A RESPOSTA DOS MACACOS


Há 90 anos atrás alguém fez o favor de tentar proibir a entrada de certos bichos na floresta do futebol gaúcho. Disseram que não podia, que o jogo de bola seria privilégio de poucos e fim de papo. Inconformados os bichos vestiram vermelho e branco e fizeram um time em que todos poderiam participar. Assim nasceu o Inter, condenado a ser eternamente o clube do povo do Rio Grande do Sul. 
Construído pela mesma torcida alegre e festiva que assiste o século terminar com o seu time impondo uma supremacia direta, absoluta e crescente na selva gaúcha, o Inter consolidou-se como time dos pretos, vermelhos, amarelos e brancos; de todas as cores. É o time dos elefantes, dos dinossauros, dos jacarés, dos macacos, dos chupa-cabras e dos morcegos; de todos o bichos do mundo. 
Vencido de todas as formas no jogo que queria jogar sozinho, o adversário tentou menosprezar os chimpanzés e sua turma. Ledo engano. O tiro saiu pela culatra e a pretensão de hostilizar os alvi-rubros, como se houvesse qualquer problema na origem plural, simples e florestal do povo vermelho, na verdade transformou-se numa homenagem, motivo de orgulho a toda nação colorada. 
Imitar o gesto de gorilas pulando sem parar nas arquibancadas; pendurar o boneco de um negãozinho vestindo a camisa do Inter; oferecer bananas aos colorados no estádio; chamar o Beira Rio de maior árvore do mundo ou de planeta dos macacos, são atitudes que fazem a alegria do povão vermelho. Não só aceitamos como não abrimos mão desta condição: nós somos os macacos. Uma criativa e inteligente resposta às provocações foi inaugurada pela torcida colorada no famoso Gre-Nal dos 5. 
Naquele domingo, diante de uma goleada que por certo ficará engasgada por muito tempo na alma de toda uma geração de torcedores do rival, os colorados celebravam de forma extasiante sua alegria. Proporcionavam aos presentes e aos espectadores de todo o Brasil que acompanhavam pela TV um espetáculo fantástico, único e insuperável. Pulavam sem parar, e do coração da floresta de pedra ouvia-se um grito uníssono, vigoroso e estremecedor. A resposta vinha do fundo da alma dos macacos, rasgando seus pulmões, atravessando suas gargantas e passando pelas mãos em concha para explodir no ar. Numa intensidade poucas vezes ouvida naquele bosque os primatas enlouquecidos bradavam em alto e bom som; arrepiando de emoção os pêlos de toda a tribo e alucinando sem piedade o inimigo indefeso: 

"Ah!!! Eu sou macaco!!!" 
"Ah!!! Eu sou macaco!!!" 


Sandro Santos Farias 

 

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