V   e   r   b   o

 

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            É meus amigos, ao olhar pra trás vejo que fui um homem de sorte, mas nem sempre foi assim. Para falar a verdade eu era o cara mais azarado que conhecia. Tudo o que podia acontecer de errado comigo acontecia. Até o que não podia acontecer acontecia. Como certa vez que me roubaram a carteira e compraram uma televisão novinha com meu cartão de crédito. Cancelei o cartão e alguns dias depois apareceram dois brutamontes uniformizados na minha casa para buscar a TV. Na dúvida levaram a minha mesmo. Roubado duas vezes. Na época eu achava normal.

            Tão normal que nem me preocupei quando fui raptado por uma tribo indígena durante uma excursão pela Amazônia. Se alguém fosse raptado, esse alguém seria eu. E não deu outra. Me arrastaram através da floresta por várias horas, encontrando vários contratempos pela mata, até perceberem que eu era a causa de tanto azar para a expedição.

-         Homem branco ter magia forte! Homem branco matar índio com magia do mal.

-         Magia? Não! Nem quero matar ninguém, não! Mas não consigo controlar.

-         Homem branco mentiroso. Enganar índio para roubar terra.

-         Que terra? Eu moro em São Paulo, tava só passeando. Não quero roubar nada.

-         Mim não gostar de mentiras – bradou o índio enraivecido – Mim sentir magia ruim em homem branco. Pajé da tribo dar jeito em homem branco.

            Àquela altura, eu já estava imaginando se seria melhor ser cozido ou comido vivo. Do jeito que era azarado poderia acontecer os dois. Foi aí que apareceu o tal Pajé.

-         Tatua caba anhangaba pira cucuia.

-         Olha, só não põe cebola que eu sou alérgico e vocês vão comer uma carne toda empipocada.

-         Oba atabaque quéchua pira caia porá.

-         Tudo bem, mas que seja um de cada vez pois não há bunda que agüente.

-         Quieto homem branco! – disse o índio bravo que me trouxe à tribo – Pajé dizer que homem branco não ter culpa do mal. Feitiço em homem branco alguém jogar. Pajé curar com ayhuasca e cogumelos.

            Olhei de novo para o Pajé e ele estava mascando umas raízes e cuspindo-as em uma tigela enquanto cantarolava mais daquelas palavras estranhas. Colocou a tigela em minhas mãos e ficou me encarando com um olhar de pena. Só não sei se era pena da minha maldição ou pena do meu pobre paladar, pois tive que engolir aquela gosma sem pestanejar. Não deu nem tempo pra refletir. Bastaram alguns goles e eu já estava vendo fadas e unicórnios dançando pela floresta. No fundo uma música do Jim Morrison tocando me fez lembrar um livro de Willian Blake sobre as portas da percepção. A música e as duas portas de aço maciço que apareceram na minha frente. Não demorou muito para chegar a uma conclusão: Eu estava sonhando. Mas como disse Descartes, não importa a realidade mas o fato de existir nela. E já que eu estava ali e mesmo ficando parado as coisas poderiam piorar, resolvi seguir em frente.

            Em uma porta estava escrito “Essa é a porta certa”, e na outra “Não se preocupe, a vida é assim mesmo”. Como sou azarado sabia que mesmo entrando na porta certa ia me dar mal, então entrei na outra mesmo. Bastou um passo para tudo ficar escuro e eu dar de cara com o diabo em pessoa.

-         Zé! – falou o demo com sua voz estrondosa – Sabes por quê estás aqui?

-         Porque essas coisas só acontecem comigo!

-         Bem... É... Acho que sim, mas além disso.

-         Não sei.

-         Tens uma chance única de acabar com teu azar, Zé. Queres mudar tua vida?

-         O loro quer biscoitos?

-         Como?

-         Quero. Me dá o papel que eu assino logo.

-         Terás vinte anos de boa sorte. Depois conversaremos novamente.

            Quando acordei estava no meio da selva com as calças arriadas. Acho que a língua do Pajé não era tão difícil de entender afinal. Agora, quanto a veracidade da imagem do capeta, só posso lhe dizer que durante os últimos vinte anos só aconteceram coisas boas em minha vida. Pra começar ganhei R$ 100.000,00 na loteria. Conheci uma mulher maravilhosa, muito inteligente, que investiu meu dinheiro e conseguiu multiplica-lo inúmeras vezes. Nos casamos e saímos para conhecer o mundo em uma lua-de-mel sem data para acabar. Nunca fui tão feliz em toda minha vida, até hoje de manhã quando senti algo que nunca havia sentido antes: medo.

            Hoje faz exatos vinte anos que eu sonhei com o capeta. Não que eu acredite, mas por via das dúvidas me tranquei aqui no banheiro que parece seguro e comecei a escrever sobre essa história que eu nunca tinha contado para ninguém. Vai que não foi sonho e ele venha me buscar. Pelo menos vão saber da minha história. Só vou sair daqui quando...

-         Benhê! Vai demorar muito aí dentro?

-         É... Eu... Não! Por que, amorzinho?

-         Você já tá aí há duas horas, e tem um senhor na porta querendo falar com você.

-         Se for o capeta, diz que eu tô no banho.

-         Amor, acho que é algum tipo de cobrador. Ele trouxe uns papéis com a sua assinatura.

-         Ai minha Nossa Senhora. É o Demo! Manda ele embora! Manda ele embora!

-         Do que é que você tá falando? É só um senhor cobrando alguma coisa. Em poucos minutos você resolve.

-         Ele tem bigode?

-         Tem.

-         E cavanhaque?

-         Tem.

-         É ele! É ele, Marta! Ele veio me buscar! Manda ele embora! Pelo amor de Deus manda ele embora!

-         Zé, pare de ser criança e abra já essa Ahhhhh!!!

-         Marta? Martinha? Maaaartaaaa...

            Não houve resposta. Ele pegou Marta e vai me pegar a qualquer momento. Não sei quanto tempo a porta do banheiro vai resistir. Talvez essas sejam minhas últimas palavras. Só espero qu

            - Deixa que eu termino de escrever – disse o capeta com um sorriso no rosto.
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