Iatrogenia dos Medicamentos

Everton Botelho Sougey *

Tárcio Fábio Ramos de Carvalho **

 

Resumo:

            Os autores realizaram uma revisão sobre os principais fatores relacionados com iatrogenia medicamentosa. Após uma breve introdução conceitual, comentam que pode ocorrer este tipo de iatrogenia quando: 1) a prescrição é estranha à relação terapêutica; 2) está em desacordo com o diagnóstico clínico; 3) as doses ou a duração do tratamento são inadequadas; 4) ocorre efeitos indesejáveis danosos, sobretudo os inesperados; 5) há morbidade e/ou mortalidade e 6) ocorre interações prejudiciais. Discutem a dimensão do problema e sugerem que melhora na formação profissional, implemento de programas de uso racional de medicamentos, fiscalização e vigilância sanitária, notificação compulsória de efeitos colaterais, entre outras são medidas que podem diminuir a incidência da doença iatrogênica provocada pelos medicamentos.

 

Unitermos: Iatrogenia, Medicamentos, Farmacovigilância.

 

Summary:

The authors made a revision about the means points that have relation with the iatrogenic medication.  After a small conceptual introduction, they describes that this kind of iatrogenia happen when: 1) the prescription is strange to the therapeutic relationship; 2) There is a disagree with the clinical diagnostic; 3) the dose or treatment duration are wrong; 5)  there is mobidity o mortality and 6) there is bad drug interaction. The authors explain the dimension of the problem and recommend improve the  professional formation, implementation of programs of rational use of medications, sanitary fiscalization, compusory notification of colateral effects, 

 

*   Prof. Adjunto-Doutor do Departamento de Neuropsiquiatria da Universidade Federal de Pernambuco

 

** Prof. Participante-Doutor do Mestrado em Neuropsiquiatria da Universidade Federal de Pernambuco

            Um tratamento farmacológico é considerado racional quando atende à critérios de indicação, dose e manutenção na ausência ou com mínimos efeitos indesejáveis.

            É provável que até o princípio do séc. XX, a maioria dos benefícios atingidos com o uso de medicamentos era fundamentalmente  decorrente de feitos pouco específicos. A escolha do medicamento não era um processo tão complexo e não envolvia a avaliação de tantas variáveis como nos dias atuais.

            Com o desenvolvimento industrial, que possibilitou a produção de novos fármacos por processos de síntese química e fermentativos, observou-se o surgimento de efeitos mais específicos para diversas especialidades farmacêuticas. Após a segunda guerra mundial houve um grande desenvolvimento da nova tecnologia e com ele o surgimento das grandes industrias farmacêuticas, sobretudo nos Estados Unidos da América e na Europa.

            Pode-se supor que, efeitos danosos para a saúde produzidos pelos medicamentos são tão antigos quanto a própria história, Contudo, os primeiros inquéritos formais da época contemporânea sobre problema de segurança envolvendo medicamentos datam do final do século passado, quando se formou uma comissão para investigar as mortes súbitas ocorridas em pacientes anestesiados com clorofórmio (Capella e Laporte, 1989). A notificação das mortes produzidas devido ao emprego do dietilenoglicol como solvente de um xarope de sulfanilamida nos Estados Unidos da América, ocorrida nos anos trinta e a trágica epidemia de focomelia e outras malformações produzidas pelo hipnosedativo talidomida, identificada no início dos anos sessenta, foram os fatos que mais contribuíram para o estudo e o controle de iatrogenia produzida por medicamento (Lenz, 1984).

            Segundo  a Organização Mundial de Saúde, (1972), define-se como reação adversa produzida por um medicamento a “qualquer efeito prejudicial ou indesejável que se apresente após a administração das doses normalmente utilizadas no homem para a profilaxia, o diagnóstico e o tratamento de uma enfermidade”. Considera-se que os termos “reação adversa”, “efeito indesejável” e “doença iatrogênica” são equivalentes e respondem à definição anterior.

            Para Bastos (1981), a introdução da expressão  “doença iatrogênica” deve-se a Eugen Bleuler, publicado no Glossário Médico Germânico, que procurava definir originalmente “os transtornos psiquiátricos provocados no paciente pelas atitudes dos médicos ou da enfermagem”. A evolução do conceito abrange nos dias de hoje, toda doença produzida direta ou indiretamente pela conduta propedêutica, terapêutica ou preventiva do médico ou equipe de saúde sobre o paciente ou seus familiares. Portanto, no que tange especificamente ao ato médico, a doença iatrogênica tem implicações diretas com os preceitos do Código de Ética Médica que nos seus Princípios Fundamentais (art. 2o) define que “o alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional”...  No que diz respeito a Responsabilidade Profissional, o Código de Ética adverte (art. 29) que é vedado ao médico: “praticar atos profissionais danosos ao paciente, que possam ser caracterizados como imperícia, imprudência ou negligência”. (Conselho Federal de Medicina, 1990). O erro médico enquadra-se no Código Penal, que no seu artigo 132 propõe pena de “detenção de três anos a um ano, se o caso não constitui crime mais grave ao se expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto ou iminente.

            Os medicamentos constituem um elemento  com características especiais no contexto global da medicina pelo papel que desempenham como parte da assistência médica e pelo modo como são utilizados nessa prática. No presente trabalho, a título de revisão, descreveremos os principais fatores relacionados com os efeitos nocivos do uso agudo e crônico dos tratamentos farmacológicos no conjunto da população ou em subgrupos de pacientes expostos a tratamentos específicos.

 

FATORES RELACIONADOS COM IATROGENIA MEDICAMENTOSA  

1. Prescrição  Estranha à Relação Terapêutica

            O tratamento farmacológico, a prescrição de um ou mais medicamentos ocorre como conseqüência de um diagnóstico médico. Este diagnóstico é obtido através de uma seqüência de procedimentos que constitui o método clínico, baseado na colheita de dados de dados da anamnese, no exame do paciente e nos subsídios dos exames complementares. Na consulta médica, estes procedimentos estão baseados na comunicação que se estabelece entre o médico e o seu paciente. A este respeito , Balint (1975), afirma com muita propriedade que “a droga mais freqüentemente usada na prática médica é o próprio médico”.

            Sabe-se que inúmeros fatores podem interferir iatrogenicamente no relacionamento médico-paciente, sobretudo aqueles que dizem respeito a formação do profissional, às condições de trabalho do local da consulta e aos perfis de personalidade dos protagonistas desse encontro.

            Discutindo a consulta médica do ponto de vista sócio-psicossomático Pontes e col. (1986), afirmam que “todos os atos do homem ocorrem correlatamente nas três áreas do seu existir: corpo, mente e mundo externo”. É comum, muitos pacientes apresentarem fantasias em relação ao médico, ao medicamento e à própria evolução do tratamento. Os pacientes devem portanto, ser esclarecidos sobre as características e objetivos do tratamento, informados sobre os possíveis efeitos indesejáveis, o modo de ação do medicamento e sobretudo sobre as razões que motivaram aquela prescrição. O médico  deve estar  sensível as várias formas de comunicação dos seus pacientes e com atenção e perspicácia deve procurar transmitir que a sua prescrição está integrada a um contexto que inclui uma atitude de escuta e compreensão de como o paciente está vivenciando a sua enfermidade.

 

2.  Erro Diagnóstico

            O diagnóstico é a área mais complexa de decisão médica, pois depende da análise de um grande número de informações das mais variadas fontes e diferentes naturezas, como também envolve raciocínio simultâneo de processos lógicos e probabilísticos.

            O diagnóstico precede ao tratamento, fornece dados para escolha do fármaco que melhor se adapta às características clínicas do paciente e estabelece os fundamentos para o planejamento terapêutico. Erros diagnósticos são as causas mais freqüentes do insucesso terapêutico e iatrogenia medicamentosa.

            Alguns fatores que dificultam a obtenção  de um diagnóstico clínico fidedigno podem ser encontrados na identificação deficiente da fase evolutiva da doença, nos cavalgamentos sindrômicos  com outras condições médicas associadas, na presença de estressores psicossociais, e no modo do paciente reagir a sua enfermidade (componente subjetivo).

            É compreensível que,  premido pelo desconforto produzido pelos sintomas e pela condição de enfermo, o paciente esteja ansioso por uma solução rápida para o seu problema de doença. É necessário muita prudência; o médico deve evitar promessas ou afirmações prematuras sobre o diagnóstico, ao mesmo tempo em que deve fazer o paciente participar das etapas de investigação e planejamento terapêutico.

 

3. Doses ou Duração Inadequadas

            O estabelecimento de doses terapêuticas de um determinado fármaco a partir dos ensaios clínicos, constitui, na maioria das vezes, uma faixa segura em relação à eficácia e a ocorrência de efeitos indesejáveis. É importante destacar, como afirmou Zanini e Oga (1985) que, “a potência do medicamento não é fundamentada unicamente na quantidade do princípio ativo presente em dada formulação”. Segundo estes autores, muitos fatores biofarmacêuticos como: a) forma e estado físico do princípio ativo; b) tipos dos excipientes utilizados; c) processos empregados em sua fabricação e d) formulação empregada, podem produzir variações na resposta terapêutica. Por outro lado, existem fatores que dizem respeito aos pacientes como: a) doença associada; b) características metabólicas; c) hábitos dietéticos; d) nível de adesão ao tratamento, que também interferem na resposta ao medicamento.

            Doses insuficientes podem ser tão iatrogênicas quanto as superdosagens. Este fato é demonstrado em vários estudos ( Kotin e col. 1973; Remick e col. 1986; Schaartzberj e col. 1986; Maciel e col. 1978) que confirmam, por exemplo, a relação entre tratamentos utilizando doses insuficientes de antidepressivos e o surgimento de depressão refratária (Sougey, 1988). No que tange ao uso irracional de antibióticos é amplamente demonstrado sua relação com o aparecimento de resistência bacteriana (Sansonetti, 1982). Manutenção irregular por tempo insuficiente ou excessivo pode provocar efeitos graves em tratamentos de enfermidades crônicas como osteoporose (Gil-Antuñano, 1993), câncer (Ramirez, 1984), hipertensão arterial (Queiroz, 1985) e muitas outras.

            Em síntese pode-se afirmar que para todas as classes de medicamentos, doses e manutenção inadequadas significam dano ao paciente e portanto indução de efeito iatrogênico.

 

4. Efeitos indesejáveis, sobretudo os inesperados

            Diversos estudos hospitalares demonstraram que entre 5 e 6% das internações ocorrem por conseqüência de efeitos indesejáveis e que, entre os pacientes hospitalizados, 10 a 20% sofreram alguma reação adversa. De um modo geral estima-se que cerca de 40% dos pacientes experimentaram efeitos indesejáveis produzidos por medicamentos (Davies, 1985).

            Nem sempre é consensual uma classificação dos principais efeitos indesejáveis dos medicamentos. Existe uma multiplicidade de termos, freqüentemente mal utilizados que podem dar margem à confusão. Uma classificação descrita por Cappela e Laporte (1989) nos parece útil pois facilita a compreensão dos principais mecanismos pelos quais eles ocorrem:

a)  Superdosagem relativa, quando um fármaco é administrado em doses habituais mas apesar disso suas concentrações são superiores às habituais.

b)  Efeitos colaterais, são inerentes a própria ação farmacológica do medicamento, porém cujo aparecimento é indesejável num momento determinado de sua aplicação.

c) Efeitos secundários, são os devidos não a ação farmacológica principal do medicamento, mas as suas conseqüências.

d)  Idiossincrasia, trata-se de uma sensibilidade peculiar a um determinado produto, motivado pela estrutura singular de algum sistema enzimático. Considera-se que as respostas idiossincrásicas se devem ao polimorfismo genético.

e)  Hipersensibilidade alérgica, são reações do sistema imunológico de intensidade claramente não relacionada com a dose administrada. Para sua produção é necessária a sensibilização prévia do indivíduo.

f)  Tolerância, é aquele fenômeno pelo qual em caso de administração repetida, contínua ou crônica de um fármaco ou droga na mesma dose diminui progressivamente a intensidade dos efeitos. Dessa forma é necessário aumentar progressivamente a dose para poder manter os efeitos na mesma intensidade.

            Uma outra classificação proposta por Rawlins e Thompson (1985) tem sido considerada de maior aplicabilidade clínica e epidemiológica. Segundo os autores, as reações adversas produzidas por medicamentos poderiam subdividir-se em dois grandes grupos: a) as que são efeitos farmacológicos normais porém aumentados (de tipo A ou “augmented”) e as que são efeitos farmacológicos totalmente anormais ou inesperados (tipo B ou “bizarre”).

            As reações de tipo A, por exemplo, a bradicardia produzida por beta bloqueadores adrenérgicos são efeitos previsíveis, geralmente dependem da dose e apesar de apresentarem elevada incidência e morbidade na comunidade, sua letalidade é usualmente baixa.

            As reações do tipo B, são efeitos totalmente aberrantes e inesperados. A hipertemia maligna por anestésicos e a grande maioria das reações de hipersensibilidade alérgica são deste grupo. Essas reações não costumam ocorrer nas provas toxicológicas pré-clínicas e mesmo que sua incidência seja baixa sua letalidade é muito mais alta.

 

5. Morbidade e/ou mortalidade

            Ainda que em geral os efeitos indesejáveis sejam de caráter leve ou moderado, não se pode esquecer que também podem produzir morte ou podem ser responsáveis por lesões irreversíveis. Em 1961 a descoberta de que a talidomida causava  malformações congênitas das extremidades constituiu uma trágica ilustração das graves conseqüências que pode chegar a ter a ingestão de medicamentos.

            Na melhor das hipóteses quando um fármaco é comercializado são conhecidos os seguintes elementos: a) características físicoquímicas; b) perfil de atividades farmacológicas sobre modelos experimentais in vitro e in vivo; c) perfil de toxicidade experimental aguda, subaguda e crônica; d) farmacocinética em animais de laboratório e na espécie humana e e) atividade farmacológica e seus efeitos farmacológicos no homem. Dispõe-se, além disso, de dados de toxicidade aguda (e às vezes, crônica) na espécie humana e de dados comparativos com outras alternativas terapêuticas. Outras informações dizem respeito à eficácia terapêutica real, comparada à eficácia farmacológica avaliada em ensaios clínicos. No entanto, como afirmam Carné e Laporte (1989), “dificilmente é possível conhecer o perfil de reações adversas raras após a fase III da investigação farmacológica clínica”.

            Efeitos indesejáveis raros, sobretudo aqueles que aparecem após um tratamento prolongado ou muito tempo após de suspendê-lo, ou ainda aqueles que aparecem em subgrupos específicos da população, não são habitualmente detectáveis. Essas limitações impedem que os ensaios clínicos identifiquem esses efeitos antes da comercialização do medicamento. Após sua comercialização, o produto começa a ser administrado a dezenas de milhares e mesmo a milhões de pessoas, sem distinção de idade, junto com outros medicamentos e convenhamos, em condições de seguimento menos rigorosa. É então quanto a descoberta de um novo efeito indesejável, especialmente se ele apresenta certa gravidade, depende da observação do médico.

 

6. Interações  Danosas

            Prescrições que associam medicamentos objetivam geralmente potencializar o efeito terapêutico, corrigir possíveis efeitos indesejáveis, prevenir resistência e ampliar os mecanismos de ação terapêutica.

            Na prática médica tornou-se muito freqüente os pacientes receberem duas ou mais medicações simultâneas e essas associações possuem o potencial de interagirem de maneira adversa. Segundo Hasten (1984), “ainda existe muito a ser aprendido com referência a interações medicamentosas adversas; muitas delas que ocorrem diariamente na clínica, passam desapercebidas e os efeitos adversos são freqüentemente atribuídos a idiossincrasia do doente ou à doença em causa”.

            Interação medicamentosa é o processo através do qual um medicamento modifica o  efeito farmacológico de outro. Os mecanismos dessas  interações são muito variados e complexos, contudo, um modo de classificá-los considera as possibilidades de interações farmacocinéticas e farmacodinâmicas.

            As interações farmacocinéticas são aquelas que interferem nos processos de absorção, distribuição, metabolização ou excreção de outras medicações. É o caso, por exemplo, de hidróxido de magnésio que reduz a absorção do pentobarbital  por propiciar a sua ionização, porém acelera a absorção de sulfadiazina na sua forma ácida. Outros fármacos como o ácido acetilsalicílico produzem uma acetilação da albumina reduzindo sua capacidade fixadora. São inúmeros os exemplos, mas especial atenção, deve o médico concentrar nas interações a nível dos processos de metabolização hepática e na excreção renal, por produzirem geralmente conseqüências mais graves.

            As interações farmacodinâmicas são as que interferem nos mecanismos de ação bioquímica dos medicamentos. Citamos como exemplo, a ação de agentes antimicrobianos que ao inibir a produção de vitamina K pelos microrganismos da flora gastrointestinal aumentam os efeitos dos anticoagulantes.

            A prescrição de vários medicamentos para um mesmo paciente tem que estar baseada em conhecimento clínico-farmacológico. O que outrora foi chamado de “polifarmácia” ou terapêutica do “tiro de espingarda” (Zanini e Oga, 1994), traduz-se como prescrições do tipo tentativa-erro, caracterizando conduta iatrogênica do médico, que desconhecendo as possibilidades de interações, muitas vezes põe em risco a saúde do paciente.

 

 

CONCLUSÕES

               

            A ocorrência de iatrogenia medicamentosa está ligada á própria história da medicina e ao desenvolvimento de novos fármacos.

            “Muito é bom, porém o dobro de muito não é necessariamente o dobro de bom”, este provérbio se aplica muito bem à clínica farmacológica. Segundo Laurence e Bennett, (1987), a investigação em farmacologia clínica tem demonstrado que o emprego ótimo de fármacos potentes pode melhorar significativamente o curso de muitas doenças. Entretanto, afirmam os autores gostemos ou não, a otimização e o ajuste da utilização de medicamentos são difíceis, tanto do ponto de vista estritamente farmacológico-clínico, como do ponto de vista epidemiológico.

            Melhoria na formação profissional, programas de uso racional de medicamentos, fiscalização e vigilância sanitária, desenvolvimento de programas de farmacovigilância com notificação compulsória de efeitos colaterais são medidas que atenuam a exemplo de outros países, a ocorrência de iatrogenia medicamentosa.

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