Modelo Clínico dos Distúrbios de Pânico

 

Dr. Tárcio Carvalho

 

 

            Durante muitos anos, os distúrbios de ansiedade com a sintomatologia aguda ou crônica, continuaram a ser oficialmente considerados como intensidades diferentes de um mesmo fenômeno e agrupados sob a denominação comum de ''neurose de ansiedade''.

            A partir das observações clínicas inicias de Sargant e Dally, a utilização de inibidores da monoaminoxidase (IMAO) no tratamento da Ansiedade fóbica passou a ser difundida.

            Segundo Klein e col. isso ocorreu provavelmente devido a idéia preconcebida de que os antidepressivos tricíclicos eram especialmente úteis nas depressões endógenas.

Klein e Fink  foram os primeiros a utilizar imipramina em pacientes ansiosos que há longo tempo apresentavam ataques de pânico. O sucesso terapêutico levou Klein  a realizar um estudo controlado, duplo-cego entre imipramina e placebo, a superioridade da imipramina foi claramente estabelecida. Começava-se assim, a demostrar que a distinção fenomenológica entre ansiedade aguda caracterizada por ataques do tipo pânico e a ansiedade crônica do tipo generalizada, expressava uma diferença psicobiológica verdadeira, com implicações específicas no tratamento. Não obstante as evidências farmacológicas sugerirem um grupo nosológico particular no interior dos distúrbios de ansiedade, as classificações oficiais mantiveram até os fins dos anos setenta uma designação única para esses distúrbios. É o caso da Classificação Internacional de Transtornos Mentais -- CID-9 -- editada em 1975 pela Organização Mundial de Saúde, que reúne sob o Título ''Estados de Ansiedade''. (300.0), cinco especificações: estado neurótico ansioso, neurose de ansiedade, reação ansiosa, ataque, estado e transtorno de pânico.

            Somente em 1978, Spitzer e col.  ao publicarem os ''Critérios Diagnósticos para uso em Pesquisa Psiquiátrica'' (RDC) descreveram pela primeira vez os distúrbios do pânico como uma categoria distinta dos outros estados de ansiedade. Esta foi uma classificação inicialmente restrita a um grupo de pesquisadores dos E.E.U.U., mas que contribuiu substancialmente para uma nova concepção nosológica em Psiquiatria.

            O reconhecimento oficial dos distúrbios do pânico como uma nova entidade clínica viria com a terceira edição do Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais -- DSM-III -- editada pela Associação  Americana de Psiquiatria em 1980.

 

            Na edição revisada do DSM-III, publicada em 1987, algumas mudanças foram efetuadas em relação aos distúrbios de ansiedade. A principal delas torna os distúrbios de ansiedade. A principal delas torna os distúrbios do pânico primários em relação a Agorafobia (distúrbio do pânico com Agorafobia e sem Agorafobia) posição  inversa da edição  de 1980. Por outro lado, reserva uma rubrica para ''Agorafobia sem história de Ataques de pânico'' Apesar de admitir a raridade desta condição em populações clínicas. Na edição de 1980. O DSM-III preconiza como um dos critérios para o diagnóstico de pânico pelo menos 3 ataques no período de 3 semanas. Entretanto, merece destaque como assinala Pereira e col. que na prática clínica encontram-se casos típicos de pânico sem a freqüência siga o preconizado neste item. O DSM-III-R reconhece esta realidade clínica e amplia este critério em dois: no primeiro (A)''Um ou mais Ataques desde o início do distúrbio'', no segundo (B) estabelece a exigência de pelo menos quatro Ataques nas últimas quatro semanas ou um ou mais Ataques desde que acompanhados de Ansiedade Antecipatória. Temos portanto, uma subdivisão dentro da própria categoria do pânico. Finalmente no que concerne ao diagnóstico, o DSM-III-R estende a lista de sinais e sintomas incluindo como freqüentes a despersonalização-desrealização e náusea-desconforto abdominal.

 

Conceito, Quadro Clínico e Diagnóstico

 

            Os ataques de pânico são considerados as principais manifestações de ansiedade patológica podendo sobrevir em vários circunstâncias como ataques isolados, ataques durante fases depressivas, durante situações de stress excessivos, em pacientes com fobias ou podem ocorrer espontaneamente pacientes com fobias ou podem ocorrer espontaneamente. Estas crises têm caráter irracional e se caracterizam por episódios agudos de intensa ansiedade psíquica (apreensão, medo, terror), acompanhadas de manifestações autonômicas (palpitações, dificuldades para respirar, dor ou desconforto pré-cordial, tonturas, tremores, suores, etc...). Estes comemorativos acompanham-se de medo de morte iminentes, de enlouquecer ou perder o controle. Geralmente o paciente procura reagir defensivamente a esta circunstância procurando sair do local onde se encontra para um lugar onde se encontra para um lugar onde possa melhor respirar ou solicitar ajuda (cônjuge, vizinhos, amigos, parentes, médico). As vezes o paciente não é capaz de incriminar uma razão psicológica relacionada á crise, ainda que possa ser precedido de um trauma psíquico ou de um grande período de fadiga excessiva, que possam ser relacionados como fator desencadeante. Ainda que o paciente, em geral recupere-se uma vez passado o primeiro ataque de pânico, outros se produzem mesmo que o fator supostamente predisponente tenha sido eliminado. Os ataques surgem de maneira inesperada, duram minutos, raramente horas, talvez com menor freqüência quando o paciente estiver calmo e tranqüilo em seu próprio lar, embora ele nunca possa se sentir completamente seguro.

            Logo se desenvolve uma ansiedade secundária ou intercrítica de gravidade progressiva e mais duradoura, isto é, o temor de sofrer novas crises. Em determinadas situações, por exemplo, ao se encontrar entre uma multidão ou em uma loja, ou nos transportes urbanos, etc..., ansiedade secundária torna-se particularmente intensa. Se o paciente é incapaz de fazer frente a essas situações e procurar evitar o problema, sobrevem a agorafobia. Este termo tem sua origem na Grécia antiga referindo-se ao santuário construído em Atenas para homenagear Pã. Situado ao ar livre e evitado por pessoas que tinham medo (phobos) de freqüentar lugares públicos (agora) . Atualmente, a agorafobia tem seu conceito amplificado não limitando-se á fobia de grandes espaços abertos mas também abrangendo o medo irracional de abandonar o ambiente familiar acompanhada de um intenso sentimento de desamparo quando fora deste ambiente (geralmente a própria casa). Assim, o paciente evita ficar só ou em lugares públicos considerados inseguros para o caso de sobrevir um ataque.

 

Epidemiologia

 

            A quantificação da prevalência dos distúrbios do pânico está diretamente relacionada com os critérios diagnósticos utilizados. Estados patrocinados pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, utilizando os critérios do DSM-III fornecem uma estimativa de prevalência entre 05 e 1 % . Transportando esses índices para nosso população teríamos no Brasil cerca de 130.000 pessoas acometidas de distúrbio do pânico.

            Segundo Caetano o ataque de pânico pode ocorrer em qualquer período da vida da infância á meia idade por tanto adultos jovens, cujos distúrbios podem trazer sérias conseqüências para o desenvolvimento profissional e pessoal Costa e Silva e cols. em estudo com 508 casos de pânico, encontrou 70% dos pacientes numa faixa etária entre 20 e 40 anos. O distúrbio do pânico é mais freqüente em mulheres. Caetano encontrou em nosso meio uma proporção de 2,5 mulheres para cada homem. Em outro estudo o mesmo antes determinou uma relação de 4,5 mulheres para cada homem. Em relação a outros dados epidemiológicos como cor, profissão, sócio-econômica os estudos sugerem ser o distúrbio do pânico uma patologia que encontraram maior incidência em pacientes de cor branca, boa educação  e classe sócio-econômica média, foram condicionados pelo processo de seleção.

 

Diagnóstico Diferencial

 

            O distúrbio do Pânico por seu componente ansioso com as diversas manifestações autonômicas, requer ser diferenciado de outras afecções mentais e físicas em particular porque ao longo de suas evoluções podem sobrevir manifestações semelhante.

            Devemos procurar efetuar o diagnóstico diferencial do distúrbio do pânico com: Feocromocitoma, hipertiroidismo, alterações do ritmo cardíaco, isquemias agudas do miocárdio, crises epilépticas com manifestações afetivas e autonômicas, hipoglicemia, uso de drogas, síndrome de abstinência e outros transtornos físicos.

 

Evolução

           

            Sabemos que os estudos de follow-up para os distúrbios do pânico são ainda pouco freqüentes e naturalmente pela própria evolução conceitual desta afecção muito ainda existe a ser investigado e esclarecido.

            Quando do surgimento do primeiro ataque de pânico, a referência de ter sido precedido por um fator apontado como desencadeante, as crises subseqüentes ocorrem sem nenhum envolvimento com situações de stress e até mesmo de ''aparente tranqüilidade". Após as primeiras crises o paciente em geral reforçado pelos familiares procura uma explicação física para o problema, consulta vários especialista e realiza diferentes exames complementares, chegando mesmo até a efetuar tratamentos. Diante do insucesso destas tentativas o paciente procura um auxílio psiquiátrico/ Psicológico. Devemos também lembrar que alguns pacientes procuram repetidas vezes pronto-socorros ou serviços de urgências cardiológicas quando a crise é iniciada neles chegando o pico dessa já tem passado recebendo geralmente além de uma medicação  tranqüilizante o parecer de que nada de anormal do ponto de vista físico foi encontrado.

            O paciente passa pois a temer o surgimento de novos episódios gerando uma ansiedade antecipatória. Tal fenômeno propicia o desenvolvimento de comportamentos de evitação fóbica que não mais limita-se aos locais ou circunstâncias em que o paciente apresentou o episódio de pânico, estende-se a lugares e situações interpretadas e sentidas como de risco, pois dificultariam seu pronto atendimento caso sobrevenha um novo ataque de pânico. Com o evoluir do tempo estes pacientes podem desenvolver agorafobia, porém nem todos os pacientes com Pânico desenvolvem agorafobia.

            Uma vez o distúrbio do pânico instalado seu curso tende a ser contínuo e flutuante. Porém alguns pacientes referem no passado já terem apresentado episódio de pânico mas numa frequência que não justificou a procura de cuidados médicos. Por outro lado, o período pre-mestrual e stress emocional são considerados fatores agravantes. Entretanto, a gravidez tem um papel protetor propiciando a melhora ou abolição mesmo que temporária das crises. Apesar da ansiedade e a depressão constituírem entidades diferentes, na prática clínica comumente estão associadas. Na evolução do distúrbio do pânico a presença de uma síndrome depressiva é freqüente. Gentil Filho por exemplo, chega a incluir na avaliação terapêutica dos pacientes com distúrbio do pânico um item destacando os ''sintomas depressivos e desmoralização secundários'' Outro lado a considerar é relatado por Coryell e cols. que comparando a mortalidade em pacientes com distúrbio do pânico com aqueles portadores de depressão unipolar primária encontrou um percentual de 20% de morte por suicídio para o primeiro grupo contra 11,2% para o segundo. Os problemas psicossomáticos também freqüentes nos pacientes com distúrbio do pânico. Em estudo realizado por Caetano comparando diversas variáveis entre 18 pacientes com pânico e 39 sem pânico encontrou quase duas vezes mais a referência de doenças psicossomáticas passadas e/ou presentes no grupo com pânico, sendo as dores corporais de tensão e a rinite alérgica as desordens mais comuns.

 

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