DA MARGEM DO TEJO
Sob qualquer pretexto sou natural daqui
de algum canto da Estrêla, dos corredores,
dos muros pichados politicados,
da terra dos vendedores de rélogios, pilhas,
castanhas queimadas, de haxixe e anel d'ouro,
das bugigangas do Martins Moniz, da Feira da Ladra,
das sarjeitas limpas do Rossio, da Liberdade.
De qualquer forma estou aqui
em terra de Antonios, Carlos, Josés e Joaquins,
de Marias, Isabeis e Manuelas e outras
de lenço preto á cabeça, aventais e tabuleiro á frente,
estou a viver na terra de quem não vê o que vejo,
sinto, pressinto, percebo e cheiro, terra de velhos,
dos bitoques, pregos, á Brás e Transmontana,
das quebras da Alfama, Campo de Ourique
tão natural como os burladores do Metrô,
da Carris e Caminhos de Ferro para Cascais.
Se estou aqui não posso ficar alheio
as lutas, as brigas e filosofias
das esquinas, ladeiras e escadinhas,
das rusgas do Intendente, do Cais do Sodré,
das reindivicações da APU e PS,
das lutas feitas em Angola e Moçambique
contra os que fazem tudo para
garantir a nacionalidade repremida.
De tanto andar com os pés neste chão, andarilho
parece ser meu, de possuir parte
como se fosse meu, às escusas dos daqui,
cada pedra, cada grão, galho, papel picado,
me encontro em cada rachadura barroca, assoalho,
bifana com alho, carcaça e croisants
nestas Ouro, Prata, Augusta e Fanqueiros.
Deste lugar sou, desses passeios esburacados,
ágoas livres pelas ruas estreitas,
do O Jornal, Expresso, Diário, Correio e O Globo,
das sirenas, das buzinas, das luzes, dos pá!
Dos tostões, das bicas e bagaço, dos cariocas,
italianas e garotos, dos tabacos da Tabaqueira (SG),
das praças dos Restavradores, Saldanha, da Figueira,
dos retornados que ainda continuam sem ser,
dos minis, audis, datsuns e fiatis da 24 de julho,
dos touros de Campo Pequeno que não morrem, mas sofrem,
das curvas que dão pela falta de dinheiro,
da RTP, Comercial, Renascença e Banda Desenhada.
Dessa cidade sem verde, planta e flores
com Linha Verde, carro verde de limpeza,
verde na bandeira e vermelho do sangue,
sangue de lutador, da Guerra Peninsular,
Grande Guerra, do 25 de Abril e 1640.
Dessa bagunça política, polícia
porretada, porreiro! E ninguém se entende,
dos labirintos do Castelo, dos detalhes
dos Jerônimos e do Carmo, Santa Justa.
Dos gajios e tipas por esta Lisboa á fora,
das farturas, saloios, vinhos, choriços e
fado violão e viola e corridinho.
Sob qualquer pretexto sou natural daqui
dos bares, das tascas, dos snack,
dos encontros furtivos de qualquer beira
do Campo Grande, Alvalade e Rotunda,
Alcântara, do Bairro Alto e Rastelo,
dos Bancos, dos Totobolas e Taluda de Natal,
da Torre de Belém, dos Descobrimentos
dos navios, barcos e os Transtejo.
Da Ponte Salazar, agora Dia Máximo Português,
das casas velhas, sacadas, becos, segredos,
dos gritos, gemidos, das loucuras, desejos,
dos estrangeiros, forasteiros, turistas
de pé descalço, sem dinheiro no bolso,
alegria no coração e vontade de viver.
Sou natural daqui, naturalizado, climatizado
desta terra cheia de coisas, modos, jeitos
que são diferentes, contrários dos de lá.
Os passes sociais, o S.F.F. das portas,
o túnel do Rossio, a linha de Campolide e
Santa Apolônia, os pombos desta cidade, milhares
na Figueira, Camões com seus personagens, na Praça,
estátua de Pedro IV, no Marquês, Terreiro do Paço,
aqui onde falam do Benfica, discutem o Sporting,
os palavrões, disse-me-disse, da boleia,
o Cine São Jorge, Satelite, Tivoli
Quarteto, Roma, Teatro Villaret e D. Maria.
Lugar das fontes luminosas, dos bebedouros, dos boeiros,
dos velhos candeeiros, dos postes dos elétricos,
dos auto-carros, auto-pullmans, auto-estradas,
dos andaimes, construções, dos concretos e ferros,
das pracetas, ruelas, dos becos, desenganos,
falsidades, promessas, dos arraiais, Madre de Deus
da Ermida e da Tapada da Ajuda, Graça, Luz,
da esmola para o aleijado, dos latidos, da Gás Super
dos caminhões sem aga (h), dos carros da Judite,
do chá com leite, torrada e tosta mista e ecler
das camas de pensão, banho de aquecedor, ducha,
do Crime, Tal e Qual, Avante e Incrível,
dos engraxates da São Domingos, do Dominó dos Anjos,
das luzes da noite, luminosos, Macieira, Tuborg, Porto,
dos quartos de fino trato, dos precisam e oferecem,
dos detalhes em marmore, dos azulejos, verdelejos,
amarelejos, vermelejos, das Arcadas do Comércio,
Monsanto, Aqueduto, Zoológico e Aeroporto,
terra do lixo laranja, o taxi verde-preto, poste verde
onibús (auto-carro) laranja, terra dos rissois, rez-do-chão,
treta, fixe!, rená, sandes e queques, do ensopadinhos,
pastel de nata com canela, bestial!
Das gaivotas da alfândegas, do esgoto, dos pescadores
na poluição do Tejo, da água lamacenta, parda, suja,
terra da maça ranheta, das casas de pasto,
dos andares escuros da baixa, esconderijos, noite,
do primeiro direito, segundo esquerdo.
Ao fim ao cabo sou daqui
desta terra ás margens do Tejo
cercada por Castelo, Santo André,
Sant'Ana, São Roque, Chagas,
São Vicente de Fora, Santa Catarina
e sou como a malta daqui
filho de qualquer esperança que penso ter.
À Lisboa, aos amigos que viveram na minha vida.
Lisboa, 02/03/83