sessenta pessoas.

17      Atos 8:26-39.

18      Romanos 10:9, 10; 1 Pedro 3:21, 22.

19      Atos 9:17, 18; 10:44-48; 16:14, 15, 25-33.

20      Meus sentimentos aqui correspondem aos expressos em A Question of Conscience, no qual o autor, Charles Davis, escreve (página 22): “Quando me perguntavam sobre como me sentia por estar fora da Igreja Católica Romana, eu me via espontaneamente respondendo: é como se eu tivesse voltado a fazer parte da raça humana.” Senti o mesmo quando desliguei-me da organização Torre de Vigia. Davis, poém, continua dizendo: “Não quero que me entendam mal. Conheci grande generosidade e amor entre os católicos. . . . Não me considero separado dos católicos como pessoas cristãs. Não estou, portanto, desprezando os católicos como pessoas individuais . . . Conheço-os como pessoas muito boas, mas que lutam em grande desvantagem . . . dentro dos limites da sua igreja.”

21      Dr. Bruce Shelley, professor de História da Igreja do Seminário de Denver, em seu livro História da Igreja em Linguagem Clara (em inglês), página 62.

22      Como já vimos, o termo “sínodo,” usado para descrever os concílios religiosos, traz como ums de suas definições a de “corpo governante.” Veja a página __.

23      Confira Marcos 7:1-8.

24      João 4:23, 24.

25      Christian Doctrine, Shirley C. Guthrie, Jr., (John Knox Press, Atlanta, 1968), páginas 381-383. O autor é professor de teologia sistemática no Seminário Teológico de Columbia, com doutorados no Seminário Teológico de Princeton e na Universidade de Basiléia, Suiça.

26      João 1:1, 18.

27      Um homem, por exemplo, partilha da humanidade tanto quanto seu pai, humanidade plena. São ambos da mesma natureza. Não são da mesma substância ou do mesmo ser. A discussão durante os primeiros séculos da era cristã não girava em torno da questão quanto ao Filho ser da mesma natureza que o Pai, pois sua divindade era aceita. A disputa, que continuou por séculos, geralmente muita acirrada, era quanto a se ele era da mesma substância ou ser (grego, homoousios) que o Pai, ou, em vez disso, de igual substância e ser (grego, homoiousios). ― Veja The International Standard Bible Encyclopedia, Vol. IV, páginas 918, 919; The Rise of Christianity, W. H. C. Frend, páginas 538-541; Jesus Through the Centuries, Jaroslav Pelikan, páginas 52, 53, 62, 63.

28      Outras religiões não-trinitárias incluem os unitários, os cristadelfianos, a Igreja de Deus (Fé Abraâmica) e outros grupos com menos adeptos.

29      Obras de referência apresentam a doutrina como tendo sido basicamente edificada no Credo Atanasiano, envolvendo o uso e a compreensão de termos como “essência,” substância,” “natureza,” “hipóstase” e “pessoa” (dos quais “natureza” é o único termo que de fato aparece nas Escrituras). A Reforma Protestante manteve em seu todo a doutrina conforme ensinada pela igreja católica, mas tem havido diferenças segundo a denominação. Estas giram em torno da “encarnação” de Jesus e de explicações divergentes quanto a como ele pode possuir simultaneamente a natureza humana e a divina (chamada de “união hipostática”).

30      The International Standard Bible Encyclopedia, 1988, Wm. B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, Michigan, Vol. IV, página 914.

31      Outras obras eruditas sobre o assunto usam expressões semelhantes a “materiais de construção,” tais como “sementes” ou “germe (no sentido da germinação)” da doutrina, ou “linhas” básicas da doutrina. Estas expressões todas tornam evidente que, na visão dos que as usam, necessitava-se de interpretação para converter as “sementes” ou o “germe” ou os “materiais de construção” ou “linhas” em doutrina explícita.

32      Tanto antes como depois da citação feita, Brünner refere-se repetidamente à doutrina como uma “reflexão teológica,” uma criação da Igreja, não uma “kerygma (proclamação)” bíblica. Embora expressando a crença de que a “reflexão” seguia “linhas” bíblicas, ele afirma repetidamente que a “especulação” desempenhou um grande papel na formação da doutrina. ― The Christian Doctrine of God, páginas 206, 217, 222, 226, 236, 237, 239.

33      Vimos que o termo “ortodoxo” tem o sentido básico de “ensino correto” mas passou a representar o ensino que traz a aprovação da autoridade eclesiástica. Da mesma forma, “dogma,” em grego, tem o sentido básico de “o que parece estar correto,” mas passou a representar um princípio ou código de princípios aprovado pela autoridade religiosa. “Dogmatismo” representa a certeza na asserção de opiniões, especialmente quando injustificável ou arrogante. Se um ensino é claramente exarado nas Escrituras, ele justifica que o aceitemos como ensino correto, doutrina verdadeira, algo que podemos afirmar e ao qual podemos nos apegar com confiança. Quando tal fundamento é questionável, porém, a insistência no ensino constitui dogamtismo.

34      Brünner, de fato, expressa a opinião de que tal questionamento tem uma causa lógica. Ele diz: “Os termos usados no Credo Atanasiano, e a partir desta fonte incorporados à doutrina tradicional da Trindade ensinada pela Igreja, ‘una substantia, tres personae’ [uma substância, três pessoas], devem de início nos parecer estranhos. Que espaço há na teologia cristã para a idéia de ‘substantia’? De fato, ela representa essa aberração intelectual que troca a linha de pensamento oriunda da revelação pelo raciocínio especulativo e intelectual.” (Página 227) Ele acrescenta: “Mesmo a idéia de ‘Três Pessoas’ deve ser considerada com apreensão. É realmente impossível entendê-la de outro modo que não um sentido triteísta, mas é difícil tentar evitar esta interpretação.” Ele torna assim evidente que, embora seja fácil dizer que “cada uma das Três Pessoas é Deus e no entanto não há Três Deuses mas Um só,” não é possível pensar nesses termos e os esforços de fazer isso resultam em pensar em três Deuses. Depois, falando da “pedra de tropeço do pensamento” que a doutrina pode representar, ele afirma: “É, portanto, compreensível que foram exatamente os teólogos cujo raciocínio é totalmente controlado pela idéia da Bíblia que tiveram pouca simpatia pela doutrina da Trindade. Penso aqui em toda a escola de teólogos ‘bíblicos.’” (Página 238).

35      Atos 20:32, ARA.

36      Mateus 7:7-11.

37      Lucas 10:21, BJ.

38      1 Coríntios 1:26-31, BJ.

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