Infância, educação e pobreza
Miséria ainda é ameaça a crianças
DA SUCURSAL DO
RIO
O Brasil tem 4 milhões de famílias com
crianças de até 6 anos de idade vivendo com menos de meio salário mínimo
"per capita". Isso representa cerca de um terço do universo das
famílias com crianças nessa idade no país. No Maranhão, o percentual é de
63,9%, o dobro do registrado na média nacional.
A Síntese dos Indicadores Sociais 2000 revela que houve uma melhora
entre os anos de 1992 e 1999. No início da década, a taxa de famílias com
crianças de até 6 anos de idade vivendo com menos de meio salário mínimo
"per capita" era de 40,1%.
No entanto, segundo Luiz Antônio Pinto de Oliveira, diretor do
departamento de População e Indicadores Sociais do IBGE, a situação ainda é
grave. "São crianças que vivem em situação extremamente vulnerável",
afirma.
O presidente do IBGE, Sérgio Besserman, também revela preocupação com
esses indicadores. "O dado de renda é muito dramático e afeta
profundamente as crianças", diz ele, que considera distribuição de renda
indispensável, mas um processo lento.
"Oferecer pré-escolar é muito mais rápido e ajuda brutalmente a
distribuição de renda posterior, porque impede que essas crianças tenham um
"handicap" (deficiência) definitivo pelo resto de suas vidas",
avalia Besserman.
Ele se baseia em um estudo do
Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) que mostra que crianças que têm
acesso ao pré-escolar têm menor defasagem, maior escolaridade e conseguem
melhores empregos.
Mas há ainda muito a fazer. Segundo ele, entre o grupo dos 20% mais
rico, nove em cada dez crianças entre 4 anos e 6 anos está na escola. No grupo
dos 20% mais pobre, apenas cinco em cada dez.
A pesquisa mostra que a escolaridade influi sobre outros fatores e pode
ser potencializada por outros elementos de desigualdade. A chance de uma
criança no Nordeste morrer antes dos 5 anos se tiver uma mãe com até quatro
anos de estudo é de 124,7 por mil.
É um índice seis vezes maior do que a chance de uma criança no Sul
morrer antes dos 5 anos se tiver uma mãe com mais de oito anos de estudo.
A
coordenadora nacional da Pastoral da Criança, Zilda Arns, acha que os
indicadores sociais da década refletem uma melhora real, mas insuficiente. E
reclama da desigualdade. "A gente fica assustada como as pessoas podem
conviver com tanta desigualdade", lamenta ela, que considera as favelas
brasileiras os piores exemplos dessa situação no país.
Zilda diz que faltam política públicas eficientes para reter a população
no campo _o que, segundo ela, seria o principal desafio a ser enfrentado para
resolver o problema da desigualdade.
"Quando eu vou nas favelas, fico muito mais deprimida do que quando
vou nas zonas rurais. Que futuro pode ter uma criança que vive ali?",
questiona ela, que afirma que os políticos deveriam se colocar no lugar dos
moradores de favela para começar a resolver o problema.
São em bolsões de miséria e pobreza, como as
favelas dos grandes centros urbanos, que a Pastoral realiza suas ações.
Em mortalidade infantil, o trabalho da Pastoral alcançou a taxa de 11,7
mortes por mil. A média nacional é duas vezes maior (34,5 por mil). Em Alagoas,
a campeã nacional em mortalidade, o índice é duas vezes maior do que a média
(66,1 por mil). De acordo com Zilda, se os governos fizessem investimentos
maciços em saneamento básico, essa média nacional poderia cair pela metade.