Serotonina e Depressão
Dr. Tarcio Carvalho
A depressão é um fenômeno clínico
que se expressa na maioria das vezes através de sentimentos persistentes de
inadequação, tristeza, desamparo, pessimismo exagerado, autodepreciação, baixa
da auto-estima e um cortejo de sintomas somáticos como insônia terminal,
sensação de cansaço, falta de energia, desânimo, anorexia e perda de peso entre
outros.
O distúrbio depressivo provoca
sofrimento ao doente, à sua família e a seus amigos. Freqüentemente ela abate o
ânimo e leva ao suicídio. Pessoas deprimidas freqüentemente se afastam dos
amigos, de seus entes queridos e de ocupações e passatempos habituais, que
anteriormente lhes eram agradáveis.
A suposição de que, a exemplo do que
acontece em outras condições clínicas, o quadro depressivo possa estar
relacionado à alterações no funcionamento do cérebro,
corresponde a uma nova concepção de referencial neurobiológica
As primeiras evidências de
alterações neuroquímicas relacionadas à depressão surgiram da constatação de
que a reserpina, utilizada como hipotensor, provocava síndromes depressivos com
freqüência. em 1955, Shore e
col. demonstraram que este produto diminuía as
concentrações cerebrais de serotonina e no ano seguinte Carlsson
e Hillarp observaram que a reserpina agia do mesmo
modo em relação às catecolaminas, tissulares e que interrompiam a transmissão
sináptica. Posteriormente, Kline sugere os efeitos
antidepressivos que da Isoniazida e da Iproniazida estavam ligados ao fato de ambas serem
inibidoras da monoaminoxidade (IMAO). Esses achados e posteriormente mistos
outros apoiavam a concepção fisiopatogênica que relacionava o fenômeno clínico
depressivo a um déficit das monoaminas cerebrais. A evolução do conhecimento
nesse setor produziu vários hipóteses funcionais ora
destacando o papel da serotonina, hora o da noradrenalina como os
neurotransmissores mais envolvidos nos mecanismos neuroquimicos das depressões.
Estudos de dosagens de metabólitos de neurotransmissores no líquido cefalorraquidiano
pretenderam demonstrar a heterogeneidade bioquímica das depressões e de certos síndromes ou comportamentos associados.
À medida que se descobria a
complexidade dos sistemas de neurotransmissores; que se evidenciava a
participação de receptores específicos e de polipeptídeos
desempenhando funções cada vez mais intrincadas nos diversos processos
psíquicos, as visões iniciais cedem lugar a posições mais prudentes
considerando estes mecanismos como um fio condutor para a compreensão do
suporte bioquímico das depressões.
Nesse contexto, estudos mais
recentes têm apoiado com mais consistência o envolvimento da serotonina nos
complexos mecanismos relacionados com as depressões. Estes estudos incluem
evidencias neuroendócrinas e hipóteses sobre um desequilíbrio de receptores
serotoninérgicos. Todavia, é pouco provável que alterações envolvendo um só
neurotransmissor sejam responsáveis pela ampla diversidade de fenômenos que
caracterizam as depressões. Estamos num caminho de descobertas, em ainda de
muitas interrogações.