V   e   r   b   o

 

Espelhos

 

          

            Gostava de ser chamada de Claire. Nascida em Paris, passou a vida inteira morando em um antigo palacete afastado da cidade. Quando criança passava as horas brincando sozinha nos jardins da mansão, vez ou outra parando para ver os aviões que decolavam e aterrissavam em Charles de Gaulle. Tornou-se adolescente portando uma beleza digna a uma princesa. Dentro de si, porém, apenas solidão.

            Perdeu os pais em um acidente aéreo antes mesmo dos 16 e assim herdou a mansão da família. Por muitos anos ninguém visitou aquela casa, apenas os empregados continuavam com seus afazeres. Ocasionalmente, trancada em seu quarto, Claire conversava com Marie, sua irmã, que jamais saíra de dentro de casa por ser muito feia e temer o comentário das pessoas.

            Aos 25 anos Claire resolveu, por insistência da irmã, voltar a fazer parte da vida elitista parisiense, passando a realizar festas e eventos todos os finais de semana para o mais alto escalão da sociedade. Eram convidados duques, barões, executivos de grandes empresas, políticos, e quem mais fosse digno de ser convidado pela descendente direta de tão honrosa família.

            Dinheiro ela tinha de sobra, espalhado pelos mais diversos bancos do mundo. Nas festas, sempre o melhor dos champanhes, pratos finos servidos a cada duas horas e decoração importada da Grécia. O auge da ostentação. Seu corpo era coberto pelas mais diferentes jóias, todas lindas e caríssimas, para que pudesse refletir toda sua riqueza e sua beleza. A única coisa que parecia lhe incomodar era o incessante barulho dos aviões sobre suas cabeças.

            No quarto, sua irmã Marie lhe falava:

            - Você precisa logo encontrar um marido. Uma mulher bonita como você consegue até se casar com o filho do curador do Louvre, ou o sobrinho do Barão de Lavoisier. Sabes muito bem que dinheiro não basta, é preciso ter poder.

            - Mas eu nem conheço eles – dizia Claire – E se eles não gostarem de mim?

            - Não seja tola, veja a casa de nossa família, nossas contas bancárias. Qualquer um com o mínimo de bom senso se casaria com você.

            - E por que não se casa você então, que tanto deseja isso pra mim? – dizia indignada.

            - Ah meu anjo – respondia a irmã Marie, virando o rosto – se ao menos eu tivesse sua beleza... Mas, isso a gente não pode mudar. Saia já desse quarto e vá conversar com nossos nobres convidados. Lembre-se que papai e mamãe sempre sonharam em te ver casada. Vá.

            E assim Claire escondia suas emoções debaixo de um véu de mármore e saía do quarto com expressão inalterada. Debaixo dessa frieza a dor de alguém que não conseguia contrariar a irmã. Afastava de si qualquer pensamento que lembrasse das tantas vezes que Marie lhe atormentara, e sorria para os convidados. Se ao menos seus pais estivessem vivos. Nada disso era assim naqueles tempos.

            Muitas festas se passaram e o filho do Conde de Gessié, o jovem Jaques, começou a passar as tardes em companhia de Claire. Os dois conversavam muito. Ele era formado em direito e ficava horas falando sobre as burocracias da prefeitura de Paris e de como os políticos eram corruptos. Ela só ouvia. Não entendia nada do assunto e também nem queria. Não sentia a atração que Jaques sentia por ela, mas a sua presença era muito melhor do que a da irmã, que só sabia falar sobre casamento e sobre como sua vida era ruim por ter nascido feia. Ao olhar para janela do quarto via o semblante de Marie a lhe vigiar.

            Certo dia, bem no meio do jardim, como se fosse previsível, Jaques ajoelhou-se:

            - Claire, já estamos nos vendo há algum tempo e acho que agora seria a melhor hora para oficializarmos nosso relacionamento. Já acertei com o padre a data. Estaremos nos casando em apenas 3 meses.

            - Você não entende – dizia alterada – Eu não quero me casar com você. Eu não quero me casar com ninguém.

            - Então por que as festas? Por que o flerte?

            - Por causa da minha irmã... Ela me quer casada.

            - Irmã? – perguntou Jaques, surpreso – Você tem uma irmã?

            - Sim. Ela fica trancada no meu quarto pois tem medo de sair em público. Ela tem o rosto deformado, e quer que eu me case a qualquer custo.

            - Não é possível. – disse Jaques – Ninguém pode ser obrigado a se casar. Nem mesmo as famílias mais tradicionais devem pensar assim hoje em dia. Eu vou subir ao seu quarto conversar com ela.

            - Não! – disse Claire em desespero – Ela jamais me perdoaria se eu deixasse você entrar no quarto.

            - Deixe de bobagens Claire. Vou falar com ela agora.

            E saiu caminhando com passos fortes em direção ao quarto. Claire implorando para não ir. Abriu a porta do quarto e entrou de solavanco. Silenciou-se ao correr os olhos pelo quarto. Não havia ninguém lá.

            Claire chorava baixinho, soluçando. Não ousava erguer a cabeça e encarar o quarto. Jaques, que não estava entendendo nada, deu alguns passos pra fora do quarto.

            No mesmo instante a porta se batera atrás dele e gritos de dor e ódio passaram a ecoar de dentro do quarto. Pareciam pássaros esganiçados gritando em meio a um casamento grego. Jaques desesperado começa a chutar em vão a pesada porta de carvalho. Alguns empregados que também ouviram os gritos começaram a tentar arrombar a porta até que alguém desceu ao quintal e trouxe um machado. Jaques acertava a porta com toda sua força enquanto Claire gritava desvairadamente. Apenas mais algumas machadadas e a porta se abriria, quando os gritos cessaram.

            Jaques terminou de derrubar a porta. Lá dentro, a imagem do terror refletiu em seus rostos ao verem Claire deitada, com o braço caído fora da cama, o rosto todo cortado e ensangüentado de tanto bate-lo contra o espelho. E para o espelho ela olhava fixamente repetindo “Morra Marie! Morra”.

            Enquanto Jaques olhava abismado, alguns empregados começaram a arrumar a bagunça enquanto outro, mais velho, falava com ela:

            - Venha Marie Claire. Chega de espelhos por hoje. Está na hora do seu remédio. Vamos…

 

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