Aplicação
de Escalas de Avaliação, Testes e Entrevistas Computadorizadas
Dr. Tarcio Carvalho
INTRODUÇÃO
O desenvolvimento de computadores cada vez mais baratos, menores e de fácil manejo, aliado aos programas computadorizados com linguagem e modo de operação mais acessíveis têm permitido uma grande difusão da Informática. Em todo o mundo e particularmente nos países mais desenvolvidos, o impacto da Informática na área de Saúde tem sido impressionante. Nos Estados Unidos, Europa e Japão já se encontram informatizados cerca de 6O a 8O% dos consultórios, 8O% a 9O% das clínicas especializadas de médio e grande porte e virtualmente todos os hospitais. Todas as Faculdades em Ciências da Saúde oferecem cursos de Informática para seus alunos.
Os profissionais de Saúde Mental cada vez mais vêm utilizando do computador em seus locais de trabalho. Atualmente contam com um grande número de softwares para avaliação de pacientes. Esses instrumentos, na sua grande maioria, derivam de escalas e testes e entrevistas que eram aplicados com lápis e papel. Outros foram desenvolvidos a partir da tecnologia de informática. As principais vantagens do uso desses instrumentos computadorizados são:
diminuição do tempo de aplicação, como conseqüente diminuição dos custo e aumento da disponibilidade do profissional para ajudar seus pacientes;
facilidade de uso como, p.ex. ajudas on-line e o uso do mouse;
resultado imediatamente após a avaliação, suprimindo as etapas de cálculo dos escores e interpretação dos resultados;
possibilidade de arquivar os dados no computador, evitando o acúmulo de papeis e móveis para guardá-los;
o acesso aos dados para pesquisas, tabulações, análise e comunicação é bem mais fácil do que a utilização de papel;
gráficos que possibilitam o clínico ou pesquisador avaliar a evolução do paciente durante o acompanhamento.
ESCALAS DE
AVALIAÇÃO
A
avaliação clínica
Atualmente temos disponível para uso em computadores pessoais as principais escalas de avaliação, em português e na versão para Windows. Essas escalas são fáceis de ser aplicadas. O uso do mouse permite que o próprio paciente responda às escalas de auto-avaliação. Com a ajuda on-line o profissional não precise recorrer a manuais para saber como aplicar a escala, o ponto de corte e o significado da escore. As seguintes escalas computadorizadas podem ser encontradas no Brasil:
Depressão
Escala de Hamilton para Depressão
Questionário de Auto-avaliação para a Escala de Hamilton para Depressão
Escala de Montgomery-Asberg
Escala de Auto-Avaliação de Zung
Inventário de Beck
Distúrbio Obsessivo-compulsivo
Escala de Yale-Brown para DOC
Ansiedade
Escala de Hamilton para Ansiedade
Escala de Covi para Ansiedade
TESTES COMPUTADORIZADOS
A
avaliação psicológica computadorizada é a forma
mais comum de utilização do computador em Psiquiatria e
Psicologia. Quase todos os testes psicológicos são atualmente
disponíveis para uso
Certos tipos de testes psicológicos, como aqueles que não necessitam de profissionais treinados para administrá-lo, são aplicados pelo computador com vantagens. O primeiro teste computadorizado foi o MMPI, em 1962. Ele foi utilizado na Clínica Mayo, em Minnesota, para realizar a avaliação psicológica de milhares de pacientes que iam a essa clínica. Atualmente há várias formas de interpretar o MMPI, e isso depende das regras para interpretação e da quantidade de resultados que pode apresentar. Por exemplo, um sistema para o MMPI atualmente contém trinta mil sentenças interpretativas em seu arquivo. Outros tipos de testes que foram desenvolvidos posteriormente, como os testes de personalidade (p.ex. 16-PF, Millon Clinical Multiaxial Inventory), testes vocacionais (p.ex. Strong Campbell Interest Inventory) e testes de avaliação intelectual ou cognitivo (p.ex. Wechsler Adult Intelligence Scale, Slosson Intelligence Test).
O grande problema com os testes computadorizados é sua aplicação e, determinados casos. Um paciente mais lento pode durar de uma hora a uma hora e meia para preencher o MMPI, ocupando o computador por muito tempo. Outra situação difícil é quando se vai aplicar o teste a um paciente agitado ou agressivo. O profissional pode ficar receoso de deixa-lo com o computador. Nesses casos é necessário realizar o teste na forma convencional, com lápis e papel.
ENTREVISTAS COMPUTADORIZADAS
As
entrevistas por computador começaram na Universidade de Wisconsin em
1966, e desde então têm sido estudado as diversas
relações existentes nas entrevistas realizadas com computador.
A idéia de que um computador poderia realizar uma entrevista melhor do que um clínico para detectar certas alterações psicopatológicas vem de um estudo realizado por Greist e col. Eles analisaram a intenção suicida comparando as avaliações realizadas clinicamente e por computador. Foi observado que alguns pacientes confessam suas idéias suicidas apenas para o computador. Os pacientes preferiram a avaliação do computador, e os dados da pesquisa mostraram que o computador previa melhor o risco de tentativa de suicídio. Um estudo semelhante com alcoolistas demonstrou que os pacientes, quando entrevistados pelo computador, relatavam um consumo de bebidas alcoólicas maior do que quando entrevistados por seus médicos. Outro estudo demonstrou que pacientes com sintomas respiratórios consideraram os computadores mais amigáveis e compreensíveis, e admitiram que forneceriam respostas mais reais sobre seus hábitos de fumar cigarros do que fariam para seu médico. Esses dados parecem indicar que uma entrevista realizada por computador pode ser menos embaraçosa para os pacientes em determinadas áreas, sendo uma ferramenta que apresenta vantagens na entrevista clínica.
Outro campo que os computadores tem se mostrado úteis é na realização de entrevistas estruturadas. O Diagnostic Interview Schedule (DIS) é um instrumento para o diagnóstico no DSM-III e, como pode ser aplicado por leigos, foi utilizado no Epidemiologic Catchment Area, o maior estudo epidemiológico para os distúrbios mentais realizado até hoje. O DIS pode ser aplicado sem necessidade de julgamento clínico do entrevistador. A entrevista computadorizada com o DIS foi comparada com a entrevista realizada por uma pessoa e foi demonstrado que não havia diferença significativa da entrevista. Quando comparado com uma avaliação diagnóstica por um psiquiatra, a avaliação computadorizado do DIS mostrou menor concordância diagnóstica, mas a avaliação computadorizada foi mais precisa em realizar o diagnóstico em áreas como alcoolismo e uso de outras drogas. As vantagens para a entrevista computadorizada com o DIS são: menor custo; o computador é disponível a qualquer momento para a entrevista; dificilmente o computador fica "doente"; é facilmente modificável, o que contrasta com um treinamento de pessoal quando necessita haver modificação na entrevista.
Quais são os efeitos da entrevista computadorizadas nas pessoas? Esse tipo de avaliação torna a entrevista "desumana"? Ao contrário do que parece, a entrevista computadorizada tem se mostrado como uma ferramenta que auxilia o clínico nas avaliações. Muitos pesquisadores têm estudado a atitude dos pacientes quando entrevistados por um computador e todos chegaram a uma mesma conclusão -- eles gostam desse tipo de avaliação. Por exemplo, Evans e col. realizaram entrevista computadorizada de pacientes com dispepsia e examinaram a impressão dos pacientes a respeito da entrevista. O resultado da pesquisa mostrou que os pacientes ficaram impressionados com a aparente cortesia do computador e consideraram a entrevista fácil de entender, além de não provocar tensão emocional.
A
forma como é feita a entrevista é importante. Dove e col.
estudando essa questão com mulheres atendidas na clínica geral e
entrevistadas por computador, consideraram mais favoráveis quando a
entrevista computadorizada era apresentada cuidadosamente pelo médico,
informando que o computador estava ajudando a ele em seu trabalho
médico.
Um outro ponto que tem chamado a atenção dos pesquisadores é sobre os dados não-verbais. De fato, as informações não-verbais como a tonalidade da voz, gestos faciais, etc. são muito importantes no processo diagnóstico, e os computadores ainda não têm capacidade de percebê-los e interpretá-los. Assim, já que as informações fornecidas pelo paciente não são suficientes, a entrevista computadorizada não é a única fonte de informação para o diagnóstico e conduta clínica. Os dados do computador apenas ajudam os clínicos a tomar suas decisões com mais segurança e rapidez, melhorando os cuidados médicos e a satisfação dos pacientes.