| SOBRE O FOTONETO Davino Ribeiro de Sena Faz pouco (pouco mais de um s�culo) Baudelaire dizia parce que la forme est contraignante, l' idee jaillit plus intense. Hoje tal li��o parece um tanto esquecida. Mas houve um tempo em que se podia falar e sobretudo recitar belas formas de verso, cristalizadas pelo uso. Eram as chamadas formas fixas, das quais o soneto pode ser considerado um dos exemplos mais usados e apreciados. Dois quartetos e dois tercetos. Chave de ouro. O soneto foi transmitido pelos europeus ao Brasil, chegou ao auge no parnasianismo e continuar� sendo cultivado ainda depois dos provisoriamente chamados tempos p�s-modernos. Outras formas passar�o a existir apenas em livros de Hist�ria, quase f�sseis de museu. Seria in�til cit�-las neste momento. Nossa �poca trouxe maior liberdade (e alguma libertinagem, para usar a express�o de Manuel Bandeira) na composi��o de poemas. Alguns poetas t�m buscado criar novas possibilidades de montagem de versos em estrofes, de estrofes em poemas. As vanguardas europ�ias no in�cio do s�culo XX conquistaram para o poeta o direito de negar a obrigatoriedade das formas ditadas pela tradi��o da m�trica. O modernismo brasileiro, na fase inicial, foi uma adapta��o dessa conquista ao nosso meio liter�rio, com prolongamentos vis�veis at� os dias atuais. Quase um s�culo depois de tais vanguardas, creio haver chegado o momento de considerar os benef�cios de uma forma que atenda �s necessidades instrumentais do escritor p�s-moderno. Os poemas deste livro apresentam uma forma (quase diria laboratorial) a que dei o nome de fotoneto. Trata-se de uma forma h�brida. Um clone do soneto. Comp�e-se de dois sextetos e um terceto, que tendem a ser octossil�bicos. As rimas geralmente seguem o esquema aabbcc para os sextetos. Para o terceto, s�o ded, dde ou dee. Gosto de pensar no fotoneto como uma forma flex�vel. Creio que os sextetos, mais lentos do que os quartetos herdados da tradi��o dos sonetos, permitem desenvolver o ritmo, a narrativa, as imagens. O terceto final, por�m, tem mais velocidade que os dois tercetos do soneto. O fotoneto tem in�cio mais lento para, no fim, surpreender o leitor. Austr�lia, Quarta-feira de Cinzas, 1999. |
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