Programa para o Diagnóstico de Depressões: LIST-D10

 

Dr. Everton Botelho Sougey

Dr. Tarcio Carvalho

 

            A noção do diagnóstico automatizado tem se tornado uma das expectativas da nossa sociedade para o futuro. Isso tem se manifestado muitas vezes nas ficções científicas, como no filme guerra nas estrelas, onde o Dr. Mccoy introduz uma sonda em um membro da tripulação da nave espacial para saber qual o problema que o astronauta esta sofrendo. O astronauta futurista entra em uma câmara e logo após surge todo o relatório médico.

            Na psiquiatria, os primeiros programas computadorizados para diagnóstico começaram a ser produzidos justamente nos anos sessentas, época marcada por grande polêmica e pela volta do interesse em relação ao diagnóstico psiquiátrico.

Em 1968, Spitzer e Endicott nos Estados Unidos utilizam um sistema de decisão lógica para desenvolver o primeiro programa em psiquiatria para o diagnóstico, o DIAGNO, logo depois surgem vários outros programas, como o CATEGO, um sistema desenvolvido por Wing et al. para classificação dos dados obtidos pelo Exame do Estado Atual (PSE), uma entrevista estruturada para o obtenção de dados clínicos para diagnóstico na CID-8. O sistema teve grande importância  na época, e foi utilizado no Estudo Piloto Internacional da Organização Mundial de Saúde sobre Esquizofrenia. Outros programas voltados para o diagnóstico psiquiátrico utilizando métodos estatísticos como a teoria das probabilidades Bayes ou funções de análise discriminante também foram desenvolvidos, no entanto tiveram menor expressão do que os sistemas baseados em regras.

            Os recentes progressos na área de inteligência artificial e nos sistemas classificatórios e métodos de diagnóstico em psiquiatria permitiram o desenvolvimento de vários softwares na área. A maioria desses programas tinham o objetivo de auxiliar pesquisadores na sistematização e processamento dos dados coletados em pesquisas. Atualmente, com a simplificação dos programas e com o uso mais generalizado do computador na clínica, surgem alguns aplicativos para auxiliar os clínicos a realizarem diagnóstico, avaliações psiquiátricas e treinamento.

            Os sistemas especialistas fazem parte de uma área do conhecimento conhecida como Inteligência Artificial (IA) ou Engenharia do Conhecimento. IA é uma nova ciência. É um ramo da ciência da informática que trabalha com processamento simbólico, utilizando métodos não algoritmos na resolução de problemas. Atualmente, as principais áreas de pesquisa em IA são:

1. Sistemas especialistas

2. Processamento de linguagem natural

3. Reconhecimento da fala

4. Visão computacional

5. Robótica

6. Ensino assistido por computador

7. Ferramentas de desenvolvimento de programas

8. Suporte para planejamento e decisão.

            Sistema especialista é um programa de computador desenvolvido para agir como um especialista em uma área particular. Eles agem como auxiliares inteligentes para especialistas, assim como ajuda a pessoas que não podem ter acesso a um especialista. Em medicina suas aplicações tem crescido muito nos últimos anos, em aplicações  conhecidas como sistemas de auxílio à decisao médica, isto é, qualquer programa de computador desenvolvido para ajudar profissionais de saúde nas decisões  clínicas.

            A falta de "padrão ouro" de validade diagnóstica em psiquiatria tem levado à adoção de um sistema de classificação baseado mais no consenso e em convenção do que em determinantes biológicos. Os sistemas de classificação computadorizados baseados em regras parecem então serem a melhor opção para os atuais sistemas mais aceitos na comunidade médica, como o DSM-III, DSM-III-R e CID-1O, que utilizam critérios operacionais de inclusão e exclusão para realizar um diagnóstico. Sendo assim, já que os sistemas especialistas adotam as regras dos sistemas classificatórios, os diagnósticos computadorizados desses sistemas devem ter a mesma aceitação que tem os diagnósticos quando aplicados por um especialista.

                        Uma ferramenta para auxílio diagnóstico dos distúrbios depressivos é de fundamental importancia para a comunidade de profissionais em Saúde Mental. Somente após o reconhecimento da depressão é que o clínico inicia o tratamento apropriado. Vários estudos demonstraram que os quadros depressivos são freqüentemente pouco detectados pelos médicos não-psiquiatras. Esses achados foram confirmados em diversas pesquisas e artigos brasileiros. Quando são reconhecidos, geralmente é o próprio clínico quem faz o tratamento do paciente sem auxílio do psiquiatra. Os clínicos têm uma tendência a valorizar a sintomatologia ansiosa do paciente deprimido, levando à prescrição de um ansiolítico e os antidepressivos muitas vezes são prescritos em doses subterapêuticas ou por período de tempo insuficiente, o que leva a uma falsa conclusão de que o tratamento é ineficaz, quando de fato não houve um tratamento adequado para a depressão.

            A LIST-D10 representa a mais avançada tecnologia da informática para diagnóstico dos distúrbios depressivos. Seguindo a tendência dos modernos softwares, o programa é executado no avançado ambiente Windows da Microsoft, tornando sua utilização extremamente fácil e atraente. Tenta-se assim dar continuidade à evolução dessa tecnologia, possibilitando aumentar o conhecimento dos distúrbios depressivos, com maior reconhecimento desses transtornos pelos profissionais e melhora na qualidade do atendimento médico, ajudando a minimizar o sofrimento das pessoas que são acometidas de depressão.

            Em 1987 foi criado o primeiro software brasileiro para os distúrbios depressivos -- o sistema LICET-D100. Esse sistema foi baseado em trabalhos de Pull e Pichot na França e possibilitava realizar o diagnóstico de depressão em sete sistemas diferentes. Várias revistas médicas publicaram artigos sobre o tema e o Núcleo de Informática Biomédica da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) passou a divulgá-lo e comercializá-lo na forma de shareware (programa de domínio público).

            Em 1990 o sistema ganhou novos recursos. Passou a realizar diagnósticos em 10 sistemas de classificação tendo, inclusive incorporado os recentes avanços do DSM-III-R e da CID-10. Com o lançamento do ambiente Windows da Microsoft em 1990, os softwares tornaram-se mais fáceis para os usuários. Isso de deveu principalmente à interface do ambiente que utiliza mais a intuição visual do que o penoso aprendizado de manuais ou cursos. O sucesso desse ambiente foi enorme e rapidamente tornou-se um padrão para os usuários de microcomputador em todos os lugares do mundo.

            Dentro dessa perspectiva, foi desenvolvida a LIST-D10. Mais do que uma simples evolução da LICET, o novo sistema  foi totalmente reestruturado com o objetivo de torná-lo simples, rápido e bastante poderoso. O Sistema contém 127 itens do tipo sim/não, e integra os critérios diagnósticos para depressão dos seguintes sistemas de classificação: critérios de Saint-Louis para depressão primária ou secundária, RDC, critérios de Klein para depressão endogenomorfa, critérios de Berner para as síndromes axiais ciclotímicas endogenomorfas, critérios de Winokur, critérios de Newcastle para depressão endógena ou neurótica, critérios do DSM-III, do DSM-III-R e da CID-10.

            A LIST-D10 não é apenas um sistema de interesse científico. Devido à possibilidade de uso clínico e em ensino médico o programa pode ser utilizado por um grande número de usuários, desde clínicos gerais, psicólogos e psiquiatras preocupados em prestar melhor assistência a seus pacientes, até em Universidades e outras instituições afins, para pesquisa e ensino.

 

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