O COLORADO DAS RUAS DA CAPITAL



Certa vez estava de visita à Porto Alegre e caminhava desinteressado pelas suas ruas quando conheci um menino... Um menino de rua, como tantos outros que habitam suas ruas. Ele se chamava João, mas poderia se chamar José, Christian, Jair, Anderson, ou mesmo André. 
Seu esporte preferido era o futebol. Seu sonho? Ganhar uma camiseta do seu time... "O Colorado..." como respondia entusiasmado quando lhe perguntavam de seu time. 
Aprendera a gostar do Colorado na rua mesmo, pois nada lembrava de seus pais, como eram ou pra que time torciam... 
João foi pra rua cedo, aos sete anos, fugindo do álcool e das drogas que dominaram sua casa. Dos seus primeiros dias de rua lembra apenas das palavras do Craque: "Olha, tu pode fazer parte da minha família, mas, daqui pra frente tu vai torcer pro Colorado!" Craque era um garoto bem mais velho, 8 anos mais, que o adotou na rua... Era assim que fazem pra sobreviver... Cada garoto mais velho adota alguns meninos e meninas novos, e os trata como filhos. Craque, que nunca revelou seu nome verdadeiro, era o que o nome afirmava, bom de bola... Mas, isso já é outra história. 
Desde então, Craque passou a ser seu pai e seu herói. Os primeiros furtos para garantir o pão... os banhos no cais do porto... tudo isso, sob a proteção do Craque. 
João confessou que nas primeiras vezes que o Craque lhe falou do Colorado, não entendeu o que era o tal 'Colorado'... Mas, da maneira apaixonante como o Craque lhe falava do Colorado, era impossível não amá-lo e não ser também um Colorado. 
Quando João foi pra rua e conheceu Craque, tinha apenas 7 anos, era o ano de 1992, e algo interessante e inesquecível estava por acontecer... 
João nem conhecia bem sua paixão, mas interessava-se sempre pelas novidades. Sempre perguntava ao Craque: "Como está o Colorado? Ele ganhou?" Se o Craque lhe respondesse que o Colorado ganhou, a pergunta imediata era: "E então, já é campeão?" A resposta era, invariavelmente, um leve balançar de cabeça, negativamente. 
Até que chega o dia 13/12/1992, a grande decisão. Craque levou toda sua família de rua para os portões do Estádio. Mas, é claro, não poderiam entrar. Craque queria apenas ouvir o barulho do grande público que lotava e lutava lá dentro. Pelo rádio, sofreram durante todo o tempo. Até que o narrador dá um grito: "Penalti! Penalidade Máxima!" Craque não quis nem ouvir o restante... Já vibrava e comemorava. 
João não... João precisava ouvir. Sua paixão precisava ouvir o grito de gol. E assim foi. "Gooooooooooooollll!" E toda a família, de fora e de dentro do estádio, vibravam com o gol e com o Título. 
João me contava que, apesar de todo o sofrimento, nunca se arrependeu da escolha que fez. Se sentia muito feliz em ser Colorado, e que se via sempre na foto do mascote do Colorado. "Sou negro como ele", dizia João. 


André Luis Bender, São Paulo, 24/08/1999 

 

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