André Gide - Paludes ANGÈLE
Quarta-feira
Usar uma agenda; escrever para cada dia o que se tem a fazer durante a semana, � organizar sabiamente seu tempo. N�s mesmos decidimos nossas a��es; temos certeza de n�o depender a cada manh� da atmosfera, j� que as resolvemos de antem�o e sem constrangimento. Da minha agenda eu tiro o sentimento do dever; escrevo com oito dias de anteced�ncia, a fim de ter tempo para esquecer e de me criar surpresas, indispens�veis em minha maneira de viver; assim toda noite adorme�o frente a um amanh� desconhecido, e no entanto j� decidido por mim mesmo.
Na minha agenda h� duas partes: numa folha escrevo o que vou fazer, e na folha da frente, toda noite, escrevo o que fiz. Depois comparo; subtraio, e o que n�o fiz, o d�ficit, se torna o que deveria ter feito. Reescrevo-o para o m�s de dezembro e isso me d� id�ias morais. Comecei h� tr�s dias. Assim, hoje de manh�, face � indica��o: tentar levantar �s seis horas, escrevi: levantei �s sete. Depois, entre par�nteses: imprevisto negativo. Seguiam-se na agenda v�rias notas:
Escrever para Gustave e L�on.
Espantar-se por n�o receber carta de Jules.
Ir ver Gontran.
Pensar na individualidade de Richard.
Preocupar-se a respeito das rela��es entre Hubert e Ang�le.
Encontrar tempo para ir ao Jardim das Plantas; estudar as varieades da pequena potamogeton�cea para Paludes.
Ir de noite � casa de Ang�le.Seguia-se este pensamento (escrevo previamente um para cada dia; eles determinam minha tristeza ou minha alegria):
"H� coisas que recome�amos a cada dia, simplesmente porque n�o temos nada melhor para fazer; n�o h� progresso nem mesmo manuten��o de uma situa��o - mas, enfim, n�o se pode ficar sem fazer nada... Isso corresponde, no tempo, ao movimento, no espa�o, das feras prisioneiras ou �quele das mar�s nas praias." Lembro-me que esta id�ia me veio, passando na frente de um restaurante com terra�o, ao ver os gar�ons servirem e tirarem os pratos. Escrevi embaixo: "Bom para Paludes." E me preparei para pensar na individualidade de Richard. Numa pequena secret�ria guardo minhas reflex�es e coment�rios a respeito de meus poucos melhores amigos; uma gaveta para cada um; peguei o ma�o de pap�is e reli:
RICHARD
Folha I
Homem excelente; merece toda a minha estima.
Folha II
Gra�as a uma aplica��o constante, conseguiu sair da grande mis�ria onde o deixara a morte de seus pais. Uma de suas av�s ainda vive; ele a cerca daqueles cuidados piedosos e ternos que temos freq�entemente para com a velhice; e no entanto h� muitos anos que ela voltou � inf�ncia. Casou-se com uma mulher mais pobre que ele, por virtude, e a faz feliz com sua fidelidade. Quatro filhos. Sou padrinho de uma menina que manca.
Folha III
Richard tinha por meu pai uma grande venera��o; � o mais fiel de meus amigos. Imagina conhecer-me perfeitamente, embora n�o leia nunca nada do que escrevo; � isso que me permite escrever Paludes; penso nele quando penso em T�tiro; gostaria de nunca t�-lo conhecido. Ang�le e ele n�o se conhecem; n�o se poderiam compreender.
Folha IV
Tenho a infelicidade de ser muito estimado por Richard; por causa disso n�o ouso fazer nada. A gente n�o se livra com facilidade de uma estima enquanto continua a apreci�-la. Muitas vezes Richard me afirma com emo��o que eu sou incapaz de qualquer m� a��o, e isso me segura quando, �s vezes, eu gostaria de me decidir a agir. Richard aprecia muito em mim essa passividade que me mant�m nos caminhos da virtude, para onde me empurraram outros parecidos com ele. Ele chama freq�entemente de virtude a aceita��o, porque isso a faculta aos pobres.
Folha V
Trabalho de escrit�rio o dia inteiro; � noite, junto da mulher, Richard l� o jornal a fim de ter assunto para conversar. "Voc� viu", me perguntava, "a nova pe�a de Pailleron no Teatro Franc�s?" Mant�m-se em dia com todas as chegadas: "Voc� vai ver os novos gorilas?", pergunta, quando sabe que vou ao Jardim das Plantas. Richard me trata como uma crian�a grande; para mim isto � insuport�vel; para ele, o que fa�o n�o � s�rio; vou contar para ele Paludes.
Folha VI
Sua mulher se chama Ursule.
Peguei uma folha VII e escrevi:
"Todas as carreiras sem auto-realiza��o s�o horr�veis - as que s� rendem dinheiro -, e t�o pouco, que � preciso recome�ar sem cessar. Que estagna��es! No momento da morte, o que ter�o feito? Ter�o preenchido seu lugar. L�gico! Escolheram-no t�o pequeno quanto eles pr�prios." Para mim isso n�o tem import�ncia, porque estou escrevendo Paludes, de outra forma pensaria de mim como deles. � preciso realmente tentar variar um pouco nossa exist�ncia.Nesse momento o empregado me trouxe o desjejum e algumas cartas, uma precisamente de Jules, e eu parei de me espantar com seu sil�ncio; pesei-me, por higiene, como toda manh�; escrevi para L�on e Gustave algumas frases; depois, tomando minha tigela di�ria de leite (� maneira de alguns lake poets), pensei: Hubert n�o entendeu nada de Paludes; n�o pode se convencer de que um autor n�o escreva para distrair, desde que n�o escreve mais para informar. T�tiro o entedia; ele n�o compreende um estado que n�o seja um estado social; acredita estar longe disso porque se agita; devo ter-me explicado mal. Est� tudo bem, pensa ele, j� que T�tiro est� contente; mas � justamente porque T�tiro est� contente que eu quero deixar de estar. Ao contr�rio, � preciso que as pessoas se indignem. Vou tornar T�tiro desprez�vel de tanta resigna��o... Eu ia recome�ar a pensar na individualidade de Richard quando ouvi tocar a campainha e ele pr�prio, fazendo passar seu cart�o de visita, entrou. Fiquei um pouco contrariado, n�o podendo pensar claramente nas pessoas em presen�a delas.
- Ah! caro amigo! - exclamei ao abra��-lo. Precisamente, que coincid�ncia! Eu ia pensar em voc� hoje de manh�.
- Venho pedir-lhe um favor - disse ele. - Oh! coisa de nada; mas como voc� n�o tem nada para fazer, pensei que poderia conceder-me alguns instantes; uma simples assinatura para apor; uma apresenta��o; preciso de um padrinho; voc� vai responder por mim; vou explicar-lhe tudo no caminho; apressemo-nos; devo estar no escrit�rio �s dez horas.
Tenho horror de parecer desocupado; respondi:
- Felizmente ainda n�o s�o nove horas; temos tempo; mas logo depois tenho algo a fazer no Jardim das Plantas.
- Ali! Ah! - come�ou ele. - Voc� vai ver os novos...
- N�o, meu caro Richard - interrompi com aparente desembara�o -, n�o vou ver os gorilas; preciso ir estudar algumas variedades de pequenas potamogeton�ceas para Paludes.
Imediatamente fiquei irritado com Richard por minha resposta tola. Ele ficou calado, com medo de nossa ignor�ncia. Pensei: ele deveria dar risadas. N�o ousa. A sua piedade me � insuport�vel. Evidentemente acha-me absurdo. Esconde de mim seus sentimentos para impedir que eu manifeste sentimentos parecidos em rela��o a ele. Mas n�s sabemos que os temos. Nossas estimas reciprocas se mant�m em respeito, encostadas uma contra a outra; ele n�o ousa retirar a dele com medo de que a minha caia logo. Tem para comigo afabilidades protetoras... Ali! N�o faz mal; eu conto Paludes - e comecei mansamente:
- Como vai sua mulher?
Imediatamente Richard, falando consigo mesmo, continuou:
- Ursule? Ah! A pobrezinha! S�o seus olhos agora que est�o cansados, por culpa dela; devo contar-lhe, caro amigo, o que n�o diria a ningu�m? Mas conhe�o sua discreta amizade. Eis a hist�ria toda. �douard, meu cunhado, estava precisando muito de dinheiro; era necess�rio obt�-lo. Ursule sabia de tudo, porque Jeanne, sua cunhada, tinha vindo visit�-la no mesmo dia. Ent�o minhas reservas estavam praticamente esgotadas, e para pagar a cozinheira era preciso privar Albert de suas aulas de violino. Eu estava muito triste com isso, pois s�o as �nicas distra��es de sua longa convalesc�ncia. N�o sei como, a cozinheira veio a saber disso; essa mo�a tem muito apego por n�s; voc� a conhece bem, � Louise. Ela nos procurou chorando, dizendo que preferiria deixar de comer a magoar Albert. T�nhamos que aceitar, para n�o ofender a boa mo�a; mas tomei a decis�o de me levantar duas horas todas as noites, quando minha mulher pensa que estou dormindo, e de juntar, por meio de algumas tradu��es de artigos ingleses que sei a quem oferecer, o dinheiro de que priv�vamos a boa Louise.
- Na primeira noite tudo correu bem; Ursule dormia profundamente. Na segunda noite, mal eu me instalara, quem vejo chegar?... Ursule! Ela tivera a mesma id�ia: para pagar Louise, preparava pequenas telas, que sabe a quem oferecer; voc� sabe que ela tem um certo talento para a aquarela ... coisas encantadoras, meu caro... Ambos est�vamos muito comovidos; nos abra�amos chorando. Tentei em v�o persuadi-Ia a se deitar, logo ela que se cansa t�o depressa. Ela n�o quis; suplicou-me, como uma prova da maior amizade, que a deixasse trabalhar perto de mim; tive que consentir, mas ela se cansa. Fazemos assim todas as noites. Isto torna nossas vig�lias um pouco longas, apenas achamos in�til deitar primeiro, j� que n�o nos escondemos mais um do outro.
- Mas � muito comovente o que voc� est� me contando - exclamei, e pensei: n�o, jamais poderei falar-lhe de Paludes; pelo contr�rio... e murmurei: - Querido Richard! Creia que entendo bem suas tristezas... voc� � mesmo muito infeliz.
- N�o, caro amigo - retrucou ele. - N�o sou infeliz. Poucas coisas me foram concedidas, mas eu fiz minha felicidade com poucas coisas; voc� pensa que lhe contei minha hist�ria para inspirar piedade? Em torno de mim o amor e a estima, o trabalho perto de Ursule � noite... eu n�o trocaria estas alegrias...
Houve um sil�ncio bastante longo. Eu perguntei:
- E as crian�as?
- Pobres crian�as! - exclamou ele. - � isso que me entristece: precisariam viver ao ar livre, brincar ao sol; murcham nesses c�modos muito apertados. Para mim tanto faz; estou velho; j� me conformei com essas coisas, mas meus filhos n�o s�o alegres, e eu sofro com isso.
- � verdade - repliquei - que a sua casa tem cheiro de abafado; mas quando se abrem demais as janelas, os cheiros da rua sobem todos... Enfim, h� o jardim do Luxemburgo... � mesmo o assunto de...
- Mas logo pensei: n�o, definitivamente n�o posso lhe falar de Paludes... e tomei a atitude, no fim da frase, de quem cai numa profunda medita��o.
Depois de alguns momentos eu ia, em desespero de causa, pedir not�cias da av�, quando Richard me avisou que t�nhamos chegado. - Hubert j� est� aqui - disse ele. - Ali�s, n�o expliquei nada para voc�... estava precisando de dois avalistas. N�o faz mal; voc� vai entender... v�o ser lidos os pap�is.
- Creio que voc�s se conhecem - acrescentou Richard, enquanto eu apertava a m�o de meu grande amigo. Hubert j� ia come�ando:
- Ent�o, e Paludes?
Apertei-lhe a m�o com mais for�a e lhe disse em voz baixa:
- Shh! Agora n�o! Daqui a pouco voc� vai sair comigo; a� vamos conversar.
Logo ap�s a assinatura dos pap�is, Hubert e eu nos despedimos de Richard e fomos andando. Ele ia a um curso pr�tico de parto, justamente ao lado do jardim das Plantas.
- Pois bem - comecei -, a� vai: voc� se lembra dos frangos d'�gua; T�tiro matava quatro, dizia eu. Nada disso! N�o pode: a ca�a � proibida. Logo surge um padre: a Igreja, diz ele a T�tiro, teria visto com muita tristeza T�tiro comer marrecos; � uma ca�a pecaminosa; o cuidado nunca � demais; o pecado nos espreita por toda parte; na d�vida, o melhor � a abstin�ncia; demos a prefer�ncia � macera��o; a Igreja conhece algumas excelentes e cuja efic�cia � certa. Ousarei aconselhar a um irm�o: coma, coma minhocas.
- Assim que o padre sai, aparece um m�dico e pergunta: Voc� ia comer marrecos? N�o sabia que � muito perigoso? Nestes p�ntanos h� o perigo da febre maligna; � preciso adaptar seu sangue; similia similibus, T�tiro! Coma minhocas (lumbriculi limosi) - a ess�ncia dos p�ntanos se concentra nelas, e al�m disso � um alimento muito nutritivo.
- Que nojo! - disse Hubert.
- N�o �? - continuei. - E tudo isso � horrivelmente falso; voc� entende que se trata apenas de uma quest�o de guarda florestal! Mas o que mais espanta � que T�tiro experimenta; em poucos dias se acostuma; chega a ach�-las deliciosas. Diga! Esse Titiro n�o � repugnante?
- � um bem-aventurado - disse Hubert.
- Ent�o, falemos de outra coisa - exclamei, irritado. E lembrando-me de repente que devia preocupar-me com o relacionamento entre Hubert e Ang�le, tentei estimul�-lo a falar:
- Que monotonia! - recomecei, depois de um sil�ncio. Nenhum acontecimento! - Seria preciso tentar mexer um pouco em nossas exist�ncias. Mas n�o inventamos nossas paix�es! - Ali�s, eu s� conhe�o Ang�le; ela e eu nunca nos amamos de maneira muito decisiva: o que lhe direi hoje � noite, poderia ter lhe dito na v�spera; n�o h� progresso...Entre uma frase e outra eu ficava esperando. Ele continuava calado. Ent�o prossegui maquinalmente:
- Para mim tanto faz, porque estou escrevendo Paludes, mas o que n�o suporto � que ela n�o compreenda esse estado ... Foi isso, ali�s, o que me deu a id�ia de escrever Paludes. Afinal Hubert come�ou a se excitar:
- Por que voc� quer perturb�-la, se ela � feliz assim?
- Mas ela n�o � feliz, meu caro amigo. Ela acredita ser feliz porque n�o se d� conta de seu estado; voc� compreende que se � mediocridade se acrescenta a cegueira, fica ainda mais triste.
- E se voc� chegar a abrir-lhe os olhos; se conseguir torn�-la infeliz?
- J� seria muito mais interessante; pelo menos ela n�o estaria mais satisfeita; buscaria algo. - Mas n�o pude saber mais nada, porque nesta altura Hubert encolheu os ombros e calou-se. Um momento depois, recome�ou:
- N�o sabia que voc� conhecia Richard.
Era quase uma pergunta; eu poderia ter-lhe dito que Richard era T�tiro, mas, como n�o reconhecia em Hubert nenhum direito de desprezar Richard, disse-lhe simplesmente:
- � um rapaz de muito valor. - E prometi a mim mesmo, em compensa��o, falar disso � noite com Ang�le.
- Ent�o, adeus - disse Hubert, compreendendo que n�o falar�amos. Estou com pressa, voc� n�o anda suficientemente r�pido. A prop�sito, hoje �s seis horas da tarde n�o poderei ir v�-lo.
- Tanto melhor - respondi -, vamos mudar algo.Ele se foi. Eu entrei sozinho no jardim; dirigi-me lentamente para as plantas. Gosto desses lugares; vou com freq��ncia; todos os jardineiros me conhecem; eles me abrem os recintos reservados e pensam que sou um cientista porque, perto dos tanques, eu me sento. Gra�as a uma vigil�ncia cont�nua, esses tanques s�o deixados intactos; s�o alimentados por uma �gua que escorre sem ru�do. Neles crescem as plantas que nascem naturalmente e nadam muitos insetos. Eu me ocupo em olh�-los; foi mesmo um pouco isso que me deu a id�ia de escrever Paludes; o sentimento de uma contempla��o in�til, a emo��o que experimento diante das delicadas coisas cinzentas. Nesse dia escrevi pensando em T�tiro:
Acima de todas, me atraem as grandes paisagens planas - as charnecas mon�tonas -, e faria longas viagens para encontrar terrenos pantanosos, mas os tenho aqui � minha volta. N�o pensem com isso que eu seja triste; n�o sou nem mesmo melanc�lico; sou T�tiro e solit�rio e amo uma paisagem assim como um livro que n�o me distrai de meu pensamento. Pois o meu pensamento, ele � triste; � s�rio e, mesmo estando perto dos outros, sombrio; amo-o mais que tudo, e � para passe�-lo que procuro sobretudo as plan�cies, as lagoas sem sorrisos, as charnecas. Eu o passeio suavemente por essas terras.
Por que meu pensamento � triste? Se eu sofresse com isso, perguntaria a mim mesmo com mais freq��ncia. Se voc�s n�o chamassem minha aten��o para isso, talvez eu nem soubesse, pois muitas vezes ele se diverte com muitas coisas que n�o interessam absolutamente a voc�s. Assim ele se compraz em reler essas linhas; alegra-se em ocupa��es insignificantes - � in�til que lhes diga porque voc�s n�o as reconheceriam ...Soprava um ar quase morno; acima da �gua se inclinavam fr�geis gram�neas que alguns insetos dobravam. Um impulso germinativo separava as margens das pedras; um pouco de �gua fugia, umedecia as ra�zes. Musgos, descidos at� o fundo, davam uma ilus�o de profundidade com a sombra: algas glaucas retinham bolhas de ar para a respira��o das larvas. Passou um hidr�filo. N�o pude conter um pensamento po�tico e, tirando outra folha do bolso, escrevi:
T�tiro sorri.
Depois disso senti fome e, reservando o estudo das potamogeton�ceas para outro dia, fui procurar ao longo do Sena o restaurante de que Pierre me falara. Pensei que estaria sozinho. L� encontrei L�on, que me falou de Edgar. � tarde visitei alguns literatos. Pelas cinco horas come�ou a cair uma pequena pancada de chuva; voltei para casa; escrevi as defini��es de vinte voc�bulos da escola e encontrei para a palavra blastoderma at� oito ep�tetos novos.
� noite estava um pouco cansado e, depois do jantar, fui dormir em casa de Ang�le. Digo em casa dela e n�o com ela, n�o tendo nunca feito com ela mais do que pequenos simulacros an�dinos. Ela estava s�. Quando entrei, estava tocando com precis�o uma sonatina de Mozart num piano rec�m-afinado. J� era tarde, e n�o se ouviam outros ru�dos. Ang�le tinha acendido todas as velas dos casti�ais e posto um vestido de xadrezinho.
Ang�le - falei ao entrar -, dever�amos tentar variar um pouco nossas vidas! Voc� vai me perguntar mais uma vez o que acabo de fazer hoje?
Provavelmente ela n�o entendeu bem a amargura da minha frase, porque me perguntou logo:
- Ent�o, o que � que voc� fez hoje?
Ai, sem querer, respondi:
- Vi meu grande amigo Hubert.
- Ele acaba de sair daqui - retrucou Ang�le.
- Mas voc� nunca poder� nos receber juntos, querida Ang�le? - exclamei.
Ele talvez n�o fa�a tanta quest�o, disse ela. Enfim, se voc� o deseja muito, venha jantar comigo sexta-feira � noite; ele estar� aqui. Voc� nos ler� versos... A prop�sito, amanh� � noite: j� convidei voc�? recebo alguns literatos; voc� est� inclu�do. A reuni�o � �s nove horas.
- Vi v�rios hoje - respondi, falando dos literatos. Gosto dessas exist�ncias tranq�ilas. Trabalham sempre, e no entanto a gente n�o os incomoda nunca; parece, quando se vai v�-los, que eles s� trabalhavam por voc� e que preferem conversar com voc�. Suas amabilidades s�o encantadoras; eles t�m tempo para prepar�-las. Gosto dessas pessoas cuja vida � constantemente ocupada, mas talvez ocupada conosco. E como n�o fazem nada que valha a pena, n�o se tem remorso de roubar seu tempo. Mas, a prop�sito, estive com T�tiro.
- O celibat�rio?
- Sim, mas na realidade � casado, pai de quatro filhos. Chama-se Richard... n�o me diga que acaba de sair daqui, voc� n�o o conhece.
Ang�le, um pouco melindrada, me disse ent�o:
- Voc� est� vendo que n�o era verdadeira a sua hist�ria!
- Por que n�o era verdadeira? Porque s�o seis em lugar de um! Eu fiz T�tiro sozinho para concentrar essa monotonia; � um processo art�stico; voc� n�o vai querer que os ponha todos seis pescando com anzol?
- Estou t�o certa que na realidade eles t�m ocupa��es diferentes!
- Se eu as descrevesse, pareceriam excessivamente diferentes; os acontecimentos contados n�o conservam entre si os valores que tinham na vida. Para permanecermos verdadeiros, somos obrigados a fazer arranjos. O importante � que eu exprima a emo��o que me d�o.
- Mas se essa emo��o � falsa?
- A emo��o, querida amiga, nunca � falsa; por acaso voc� n�o leu alguma vez que o erro vem a partir do julgamento? Mas por que contar seis vezes, j� que a impress�o que eles d�o � a mesma, exatamente seis vezes. . . Voc� quer saber o que eles fazem, na realidade?
- Fale - disse Ang�le - Voc� est� com um ar exasperado.
- Em absoluto - gritei... - O pai faz escritura��o; a m�e cuida da casa; um filho mais velho d� aulas; outro recebe; a primeira filha manca; a �ltima, ainda muito pequena, n�o faz nada. H� tamb�m a cozinheira... A mulher se chama Ursule... E note que todos fazem exatamente a mesma coisa todos os dias!
- Talvez sejam pobres - alegou Ang�le.
- Evidentemente! Mas voc� compreende Paludes? Richard, ao acabar os estudos, perdeu o pai, um vi�vo. Precisou trabalhar; tinha poucos haveres, que um irm�o mais velho arrebanhou; mas trabalhar em tarefas rid�culas, imagine s�! Aquelas que s� rendem dinheiro! Nos escrit�rios, a cobrar por c�pias! em vez de viajar! Ele n�o viu nada; sua conversa tornou-se ins�pida; l� os jornais para poder conversar quando tem tempo. Todas as suas horas est�o tomadas. N�o est� dito que jamais possa fazer algo diferente antes de morrer. Casou-se com uma mulher mais pobre que ele, por dignidade, sem amor. Ela se chama Ursule. Ah! Eu j� havia dito. Fizeram do casamento uma lenta aprendizagem do amor; chegaram a se amar muito, e a me contar. Eles gostam muito dos filhos, os filhos gostam muito deles ... h� tamb�m a cozinheira. Domingo � noite todos jogam loto ... ia esquecendo a av�; ela tamb�m joga, mas como n�o enxerga mais as fichas, dizem baixinho que ela n�o conta. Ah! Ang�le! Richard! Tudo na vida dele foi inventado para tapar buracos, para preencher lacunas muito profundas, tudo! inclusive sua fam�lia. Ele nasceu vi�vo; s�o cada dia as mesmas mesquinharias lament�veis, os substitutos de todas as coisas melhores. E agora n�o pense mal dele, � extremamente virtuoso. Ali�s, ele se considera feliz.
- Mas como! Voc� est� solu�ando? - perguntou Ang�le.
- N�o ligue, � nervoso. Ang�le, querida amiga: afinal de contas voc� n�o acha que nossa vida carece de aventura real?
- O que fazer? - continuou ela suavemente.
- Voc� n�o quer que partamos, n�s dois, para uma viagenzinha? Por exemplo, s�bado... voc� n�o tem nada a fazer?
- Nem pense nisso, Ang�le. Depois de amanh�?
- Por que n�o? Partir�amos juntos de manh�zinha; voc� jantaria aqui na v�spera, com Hubert; ficaria aqui para dormir perto de mim... E agora, adeus; vou dormir; est� ficando tarde, e voc� me cansou um pouco. A empregada j� preparou o seu quarto.
- N�o, n�o vou ficar, querida amiga, desculpe-me; estou muito excitado. Antes de deitar tenho necessidade de escrever muito. At� amanh�. Eu volto para casa.
Queria consultar minha agenda. Sa� quase correndo, ainda mais porque estava chovendo, e eu n�o tinha guarda-chuva. Assim que cheguei escrevi, para um dia de uma pr�xima semana, este pensamento, n�o apenas a prop�sito de Richard. "Virtude dos humildes - aceita��o; e isto se adapta t�o bem a alguns, que chegamos a concluir que sua vida � feita na medida exata de sua alma. Sobretudo n�o ter pena deles: seu estado lhes conv�m; deplor�vel! N�o percebem mais a mediocridade quando ela deixa de ser uma mediocridade de ordem material. O que eu dizia, sobressaltado, para Ang�le � a pura verdade: os eventos acontecem a cada um conforme suas afinidades peculiares. Cada um encontra o que lhe conv�m. Assim, se a pessoa se contenta com o med�ocre que tem, prova que este mod�ocre corresponde � sua dimens�o, e nada diferente acontecer�. Destinos feitos sob medida. Necessidade de romper suas roupas como o pl�tano ou o eucalipto, ao crescerem, rompem sua casca."
- Estou escrevendo demais - disse a mim mesmo. - Bastavam quatro palavras. Mas n�o gosto de f�rmulas. Agora, examinemos a proposta prodigiosa de Ang�le. Abri a agenda no primeiro s�bado, e na folha desse dia pude ler:
"Tentar levantar �s seis horas. Variar as emo��es.
- Escrever para Lucien e Charles.
- Encontrar o equivalente do nigra sed formosa para Ang�le.
- Esperar que poderei acabar Darwin.
- Visitar: Laure (explicar Paludes), No�mi, Bernard; transtornar Hubert (importante).
- Ao cair da noite procurar passar na ponte Solf�rino.
- Procurar ep�tetos para fungosidades."Era s�. Retomei a caneta, risquei isso tudo e escrevi simplesmente:
"Fazer com Ang�le uma pequena viagem de prazer."
Depois fui deitar.