V   e   r   b   o

 

Felicidade x Consumismo

 

           

            Dizem que eu sonho demais. Que não se pode mudar o mundo, que ninguém tem força para tal, e mesmo se tivesse me encontraria sozinho.

            Sozinho eu sei que não estou. Sei que muita gente pensa como eu. Sei que muita gente está cansada dessa vida hipócrita. Cansado de engolir as mentiras que a televisão nos vende. Que a gente compra.

            Somos manipulados sutilmente todos os dias até virarmos viciados dependentes. Dependentes de uma falsa ideologia de felicidade. Compramos e sorrimos, pagamos e sorrimos, ganhamos e sorrimos; e passamos a acreditar que foi isso que nos trouxe a felicidade, que foi o carro, o som, o pneu da bicicleta. Afinal de contas foi isso que a TV nos fez acreditar,

            É tempo de refletir e buscar as fontes da verdadeira felicidade, a qual é obtida através da realização pessoal, desde as mais pequenas. Dessa maneira podemos entender que sempre que fazemos algo que gostamos ficamos realizados e assim nos enchemos de felicidade. Estendendo esta idéia entendemos que se outra pessoa fizer aquilo que gostamos ficaremos também realizados, e mais uma vez sentiremos a sensação de felicidade.

            Logicamente o contrário se aplica. Ninguém se sente realizado ao fazer ou ver algo de que não gosta. Não há nem o que se comentar.

            Então é fácil entender porquê uma dona de casa fica feliz ao comprar uma lava-louças em 12 vezes sem juros. Não é pela lava-louças, nem pelo preço. É pelo fato de ela se sentir realizada por ter o direito (dinheiro dá “direitos”) de ter algo que vá facilitar a sua vida, em outras palavras lhe fazer um bem. Mas a mídia continua insistindo que a felicidade não vem de dentro da gente, que vem da maldita lava-louças ou do falso preço baixo. E a gente acredita, queira ou não queira.

            Eu mesmo várias vezes caio na tentação do consumismo sem perceber. Fico contente na hora da compra e pareço até realizado, mas ao chegar em casa noto que pode ter sido algo desnecessário ou exagerado e me arrependo. Não é fácil escapar. Se todo lugar que você olha está escrito que pra ser feliz você precisa do refrigerante, você acaba acreditando. E pior, mesmo arrependido você experimenta o refrigerante e descobre que ele é bom mesmo, e vicia-se sem perceber.

            Por isso não podemos esquecer que o que traz a felicidade são as realizações pessoais e não os bens de consumo. Todos podemos nos sentir realizados através da compra de um produto, mas devemos saber como nos sentir realizados sem precisar comprar. Sem que o produto seja mais importantes do que nós mesmos.

            Dois caminhos: ou você deseja tudo o que vê sabendo que tudo ninguém pode ter e por isso fica feliz sem o produto, que ao meu ver é o caminho mais difícil; ou você não deseja nada e fica feliz sem nada, que ao meu ver é o caminho mais difícil.

            Sim, existe um caminho intermediário que é o bom e velho equilíbrio da balança, o qual pode ser seguido pelas pessoas que sabem o que querem. Você tem que ter controle da balança. Se ela pender para um lado ou para o outro foi porquê você deixou isso acontecer, e por isso deve se sentir por ter realizado uma vontade própria. Em outras palavras, ao desprender-se da mídia, não importa mais se você comprou ou não comprou o celular do momento, você fez o que fez porquê realmente quis, e dessa maneira se sentiu verdadeiramente realizado e foi atingido pela mais pura felicidade. A realização, sendo pequena, quando faz parte do nosso querer, da nossa vontade, faz com que o retorno seja muito mais compensador.

            E pensando assim eu sigo, garantindo que me sinto muito melhor ficando feliz a maior parte do tempo. E não posso deixar de pensar: se funciona para mim pode funcionar para outros; e se funcionar para outros, mesmo que poucos, talvez possamos mudar o mundo.

 

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