CARTA A UM COLORADO


Meu caro Colorado. Desculpe esta carta a céu aberto, é que não sei nem seu nome, nem seu endereço. Na verdade, só vi você na rua, de mãos dadas com seu pai e cercado pelos seus irmãos, que vestiam a camisa do gremio (suponho que fossem seu pai e seus irmãos). Você estava com a camisa do Internacional. Quase parei o carro para olhar melhor, mas não era miragem. Você tinha uns quatro ou cinco anos e estava de camiseta vermelha! Seu pai vestia camisa civil, exemplarmente neutra, mas posso imaginar como tem sido a sua vida em casa. As provocações, os petelecos, a flauta, o martírio. E lá estava você de camiseta vermelha, o antigo escudo orgulhosamente no peito, desafiando todas as provocações. Não sei se você sabe que vários Colorados da sua geração não aguentaram e trocaram. Levaram pais e avós ao desespero, mas não suportaram a pressão do sucesso gremista. Você aguentou. Você não sabe, mas é um herói. E fiquei pensando que, quando for a nossa vez de novo teremos certamente a torcida mais dedicada, fiel e convicta do Brasil. Porque será a torcida dos que resistiram. Agüente só mais um pouco. Talvez seja só um ano, quem sabe? Meus respeitos.

Luís Fernando Veríssimo

 

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