Sócrates


S�crates, 470-399 a.C.

Em seu m�todo, ao iniciar uma conversa, S�crates sempre adotava a posi��o de uma pessoa ignorante, que apenas "sabe que nada sabe". E justamente por usar esta afirmativa, ele for�ava as pessoas a usarem a raz�o. Ele entrava de tal forma na conversa, e de tal forma a dominava, que era capaz de aparentar uma maior ignor�ncia ou de mostrar-se mais tolo do que realmente era. Esta era a principal t�cnica do m�todo de S�crates: usar a ironia. Foi assim que ele expôs muitas das fraquezas do pensamento ateniense. Um encontro com S�crates podia signifcar o risco de expor-se ao rid�culo. Mas as pessoas que passaram por isto e conseguiram superar o choque do orgulho ferido, indo at� o fim no processo cart�tico, acabavam por extrair de si mesmo a resposta em tudo l�gica e compat�vel com os problemas expostos, dando-lhes a solu��o.

O resultado � que o indiv�duo sentia uma verdadeira sensa��o de ilumina��o, de descoberta, de ter dado � luz algo de valioso que havia dentro de si, mas de que n�o tinha a m�nima consci�ncia. Foi assim que S�crates conquistou fervorosos disc�pulos. Mas se a pessoa entregava-se ao orgulho ferido, tornava-se um inimigo feroz. E esta foi a raz�o que lhe custou a vida. Aos setenta anos de idade, foi acusado e condenado � morte por ate�smo e por "perverter a juventude de Atenas".







APOLOGIA DE S�CRATES

- contada por Platão -




Ex�rdio

N�o sei, Atenienses, que influ�ncia exerceram meus acusadores em vosso esp�rito; a mim pr�prio, quase me fizeram esquecer quem sou, tal a for�a de persuas�o de sua eloqu�ncia. Verdade, por�m, a bem dizer, n�o proferiram nenhuma. Uma, sobretudo, me assombrou das muitas aleivosias que assacaram: a recomenda��o de cautela para n�o vos deixardes embair pelo orador formid�vel que sou. Com efeito, n�o corarem de me haver eu de desmentir prontamente com os fatos, ao mostrar-me um orador nada formid�vel, eis o que me pareceu o maior de seus descaramentos, salvo se essa gente chama formid�vel a quem diz a verdade; se � o que entendem, eu c� admitiria que, em contraste com eles, sou um orador. Seja como for, repito-o, verdade eles n�o proferiram nenhuma ou quase nenhuma; de mim, por�m, v�s ides ouvir a verdade inteira. Mas n�o, por Zeus, Atenienses, n�o ouvireis discursos como os deles, aprimorados em nomes e verbos, em estilo florido; ser�o express�es espont�neas, nos termos que me ocorrerem, porque deposito confian�a na justi�a do que digo; nem espere outra coisa quem quer de v�s. Deveras, senhores, n�o ficaria bem, a um velho como eu, vir diante de v�s plasmar seus discursos como um rapazola. Fa�o-vos, no entanto, um pedido, Atenienses, uma s�plica premente; se ouvirdes, na minha defesa, a mesma linguagem que habitualmente emprego na pra�a, junto das bancas, onde tantos dentre v�s me tendes escutado, e noutros lugares, n�o a estranheis nem vos amotineis por isso. Acontece que venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade; sinto-me, assim, completamente estrangeiro � linguagem do local. Se eu fosse de fato um estrangeiro, sem d�vida me desculpar�eis o sotaque e o linguajar de minha cria��o; pe�o-vos nesta ocasi�o a mesma toler�ncia, que � de justi�a a meu ver, para minha linguagem - que poderia ser talvez pior, talvez melhor - e que examineis com aten��o se o que digo � justo ou n�o. Nisso reside o m�rito de um juiz; o de um orador, em dizer a verdade.

Duas classe de acusadores

Cumpre, Atenienses, me defenda, em primeiro lugar, das primeiras aleivosias contra mim e dos primeiros acusadores; depois, das recentes e dos recentes. Com efeito, muitos acusadores tenho junto de v�s, h� muitos anos, que nada dizem de verdadeiro. A esses tenho mais medo que aos da roda de �nito (1) , posto que estes tamb�m s�o tem�veis. Mais tem�veis, por�m, senhores, s�o aqueles, que, encarregando-se da educa��o da maioria de v�s desde meninos, fizeram-vos crer, com acusa��es inteiramente falsas, que existe certo S�crates, homem instru�do, que estuda os fen�menos celestes, que investigou tudo o que h� debaixo da terra e que faz prevalecer a raz�o mais fraca. Por terem espalhado esse boato, Atenienses, s�o esses os meus acusadores; tem�veis, porque os seus ouvintes acham que os investigadores daquelas mat�rias n�o cr�em tampouco nos deuses. Depois, esses acusadores s�o numerosos e v�m acusando h� muito tempo; mais ainda, falavam convosco na idade em que mais cr�dulos pod�eis ser, quando alguns de v�s �reis crian�a ou rapazes, e a acusa��o era feita a inteira revelia, sem defensor algum. De tudo, o que tem menos sentido � n�o se poderem dizer nem saber os seus nomes, salvo quando se trata, porventura, de um autor de com�dias. Os que, por inveja, ou malqueren�a, vos procuravam convencer, mais os que, convencidos, por sua vez convenciam a outros, todos esses s�o os mais embara�osos; nem sequer � poss�vel citar aqui em ju�zo nenhum deles e refut�-lo; o defensor � inevitavelmente obrigado a combater como que sombras, a replicar sem tr�plica. Em conclus�o, concordai comigo em que meus acusadores s�o de duas classes: os que acabam de acusar-me e os de antanho, a quem aludi; admiti, tamb�m, que destes me deva defender em primeiro lugar, pois que a suas acusa��es destes ouvido primeiro e muito mais que �s dos �ltimos. Bem, Atenienses, � mister que apresente minha defesa, que empreenda delir em v�s os efeitos dessa cal�nia, a que destes guarida por tantos anos, e isso em prazo t�o curto. Eu quisera que assim acontecesse, para o meu e para o vosso bem, e que lograsse �xito a minha defesa; considero, por�m, a empresa dif�cil e n�o tenho a m�nima ilus�o a esse respeito. Seja como for, que tomem as coisas o rumo que aprouver ao deus, mas cumpre obedecer � lei e apresentar defesa.

Acusa��es Antigas

Recapitulemos, portanto, desde o come�o, qual foi a acusa��o donde procede a cal�nia contra mim, dando cr�dito � qual, me moveu Meleto (2) o presente processo. Vejamos: que � mesmo o que afirmam os caluniadores em sua difama��o? Como se faz com o texto das acusa��es, leiamos o das suas: "S�crates � r�u de pesquisar indiscretamente o que h� sob a terra e nos c�us, de fazer que prevale�a a raz�o mais fraca e de ensinar aos outros o mesmo comportamento." � mais ou menos isso, pois � o que v�s pr�prios v�eis na com�dia de Arist�fanes (3) - um S�crates transportado pela cena, apregoando que caminhava pelo ar e proferindo muitas outras sandices sobre assuntos de que n�o entende nada. Dizendo isso, n�o desejo menoscabar tais conhecimentos, se � que os possui algu�m - n�o ser� desse crime que me h� de processar Meleto mas a verdade � que n�o tenho deles, Atenienses, a mais vaga no��o. Invoco o testemunho da maioria de v�s mesmos, pedindo que vos informeis mutuamente e digam aqueles que alguma vez ouviram minhas conversas - h� muitos deles entre v�s. Dizei-o, pois, mutuamente, a ver se algum de v�s me ouviu alguma vez discorrer, por pouco que fosse, sobre tais assuntos. Assim ficareis sabendo que � do mesmo estofo tudo o mais que por a� se fala de mim. Na realidade, n�o t�m fundamento nenhum essas balelas; tampouco falar� verdade quem vos disser que ganho dinheiro lecionando. Sem embargo, acho bonito ser capaz de ensinar, como G�rgias de Leontino, Pr�dico de Ceos e H�pias de �lis. Cada um deles, senhores. � capaz de ir de cidade em cidade, persuadindo os mo�os que podem freq�entar um de seus concidad�os a sua escolha e de gra�a - a deixarem essa companhia e virem para a sua, pagando e ficando-lhes, ainda, agradecidos. Por sinal, encontra-se entre n�s outro s�bio, um de Paros; veio para uma temporada segundo soube. Fui, por acaso, visitar um homem, que tem pago a sofistas mais dinheiro que todos os outros reunidos; trata-se de C�lias, filho de Hiponico. Eu lhe perguntava (ele tem dois filhos): "C�lias, dizia eu, se teus filhos fossem potros ou garrotes, saber�amos a quem ajustar como treinador para lhes aprimorar as qualidades adequadas; seria um adestrador de cavalos ou um lavrador; como, por�m, eles s�o homens, quem pensas tomar como seu treinador? Quem � mestre nas qualidades de homem e de cidad�o? Suponho que pensaste nisso, por teres filhos. Existe algum, - dizia eu - ou n�o existe? - Existe, sim, - disse ele. - Quem �? - tornei eu; de onde �? quanto cobra? - � Eveno, � S�crates, - respondeu ele - de Paros, por cinco minas." Fiquei, ent�o, com inveja desse Eveno, se � que � senhor dessa arte e leciona a t�o bom pre�o. Por mim, bem que me orgulharia e ensoberbeceria de ter a mesma ci�ncia! Pena � que n�o a tenho, Atenienses.

Ci�ncia e Miss�o de S�crates

Um de v�s poderia intervir: "Afinal, S�crates, qual � a tua ocupa��o? Donde procedem as cal�nias a teu respeito? Naturalmente, se n�o tivesses uma ocupa��o muito fora do comum, n�o haveria esse falat�rio, a menos que praticasses alguma extravag�ncia. Dize-nos, pois, qual � ela, para que n�o fa�amos n�s um ju�zo precipitado." Teria raz�o quem assim falasse; tentarei explicar-vos a proced�ncia dessa reputa��o caluniosa. Ouvi, pois. Alguns de v�s achareis, talvez, que estou gracejando, mas n�o tenhais d�vida: eu vos contarei toda a verdade. Pois eu, Atenienses, devo essa reputa��o exclusivamente a uma ci�ncia. Qual vem a ser a ci�ncia? A que �, talvez, a ci�ncia humana. � prov�vel que eu a possua realmente, os mestres mencionados h� pouco possuem, qui��, uma sobre-humana, ou n�o sei que diga, porque essa eu n�o aprendi, e quem disser o contr�rio me estar� caluniando. Por favor, Atenienses, n�o vos amotineis, mesmo que eu vos pare�a dizer uma enormidade; a alega��o que vou apresentar nem � minha: citarei o autor, que considerais id�neo. Para testemunhar a minha ci�ncia, se � uma ci�ncia, e qual � ela, vos trarei o deus de Delfos (5). Conhecestes Querefonte, decerto. Era meu amigo de inf�ncia e tamb�m amigo do partido do povo e seu companheiro naquele ex�lio de que voltou conosco. Sabeis o temperamento de Querefonte, qu�o tenaz nos seus empreendimentos. Ora, certa vez, indo a Delfos, arriscou esta consulta ao or�culo - repito, senhores; n�o vos amotines - ele perguntou se havia algu�m mais s�bio que eu; respondeu a P�tia (6) que n�o havia ningu�m mais s�bio. Para testemunhar isso, tendes a� o irm�o dele, porque ele j� morreu. Examinai por que vos conto eu esse fato; � para explicar a proced�ncia da cal�nia. Quando soube daquele or�culo, pus-me a refletir assim: "Que querer� dizer o deus? Que sentido oculto p�s na resposta? Eu c� n�o tenho consci�ncia de ser nem muito s�bio nem pouco; que querer� ele, ent�o, significar declarando-me o mais s�bio? Naturalmente, n�o est� mentindo, porque isso lhe � imposs�vel." Por longo tempo fiquei nessa incerteza sobre o sentido; por fim, muito contra meu gosto, decidi-me por uma investiga��o, que passo a expor. Fui ter com um dos que passam por s�bios, porquanto, se havia lugar, era ali que, para rebater o or�culo, mostraria ao deus: "Eis aqui um mais s�bio que eu, quando tu disseste que eu o era!" Submeti a exame essa pessoa - � escusado dizer o seu nome; era um dos pol�ticos. Eis, Atenienses, a impress�o que me ficou do exame e da conversa que tive com ele; achei que ele passava por s�bio aos olhos de muita gente, principalmente aos seus pr�prios, mas n�o o era. Meti-me, ent�o, a explicar lhe que supunha ser s�bio, mas n�o o era. A conseq��ncia foi tornar-me odiado dele e de muitos dos circunstantes. Ao retirar-me, ia concluindo de mim para comigo: "Mais s�bio do que esse homem eu sou; � bem prov�vel que nenhum de n�s saiba nada de bom, mas ele sup�e saber alguma coisa e n�o sabe, enquanto eu, se n�o sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um nadinha mais s�bio que ele exatamente em n�o supor que saiba o que n�o sei." Da� fui ter com outro, um dos que passam por ainda mais s�bios e tive a mesm�ssima impress�o; tamb�m ali me tornei odiado dele e de muitos outros. Depois disso, n�o parei, embora sentisse, com m�goa e apreens�es, que me ia tornando odiado; n�o obstante, parecia-me imperioso dar a m�xima import�ncia ao servi�o do deus. Cumpria-me, portanto, para averiguar o sentido do or�culo, ir ter com todos os que passavam por senhores de algum saber. Pelo C�o, Atenienses! J� que vos devo a verdade, juro que se deu comigo mais ou menos isto: investigando de acordo com o deus, achei que aos mais reputados pouco faltava para serem os mais desprovidos, enquanto outros, tidos como inferiores, eram os que mais visos tinham de ser homens de senso. Devo narrar-vos os meus vaiv�ns nessa faina de averiguar o or�culo. Depois dos pol�ticos, fui ter com os poetas, tanto os autores de trag�dias como os de ditirambos e outros, na esperan�a de a� me apanhar em flagrante inferioridade cultural. Levando em m�os as obras em que pareciam ter posto o m�ximo de sua capacidade, interrogava-os minuciosamente sobre o que diziam, para ir, ao mesmo tempo, aprendendo deles alguma coisa. Pois bem, senhores, coro de vos dizer a verdade, mas � preciso. A bem dizer, quase todos os circunstantes poderiam falar melhor que eles pr�prios sobre as obras que eles compuseram. Assim, logo acabei compreendendo que tampouco os poetas compunham suas obras por sabedoria, mas por dom natural, em estado de inspira��o, como os adivinhos e profetas. Estes tamb�m dizem muitas belezas, sem nada saber do que dizem; o mesmo, apurei, se d� com os poetas; ao mesmo tempo, notei que, por causa da poesia, eles sup�em ser os mais s�bios dos homens em outros campos, em que n�o o s�o. Sa�, pois, acreditando super�-los na mesma particularidade que aos pol�ticos. Por fim, fui ter com os art�fices; tinha consci�ncia de n�o saber, a bem dizer, nada, e certeza de neles descobrir muitos belos conhecimentos. Nisso n�o me enganava; eles tinham conhecimentos que me faltavam; eram, assim, mais s�bios e eu. Contudo, Atenienses, achei que os bons artes�os t�m o mesmo defeito dos poetas; por praticar bem a sua arte, cada qual imaginava ser sapient�ssimo nos demais assuntos, os mais dif�ceis, e esse engano toldava-lhes aquela sabedoria. De sorte que perguntei a mim mesmo, em nome do or�culo, se preferia ser como sou, sem a sabedoria deles nem sua ignor�ncia, ou possuir, como eles, uma e outra; e respondi, a mim mesmo e ao or�culo, que me convinha mais ser como sou. Dessa investiga��o � que procedem, Atenienses, de um lado, tantas inimizades, t�o acirradas e mal�ficas, que deram nascimento a tantas cal�nias, e, de outro, essa reputa��o de s�bio. � que, toda vez, os circunstantes sup�em que eu seja um s�bio na mat�ria em que confundo a outrem. O prov�vel, senhores, � que, na realidade, o s�bio seja o deus e queira dizer, no seu or�culo, que pouco valor ou nenhum tem a sabedoria humana; evidentemente se ter� servido deste nome de S�crates para me dar como exemplo, como se dissesse: "0 mais s�bio dentre v�s, homens, � quem, como S�crates, compreendeu que sua sabedoria � verdadeiramente desprovida do m�nimo valor." Por isso n�o parei essa investiga��o at� hoje, vagueando e interrogando, de acordo com o deus, a quem, seja cidad�o, seja forasteiro, eu tiver na conta de s�bio, e, quando julgar que n�o o �, coopero com o deus, provando-lhe que n�o � s�bio. Essa ocupa��o n�o me permitiu lazeres para qualquer atividade digna de men��o nos neg�cios p�blicos nem nos particulares; vivo numa pobreza extrema, por estar ao servi�o do deus. Al�m disso, os mo�os que espontaneamente me acompanham - e s�o os que disp�em de mais tempo, os das fam�lias mais ricas - sentem prazer em ouvir o exame dos homens; eles pr�prios imitam me muitas vezes; nessas ocasi�es, metem-se a interrogar os outros; suponho que descobrem uma multid�o de pessoas que sup�em saber alguma coisa, mas pouco sabem, qui�� nada. Em conseq��ncia, os que eles examinam se exasperam contra mim e n�o contra si mesmos, e propalam que existe um tal S�crates, um grande miser�vel, que corrompe a mocidade. Quando se lhes pergunta por quais atos ou ensinamentos, n�o t�m o que responder; n�o sabem, mas, para n�o mostrar seu embara�o, aduzem aquelas acusa��es contra todo fil�sofo, sempre � m�o: "os fen�menos celestes - o que h� sob a terra - a descren�a dos deuses - o prevalecimento da raz�o mais fraca". Porque, suponho, n�o estariam dispostos a confessar a verdade: terem dado prova de que fingem saber, mas nada sabem. Como s�o ciosos de honrarias, tenazes, e numerosos, persuasivos no que dizem de mim por se confirmarem uns aos outros, n�o � de hoje que eles t�m enchido vossos ouvidos de cal�nias assanhadas. Da� a raz�o de me atacarem Meleto, �nito e Lic�o - tomando Meleto as dores dos poetas; �nito, as dos artes�os e pol�ticos- e Lic�o, as dos oradores. Destarte, como dizia ao come�ar, eu ficaria surpreso se lograsse, em t�o curto prazo, delir em v�s os efeitos dessa cal�nia assim avolumada. A� tendes, Atenienses, a verdade; em meu discurso n�o vos oculto nada que tenha alguma import�ncia, nada vos dissimulo. Sem embargo, sei que me estou tornando odioso por mais ou menos os mesmos motivos, o que comprova a verdade do que digo, que � mesmo essa a cal�nia contra mim e s�o mesmo essas as suas causas. � o que haveis de descobrir, se investigardes agora ou mais tarde.

A denúncia de Mileto

Nada mais preciso dizer para defender-me, diante de v�s, das mentiras de meus primeiros acusadores. Tentarei, em seguida, defender-me de Meleto, esse honrado e prestante cidad�o, como se proclama, e dos acusadores recentes. Novamente, j� que se trata de outros acusadores, tomemos tamb�m o texto de sua acusa��o. Reza ele mais ou menos assim: "S�crates � r�u de corromper a mocidade e de n�o crer nos deuses em que o povo cr� e sim em outras divindades novas." Essa a natureza da queixa; examinemo-la parte por parte. Diz que sou r�u de corromper a mocidade. Mas eu, Atenienses, afirmo que Meleto � r�u de brincar com assuntos s�rios; por leviandade, ele traz a gente � presen�a dos juizes, fingindo-se profundamente interessado por quest�es de que jamais fez o m�nimo caso. Vou tamb�m procurar demonstrar-vos que assim �.

- Dize-me c�, Meleto: D�s muita import�ncia a que os jovens sejam quanto melhores?
- Dou, sim.
- Faze, ent�o, o favor de dizer a estes senhores quem � que os torna melhores; evidentemente o sabes, pois que te importa. Descoberto o corruptor, segundo afirmas, tu me conduzes � presen�a destes senhores e me acusas; portanto, faze o favor de dizer quem os torna melhores; conta-lhes quem �. Est�s vendo, Meleto, que te calas e n�o sabes o que dizer? Com efeito, n�o achas que isso � feio e prova que n�o fazes o m�nimo caso, como eu disse? Vamos, bom rapaz, fala; quem � que os torna melhores?
- S�o, as leis.
- N�o � isso o que estou perguntando, excelente rapaz; pergunto que homem �, o qual, para come�ar, sabe exatamente isso, as leis.
- As pessoas presentes, S�crates; os juizes.
- Que dizes, Meleto? Os presentes s�o capazes de educar os mo�os e os tornam melhores?
- Sem d�vida.
- Todos? Ou uns sim e outros n�o?
- Todos.
- Boa not�cia nos d�s, por Hera! Sobejam os benfeitores! Que mais? E esses da assist�ncia os tornam melhores, ou n�o?
- Eles tamb�m.
- Que dizer dos conselheiros? - Tamb�m os conselheiros. - Mas, ent�o, Meleto, acaso os homens da assembl�ia, os eclesiastas corrompem a mocidade? Ou eles todos tamb�m a tornam melhor?
- Tamb�m eles.
- Logo, n�o � assim? todos os atenienses a tornam gente de bem, menos eu; eu sou o �nico a corromp�-la! � isso o que dizes?
- Exatamente Isso � o que digo.
- Que imensa desdita apontas em mim! Reponde tamb�m a esta pergunta: no teu entender, com os cavalos sucede o mesmo? Toda gente os melhora e um s� os vicia? Ou se d� inteiramente o contr�rio: quem os sabe melhorar � um s�, ou muito poucos, os adestradores; a maioria, quando trata de cavalos e os monta, vicia-os? N�o � assim, Meleto, com os cavalos e com todos os outros animais? Sem d�vida, quer o negueis tu e �nito, quer o afirmeis. Que bom para os mo�os, se h� um s� a corromp�-los e os outros todos a fazer-lhes bem! Ora, Meleto, est�s dando provas acabadas de que nunca te preocupaste com a mocidade e revelando claramente a tua indiferen�a para com o crime de que me acusas! Por Zeus, Meleto, dize-nos mais uma coisa; � melhor habitar entre cidad�os prestimosos ou entre daninhos? Meu caro, responde; minha pergunta � fac�lima! N�o � verdade que sempre os daninhos acabam fazendo mal a quem est� perto, e os prestimosos algum bem?
- Decerto.
- Haverá, ent�o, quem queira receber e seus companheiros antes danos que benef�cios? Responde, bom homem; a lei manda que respondas. H� quem prefira o dano?
- N�o, � claro.
- Adiante. Trouxeste-me aqui como algu�m que corrompe e perverte a mocidade por querer ou sem querer?
- Por querer, ora essa!
- Como assim, Meleto? Tu na tua idade me superas tanto a mim na minha, que tu sabes que os maus sempre acabam fazendo algum mal a seus mais pr�ximos e os bons algum bem, e eu sou t�o ignorante que nem mesmo sei que, se tomar malfazejo algu�m do meu conv�vio, me arrisco a receber dele algum dano? E, segundo dizes, tamanho mal eu o fa�o por querer? A mim n�o me convences disso, Meleto; nem creio que conven�as outra pessoa. N�o; ou n�o corrompo, ou, se corrompo, � sem querer; numa suposi��o como na outra, est�s mentindo. Se, por�m, corrompo sem querer, a lei n�o manda trazer-me aqui por semelhante erro involunt�rio, mas tomar-me de parte, ensinar-me, ralhar comigo; evidentemente, depois de aprender, deixarei de fazer o que sem querer ando fazendo. Tu, por�m, evitaste, n�o estavas disposto a ajudar-me com teus ensinamentos e me trouxeste aqui, para onde a lei manda trazer quem precisa de castigo e n�o de li��es. Ora, Atenienses, est� demonstrado o que eu dizia: Meleto jamais fez o m�nimo caso dessa quest�o. Sem embargo, dize-nos, Meleto: por que processo corrompo eu a mocidade, segundo afirmas? Ou � claro que, segundo a tua den�ncia, ensinando-os a n�o crer nos deuses em que o povo cr� e sim em outras divindades novas? N�o afirmas que os corrompo ensinando isso?
- � exatamente isso que proclamo em alto e bom som.
- Ent�o, Meleto, por esses mesmos deuses de que agora se trata, fala com mais clareza ainda, a mim e a estes senhores; n�o consigo entender se afirmas que ensino a crer na exist�ncia de certos deuses - nesse caso admito a exist�ncia de deuses, absolutamente n�o sou ateu, nem � esse o meu crime, se bem que n�o sejam os deuses do povo, mas outros, e por serem outros � que me processas - ou se afirmas que n�o creio mesmo em deus nenhum e ensino isso aos outros.
- Isso � o que afirmo, que n�o cr�s mesmo em deus nenhum.
- Meleto, tu �s um assombro! Com que intuito dizes isso? Ent�o eu n�o creio, como toda gente, que o sol e a lua s�o deuses?
- Por Zeus, senhores juizes, ele n�o cr�, pois afirma que o sol � pedra e a lua � terra.
- Tu sup�es estar acusando o Anax�goras (7), eu caro Meleto! Dessa forma, subestimas os presentes, julgando-os t�o iletrados que ignorem que os livros de Anax�goras de Claz�menas � que andam cheios dessas teorias. Logo de mim � que os mo�os aprendem liga��es que eles podem, vez por outra, comprar na orquestra, quando muito por tr�s dracmas e depois rir de S�crates se as quiser impingir como suas, tanto mais umas t�o originais! Enfim, por Zeus, � isso o que pensas de mim? Que n�o creio em deus algum?
- N�o cr�, por Zeus; ele n�o cr� em deus algum!
- Tu n�o mereces f�, Meleto, nem mesmo a tua pr�pria, ao que parece.

Este homem, Atenienses, acho que � por demais temer�rio e estouvado e me fez esta den�ncia apenas por temeridade e estouvamento da juventude; ele d� a impress�o de estar propondo uma adivinha para me experimentar: "Ser� que o s�bio S�crates vai perceber que estou brincando e me contradizendo, ou ser� que o vou lograr com os demais ouvintes?" Penso que ele se contradiz na den�ncia, como se dissesse: "S�crates � r�u de crer nos deuses em vez de crer nos deuses." Isso � de quem est� brincando. Examinai comigo, senhores, por que penso que ele diz isso; tu, Meleto, responde-nos. V�s, de vossa parte, lembrai-vos do que vos pedi no come�o e n�o vos amotineis se eu arranjar a discuss�o � minha maneira habitual.
- Existe, Meleto, uma pessoa que acredite na exist�ncia de coisas humanas e n�o na dos homens? Que ele responda, senhores, e n�o levante protestos sobre protestos! H� algu�m que n�o acredite em cavalos e sim na equita��o? n�o creia em flautistas, e sim na arte de tocar flauta? N�o h�, excelente homem; se n�o queres tu responder, eu o direi a ti e aos demais presentes. Responde, por�m, � pergunta que vem ap�s aquelas: h� quem acredite em poderes demon�acos, mas n�o que existam dem�nios?
- N�o h�.
- Obrigado por teres respondido, embora contrariado, sob a coa��o do tribunal. Por conseguinte, afirmas que eu acredito e ensino que h� poderes demon�acos, sejam novos, sejam antigos, segundo dizes, acredito em poderes, demon�acos; foi o que juraste na den�ncia. Ora, se acredito em seus poderes, for�a � concluir que acredito em dem�nios. N�o � assim? Sem d�vida; fa�o de conta que concordas, j� que n�o respondes. Os dem�nios, n�o � verdade que os consideramos deuses ou filhos de deuses? Sim ou n�o?
- Por certo.
- Logo, se acredito em dem�nios, estes ou s�o uma sorte de deuses - e eu teria raz�o afirmando que est�s propondo uma adivinha por brincadeira, dizendo que eu creio em deuses em vez de crer em deuses, pois que acredito em dem�nios - ou s�o filhos de deuses, uma sorte de bastardos, nascidos de ninfas ou de outras mulheres a quem os atribui a tradi��o - e que homem pode acreditar em filhos de deuses e n�o em deuses? Seria a mesma aberra��o de quem acreditasse serem os machos Filhos de �guas e jumentos, sem crer em �guas e jumentos. N�o, Meleto, n�o � admiss�vel que tenhas apresentado essa den�ncia sem o prop�sito de nos p�r � prova, salvo se foi � falta de um crime real por que me processes; de convenceres algu�m, por est�pido que seja, de que uma mesma pessoa possa acreditar em poderes demon�acos e divinos, mas sem acreditar em dem�nios, deuses e her�is, n�o existe a m�nima possibilidade. Por conseguinte, Atenienses, a aus�ncia da culpa a mim imputada na den�ncia de Meleto n�o parece demandar longa defesa; basta o que foi dito. Ficai, por�m, certos de que � verdade o que eu dizia h� pouco, que muita gente me ficou querendo muito mal. O que me vai condenar, se eu for condenado, n�o � Meleto, nem �nito, mas a cal�nia e o rancor de tanta gente; � o que perdeu muitos outros homens de bem e ainda os h� de perder, pois n�o � de esperar que pare em mim.

Justifica��o de S�crates

Algu�m, talvez, pergunte: "N�o te pejas, � S�crates, de te haveres dedicado a uma ocupa��o que te p�e agora em risco de morrer?" Eu lhe daria esta resposta justa: "Est�s enganado, homem, se pensas que um var�o de algum pr�stimo deve pesar as possibilidades de vida e morte em vez de considerar apenas este aspecto de seus atos: se o que faz � justo ou injusto, de homem de brio ou de covarde. No teu entender, n�o teriam m�ritos os semideuses que pereceram em Tr�ia; entre eles o filho de T�tis, que desdenhava tanto o perigo em confronto com o passar por uma vergonha. Querendo ele matar a Heitor, sua m�e, uma deusa, lhe disse parece que mais ou menos estas palavras: "Filho, se matares a Heitor para vingar a morte de teu amigo P�troclo, tu pr�prio morrer�s, pois, dizia ela, o teu destino te espera logo depois de Heitor." Ele, apesar de ouvir a advert�ncia, fez pouco caso do perigo de morte e, porque temia muito mais viver com desonra, respondeu: "Morra eu assim que castigue o culpado, mas n�o fique por aqui, alvo de risos 'unto das curvas naus, como um fardo da terra." Cuidas que ele se preocupou com o perigo de morte? A verdade, Atenienses, � esta: quando a gente toma uma posi��o, seja por a considerar a melhor, seja porque tal foi a ordem do comandante, a�, na minha opini�o, deve permanecer diante dos perigos, sem pesar o risco de morte ou qualquer outro, salvo o da desonra. Grave falta, Atenienses, teria cometido eu, que, em Potid�ia, em Anf�polis e D�lio, permaneci, como qualquer outro, no posto designado pelos chefes por v�s eleitos para me comandar e ali enfrentei a morte, se, quando um deus, como eu acreditava e admitia, me mandava levar vida de fil�sofo, submetendo a provas a mim mesmo e aos outros, desertasse o meu posto por temor da morte ou de outro mal qualquer. Seria grave e ent�o deveras com justi�a me haveriam trazido ao tribunal pelo crime de n�o crer nos deuses, pois teria desobedecido ao or�culo por temor da morte e supondo ser s�bio sem que o fosse. Com efeito, senhores, temer a morte � o mesmo que supor-se s�bio quem n�o o �, porque � supor que sabe o que n�o sabe. Ningu�m sabe o que � a morte, nem se, porventura, ser� para o homem o maior dos bens; todos a temem, como se soubessem ser ela o maior dos males. A ignor�ncia mais conden�vel n�o � essa de supor saber o que n�o sabe? � talvez nesse ponto, senhores, que difiro do comum dos homens; se nalguma coisa me posso dizer mais s�bio que algu�m, � nisto de, n�o sabendo o bastante sobre o Hades (9), n�o pensar que o saiba. Sei, por�m, que � mau e vergonhoso praticar o mal, desobedecer a um melhor do que eu, seja deus, seja homem; por isso, na alternativa com males que conhe�o como tais, jamais fugirei de medo do que n�o sei se ser� um bem. Portanto, mesmo que agora me dispens�sseis, desatendendo ao parecer de �nito, segundo o qual, antes do mais, ou eu n�o devia ter vindo aqui, ou, j� que vim, � imposs�vel deixar de condenar-me � morte, asseverando ele que, se eu lograr absolvi��o, logo todos os vossos filhos, pondo em pr�tica os ensinamentos de S�crates, estar�o inteiramente corrompidos; mesmo que, apesar disso, me diss�sseis: "S�crates, por ora n�o atenderemos a �nito e te deixamos ir, mas com a condi��o de abandonares essa investiga��o e a filosofia; se fores apanhado de novo nessa pr�tica, morrer�s"; mesmo, repito, que me dispens�sseis com essa condi��o, eu vos responderia: "Atenienses, eu vos sou reconhecido e vos quero bem, mas obedecerei antes ao deus que a v�s; enquanto tiver alento e puder faz�-lo, jamais deixarei de filosofar, de vos dirigir exorta��es, de ministrar ensinamentos em toda ocasi�o �quele de v�s que eu deparar, dizendo-lhe o que costumo: "Meu caro, tu, um ateniense, da cidade mais importante e mais reputada por sua cultura e poderio, n�o te pejas de cuidares de adquirir o m�ximo de riquezas, fama e honrarias, e de n�o te importares nem cogitares da raz�o, da verdade e de melhorar quanto mais a tua alma?" E se algum de v�s redarg�ir que se importa, n�o me irei embora deixando-o, mas o hei de interrogar, examinar e confundir e, se me parecer que afirma ter- adquirido a virtude e n�o a adquiriu, hei de repreend�-lo por estimar menos o que vale mais e mais o que vale menos. � o que hei de fazer a quem eu encontrar, mo�o ou velho, forasteiro ou cidad�o, principalmente aos cidad�os, porque me estais mais pr�ximos no sangue. Tais s�o as ordens que o deus me deu, f'icai certos. E eu acredito que jamais aconteceu � cidade maior bem que minha obedi�ncia ao deus. Outra coisa n�o fa�o sen�o andar por a� persuadindo-vos, mo�os e velhos, a n�o cuidar t�o aferradamente do corpo e das riquezas, como de melhorar o mais poss�vel a alma, dizendo-vos que dos haveres n�o vem a virtude para os homens, mas da virtude v�m os haveres e todos os outros bens particulares e p�blicos. Se com esses discursos corrompo a mocidade, seriam nocivos esses preceitos; se algu�m afirmar que digo outras coisas e n�o essas, mente. Por tudo isso, Atenienses, diria eu, quer atendais a �nito, quer n�o, quer me dispenseis, quer podem lembr�-la agora e punir-me. H� um bem grande n�mero deles que estou vendo aqui, a come�ar por Cr�ton, que � da minha idade e do meu bairro, pai de Critobulo aqui presente; em seguida, Lis�nias de Esfetos, pai de �squines, que a� est�; depois, Antifonte de Cef�sia, pai de Ep�genes; a� est�o outros, cujos irm�os freq�entaram aqueles entretenimentos: Nic�strato, filho de Teoz�tides, irm�o de Te�doto - Te�doto, por sinal, morreu e n�o poderia estorv�-lo com sua intercess�o; h� mais P�ralo, filho de Dem�doco, de quem era irm�o Teages, esse outro � Adimanto, filho de Arist�o, de quem � irm�o Plat�o aqui presente; esse � Ajantodoro, de quem � irm�o � irm�o Apolodoro, tamb�m presente. n�o, n�o hei de fazer outra coisa, ainda que tenha de morrer muitas vezes.

Quem perderia mais com a condena��o

N�o vos amotineis, Atenienses: mantende o favor que vos pedi, n�o vos amotinando com o que digo, mas ouvindo-me; acredito que ouvir-me vos ser� realmente proveitoso. Estou, � verdade, para dizer outras coisas que talvez vos fa�am gritar, mas n�o fa�ais isso de modo algum. Ficai certos de un-la coisa: se me condenardes por ser eu como digo, causareis a v�s pr�prios maior dano que a mim. A mim dano algum podem causar Meleto e �nito; eles n�o t�m for�as para tanto; n�o creio que os c�us permitam que um homem melhor sofra danos de um pior. Eles podem, sim, mandar-me matar, exilar-me, privar-me dos direitos; talvez eles e outros pensem que essas s�o grandes desgra�as; eu n�o; eu penso que muito pior � fazer o que ele est� fazendo, tentando a execu��o injusta de um homem. Neste momento, Atenienses, longe de atuar na minha defesa, como poderiam crer, atuo na vossa, evitando que, com a minha condena��o, cometais uma falta para com a d�diva que recebesses do deus. Se me matardes, n�o vos ser� f�cil achar outro igual, outro que - embora seja engra�ado diz�-lo - por ordem divina se aferre inteiramente � cidade, como a um cavalo grande e de ra�a, mas um tanto lerdo por causa do tamanho e precisado de um tav�o que o espevite; parece-me que o deus me imp�s � cidade com essa incumb�ncia de me assentar perto, em toda parte, para n�o cessar de vos despertar, persuadir e repreender um por um. Outro igual n�o tereis facilmente, senhores, mas, se me crerdes, v�s me poupareis. Bem pode ser que, aborrecidos como quem dormia e foi despertado, deis ouvidos a �nito e, repelindo-me, me condeneis levianamente � morte; depois, passareis o resto da vida a dormir, salvo se o deus, cuidadoso de v�s, vos enviar algum outro. Podeis reconhecer que sou bem um homem dado pelo deus � cidade por esta reflex�o: n�o � conforme � natureza do homem que eu tenha negligenciado todos os meus interesses, sofrendo, h� tantos anos, as conseq��ncias desse abandono do que � meu, para me ocupar do que diz respeito a v�s, dirigindo-me sem cessar a cada um em particular, como um pai ou um irm�o mais velho, para o persuadir a cuidar da virtude. Se auferisse proveito, se meus conselhos fossem pagos, meu procedimento teria outra explica��o; mas v�s mesmos o estais vendo: meus acusadores, t�o descarados em todas as outras acusa��es, n�o foram capazes da extrema impud�ncia de exibir testemunha de que alguma vez tenha recebido ou pedido remunera��o. Porque da verdade de minhas alega��es exibo, suponho, uma prova cabal: minha pobreza.

Absten��o da Pol�tica

Pode parecer esquisito que eu me azafame por todo canto a dar conselhos em particular e n�o me abalance a subir diante da multid�o para dar conselhos p�blicos � cidade. A raz�o disso em muitos lugares e ocasi�es ouvistes em minhas conversas: uma inspira��o que me vem de um deus ou de um g�nio, da qual Meleto fez ca�oada na den�ncia. Isso come�ou na minha inf�ncia; � uma voz que se produz e, quando se produz, sempre me desvia do que vou fazer, nunca me incita. Ela � que me barra a atividade pol�tica. E barra-me. penso, com toda raz�o; ficar certos, Atenienses: se h� muito eu me tivesse votado � pol�tica, h� muito estaria morto e n�o teria sido nada �til a v�s nem a mim mesmo. Por favor, n�o vos doam as verdades que digo; ningu�m se pode salvar quando se op�e bravamente a v�s ou a outra multid�o qualquer para evitar que aconte�am na cidade tantas injusti�as e ilegalidades; quem se bate deveras pela justi�a deve necessariamente, para estar a salvo embora por pouco tempo, atuar em particular e n�o em p�blico. Disto vos posso dar provas valiosas; n�o argumentos, mas fatos, que � o que acatais. Ouvi o que me sucedeu, para saberdes que n�o tenho, por medo da morte, transig�ncia nenhuma com a injusti�a e que, por n�o ceder, teria perecido. O que vou dizer � banal, � de leguleio, mas � verdade. Com efeito, Atenienses, jamais exerci urn cargo p�blico; apenas fiz parte do Conselho. Calhou que a pritania (10)coube � minha tribo, a Anti�quida, quando do processo dos dez capit�es que deixaram de recolher os mortos da batalha naval; v�s os quer�eis julgar em bloco, o que era ilegal, como todos reconhecesses depois. Naquela ocasi�o fui o �nico dos pr�tanes que me opus a qualquer a��o ilegal vossa, votando contra; os oradores estavam prontos a processar-me, a mandar-me prender; v�s os incit�veis a isso aos brados. Embora! Achei de meu dever correr perigo ao lado da lei e da justi�a, em vez de estar convosco numa decis�o injusta, por medo da pris�o ou da morte. Isso foi ainda no regime democr�tico. Doutra feita, ap�s a instaura��o da oligarquia, fui chamado com outros quatro � Rotunda pelos Trinta e estes nos ordenaram que f�ssemos a Salamina buscar a Le�o Salam�nio para morrer; a muitas outras pessoas eles davam ordens semelhantes, no intuito de comprometer o maior n�mero poss�vel. Nessa ocasi�o, de novo, por atos, n�o por palavras, demonstrei que � morte - desculpar a rudeza da express�o - n�o ligo mais import�ncia que um figo podre, mas a n�o cometer nenhuma injusti�a ou impiedade, a isso sim dou o m�ximo valor. A mim, aquele governo, poderoso como era, n�o conseguiu for�ar-me a uma injusti�a; ao deixarmos a Rotunda, os quatro seguiram para Salamina e trouxeram Le�o, mas eu voltei para casa. Bem podia ter morrido por isso, se aquele governo tardasse a cair. H� muitas testemunhas desses fatos. Pensais, acaso, que eu teria vivido tantos anos, se houvesse tomado parte na pol�tica e, obrando como homem de bem, me houvesse batido pela justi�a, dando a essa atitude a m�xima import�ncia que lhe � devida? Que esperan�a, Atenienses! Nem eu, nem outro homem nenhum! Pois bem, em toda minha vida, em minha pouca interven��o nos neg�cios p�blicos, deixei patente que sou assim, como tamb�m sou assim nos neg�cios particulares, jamais assentindo com quem quer que seja no que quer que seja fora dos limites da justi�a, principalmente com qualquer daqueles que os caluniadores chamam disc�pulos meus.

A Escola de S�crates

Eu nunca fui mestre de ningu�m, conquanto nunca me opusesse a mo�o ou velho que me quisesse ouvir no desempenho de minha tarefa. Tampouco falo se me pagam, e se n�o pagam, n�o; estou igualmente � disposi��o do rico e do pobre, para que me interroguem ou, se preferirem ser interrogados, para que ou�am o que digo. Se algum deles vira honesto ou n�o, n�o � justo que eu responda pelo que jamais prometi nem ensinei a ningu�m. Quem afirmar que de mim aprendeu ou ouviu em particular alguma coisa que n�o todos os demais, estai certos de que n�o diz a verdade. Ent�o, por que ser� que alguns gostam de se entreter comigo tanto tempo? V�s o ouvistes, Atenienses; eu vos disse toda a verdade; eles gostam de me ouvir examinar os que sup�em ser- s�bios e n�o o s�o; e isso n�o deixa de ter o seu gosto. Mas, repito, fa�o-o por uma determina��o divina, vinda n�o s� atrav�s do or�culo, mas tamb�m de sonhos e de todas as vias pelas quais o homem recebe ordens dos deuses. � f�cil de comprovar essa verdade; se h� mo�os que estou corrompendo e outros que j� corrompi, for�osamente, decerto, alguns deles j� amadurecidos compreenderam que outrora, na sua mocidade, eu lhes dera maus conselhos e podem levantar-se para me acusar e punir; se n�o o quiserem eles fazer, algu�m da fam�lia, o pai, os irm�os, outros parentes, se os seus familiares sofreram qualquer m� influ�ncia minha, Posso citar muitas outras pessoas, uma das quais de prefer�ncia devia Meleto ter apresentado como testemunha da acusa��o; se ent�o se esqueceu, fa�a-o agora, com minha licen�a, e diga se tem algum testemunho daquela natureza. Bem ao contr�rio, senhores, achareis todos prontos a acudir-me a mim, o corruptor, que fa�o mal a seus parentes no dizer de Meleto e �nito. Talvez tivessem raz�es para me apoiar os corrompidos; mas os que n�o corrompi, j� mais idosos, parentes daqueles, que motivo ter�o para apoiar-me, sen�o o reto e justo de reconhecerem que Meleto mente e eu digo a verdade?

O Estilo da Defesa

Basta, senhores; o que eu poderia alegar em minha defesa �, em suma, mesmo e qui�� argumentos do mesmo g�nero. Algum de v�s talvez se indigne com a recorda��o do seu caso, ele pr�prio, �s voltas com uma lide, embora menos grave que esta, teve de ir, de suplicar aos juizes com l�grimas copiosas, de trazer, para melhor v�-los � piedade, os filhos, outros parentes, muitos amigos, ao passo que - n�o �? - n�o vou fazer nada isso, apesar de estar correndo, como posso imaginar, o extremo perigo. de ser que algu�m, com esse sentimento, seja mais duro para comigo e raivoso do contraste, d� um voto de raiva. Se algum de v�s estiver nesse caso - o que n�o creio - mas se estiver, eu me acharia no direito de lhe dizer: "Eu tamb�m, meu caro, n�o de ter parentes." Como l� diz Homero, n�o nasci dum carvalho ou dum penedo, mas de seres humanos; portanto, Atenienses, tenho parentes e filhos; estes s�o tr�s, um j� taludo e dois pequeninos. N�o obstante, n�o trouxe nenhum deles para aqui com o fito de vos pedir absolvi��o. Por que raz�o n�o hei de faz�-lo? N�o por presun��o, Atenienses, nem por menosprezo vosso; minha calma ou perturba��o em face da mote � quest�o � parte; mas em face da honra, minha, vossa e de toda a cidade, eu considero uma n�doa aquele procedimento na minha idade e com a reputa��o adquirida; certa ou errada, sempre � opini�o corrente que S�crates nalguma coisa se distingue do comum dos homens. Se, quem passa por distinguir-se entre v�s pela sabedoria, pela coragem ou qualquer outro m�rito, � uma pessoa daquelas atitudes, que vergonha! Como vi tantas vezes pessoas, embora tidas como homens de valor, fazer em ju�zo cenas de causar espanto, persuadidos de que seria um horror terem de morrer, como se houvessem de ser imortais se v�s n�o os conden�sseis � morte; eles s�o, a meu ver, uma vergonha para a cidade, dando ao forasteiro a impress�o de que os homens distinguidos entre os atenienses pelos seus merecimentos e escolhidos por eles para o governo e cargos honor�ficos em nada diferem das mulheres. N�s que passamos, n�o importa como, por ter algum valor, n�o devemos, Atenienses, adotar aquele procedimento, nem deveis v�s consentir nele, caso o adotemos, e sim mostrar-vos mais decididos a condenar quem, encenando desses dramas lamurientos, lan�a o rid�culo sobre a cidade, do que um de comportamento decente. � parte a quest�o da honra, senhores, n�o me parece justo pedir e obter dos juizes a absolvi��o, em vez de inform�-los e convenc�-los. O juiz n�o torna assento para dispensar o favor da justi�a, mas para julgar; ele n�o jurou favorecer a quem bem lhe pare�a, mas julgar segundo as leis. N�s n�o vos devemos habituar ao perj�rio, nem v�s deveis contrair esse v�cio; seria impiedade nossa e vossa. Portanto, Atenienses, n�o pretendais que eu pratique diante de v�s o que n�o considero belo, nem justo, nem pio, sobretudo, por Zeus, quando a� est� Meleto acusando-me de impiedade! Evidentemente, se, com a for�a de persuas�o de minhas s�plicas, vos levasse ao perj�rio, eu vos estaria ensinando a n�o crer na exist�ncia dos deuses e, com tal defesa, simplesmente me estaria acusando de n�o crer em deuses. Muito ao contr�rio, Atenienses, eu acredito como nenhum de meus acusadores e espero de v�s e da divindade que vossa senten�a a meu respeito seja a melhor para mim e para v�s.

II
An�lise da Vota��o

Para que eu me conforme com o resultado, a minha condena��o, concorrem muitas raz�es; entre elas, a de n�o se tratar de fato inesperado. Muito mais me espanta o n�mero de votos contados de cada parte. Eu imaginava a decis�o seria essa, n�o por pequena, mas por grande margem; no entanto, parece, com uma transposi��o de apenas trinta votos, estaria absolvido. No tocante a Meleto, acho que fui absolvido; mais do que isso, quem quer pode ver que, n�o fosse subirem �nito e Lic�o para acusar-me, ele seria multado em mil dracmas, por n�o Ter colhido um quinto dos sufr�gios.

Discuss�o das Penas

Ora, o homem prop�e a senten�a de morte. Bem; e eu que pena vos hei de propor em troca, Atenienses? A que mere�o, n�o � claro? Qual ser�? Que senten�a corporal ou pecuni�ria mere�o eu que entendi de n�o levar uma vida quieta? Eu que, negligenciando o de que cuida toda gente - riquezas, neg�cios, postos militares, tribunas e fun��es p�blicas, conchavos e lutas que ocorrem na pol�tica, coisas em que me considero de fato por demais pundonoroso para me imiscuir sem me perder - n�o me dediquei �quilo, a que se me dedicasse, haveria de ser completamente in�til para v�s e para mim? Eu que me entreguei � procura de cada um de v�s em particular, a fim de proporcionar-lhe o que declaro o maior dos benef�cios, tentando persuadir cada um de v�s a cuidar menos do que � seu que de si pr�prio para vir a ser quanto melhor e mais sensato, menos dos interesses do povo que do pr�prio povo, adotado o mesmo princ�pio nos demais cuidados? Que senten�a mere�o por ser assim? Algo de bom, Atenienses, se h� de ser a senten�a verdadeiramente proporcionada ao m�rito; n�o s�, mas algo de bom adequado a minha pessoa. O que � adequado a um benfeitor pobre, que precisa de lazeres para vos viver exortando? Nada t�o adequado a tal homem, Atenienses, como ser sustentado no Pritaneu; muito mais do que a um de v�s que haja vencido, nas Olimp�adas, uma corrida de cavalos, de bigas ou de quadrigas. Esse vos d� a impress�o da felicidade; eu, a felicidade; ele n�o carece de sustento, eu care�o. Se, pois, cumpre que me sentenciem com justi�a e em propor��o ao m�rito, eu proponho o sustento no Pritaneu. Dizendo isso pode parecer, como foi a respeito das lam�rias e s�plicas, que falo presun�osamente. N�o � assim, Atenienses; mas � que estou convencido de que n�o fa�o mal a ningu�m por querer, mas n�o consigo convencer-vos disso. � que conversamos durante pouco tempo; se fosse norma entre v�s, corno em outros povos, n�o decidir um processo capital num dia s�, mas em muitos, suponho que vos teria convencido; infelizmente, n�o � f�cil em tempo ex�guo escoimar-se de cal�nias t�o fortes. Convencido, portanto, de que n�o fa�o mal a ningu�m, muito menos o farei a mim pr�prio; n�o direi eu pr�prio contra mim que mere�a algum mal, nem proporei pena alguma. Que posso temer? Sofrer a pena proposta por Meleto, que declaro ignorar se � um bem, se � um mal? Hei de preferir e propor em troca uma daquelas que sei que s�o males? Porventura a pris�o? Para que hei de viver na cadeia, escravizado ao comando sempre reformado dos Onze"? (11) Ou uma multa, permanecendo preso at� pag�-la toda? Daria na mesma, pois, como disse h� pouco, n�o tenho bens com que pagar. Proporei, ent�o, o desterro, a que possivelmente me sentenciar�eis? Muito amor � vida deveria eu ter para ficar t�o est�pido que n�o compreendesse que, se v�s, sendo meus concidad�os, n�o pudestes aturar minhas conversas e assuntos, t�o importunos e odiosos para v�s, que neste momento vos estais procurando livrar deles, outros h�o de atur�-los melhor? Que esperan�a, Atenienses! Bela vida seria a minha se, homem da minha idade, partisse daqui para viver expulso de cidade em cidade! Estou certo de que, aonde quer que v�, os mo�os me vir�o ouvir, como aqui; se os repelir, eles mesmos dar�o ouvidos aos mais velhos para me expulsar; se n�o os repelir, h�o de expulsar-me por causa deles seus pais e parentes. Pode algu�m perguntar: "Mas n�o ser�s capaz, � S�crates, de nos deixar e viver calado e quieto?" De nada eu convenceria alguns dentre v�s mais dificilmente do que disso. Se vos disser que assim desobedeceria ao deus e, por isso, imposs�vel � a vida quieta, n�o me dareis f�, pensando que � ironia; doutro lado, se vos disser que para o homem nenhum bem supera o discorrer cada dia sobre a virtude e outros temas de que me ouvistes praticar quando examinava a mim mesmo e a outros, e que vida sem exame n�o � vida digna de um ser humano, acreditareis ainda menos em minhas palavras. Digo a pura verdade, senhores, mas convencer-vos dela n�o me � f�cil. Acresce que n�o estou habituado a julgar-me merecedor de mal nenhum.

Prop�e S�crates uma multa

Se tivesse dinheiro, estipularia uma multa de minhas posses; n�o sofreria nada com isso. Infelizmente, n�o tenho mesmo, salvo se quiserdes estipular tanto quanto possa pagar. Talvez vos possa pagar uma mina de prata; � quanto estipulo, portanto. Mas a� est� Plat�o, Atenienses, com Cr�ton, Critobulo e Apolodoro, mandando que estipule trinta minas, sob sua fian�a. Estipulo, pois, essa quantia; ser�o fiadores da soma essas pessoas id�neas.

III
Aos que o condenaram

Por n�o terdes esperado mais um pouco, Atenienses, aqueles que desejarem injuriar a cidade vos lan�ar�o a fama e a acusa��o de haverdes matado S�crates, um s�bio. Sim, dir-me-�o s�bio, embora n�o o seja, os que vos quiserem malsinar. Se aguard�sseis algum tempo, a natureza mesma faria a vossa vontade. Bem vedes a minha idade, j� distante da vida e a da morte. N�o dirijo essas palavras a todos v�s, mas aos que votaram pela minha morte. Para esses mesmos, acrescento o seguinte: talvez imagineis, senhores, que me perdi por falta de discursos com que vos poderia convencer, se na minha opini�o se devesse tudo fazer e dizer para escapar � justi�a. Engano! Perdi-me por falta, n�o de discursos, mas de atrevimento e descaro, por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir, lamentos e gemidos, fazendo e dizendo uma multid�o de coisas que declaro indignas de mim, tais como costumais ouvir dos outros. Ora, se antes achei que o perigo n�o justificava nenhuma indignidade, tampouco pesa agora da maneira por que me defendi; ao contr�rio, muito mais folgaria em viver ap�s faz�-la daquele outro modo. Quer no tribunal, quer na guerra, n�o devo eu, n�o deve ningu�m lan�ar m�o de todo e qualquer recurso para escapar � morte. Com efeito, � evidente que, nas batalhas, muitas vezes se pode escapar a morte arrojando as armas e suplicando piedade aos perseguidores; em cada perigo, tem muitos outros meios de escapar � morte quem ousar tudo fazer e dizer. N�o se tenha por dif�cil escapar � morte, porque muito mais dif�cil � escapar � maldade; ela corre mais ligeira que a morte. Neste momento, fomos apanhados, eu, que sou um velho vagaroso, pela mais lenta das duas, e os meus acusadores, �geis e velozes, pela mais ligeira, a malvadez. Agora, vamos partir; eu, condenado por v�s � morte; eles, condenados pela verdade a seu pecado e a seu crime. Eu aceito a pena imposta; eles igualmente. Por certo, tinha de ser assim e penso que n�o houve excessos. Sobre o futuro, por�m, desejo fazer-vos um vatic�nio, meus condenadores; com efeito, eis-me chegado �quele momento em que os homens vaticinam melhor, quando est�o para morrer. Eu vos afian�o, homens que me mandais matar, que o castigo vos alcan�ar� logo ap�s a minha morte e ser�, por Zeus, muito mais duro que a pena capital que me impusesses. V�s o fizestes supondo que vos livrar�eis de dar boas contas de vossa vida; mas o resultado ser� inteiramente oposto, eu vo-lo asseguro. Ser�o mais numerosos os que vos pedir�o contas; at� agora eu os continha e v�s n�o o perceb�eis; eles ,ser�o tanto mais importunos quanto s�o mais jovens, e vossa irrita��o ser� maior. Se imaginas que, matando homens, evitareis que algu�m vos repreenda a m� vida, estais enganados; essa n�o � uma forma de liberta��o, nem � inteiramente eficaz, nem honrosa; esta outra, sim, � a mais honrosa e mais f�cil; em vez de tapar a boca dos outros, preparar-se para ser o melhor poss�vel. Com este vatic�nio, despe�o-me de v�s que me condenasses.

Aos que o absolveram

Com os que votaram pela absolvi��o, gostaria de conversar a respeito do que se acaba de passar, enquanto est�o ocupados os magistrados e antes de seguir para onde devo morrer. Portanto, senhores, ficai comigo mais um pouco; nada impede que nos entretenhamos enquanto dispomos de tempo. Quero explicar-vos, como a amigos, o sentido exato do que me sucedeu agora. O que me aconteceu, senhores juizes - a v�s � que chamo com acerto juizes - foi uma coisa prodigiosa. A inspira��o costumada, a da divindade, sempre foi rigorosamente ass�dua em opor-se mesmo a a��es m�nimas, quando eu ia cometer um erro; agora, por�m, acaba de suceder-me o que v�s estais vendo, o que se poderia considerar, e h� quem o fa�a, como o maior dos males; mas a advert�ncia divina n�o se me op�s de manh�, ao sair de casa, nem enquanto subia aqui para o tribunal, nem quando ia dizer alguma coisa; no entanto, quantas vezes ela me conteve em meio de outros discursos! Mas hoje n�o se me op�s nenhuma vez no decorrer do julgamento, em nenhuma a��o ou palavra. A que devo atribuir isso? Vou dizer-vos: � bem poss�vel que seja um bem paira mim o que aconteceu e n�o � for�oso que acertemos quantos pensamos que a morte um mal. Disso tenho agora uma boa prova, porque a costumada advert�ncia n�o poderia deixar de opor-se, se n�o fosse uma a��o boa o que eu estava para fazer. Fa�amos mais esta reflex�o: h� grande esperan�a de que isto seja um bem. Morrer � uma destas duas coisas: ou o morto � igual a nada, e n�o sente nenhuma sensa��o de coisa nenhuma; ou, ent�o, como se costuma dizer, trata--se duma mudan�a, urna emigra��o da. alma, do lugar deste mundo para outro lugar. Se n�o h� nenhuma sensa��o, se � como um sono em que o adormecido nada v� nem sonha, que maravilhosa vantagem seria a morte! Bem posso imaginar que, se a gente devesse identificar uma noite em que tivesse dormido t�o profundamente que nem mesmo sonhasse e, contrapondo a essa as demais noites e dias de sua vida, pensar e dizer quantos dias e noites de sua exist�ncia viveu melhor e mais agradavelmente do que naquela noite, bem posso imaginar que, j� n�o digo um particular, mas o pr�prio rei da P�rsia acharia f�ceis de enumerar essas noites entre as outras noites e dias. Logo, se a morte � isso, digo que � uma vantagem, porque, assim sendo, toda a dura��o do tempo se apresenta como nada mais que uma noite. Se, do outro lado, a morte � como a mudan�a daqui para outro lugar e est� certa a tradi��o de que l� est�o todos os mortos, que maior bem haveria que esse, senhores juizes? Se, em chegando ao hades, livre dessas pessoas que se intitulam ju�zes, a gente vai encontrar os verdadeiros ju�zes que, segundo consta, l� distribuem a justi�a, Minos, (12), Radamanto, �aco, Tript�lemo e outros semideuses que foram justiceiros em vida, n�o valeria a pena a viagem? Quanto n�o daria qualquer de v�s para estar na companhia de Orfeu, (13) Museu, Hes�odo e Homero? Por mim, estou pronto a morrer muitas vezes, se isso � verdade; eu de modo especial acharia l� um entretenimento maravilhoso, quando encontrasse Palamedes (14), �jax de Telam�o e outros dos antigos, que tenham morrido por uma senten�a in�qua; n�o me seria desagrad�vel comparar com os deles os meus sofrimentos e, o que � mais, passar o tempo examinando e interrogando os de l� como aos de c�, a ver quem deles � s�bio e quem, n�o o sendo, cuida que �. Quanto n�o se daria, senhores ju�zes, para sujeitar a exame aquele que comandou a imensa expedi��o contra Tr�ia, ou Ulisses, ou S�sifo - milhares de outros se poderiam nomear, homens e mulheres, com quem seria uma felicidade indiz�vel estar junto, conversando com eles, sujeitando-os a exame! Os de l� absolutamente n�o matam por uma raz�o dessas! Os de l� s�o mais felizes que os de c�, entre outros motivos, por serem imortais pelo resto do tempo, se a tradi��o est� certa. V�s tamb�m, senhores ju�zes, deveis bem esperar da morte e considerar particularmente esta verdade: n�o h�, para o homem bom, nenhum mal, quer na vida, quer na morte, e os deuses n�o descuidam de seu destino. O meu n�o � efeito do acaso; vejo claramente que era melhor para mim morrer agora e ficar livre de fadigas. Por isso � que a advert�ncia nada me impediu. N�o me insurjo absolutamente contra os que votaram contra mim ou me acusaram. Verdade � que n�o me acusaram e condenaram com esse modo de pensar, mas na suposi��o de que me causavam dano: nisso merecem censura. Contudo, s� tenho um pedido que lhes fa�a: quando meus filhos crescerem, castigai-os, atormentai-os com os mesm�ssimos tormentos que eu vos infligi, se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude; se estiverem supondo ter um valor que n�o tenham, repreendei-os, como vos fiz eu, por n�o cuidarem do que devem e por suporem m�ritos, sem ter nenhum. Se v�s o fizerdes, eu terei recebido de v�s justi�a; eu, e meus filhos tamb�m. Bem, � chegada a hora de partirmos, eu para a morte, v�s para a vida. Quem segue melhor rumo, se eu, se v�s, � segredo para todos, menos para a divindade.



NOTAS

1. �nito, rico industrial e pol�tico, Fracassou como general no ano 409 a.C. e, processado por isso, salvou-se corrompendo os juizes. Passando ao partido popular, cooperou na derrubada da tirania dos Trinta e tornou-se muito influente, Figura, com Meleto e Lic�o, entre os acusadores de S�crates no processo. (N. do T.)
2. Meleto ou Melito, poeta de segunda ordem, cuja obra n�o chegou at� n�s. (N. do T.)
3. Arist�fanes, c�lebre e grande comedi�grafo; punha em cena personagens e temas da �poca, polemizando a respeito de pol�tica, costumes e id�ias. Na com�dia das Nuvens, ridiculariza e calunia a S�crates, apresentando-o como um charlat�o. (N. do T.)
4. G�rgias, Pr�dico e H�pias eram sofistas, isto �, professores; propunham-se a tornar seus disc�pulos soph�i, ou seja, h�beis, preparados. O primeiro ensinou filosofia e ret�rica; o segundo, moral e gram�tica; o terceiro, de tudo. (N. do T.)
5. Em Delfos havia um templo, onde Apolo dava or�culos, predizendo o futuro. A alus�o � ao ex�lio sofrido pelos partid�rios da democracia, no ano 404 a.C., quando se instalou em Atenas a tirania dos Trinta (N. do T.)
6. Assim se chamava a sacerdotisa do templo de Delfos, que formulava os or�culos. (N. do T.)
7. Anax�goras, fil�sofo da escola j�nica, mestre e conselheiro de P�ricles, c�lebre por Ter concebido a exist�ncia duma Mente, Nous, ordenadora do Universo. Por dar explica��es naturalistas dos fen�menos celestes, foi condenado por impiedade a exilar-se de Atenas em 432 A . C. Suas obras, como as de outros autores, podiam ser compradas no local do teatro destinado ao coro, denominado orquestra. (N. do T.)
8. T�tis, nereida, divindade marinha, foi m�e de Aquiles, her�i da Il�ada; aqui, alude-se a uma cena do canto XVIII, desse poema.(N. do T.)
9. Segundo criam os gregos, ap�s a morte, iam as almas para o Hades, esp�cie de limbo, lugar escuro e frio, situado no �mago da terra, onde continuavam a viver, como sombras. (N. do T.)
10. Os delegados das tribos, em que se dividia o povo ateniense, ao Conselho dos Quinhentos, esp�cie de c�mara deliberativa, chamavam-se pr�tanes. Alude-se ao processo dos comandantes da batalha naval de Arginusas, em 406 a.C. (N. do T.)
11. Os Onze eram autoridades policiais eletivas. (N. do T.)
12. Minos, rei de creta, Radamanto, �aco, Tript�lemo, her�is mitol�gicos, foram, segundo a tradi��o conservada nos ritos secretos dos chamados Mist�rios, designados ju�zes das almas no outro mundo.(N. do T.)
13. Orfeu e Museu s�o autores lend�rios dos hinos e c�nticos dos ritos dos Mist�rios. (N. do T.)
14. Palamedes e �jax s�o figuras lend�rias; o primeiro teria morrido apedrejado, v�tima duma cal�nia, no acampamento dos gregos em Tr�ia; o segundo, her�i duma trag�dia de S�focles, al�m de o ser da Il�ada, suicidou-se por ter sido fraudado na heran�a das armas de Aquiles, que deviam caber ao mais valoroso dos guerreiros. (N. do T.)




Fontes:
1- http://upd.cefetsp.br/~eso/apologiasocrates.html "Os Pensadores", Ed. Nova Cultural, 1987, S�o Paulo, p�g. 5-27 - Tradu��o de Jaime Bruna
2- http://www.geocities.com/Vienna/2809/socrates.html

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