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UMA NOVA ORDEM ESPIRITUAL
  UMA NOVA ORDEM ESPIRITUAL

                             Domingos Vieira





                                Capítulo I



                    Do Iluminismo à Iluminação





P - Já há muito tempo vem-se falando sobre uma crise global de valores. Agora ela se torna cada vez mais clara, sua configuração cada vez mais tangível. Sei que o senhor tem investigado a questão de forma demorada e profunda. Como o senhor a vê atualmente?



R - Se alguém houvesse apresentado essa questão na Índia, a Bhagavan Ramana Maharshi, ele provavelmente teria perguntado: “Quem percebe a crise?” A resposta teria de ser “eu”. Ele então recomendaria examinar em primeiro lugar o que é e de onde surge essa noção “eu”.  Chegaremos aí em nossa conversação, mas, por enquanto, vamos seguir uma outra linha de investigação, menos direta.



A crise realmente se tornou extraordinária. Algumas pessoas não querem mais usar essa palavra; preferem falar em degradação, degeneração. Há uma enorme superficialidade, corrupção, violência, degradação do meio ambiente. Qual a causa de tudo isso?



Eu sugiro que façamos uma análise histórica, não em grandes detalhes, nem de forma acadêmica ou muito rigorosa, e que prossigamos a partir daí.  Poderíamos começar citando os Carvakas, que são anteriores a Buda. Eles talvez tenham sido os primeiros a sistematizar o pensamento materialista. Trata-se de um sistema filosófico completo. Os Carvakas, de forma contrária ao pensamento predominante na Índia, disseram não haver transcendência alguma e afirmaram só existir espaço e átomos, dos quais derivam os quatro elementos – água, terra, fogo e ar - sendo a consciência um produto da estrutura material.



P – A raiz da crise poderia estar aí?



R – A raiz da crise está aí. Mas é preciso compreender que os Carvakas apenas desenvolveram e sistematizaram um pensamento que já acompanhava o ser humano. Podemos retroceder e considerar que desde que o homem se tornou sedentário, e passou a lidar com a produção de grãos e seus excedentes, provavelmente, enquanto a maioria rendia homenagem aos fenômenos naturais e os adorava, alguns estavam tão ocupados com a administração e com a segurança das comunidades que essas atividades dominavam os seus pensamentos e preocupações e os moldavam. Portanto, é possível que desde o princípio da fixação territorial as duas correntes de pensamento, e as gradações entre elas, tenham começado a se delinear.



P – A atenção deles estaria predominantemente voltada para as urgentes questões práticas de sobrevivência, de tal forma que daí decorreria um determinado tipo de mentalidade; enquanto que nos outros, que se sentiam fisicamente protegidos, haveria mais espaço para que aflorassem outros sentimentos, como o medo e o estranhamento com relação ao meio e à existência.



R – É uma possibilidade. De qualquer maneira, chegamos, em um período pré-budista, aos Carvakas. Os adeptos dessa filosofia afirmavam que se devia tirar o máximo proveito desta vida, pois não há forma alguma de vida após a morte, nenhum “além”, nenhum deus ou divindade, nenhuma transcendência. Mesmo que se aceitasse algo a que se poderia chamar de “espírito”, como o fazia um dos ramos dos Carvakas, tal espírito não passaria de um produto dos fatores materiais e teria o seu fim com a morte do corpo.



P - Isso é realmente o materialismo.



R – Os Carvakas também diziam que, uma vez que se deve aproveitar ao máximo a vida, há de se evitar todos os exageros, pois que acarretam males. Ser ponderado e ter moderação são, portanto, requisitos essenciais para o aproveitamento da vida e de seus prazeres. O pensamento dos Carvakas foi vigorosamente enfrentado na Índia, principalmente por Buda, e encontrou melhor repercussão na Grécia, com Demócrito, Epicuro, e seus seguidores, embora também sob muita resistência.



Aqui nós abrimos um parêntese para dizer que, evidentemente, a estória de que a filosofia nasceu na Grécia é uma falácia. É a história contada do ponto de vista do europeu. Grega é só a palavra “filosofia”; o “amor à sabedoria” é muito mais antigo.



P – Uns poucos historiadores se referem a isso, mas o seu pensamento, compreensivelmente, não tem muita repercussão.



R – Correto. Recentes descobertas, como as realizadas na costa da Índia e do Japão, têm mostrado, também, que grandes civilizações já estavam estabelecidas há muito mais tempo do que em geral se julga.



Agora podemos nos deslocar um pouco, no ocidente, para a chamada “Baixa Idade Média” e então para a época do humanismo renascentista, para o iluminismo, para o positivismo e para o marxismo. Renascimento comercial, urbano, “cultural”. Há Deus, mas no universo o homem é o centro - a visão teísta, que reflete a transição entre feudalismo e capitalismo. A “nova ordem secular”, temporal, mundana, que hoje muitos chamam de “nova ordem mundial”, sem compreender bem o que significa e pensando tratar-se de alguma coisa recente, de uma ou duas décadas anteriores. A sociedade organizada e orientada pela ciência e pela razão, com a promessa de emancipação e felicidade por essa via.



P – As idéias iluministas.



R – Exato. O que significa que dali em diante o ser humano buscará a sua felicidade unicamente no campo material, no campo dos fenômenos. E por que isso? Bem, aqui está um dos pontos centrais da questão que estamos discutindo. Comércio, burguesia, acúmulo de capital, promessa de felicidade no campo do progresso material e tecnocientífico, em oposição ao discurso da igreja católica, de busca da felicidade nos valores religiosos, contra a usura, a favor do “preço justo” das mercadorias, etc. Ataca-se, portanto, os valores das classes dominantes de então, os nobres e a igreja, todos representando trevas, atraso e empecilho para a felicidade humana, para o novo mundo onde essa felicidade será possível, para o lucro dos mercadores. 



Segue-se o positivismo, a mentalidade positiva, científica, culminando um processo evolutivo: mentalidade mimética, indiferenciada, no princípio; posteriormente, a mentalidade mítica, a mentalidade religiosa, na forma de crenças, politeísta e, depois monoteísta; em um estágio mais avançado, não mais um Deus, mas forças atuantes – a metafísica; finalmente, o ápice, a mentalidade positiva, que lida unicamente com os fenômenos observados e suas relações. Todo o processo anterior foi uma preparação para esse estágio. O domínio da coisa em si fica para sempre além do conhecimento, da razão, inacessível ao espírito humano. Portanto, ocupemo-nos apenas com o conhecido e busquemos aí a nossa felicidade. Posteriormente, o marxismo, reforçando mais ainda o pensamento secular: as relações de produção se constituem no mais importante fator da vida em comunidade; só há os fenômenos, a natureza.



P – Voltamos aos Carvakas.



R – Sim; que, como dissemos, foram vigorosamente combatidos na Índia pelos representantes do hinduísmo e por Buda. Para alguns, o budismo é uma forma de “hinduísmo para exportação”. Buda adota e usa muitos dos argumentos do discurso dos Carvakas e leva esses argumentos ao extremo, fazendo com que a perspectiva espiritual se apresente através de um rigoroso exame dos processos mentais e de uma vigorosa negação de crenças, dogmas e autoridades ditas religiosas. Modernamente, Krishnamurti realizou um trabalho bem parecido a esse. Para mim, a essência do ensinamento de Buda se encontra no discurso em que ele encadeia as causas do sofrimento e demonstra como pode o sofrimento chegar ao fim.



P – Retornando um pouco, dizíamos que chegamos a um ponto da nossa história, pelo menos da história ocidental, em que se procurou estabelecer uma sociedade com base em uma ordem secular, dirigida e orientada pela ciência e pela razão.



R – Aqui é preciso advertir que, além do interesse apaixonado pelo assunto, é preciso tempo e paciência para realizar essa investigação, o que não nega o sentimento de urgência em compreender.



Vamos abordar de várias maneiras o assunto, até que possamos ter um quadro claro, abrangente. Portanto, é necessário ter paciência.



Bem, a nova ordem secular. Dostoievski, em “Os Demônios”, diz que pela primeira vez na história da humanidade se estava tentando estabelecer uma ordem social com base na ciência e na razão. Agora, aqui há um ponto crucial: Emmanuel Kant demonstrou que a razão não poderia chegar a desvendar a coisa em si mesma, qualquer coisa. O “em si” de qualquer coisa, como alguns gostam de dizer, a coisa em si mesma, fica para sempre além do conhecimento. Há uma representação, constrói-se uma representação, um modelo, uma imagem, mas a representação não é a coisa representada. Kant expressou o desejo de que o homem, talvez através de alguma outra faculdade até agora desconhecida, mas que realmente não existe – vamos abordar isso mais adiante – viesse a por um fim à incognoscibilidade da  coisa em si.



Aqui surge uma questão também crucial: por que o intelecto, o conhecimento, a ciência e a razão, sendo limitados, foram escolhidos como os fatores determinantes, orientadores e organizadores da nova ordem? Por que nunca se perguntou isso antes? Não constitui a razão uma faculdade insuficiente para compreender e, conseqüentemente, lidar com a realidade? Por que não houve uma vibrante ação rejeitando que a sociedade fosse determinada a partir de uma faculdade limitada como a razão? Por que foi aceita essa imposição?



P: A resposta óbvia que alguns dariam, à parte os interesses econômicos, seria talvez a de que não dispomos de outro instrumento para apreender e elaborar o que seja a realidade. 



R: Muito bem. Mas deveria também ser óbvia a percepção de que tentar organizar o viver com base em algo que, em última instância, não sabe com o que está lidando, e, mais ainda, jamais saberá, deveria levar inevitavelmente a caos, confusão, desordem e destruição. Uma vez que se desiste da transcendência, da “coisa em si”, da Verdade, ou se as transforma em um objetivo postergável, distante, secundário, inócuo, há então de imperar o mundo dos objetos, das mercadorias, e o mundo das representações, das imagens, a serviço daquele, o que está completamente de acordo com os interesses da sociedade criada por mercadores e dominada por estes e por seus sucedâneos. O mundo é transformado em um grande mercado. Quase tudo é vendável, senão tudo. Cultura, arte, sentimentos, emoções, mediados por imagens, se voltam para o mundo das mercadorias e para o próprio mundo das imagens. Imagens e objetos, indissoluvelmente associados e sucedendo-se em novas aparências em ritmo vertiginoso, passam a ser o absoluto sempre perseguido e sempre inalcançável, absoluto formado de fragmentos, que se transformam no foco de atenção da mente, ela própria um amontoado de imagens, idéias, pensamentos – imagem glorificando imagem. Trata-se da afirmação - e provavelmente do auge - do reino da aparência e da banalidade, em que a interioridade é deslocada para esse reino que, aparentemente, a substitui.      



P – È o que foi chamado de indústria cultural, sociedade do espetáculo.



R – Exatamente. Berdiaev, Adorno, Debord, todos eles, e outros, cada um a seu modo, perceberam e descreveram esse tipo de sociedade que estamos investigando. É preciso atentar, no entanto, para o fato de que os princípios fundamentais das questões de que estamos tratando são muito simples, e não é preciso ser letrado para compreendê-los. Em geral o intelectualismo – não o intelecto, obviamente – se torna um fator que obsta à compreensão.



P – Bem, agora sou eu a pedir-lhe um pouco de paciência para que possa acompanhá-lo, uma vez que nunca havia abordado, ou visto alguém abordar, o assunto dessa maneira. Os instrumentos todos de que dispomos não são suficientes para apreender a coisa em si mesma. O conhecimento é sempre incompleto, e é por isso que ele é ilimitado, no sentido de que não há fim para esse adicionar mais alguma coisa ao que se conhecia. Algo a que se está sempre adicionando alguma coisa é sempre incompleto. E esse mesmo conhecimento, a ciência e a razão, que não podem apreender o que uma coisa realmente é, que são insuficientes para isso, são usados para orientar, dirigir e organizar o viver, até chegarmos a esse ponto, a um tal modo de vida. Lembra-me o “cego guiando cegos”. É quase um choque perceber isso. Detecto em mim uma resistência em admitir essa percepção, mas está muito claro para que eu possa negá-la. Mas, então, o que fazer? Parece-me que chegamos a um beco sem saída.





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                              Capítulo II



                             Da Investigação





R – Vamos continuar do ponto em que chegamos na primeira discussão. Agir com base no conhecimento, dizíamos, é continuar a agir com base na semi-escuridão, na ignorância. Porque os instrumentos de conhecimento são limitados, não se sabe o que é o ser humano em sua totalidade, não se sabe o que é o universo, o que é a vida. Ou seja, com base na ignorância procura-se organizar o viver. Por mais amplo e profundo que seja o conhecimento, ele continua a ser incompleto e, portanto, a ignorância persiste. A luz da razão precisa da escuridão para brilhar. Para haver conhecimento é preciso que haja ignorância.  Uma vez que o conhecimento nunca pode ser completo, jamais haverá o fim da escuridão, da ignorância, através do conhecimento. 



P – A pergunta inevitável que vem à mente ao se dar conta desse fato é: ”o que fazer?”. Ou não há nada a ser feito?



R – Há. Estamos investigando. Usar a razão – não a razão fria, mas a apaixonada, que envolve as emoções, os sentimentos, o viver diário com todas as suas alegrias e angústias, com toda sua a sua complexidade – até o seu limite, e deixá-la, - como a um barco que nos ajudou a chegar à outra margem – voltando a usá-la, sempre que necessário, como um instrumento.



Vamos passo a passo. Voltemos um pouco às críticas feitas pelo iluminismo à religião, às organizações religiosas. É preciso agora fazer uma investigação sobre o que é religião. Tomemos, para nosso exame, o pensamento hindu. Fundamentalmente, para o hinduísmo, para o budismo e para outras manifestações religiosas da Índia, religião é um processo para nos levar à descoberta da verdade acerca de nós mesmos, do mundo e daquilo a que se pode chamar de “Deus”, “Nirvana”, Brahmam. Só com essa descoberta podemos ter uma vida plena, viver conscientemente a totalidade de nós mesmos. E apenas esse viver a totalidade de nós mesmos pode nos conferir a felicidade. Isso realizado, não há mais necessidade de religião.  Esse viver a totalidade de nós mesmos é, em si, a felicidade. Portanto, religião, para o pensamento hindu, é fundamentalmente busca, investigação.  A palavra “busca” precisa ser compreendida aqui não como projeção de alguma coisa a ser alcançada, e sua conseqüente perseguição, mas como investigação, exame, escrutínio da mente. A palavra “mente”, nesse contexto, deve ser tomada como a totalidade dos sentimentos e pensamentos.



Considere a Vedanta, por exemplo; a escola Advaita-Vedanta, não dualística. “Vedanta” significa literalmente “o fim do conhecimento”, “o fim dos Vedas”. A palavra sânscrita “Vedas” significa “conhecimento” e deriva de “Vid”, “conhecer”. O fundamental aqui, nessa escola de pensamento, é descobrir a nossa verdadeira natureza, e a investigação é o meio para isso. A mais direta investigação é aquela proposta por Ramana Maharshi, que citamos no princípio desse nosso diálogo. Ramana Maharshi, o sábio de Arunachala, viveu em corpo físico até 1950, em Tiruvanamalai, sul da Índia. Para viver e agir com lucidez é preciso compreender quem está agindo, quem sou eu, o que é esse “eu”, de onde ele surge, diz Sri Ramana. Devemos ter em mente que estamos procurando ver aqui o que significa religião.



P – E estamos vendo que para o pensamento hindu ela significa fundamentalmente investigação. A crença, as cerimônias e os rituais seriam então uma forma inferior de religião?



R – Constituir-se-iam em uma forma para aqueles que não se sentem aptos para a investigação. Mesmo entre os que se sentem inclinados a investigar, há aqueles que, de início, não se sentem aptos para a investigação direta. Para esses é recomendada a investigação indireta. Em que consiste ela? Consiste em observar o funcionamento da mente, acompanhar todas a s suas reações no viver diário, ficar diante de todo o conteúdo mental, dos medos, das alegrias, dos prazeres, dores, esperanças, desespero. Permitir que os conteúdos das camadas mais profundas venham à tona. Examinar bem de perto para descobrir se o observador é diferente do conteúdo mental que ele está observando. Compreender o processo de formação de imagens, da confusão que se faz tomando a representação pela coisa representada, e compreender o processo do vir-a-ser que daí decorre. Compreender a limitação do pensamento e perguntar a si mesmo se há alguma coisa além do pensamento, o que já conduz para o campo da investigação direta. Estamos, por enquanto, olhando o processo em linhas gerais. Para outros, ainda, que sentem a inclinação para o investigar, mas acham difícil começar com a observação da mente, uma outra forma de iniciar a investigação é recomendada.



É necessário que digamos aqui que todo esse trabalho requer, naturalmente, que haja grande descontentamento. Não são todas as pessoas que irão querer realizá-lo, e isso é um fato da vida. Os diferentes graus de descontentamento levam as pessoas a diferentes buscas com o objetivo de encontrar a felicidade. 



P – Alguns podem se satisfazer, pelo menos temporariamente – e esse “temporariamente” pode ter a duração de uma vida – apenas com crenças e rituais e com as emoções e sentimentos correspondentes. Outros podem não querer saber absolutamente de religião, e buscar sua felicidade unicamente no mundo dos objetos, das idéias e das sensações.



R - Exatamente.



P – Falávamos de uma terceira forma de investigação.



R – Na verdade, trata-se de uma só investigação, em três aspectos, que não são excludentes entre si. Essa outra maneira consiste em começar pela observação do que acontece no mundo. Se as condições em que o mundo se encontra são perturbadoras, dolorosas para mim, desejo operar uma transformação no mundo e procuro compreender que tipo de atitude humana e que forma de viver levam a essas condições. Começo a compreender que para haver desordem nas relações humanas é preciso que esta seja criada por mentes desordenadas. Procuro identificar os fatores dessa desordem e verificar se eles estão presentes em mim. Naturalmente, descubro que o conteúdo da mente humana é comum a todos nós, com arranjos diferentes, e que o fato de haver arranjos diferentes é também comum a todos nós. Passo então a investigar a minha mente, o que me leva para a segunda forma.



P – Correto.



R - Para alguns, um pouco da investigação indireta já os transporta logo para a inquirição direta. Para outros, isso requer mais tempo. Depende de cada um. E para aquele que chegou à compreensão de si mesmo, não há mais necessidade de religião. Vemos, então, que as crenças, as cerimônias e os rituais são adequados para algumas pessoas. Na Índia, alguns têm grande devoção, sem necessariamente pertencerem a alguma comunidade religiosa. Outros fazem uso de técnicas para deter o fluxo do pensamento e, assim, poderem observar a si mesmos e ao mundo sem o crivo dos conceitos. Há o caminho da ação, que consiste em cumprir bem o seu trabalho, a serviço de Deus e do próximo. Há o caminho que consiste na paixão pela beleza. Há o caminho do amor. O que importa é esse movimento em direção à plenitude. Em Crime e Castigo, a regeneração espiritual de Raskolnikov se dá através do amor entre ele e Sônia. No ocidente, em geral, foi adotada a forma de religião baseada em crença, mas alguns dos outros caminhos que citamos não nos são estranhos.



P – Temos notícia de que no princípio do Cristianismo havia diferentes escolas, diferentes formas de praticar a religião. Por exemplo, em um dos evangelhos apócrifos, o de Tomé, há essa frase atribuída a Jesus Cristo: “Quem não conhece a si mesmo não conhece coisa alguma; mas, quem se conhece veio a conhecer simultaneamente a profundidade de todas as coisas”. Isso está de acordo com “O Reino de Deus está dentro de vós”. Por interesses econômicos e políticos, no século IV, sob o imperador romano Constantino, apenas uma determinada linha do Cristianismo foi aceita como verdadeira; os adeptos da nova religião que adotavam outras linhas foram perseguidos como hereges. Lembrei-me de uma outra frase que li, atribuída a Jesus Cristo, no mesmo evangelho de Tomé. Em palavras aproximadas: “Não ergam templos de madeira e de pedra em meu nome. Levantem uma pedra e me encontrarão; quebrem um pedaço de madeira e eu aí estarei”. Crença e organizações religiosas, contudo, prevaleceram.



R – Essa é a forma vulnerável a hierarquização, a fanatismos, a manipulações de toda ordem e ao controle por parte do Estado. Revoltar-se contra isso é uma atitude sã. Os Carvakas já apontavam esses fatos e faziam críticas contundentes à religião organizada. Buda demonstrou o verdadeiro sentido da religião, e adotou em seu discurso muitas daquelas críticas; alguns o têm como ateu. A feroz crítica à religião a partir do iluminismo é essencialmente a crítica a essa forma manipulável de religião, vista então apenas como fenômeno e sintoma psicológico, moral, econômico, político e social. Essa própria crítica contribuiu para fortalecer a idéia que prevalece no ocidente sobre o que é religião. Contudo, mesmo no interior desse sistema, outras formas de prática religiosa foram possíveis. Um caso evidente é o de São João da Cruz, que usava um método investigativo. Muitos na igreja católica não aceitam o seu método, da mesma forma que não o aceitaram na época, e até o consideram excessivamente “budista”.



                                                                                                                     



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                                Capítulo III



                    Sombras da “Coisa em Si”





P – Em relação ao que estávamos discutindo, e por curiosidade, preparei, há pouco tempo, e tenho aqui comigo, uma lista com várias críticas à religião, pesquisadas e descritas em trabalhos a favor da religião, como os de Luiz Felipe Pondé e de Rubem Alves. Religião tida como “ópio, alienação, forma dissimulada de hierarquia política, ressentimento dos fracos, projeção da figura paterna ou daquilo que de ‘melhor’ existe no ser humano – projeção essa que teria como desdobramento a perda da capacidade de atuar esse ‘melhor’ pelo fato de colocá-lo fora de si – enfim, como modo de funcionamento marcado pela carência noética; fantasmagorias para acalmar o terror da contingência, atitude ‘naïve’ de desgaste intelectual”, entre outras críticas, como apresenta Luiz Felipe Pondé em um de seus ensaios (1). Religião tida como “ilusão, neurose, ideologia para embasar comportamentos e justificar a dominação, discurso destituído de sentido, símbolo de ausência, de fratura ontológica, ordenação do mundo visando à sobrevivência do coletivo, sonho de uma nova sociedade, fuga da realidade, grito de protesto dos oprimidos”, na apresentação de Rubem Alves, no seu livro “O Que É Religião” (2).  Vemos, nas duas exposições, opiniões como as de Nietzsche, Marx, Freud, Durkheim e Feuerbach, entre outros.



R – Nietzsche, entretanto, não estava limitado pelo pensamento secular. Em “Vontade de Potência” ele afirma que só na Vedanta encontrou correspondência ao seu pensamento, à sua visão.



Quase todas essas críticas, de fato, procedem, de certa forma, levando-se em conta os contextos que as originaram e sob certas condições, como temos visto. Na verdade, todas as concepções sobre a vida, sobre as sociedades, sobre o ente humano, todos os modelos mentais, crenças, ideologias, todos os “modos de ver” são limitados, incompletos e, por isso, falhos e sujeitos a críticas. O instrumento de que dispomos para avaliar é limitado, e tudo o que dele deriva e todas as estruturas por ele criadas são falhas.   



Vamos examinar um pouco mais a esse respeito. Consideremos a ciência. O que ela constrói são modelos da realidade, imagens, deigmas. Sabemos que vários mitos foram erigidos em torno da ciência: o mito da objetividade, o mito da neutralidade científica e dos cientistas, o mito do método, o mito do rigor, o mito da falsificabilidade ou falseabilidade. Thomas Kuhn, no seu livro “A Estrutura das Revoluções Científicas” (3) refere-se, a meu ver de forma bem clara, a uma ciência chamada de “normal” e a outra, a ciência “criativa”.



Em linhas gerais, um cientista criativo é aquele que, não satisfeito com os modelos, com os deigmas existentes, deixa-os em suspenso e, buscando novas respostas para um problema, ou determinado conjunto de problemas, um desafio, mantém-se em estado de inquirição, o que implica não-saber - e nesse estado surge a resposta, um insight, que ele apresenta ao mundo científico. Tem-se, então, um paradigma, uma visão que se encontra ao lado, fora da visão ou visões até então aceitas. Daí em diante haverá um complexo processo, envolvendo repúdio, aceitação, resistências, inveja, interesses econômicos, competição, esforços para demonstrar a validade do novo paradigma, medo de perda de posição, de prestígio, por parte dos cientistas “normais”, envolvidos com o modelo ou modelos que estão sendo suplantados, e inúmeras outras reações e acomodações à nova maneira de ver. Não há, obviamente, neutralidade dos cientistas.



A ciência “normal” é aquela em que se processam todas as ações - inclusive a de esconder fracassos – em relação ao modelo predominante num dado período. O modelo predominante e as linhas de pesquisa estão fortemente atrelados ao poderio econômico, subjugados inevitavelmente à ideologia dominante. Não há neutralidade científica.



Um paradigma perde essa condição, naturalmente, quando passa a ser aceito. Ele se torna o modelo predominante, que inevitavelmente será suplantado por outro. A ciência, portanto, não pode ser definida pelo seu conteúdo. Para chegar ao paradigma, à nova visão, o método científico não pode ser usado. O “caminho”, que etimologicamente está presente na palavra “método”, nesse caso é o “não caminho”, é a expectativa da resposta, do insight, da descoberta. E não há rigor científico a ser aplicado à ciência criativa.



P – O que temos então, sempre, no campo da ciência, não é o conhecimento de “o que é”, da “coisa em si”, mas sombras, como na alegoria da caverna. A luz da razão projeta sombras da coisa em si, por assim dizer, na tela do estado de ignorância em que nos encontramos. 



R – Perfeitamente. Muito bem dito. É esse o sentido da palavra sânscrita “maya”. Agora, pergunte a si próprio: o que é essa ignorância? Lembre-se de que qualquer modelo mental que você criar a respeito dela será incompleto.



P – Neste momento a mente se encontra em um estado de aguda atenção a esse respeito.



R – Qual é a fonte da luz da razão?



P – Por que perguntar agora qual a fonte da luz da razão? Como sabemos que ela tem uma fonte?



R – Você mesmo citou a alegoria da caverna. O feixe de luz que penetra na caverna provém de uma fonte que não se acha no interior da caverna.



P – Qualquer resposta que eu elaborar constituir-se-á em uma nova sombra.



R – Aí está. È preciso dar uma atenção muito grande a esse fato. É no silêncio, como dizem os hindus, que se fazem as grandes descobertas. Agora podemos começar a compreender o porquê da ênfase, nos vários sistemas da Índia, a respeito do silêncio e o significado desse silêncio, da quietude mental. Trata-se de um silêncio vivo, vibrante, com a mente desperta para si mesma, operando por inteiro, nos seus limites.



P – A mente que chega a esse ponto não é mais a mesma que começou a investigação.



R - Perfeitamente.







(1)Religião como Crítica: A Hipótese de Deus – Luiz Felipe Pondé. Revista Cult nº 64, Editora 17, Edição Especial/dezembro 2002.



(2) O Que é Religião – Rubem Alves - Abril Cultural/Editora Brasiliense.



      3) A Estrutura das Revoluções Científicas – Thomas Kuhn –   EditoraPerspectiva 



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                                              Capítulo IV



                              A Religião e a Modernidade





P – Continuando com nossa investigação, gostaria que discutíssemos agora sobre a situação em que se encontra o mundo. Até onde irá a ordem secular?



R - Poderíamos começar com o que diz Dostoievski, por intermédio de Ivan Karamazov: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Os Carvakas, como dissemos, demonstraram que, uma vez que só há a vida material, e que o objetivo é aproveitá-la ao máximo, tem-se de viver de forma ponderada e com moderação, para evitar os males que podem advir dos excessos, dos exageros. Isso é possível, até certo ponto. Mas como diz Ramana Maharshi, um dos maiores sábios de toda a história da humanidade, a verdadeira natureza do ser humano é a bem-aventurança infinita, e apenas a imortalidade consciente pode finalmente satisfazê-lo.  O descontentamento jamais tem um fim. Se tivesse, estaríamos condenados, em algum ponto, à estagnação. À medida que vamos alcançando o que almejamos, os horizontes do descontentamento vão se alargando. O descontentamento é uma chama, e muitos tentam sufocá-la, buscando viver em estreitos limites. Ainda que pareçam satisfeitos nesses limites, o descontentamento continua a operar em camadas profundas da mente, e o resultado desse movimento não tarda a encontrar, de alguma forma, a sua expressão. Há, naturalmente, uma progressiva tomada de consciência desse descontentamento - até se chegar a perceber que ele é infinito - acompanhada de buscas correspondentes à sua manifestação e intensidade.



O que nos oferece a ordem secular capitalista? A possibilidade de parcial satisfação imediata em um universo em parte conhecido, mas certamente conhecível, no sentido de os seus processos serem progressivamente desvendados, e um horizonte de conquistas físicas e psicológicas a serem obtidas de acordo com as ambições, a sorte, as capacidades, as oportunidades, as necessidades e os esforços de cada um, sob o controle, obviamente, dos poderosos, das classes dominantes. Para manter a busca nesse campo, é preciso sempre inventar novas formas de satisfação, metas psicológicas e físicas a serem alcançadas, novos objetos a serem consumidos, novas necessidades a serem satisfeitas, e modificar e renovar em velocidades cada vez maiores as condições sociais já existentes. A princípio, para que essa ordem pudesse se desenvolver e chegar um dia a prevalecer, foi preciso menoscabar o mundo religioso, rejeitá-lo, negá-lo.



P – Depreciar e desacreditar uma de suas formas, por ignorância considerada como se abarcasse todo significado do que é religião, forma essa que, como vimos, constitui-se em uma fase intermediária à adoração aos fenômenos naturais e à investigação de si mesmo,



R - Pouco a pouco, com a expansão do comércio e com a acumulação de capitais, e seus desdobramentos, se foi forjando uma nova ordem econômica, social, cultural e política, que tem como fundamentos a prosperidade material, o individualismo, o espírito aquisitivo e a competição, com o seu séqüito de males, até chegarmos à assombrosa crise atual. Se não há valor intrínseco algum, profundidade alguma, unidade fundamental alguma além do campo dos objetos e das idéias, a ser pesquisada e descoberta, então tudo é permitido. Em “O Idiota”, através de um de seus personagens, Dostoievski sugere que tal sistema social é a “Besta” a que se refere o Apocalipse.



P – Esse séqüito de males desencadeou fortes reações contrárias, como o marxismo, e também formas de abordagem procurando apaziguá-los, como a psicanálise.



R – Exatamente. Ambas aceitando a premissa básica do modo de vida secular, negando qualquer possibilidade de transcendência, plenitude e verdadeira liberdade. Marx fez uma vigorosa crítica ao capitalismo, reconhecia a força desse sistema como modo de produção e propugnava pela extensão dos seus benefícios e de suas possibilidades de crescimento e desenvolvimento individuais a toda a humanidade. Antes dele, no período da Revolução Francesa, Graco Babeuf fazia ataques à propriedade privada - da mesma forma que Rousseau já os havia feito - e propunha a “Ditadura dos Humildes”.  Na psicanálise, em função de estarmos subjugados à natureza e à civilização, o máximo a que podemos chegar é a uma razoável adaptação interior e exterior à infelicidade comum.



P – E essa infelicidade comum, ainda que mitigada com excesso de entretenimento, se está intensificando e tornando-se insuportável



R – Provavelmente, é dessa forma que acontece uma mudança de rumo.



Em linhas gerais, podemos dizer que nos modos de produção anteriores ao capitalismo, riquezas e poder estavam destinados às classes dirigentes. Com o capitalismo, essa perspectiva se abre, pelo menos em teoria, para cada um, individualmente. No socialismo não há a saída para o “além”, dos religiosos, e tampouco a saída individualística dos capitalistas para o “conhecido” - expansão do ego, posses, acúmulo, poder, prestígio - a não ser para as classes dirigentes. Como já foi dito, em forma de troça: “No capitalismo há a exploração do homem pelo homem. No socialismo, é o contrário”.



Forças criativas tremendas foram liberadas quando o ser humano concebeu que sua felicidade poderia ser alcançada aqui e agora, seja como indivíduos isolados, seja comunitariamente, e não mais, ou não mais apenas, em um suposto mundo espiritual, no além, na vida depois da morte.



Você pergunta o que fazer. Uma das ações é ver até onde o nosso modo atual de vida nos levou: isolamento, competição acirrada, individualismo exacerbado, violência cada vez maior, corrupção desenfreada, destruição acelerada do meio ambiente, guerras, insegurança crescente, depressão, pânico, assustadora banalidade, todos esses males; mas a promessa era de emancipação, de felicidade. Nesse cenário, a religião, tornada inócua como ameaça a tal modo de viver, passou a ser aceita como coadjuvante no controle social, como ópio e como mercadoria.



P – De alguma forma já existe a percepção, em graus variados, do esgotamento dessa maneira de viver.



R - Agora, com a promessa de resolver todos esses problemas, fala-se na necessidade de inclusão de parcelas cada vez maiores da população mundial nesse modelo da ordem secular. É evidente, no entanto, que quanto mais inclusão houver, mais todos esses problemas que citamos, e outros, se agravarão.



P – A promessa de felicidade, que não é real felicidade, não pode ser cumprida; a tentativa leva, em pouco tempo, à destruição de nós mesmos e do planeta.



R - Como é inevitável, as tremendas forças criativas direcionadas para a busca da felicidade no campo do conhecido fazem com que países ou bloco de países encontrem suas formas próprias de ter sucesso nesse campo. Uma vez que os recursos materiais são limitados, há necessidade de expansão; o crescimento de países e grupos de países, que buscam a expansão, cria guerras localizadas e ameaças inaceitáveis às potências dominantes, àqueles que tomaram a dianteira do processo ou àqueles que já os ultrapassaram. Daí as grandes guerras.



Não foi tal maneira de viver engendrada pela entidade limitada, buscando assegurar, através de múltiplas e complexas ocupações e exigências, sua própria continuidade? O que acontecerá se o sistema todo entrar em colapso? A quem recorrer, ou, a o que recorrer?  Forças criativas tremendas também serão despertadas quando o indivíduo perceber que a maneira atual de ele viver é fundada em bases falsas e é a responsável pela tremenda crise, pelos males terríveis que ele quer evitar. 



     





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                                  Capítulo V

     

  “Maya”. O Pensamento “Eu”. A Fonte





P - Gostaria que conversássemos sobre o significado da palavra “maya”, que tantas vezes encontramos nos textos orientais e nos escritos sobre o oriente, e que, em geral, é interpretada como implicando “ilusão”, e, mais detalhadamente, sobre o método direto para nos libertarmos da ilusão.



R – “Maya” é uma palavra sânscrita que significa, literalmente, “medir”, “avaliar”.  Os hindus há muito fizeram essa descoberta: os seres humanos temos necessidade de compreender a vida e o significado do nosso viver, o meio em que vivemos, a nós mesmos, ao próximo, à natureza. Tal necessidade está intrinsecamente ligada tanto às questões de ordem prática quanto ao descontentamento de que falamos anteriormente, e que, como vimos, se apresenta em graus variados. Para conhecer, para saber, temos de avaliar. A avaliação é sempre incompleta. Avaliar e tomar o resultado da avaliação, a imagem, o conceito, pela coisa avaliada é estar iludido, é viver na ilusão – e isso é “maya”. Todo o movimento de separação e do vir-a-ser se dá nesse campo da ilusão. Um ideal, a perseguição do ideal e o perseguidor do ideal não passam, por exemplo, de resultados da avaliação. Dessa ilusão temos de despertar.  Não é sem razão que a Índia, uma das mais antigas civilizações, e que realizou as mais profundas descobertas no campo do autoconhecimento e da compreensão do universo, foi excluída, em geral, do nosso campo de estudos no ocidente. Não há o que podemos chamar de civilização ocidental e de modernidade sem esse ilusório e contínuo estado de perseguição nos campos físico, mental e emocional, assim como não há o que podemos chamar de civilização oriental sem a investigação do “eu”, a descoberta e a compreensão de “maya” e de suas implicações. Na verdade, essa divisão entre ocidente e oriente é também ilusória, e a estamos usando unicamente para fins de comunicação.



Vimos, em linhas gerais, como chegamos à sociedade criada e mantida por mentes voltadas para as mercadorias e imagens. O ego é uma aparência do Ser verdadeiro. Podemos dizer que o ego é uma “criação” do Ser. Esse “Ser” é a nossa verdadeira natureza. Uma vez que o Ser é criador, o ego, que é esse Ser no campo da aparência, contém em si mesmo o impulso criador. Criar, ser criador, é um movimento natural, intrínseco ao ego. O auge para o ego é criar um mundo à sua imagem e semelhança. Imagem criando um mundo de imagens, um mundo virtual. Nas alegorias religiosas, o diabo querendo ser tão poderoso quanto Deus. E isso, também, é Maya.



P: Compreender isso requer uma paixão intensa, associada a um exame acurado, a uma grande aplicação do instrumento da razão. Em geral, e como conseqüência da maneira atual de vivermos, não estamos acostumados a usar a razão para investigar com tal intensidade. Sentimos dificuldade em compreender tudo o que está sendo dito.



R: Algumas ilustrações podem contribuir para esse exame. Shankara, filósofo e sábio indiano, afirmou que O Ser, que é o que nós somos, é real; que o universo é irreal; e que o universo é o Ser. Esse postulado foi mal compreendido, até na Índia. Estamos, aqui, usando a palavra real no sentido de “verdade”, e não no sentido literal de "res", "coisa". O que o sábio quis dizer? Consideremos que haja um oceano que, em si mesmo, é vida e consciência infinitas. Consideremos, também, que só haja esse oceano. Ele é, portanto, além de consciência e vida, plenitude, totalidade, e perfeita bem-aventurança. Consideremos que criar seja intrínseco à sua natureza. Existindo apenas esse oceano, pode ele criar alguma coisa diferente de si mesmo? Sendo infinito, ilimitado, completo, atemporal, e não havendo uma segunda substância, como pode ele criar alguma coisa que seja limitada, incompleta, que tenha começo e que tenha fim? Não pode. Consideremos que, mesmo assim, ele crie, porque criar é intrínseco à sua natureza. O que pode surgir? Apenas uma aparência. Surgindo uma aparência, estão atendidas as duas condições: há criação, e esta não é diferente da mesma substância da fonte. Temos então um oceano, dentro do qual surgem aparências que, por serem formadas de consciência, tornam-se conscientes das outras aparências. Ainda assim, a magia, ou Maya, é tamanha, que aparecem formas que não são conscientes das outras formas. Tudo no reino da aparência. Suponhamos que a forma mais desenvolvida tenha a capacidade de ser consciente de sua própria existência e de refletir acerca da totalidade do que aparece e de pesquisar para saber qual é a verdade a respeito da totalidade do que existe, frente à qual se encontra, inclusive, e principalmente, a respeito de si mesma. Sendo tal entidade, no mundo da aparência, de natureza incompleta, e provindo da completude, a busca por completude, a busca pelo estado original, será inevitável. Dois caminhos estão abertos para ela: criar, a partir da manipulação das propriedades que ela descobre no fenômeno, cujo conhecimento deriva de sua investigação a respeito do que se lhe apresenta, passando a perseguir suas próprias criações, e a se ocupar com elas, esperando assim atingir a plenitude; ou investigar a si mesma para descobrir qual a origem, a fonte do “eu” incompleto. Ao investigar e descobrir que o conhecimento é sempre incompleto, um novo horizonte se descortina. O postulado de Shankara fica claro: O Oceano é real; as aparências são irreais, pois não existem por si mesmas; as aparências são o próprio oceano. Buda expressou a mesma verdade em outras palavras: “A característica fundamental de todas as coisas é que elas são vazias de substância própria”.





P – Descobrir o significado e as implicações da avaliação, de “maya”, não é negar o saber.



R – Absolutamente. O saber é, obviamente, imprescindível em nossa vida diária.  O problema não está no saber, no conhecimento, mas em confundir a avaliação com aquilo que está sendo avaliado. Saber é, na verdade, saborear. O que é a razão, em última instância?



Vivekananda, discípulo de Ramakrishna, e um dos primeiros hindus a apresentar ao ocidental, no ocidente, o que está contido na palavra “religião”, a partir das investigações e descobertas da Índia, faz uma extensa e abrangente abordagem do significado de “maya”, em seu livro sobre Jnana Yoga, sobre a yoga da sabedoria. Em outro dos seus livros, “Raja Yoga”, ele também aborda o assunto, e compara as estruturas mentais que criamos a partir das nossas avaliações, e as elaborações que fazemos com elas, com as pérolas criadas pelas ostras. Assim como as ostras, entrando em contato com certas partículas, reagem com uma secreção em torno dessas partículas, formando pérolas, assim também nós entramos em contato com alguma coisa que não sabemos o que é, o universo, e reagimos a ela criando o que poderíamos considerar como a nossa própria secreção, a avaliação mental. O universo de experimentação é nossa própria secreção. Nas escrituras indianas está dito que o conhecimento a respeito do mundo é o conhecimento a respeito do conhecedor do mundo.



Já examinamos, em linhas gerais, a questão da limitação do conhecimento. Ali está alguma coisa a que chamo de árvore. Estudo-a, sirvo-me dos conhecimentos já existentes sobre ela, faço uso dos instrumentos existentes e posso inventar novos instrumentos de pesquisa, que serão uma projeção dos conhecimentos que tenho e, portanto, também limitados; mas posso ampliar o conhecimento, que continuará incompleto. Já vimos como os hindus abordaram esse fato, vimos um pouco de epistemologia do ponto de vista oriental e do ponto de vista ocidental. Kant, dissemos, afirmou que a “coisa em si” não pode ser apreendida pela razão. Os hindus afirmaram que toda avaliação do universo, dos seres e das coisas é incompleta, porque o pensamento é limitado. A própria palavra "episteme" nos dá a pista; ela é formada de "epi", que é uma preposição que significa “acima”, “sobre”, e "histanai", que significa “colocar”, “por”, “determinar”. "Episteme", portanto, significa “sobrepor”. Sobrepõe-se a “aquilo que é”, à “coisa em si”, um conceito, uma idéia, um modelo, uma representação, – que nunca é a coisa representada. 



Agora, vejamos. O que é que acontece quando examino a mim mesmo e quero descobrir o que eu sou, em última instância? Quem sou eu? Se compreendi bem a questão da limitação do pensamento, do intelecto, da razão, percebo então que o instrumento de que disponho para avaliar o que sou eu não pode apreender o que eu sou, assim como não pode apreender o que é verdadeiramente coisa alguma e ser algum. Tudo o que posso fazer é ter um conhecimento limitado de mim mesmo, uma idéia, uma representação do que eu sou. Mas o mapa não é o território, o modelo não é a coisa em si, a representação não é a coisa representada. Vejo que o instrumento de que disponho não pode apreender a totalidade do que sou. Estou diante do incognoscível. Porém, eu já sou a totalidade de mim mesmo. Não estou lidando com alguma outra coisa à parte de mim mesmo. Sou incognoscível do ponto de vista a partir da faculdade da razão de que disponho, mas esse incognoscível sou eu mesmo. Se penso que sou as imagens que criei a respeito de mim, estou enganado – elas não abrangem, e jamais abrangerão, a totalidade de mim mesmo. Mas eu já sou “a coisa em si” quando a abordagem é em relação a mim mesmo. Em relação a “mim mesmo” não sou incognoscível e não sou dois, um para conhecer o outro.



Aí está delineado o significado da alegoria “Deus e Diabo”. Assim como existe a árvore “em si” e existe a representação disso a que chamo de “árvore”, da mesma forma existe o que posso chamar de “eu” em “mim mesmo” e a representação que crio de mim. Espero que me esteja fazendo claro.



R – Claro demais. Parece que chegamos ao insondável e, lembrando o que o senhor havia dito, teremos de abandonar a razão que nos trouxe até esse ponto.



P – É a representação que tenho de mim mesmo que, sendo incompleta, busca completar-se e persegue metas e ideais, seja no mundo tido por material, seja no mundo mental ou em algum outro tipo de mundo, criando, dessa forma, o tempo, e mantendo-se no movimento de vir-a-ser. Sinto-me incompleto porque me identifico com a representação que faço de mim mesmo, que é sempre incompleta.



Pela simples razão de o que verdadeiramente sou ser ilimitado, imensurável, atemporal, criador, não ter fim, a representação que tenho de mim mesmo, o “eu” no campo da representação e do tempo - o pensamento “eu” - busca reproduzir essas condições em seu próprio e instável campo.  Seu objetivo é a criação de uma sociedade que esteja sempre em transformação e que exija dele estar em contínua transformação, em perpétuo estado de vir-a-ser, para que possa assim se expandir continuamente, para que seu poder criador possa se manifestar de inumeráveis formas e para que esteja garantida sua continuidade e o seu valor. Nesse tipo de mundo ele persegue a miragem de felicidade e não quer findar, pela razão muito simples de que é o reflexo de uma fonte que não tem princípio nem fim e que é a própria bem-aventurança. 



R – D. Quixote acorre à minha mente.



R – Certamente, não é desprovida de razão a empatia, durante séculos, em relação às suas aventuras. O significado é profundo. Sua alucinação em busca da liberdade - em que nos vemos espelhados - nos comove e faz sorrir.



Agora, em meio à tremenda e contínua turbulência dessa maneira de viver, e à sua assombrosa complexidade, a mente se tornou reflexiva, passou por um despertar, que permite que ela se volte para as insondáveis profundidades de sua fonte, que com ela se mescle, como o rio ao mar, e que se possa viver a vida diária a partir da perspectiva do infinito. A porta está aberta, como dizem Ramana Maharshi e Krishnamurti, e a investigação, nos seus três aspectos, está disponível.



Examinar, investigar e realmente descobrir esse jogo que estivemos analisando deve levar, gradualmente, ao definhar da identificação com o que é incompleto, com a representação que tenho de mim mesmo, ao fim da ilusão e de toda busca, a uma nova maneira de viver. A descoberta é instantânea e é ela que opera sobre a mente. A mente agir sobre a mente no esforço para que ela se detenha é o mesmo, como diz Ramana Maharshi, que um ladrão se disfarçar de policial afirmando que vai prender o ladrão – ele mesmo. A investigação, por seu turno, funciona como uma vareta que é usada para atiçar o fogo em uma fogueira. Quando não mais necessária, é jogada na fogueira. O ego, a entidade limitada é, então, ainda segundo Ramana Maharshi, como uma corda queimada – mantém a aparência de corda, mas não serve mais para amarrar coisa alguma. Recomendo que se entre em contato com o seu “ensinamento”. 



(Pausa)



P – Estou pensando comigo mesmo se tudo sobre o que estivemos a discutir constitui para o senhor uma descoberta ou se trata de uma compreensão intelectual.



R – Trata-se dos dois casos, e eles constituem um movimento, não alguma coisa estática. Há cada vez mais clareza, tanto em termos intelectuais quanto como resultado de descobertas. E vejo-me em grandes dificuldades para movimentar-me em meio à nossa sociedade atual a partir dessas percepções, o que demonstra que há trabalho a ser feito em termos de investigação.



Pausa.



Pergunto-me: Há separação entre mim e o universo, entre mim e todos os seres e todas as coisas, ou só há separação no campo das representações?



P – Compreendo a razão da pergunta e vou investigar.



R – Em sânscrito, temos a palavra “Chit”, que significa consciência, consciência absoluta, que para o hinduísmo é o mesmo que vida, que bem-aventurança, plenitude e totalidade. De “Chit”, em “Chit” e sendo uma aparência de “Chit”, deriva “Chita”, a mente, cujo princípio básico é o pensamento “eu”; de “Chita” decorre “Chitram”, a aparência de diversidade, o universo. No prefácio do livro “Ensinamentos Espirituais” (4), que contém diálogos com Ramana Maharshi, Jung adverte que essa descoberta e sua afirmação - de que o ser humano é Deus - choca o ocidente.





P – Para encerrar, gostaria de dizer que estou começando a me dar conta, em mim mesmo, de que essa maneira de ver altera completamente a nossa perspectiva em relação à vida. Compreendo que o fundamental é a investigação e a descoberta individuais e entrevejo, nessa abordagem que fizemos, a possibilidade de uma nova ordem espiritual, uma visão orgânica do mundo, alguma coisa verdadeiramente universal, um estado natural de ser que constitui a unidade de todos os seres e de todas as coisas, e que tem sido chamado de “nirvana”, “Deus”, bem-aventurança, e de “a nossa verdadeira natureza”. Agradeço muito.



R – Em geral, responde-se “não há de quê”. Mas acho melhor dizer que, na verdade, não há a quem agradecer.

Risos.





(4) Ensinamentos Espirituais – Ramana Maharishi – Editora Pensamento/Cultrix







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