V   e   r   b   o

 

Violência Gratuita

 

           

Cada vez mais a violência invade nossas residências. Seja pela televisão, seja pelos jornais e revistas, pelos vídeo-games ou até pelo bate-papo no bar após o trabalho. O fato é que ela sempre foi alvo de discussão e fascínio do ser humano, e não é raro termos a impressão que ela vem aumentando dia após dia. É só o que ouvimos falar. Assassinato aqui, seqüestro ali. Aconteceu com um conhecido. Foi nesse bairro. Parece estarmos vivendo numa realidade caótica onde o cidadão tem medo de sair da própria casa. Será que, apesar de tantos crimes sendo noticiados, a violência aumentou desproporcionalmente ao avanço da sociedade?

            No Brasil, a cada 100 mil habitantes, 22 são mortos por armas de fogo, de acordo com pesquisa feita pela Unesco, órgão da ONU para cultura e educação. É um número bastante alto. Na verdade o 2º do mundo, perdendo apenas para Venezuela. Mas a violência não se expressa somente em homicídios. Na Inglaterra adolescentes se divertem esbofeteando estranhos e filmando em seus celulares para depois divulgar na Internet. A considerada brincadeira é na verdade uma maneira bizarra que os jovens encontraram para matarem sua sede por violência.

            Alguns especialistas dizem que essa vontade é proveniente do contato com a violência proporcionado pelos meios de comunicação, em especial a televisão. Maria Ângela Barbato Carneiro, especialista da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo diz que “As crianças aprendem por imitação. Quanto mais violência elas assistirem, maior a tendência de ter um comportamento violento”. Valdemar Setzer da Universidade de São Paulo é um pouco mais radical ao dizer que “A violência na TV e nos games aumenta a agressividade a curto, médio e longo prazos. Numa situação de stress o jovem pode reproduzir as ações guardadas em seu subconsciente”.

            Sabemos que realmente a televisão influencia a vida das pessoas, pois vemos por exemplo pessoas comuns, sem nada de interessante para mostrar, virarem heróis de audiência em Reality Shows. Ou então ao percebemos que desde que começou a novela América, o número de brasileiros detidos justamente na fronteira do México com os Estados Unidos, por tentarem entrar ilegalmente, subiu mais de 98%. Porém, também sabemos que o ser humano é dotado de livre arbítrio, e cometer um ato violento parte de sua própria vontade.

            A professora Lynn Alves, da Universidade Estadual da Bahia diz que “As pessoas tendem a generalizar tudo como ruim, mas só quem já tem algum problema psicológico vai transpor para o mundo real o que se faz na tela”, e acredito que ela esteja certa. O problema é que existem pessoas com problemas psicológicos que tem acesso a essa violência gratuita. Em 2003, o jovem americano Devin Moore roubou um carro, atropelou um policial, roubou sua arma e matou mais dois policiais. Ao se defender no tribunal o rapaz alegou estar influenciado por um jogo de vídeo-game. E esse é apenas um dos muitos casos em que o acusado diz ter sido influenciado.

            Alguns dizem que a censura seria a melhor solução. Proíbe-se a veiculação de violência na TV e cinema e tudo estaria resolvido. Mas então estaríamos pecando com as pessoas que gostam de assistir à violência exatamente por ser fictícia. O presidente do Superior Tribunal da Justiça, ministro Edson Vidigal, disse que considera “uma violência proibir alguém de se manifestar”, que condena todo e qualquer tipo de censura por considerá-la “muito perigosa para democracia”.

            De acordo com Paz Gomes em seu texto Mídia e Violência, existe um efeito comportamental chamado Desensitization, ou insensibilidade, no qual os telespectadores tendem a ficar acostumados com o que vêem na TV e passam a querer sempre em um grau maior. Por isso o mundo parece tão violento. Mostraram tantas notícias ruins por tantos anos que a sociedade não se contenta com o ladrãozinho de esquina, quer ver o Serial Killer. E ao vê-lo na TV passa a acreditar que ele pode estar em qualquer lugar. Até se acostumar com o tal do Serial Killer. Cria-se um círculo vicioso.

Dessa maneira, só podemos chegar à conclusão de que a única maneira de impedir que a violência se difunda através dos meios de comunicação, sem prejudicar a liberdade de expressão, é balanceando a programação com filmes, jogos e programas que defendam a vida, a felicidade e as boas intenções.

 

 

                       

BIBLIOGRAFIA

 

            PINHO, Claudia. Entre o Bem e o Mal. Revista Isto É, pp. 42-43, São Paulo, 06/04/2005

 

BADÔ, Fernando. Com Celulares, Jovens Filmam Violência. Jornal Folha de São Paulo, pp. F6, São Paulo, 18/05/2005

 

ZANINI, Fábio. Brasil é o 2º em Mortes por Arma de Fogo, Segundo Ranking da Unesco. Jornal Folha de São Paulo, pp. C3, São Paulo, 06/05/2005

 

GOMES, Paz.  Mídia e Violência. Monte Serrat, Santos, V.2, n.2, 2001, 68p.

 

MACHADO, Uirá. Presidente do STJ Diz que Censura é Violência. Jornal Folha de São Paulo, pp. A11, São Paulo, 07/05/2005

 

MUNHOS, Airton Barros. Big Brother ou como Ganhar o Mundo pela tela da TV. Jornal Cruzeiro do Sul, pp. B4, Sorocaba, 03/04/2005

 

MAISONNAVE, Fabiano. Globo Nega que ‘América’ Estimule Migração. Jornal Folha de São Paulo, pp. A14, São Paulo, 06/05/2005

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