LE TOURNESOL DU MARS
o girassol de marte
...como um girassol carente
rodopio os movimentos lunáticos
à procura de um eco...
mar verde
o mar da impossibilidade de amar
calmamente
ás vezes mansamente
derruba através das vagas
os castelos
os sonhos
os desejos
que nascem dos olhos
das junções dos ventos
crispando as areias
evocando
queimando
as matas possivelmente
verdadeiras.
invioláveis
amigos são moldes
são frutos de idéias.
sorrateiramente
esculpidos, esculturas lúcidas
em ouro, prata e mirra.
por mais invencíveis que sejam
não me suprem as necessidades
do ardor devolvido,
não combatem o pesadelo da dor,
não dão asas ao amor,
não aceitam o amor que tenho
dentro de um caroço de pêssego
que pulsa entre meus ossos do peito.
angústia fétida
hoje acordo com os ponteiros
trocados
á algumas horas da realidade
fora de sintonia
sem a menor vontade de andar
falar.
meus olhos procuram nada
para não ver
equilibrando-se sobre o som.
gritar, aliviar o peso
da eterna imprestabilidade.
haverá alivio depois do último Suor?
sob o sol frio, a morte é silenciosa.
inquisição
ressuscitaram-na
buscando-a nos cemitérios passados
para coloca-la de novo
perante a justiça
e injustamente
queima-la de outra vez.
nervos em farrapos
aos trapos.
picles
apreço
querida
confiança emocional.
te guardar em um vidro
te conservar
te resguardar de todo mal
te proteger
e se fossemos
perfeitos, um para o outro
e ignorássemos
tudo em contrario?
tipologia
há algo em você que cativa
pela beleza
pela proteção
pela feminilidade
pela mulher
sinto na pele o que devaneasse
o olhar
o fato
o desejo
o ato.
seria desejo merecer
que todo olhar seja iridescente
após cada ato
ou demonstrar que o amor
é maior que essa vida?
nau
agora que estou a capitanear
meu destino
agora que tenho o timão do tempo
não sei que rota seguir
o labor
ou o amor.
são rotas opostas
eqüidistantes nos sonhos
de quem pensa
em ser feliz.
desatar os nós das milhas
que os separam
sem saber ao certo
a cor do vácuo
que a quilha esconde.
erosão
o amor que mais dói
dilacerando o coração
é aquele que gesticula
sob cada pretexto
aquele que sufoca
desnorteia os pensamentos
e se fecha em silêncio.
o silêncio que mais corroí
sulcando a paixão
é aquele que grita
sob cada olhar
aquele que clama
esperneia vontades loucas
e se fecha no amor.
mondrian
há algo neste mondrian
nesta linha angular
nestes quadrados
azuis e amarelos
que me lembram uma mulher
uma bruna.
talvez a voz
o som feminino delimitado
certo, conciso
matematicamente acertado.
ocorre que ambos os olhos
do quadro, retilíneos
os dela, do felino
não dizem nada
a quem os vê no escuro.
copérnico
a velocidade que a terra gira
não nos deixa
com muito tempo para viver.
não sei se é o sol ou a lua
que nos envelhece
ou é a alternância de ambos.
se não tivesse nascido,
jamais morreria.
hoje penso em morre para ser eterno.
�
jogar
na natureza não se bate nada
a não ser palma
na natureza não se joga nada
a não ser junto com ele
da natureza não se tira nada
a não ser fotos
na natureza não se deixa nada
ás vezes os passos no chão
da natureza não se leva nada
a ser as lembranças
da natureza não se perde nada
a não ser o tempo.
floresta
a barreira do inverno
surgiu ao cair da folha
sobre todo corpo floresceu
os flocos de suor
acontece que a saudade não se derreteu
na primavera passada
e o rio do humor que outrora me banhava
hoje não mais toca minhas margens.
sob o sol descortinado da aurora
me perdi; todos os interesses
haviam se volatisados
e quando a floresta se tornou negra
e escondeu as minhas perspectivas
o incêndio das minhas ideais internas
abriu uma clareira no meio
da minha existência.
agoas livres
não quero ninguém
que não seja você
sei do que gosto
e no que acredito.
não me venha falar em loucura
por que perdi os parâmetros algébricos
e agora vibro em outra freqüência.
só sinto seu cheiro
só capto suas ondas mentais
não me culpe por estar ao seu lado
é que sua vida me faz bem
e seria inconcebível
ignorar tal atitude.
não era bem isso que queria dizer
é que meu dicionário de sânscrito
pegou fogo esta manhã
e as águas livres que tenho
estavam longe de casa
passeando por entre as estrelas.
então
se as pedras são suas
a água é nossa sede
a não ser que lhe falte
aquilo que nos uniu.
- que venha tudo de novo,
o velho hábito se deteriorou
sobre a dobra do tempo!
o que farei se, perdido,
por entre as hordas
da natureza cega,
repetir tudo novamente
quando ao novo facear, então?
loira ao acaso
sempre te vi
sobre todas as ruas
que tive que inventar.
sempre com os cabelos ao vento
sempre esguia sob a sombra
dos ébanos escarlates,
sempre ali, longe do toque cego,
perto de um olhar admirado
pelo azul cintilado.
na clausura que nos separa
o medo fortuito
rasga os fatos, perfura os atos
rompe os mistérios
e indaga - quem é você?
- que faço aqui?
escondido,
te vejo aqui
perto da mão trêmula,
por entre os dedos
que cobrem meu rosto,
escondem o olhar
e anseia te sentir ao acaso.
cadentes
as estrelas caem
numa hora pré-determinada
ou despencam
quando um pobre infeliz
olha para o céu?
- estrela,
porque me miras
se no me sacas lo azar
y no me concebis un deseo?
aliais more
algo em você
algo de pelúcia me aconchega.
certas características suas
hoje são sinônimos
das lembranças
que tenho plantado
nas fibras de meu humor.
tua força, no olhar, na voz
cativa, me leva
para onde nunca estive.
agora não mais me interessa
o que houve
quero é viver de você
para além de tudo.
quero, porém, cruzar todas as vias
ir ao encontro de todos os ventos
que te representem
e se puder
terei o alento de nunca
te esquecer e saber que fui,
sem nunca ter gritado,
parte do seu momento.
o que restou do rescaldo
das frias cinzas?
sobrou o eco retornável
de que precisamos
um do outro, mutuamente
do jeito que somos.
assim, eu aqui
você, em outro lugar,
mas juntos.
imediato
toda noite eu constato
em meio desta constelação,
que chegará o dia
em que tocarei sua paixão.
na candura dos seios
no aconchego dos cabelos
no frescor das pernas
no escuro da indecisão.
os olhos floridos, esparsos
tecem perfumes,
me atiram contra
minha própria pedra criada
que de súbito,
eclode lágrimas rubras
abortando os desejos
assassinando o futuro.
bastou você quebrar sua onda
para me perder
num labirinto de areias.
de repente,
lembrei-me estar impedido
de ter amar.
esqueci que você não acredita
no que sinto à primeira vista.
agora que eu lhe disse - adeus
você me pede - fique!
aqui
poderia passar horas te esperando
quem sabe ficaria me lembrando
do seus ares juvenis
dos olhares sensuais
por que me basta saber que virás
silenciosa como a aurora
simples como uma lanterna japonesa
abrangente como um vendaval
radiante como fogos de artifícios
para espantar os signos nefastos
que carrego no espírito noturno.
não me perguntes nada,
não quero acreditar
que a espera pode ser eterna.
o suicida
morrer aos poucos
lentamente, sem causar espanto
diluindo-se em ondas.
vivendo á beira do acaso
briga-se 24 horas por nada
e isto cansa.
�
estratificação
o sangue flui
pela folha branca,
mapeando rotas, fatos
criando ranhuras respiráveis,
uma doação voluntária
da mão só
em prol das atitudes rarefeitas.
a tristeza perdida
sob o adeus das pedras,
seca o fruto latente,
poda as asas dos olhos,
rasga os castiçais vis,
rouba a gravidade noturna,
alça sonhos incólumes,
perpetua os vôos quiméricos,
esconde na semente de papoula
toda a conclusão da vida.
gosto indecifrável
de quem não sabe
viver realmente
aquilo que regularmente
anseia enraizar ao vento.
após
figurar no torpor das palavras
frias e mortas,
arregimentar os dias sem sol,
telhar a continência das noites
sem lua,
lacrar as portas disfarçadas,
cruzar sombras inóspitas,
calcinar os ossos da recusa,
mordiscar madrugadas maduras,
ausentar-se em mares segregados,
boiar por olhares marmorizados,
assimilar as mortalhas atávicas,
nada mais excede
um punhado de cinzas
multi coloridas,
vislumbres estratificados.
cultivo
o verso branco
na folha branca
processa a luz da idéias,
fotossíntese emocional,
rasga meu peito
germina poesia.
- poeta, que alfabeto de notas
você usa para cerzir
suas emoções maltrapilhas?
semente
o poeta gera sementes
de estados reais
numa realidade fictícia,
semente adormecida
somente solidão
semente encarcerada
que corre rios, ventos
e palpites,
corre vaga e perdida.
de onde saiu essa semente
flamejante
que ilumina, incendeia
essa floresta densa
com sua saliva ardente?
o que protege tais sementes?
Maria só
numa rua de escuridão eterna,
sob a clara luz do momento,
havia uma prostituta
comendo solidão pêlos dedos
com molho de tristeza e lágrimas.
trabalho ou dor?
- elas não tem sentimentos,
são pedaços de nuvens
encrostados em cadáveres fatais
frios e calculistas.
seria fingimento
ou realidade própria?
- onde compraram essas lágrimas,
gotas utópicas,
flocos de neve derretidas?
tio patinhas
minha caixa-forte
é do meu tamanho,
tem meu peso.
ás vezes, ela é parecida
com outras.
tem dia que é mais bonita
que outras
dependendo do valor que guarda.
quase sempre
tomo banho de moedas,
mergulhando
para dentro de mim.
ratoneado
os parcos ratos parvos
deixam poucos rastros
mas, sigo a rastros
ditado sujo
os porcos retos procuram
na própria pocilga rota
o rito profundo postergado.
cacos
a pedra pedrês de Pedro
padreou podre pudor
pidão, padrão poliedro.
catarata
olhos, esquilo esquisito
capa, carapaça parca
olhar, feito luar
mão, de antemão
não sei quem é.
de repente
é algo que me cobre
os olhos,
uma capa lunar
no olhar esquisito.
no campo
você
humedece minha terra
ilumina meu ar
nutri minhas raízes.
lavradores
preparam o solo
propiciam enxergar livros.
�
estopa
o destino pregou
uma peça
na parede da sala:
- que desatino!
berlinda
desculpe o interrogatório,
tenho vidas passadas
pelos tribunais do santo ofício.
mar & ilha
choras com a mesma
graça dos nevoeiros
se entristece como tempestades,
sozinha como uma ilha
agora está.
vida perdida
no clarão do dia-a-dia
não causa nada
não emociona
não proporciona mais vigor
para seguir.
você perdeu seus mares
não tem mais mistérios
aos olhos dele.
sempre fico com o coração
ilhado
quando a deixo só
e mal cercada.
floricultura
arar as nuvens da pele
semear raios no olhar
podar as chuvas da voz
enxertar trovões nos ouvidos
plantar relâmpagos na intuição
colher das tempestades
o fruto criado da língua.
(a ordem dos versos não altera aquilo que plantei)
vie vite
de mudo
jota surdo
alma penada.
idade: perdida no túnel do tempo.
profissão: a que der prazer.
cultura: inútil.
estado civil: abandonado com o rabo
no meio das pernas.
política: da boa vizinhança.
verdade: massinha de modelar.
amor: baobá.
futuro: vite-vite.
florêncio nightingale
(mise-en-scène)
ato I - cena única
na ala vermelha
do hospital da dores,
todas as mulheres
ali internadas,
sofreram um mesmo atentado.
gemiam pela mesma dor,
padeciam da mesma lamentação.
ato II - cena I
foram torturadas, castigadas
penaram nas mãos
de seus algozes queridos.
enganadas com um paraíso utópico
de comidas afrodisíacas, café na cama
roupa lavada, carro na porta,
apê, cd, conforto e vil metal,
se viram num platô de glória
entre amores e carinhos.
cena II
depois do servilismo das flores
da prestabilidade dos primeiros
momentos misteriosos,
o véu da conquista cai
e expõe do carrasco
sua idiossincrasia letal.
um tira à queima roupa
uma estocada seca
no peito, no lado esquerdo,
mesquinhez cirúrgica
ferocidade fisionómica.
a mágoa infecciosa a ferida.
os pontos dados por si mesma
custam a cicatrizar.
as mãos trêmulas por chorar,
escondem o corte
evitam expor sua execrarão interna.
algumas tiveram os nervos metalizados
o sentimento frio enrijeceu a felicidade.
outras com alta marcada
riem, se acham loucas,
indecifráveis, sem identidade.
aventureiras à procura de si mesma
nos outros.
ato III - cena I
curioso, sempre olho
pelo vidro da porta
meio com medo,
um pouco ressabiado
(mulher acuada ataca).
infantilmente visito
aqueles olhares perdidos,
melancólicos, machucados,
aquelas fisionomias resumidas,
abatidas, transtornadas.
cena II
sempre me levo com imagens puras,
mentiras inocentes, estórias hilárias,
conversas fiadas de outrora.
nunca esqueço o pecado da gula.
às vezes fico sentado ao lado delas
em silêncio,
respeitando as lágrimas que correm
dos olhos de deserto,
entre um gemido e outro.
ficando assim,
tenho a nítida impressão
que elas conseguirão dormir
tranqüilas e seguras.
último ato
ocorre que faço isto
envolto numa armadura pesada.
ao fim de tudo,
cansado e fraco,
percebo ao tira-la,
que minhas chagas
ainda estão sangüíneas
apesar de que essas jornadas
terem sido tatuadas
num passado longícuo.
cego
amar sobre qualquer hipótese
mesmo sabendo
que vai quebrar a tese
no muro
placa
bem vinda ao mundo
das lições de vida.
(suspiro da Cida).
mar & ilha II
nunca acreditei nos comentários
sempre confiei em você.
o que sei, foi o que me disseram,
o que ouvi, pode não ser verdade
por que você não é
aquilo que nunca
você deveria deixar de ser?
a falta de afeto é que me afeta
o amor que me amordaça
é o mesmo que venero, me envenena.
como pode alguém
ficar cego com sua luz
se sua beleza é o fim do olhar?
volúpia desenfreada
de tira-lhe
mais e mais fotos
para te adorar, orar e amar
sem que você me reconheça,
misteriosamente.
herança
soterrar
sobre o peso do destino
toda força que anima o tempo
cumprir
tudo aquilo que deve nascer
apesar de tudo
assimilar
das mortalhas atávicas
os ritos feéricos da vida
viver
com almas sem vontades
por ser meu desígnio final.
�
jardim dos poetas podados
a inspiração grávida do desejo
engendra novas sementes
que serão plantadas nas fendas
criadas por uma caneta fálica
no corpo virgem de uma folha
me reconheço em cada
jardim de cristal,
pelo perfume, pelo afeto
pela agonia, pela loucura
as lágrimas cristalizadas
nos espelhos
são reminiscências
dos orvalhos conseguidos
entre uma flor e o nevoeiro
a cerca de fio fardado
me isola entre o tédio e o desejo.
lá ao longe,
muito além do portão,
o sol boceja
e por este instante ínfimo
se faz o despertar do poeta.
nada
será verdade que as pessoas
não mudam?
um estranho, num lugar estranho
a estranhar tudo
jarro vazio para água nova.
descarregar da mente
os textos passados
das cenas anteriores.
querer ter o ser
ativar
o senso da liberdade
que há por sobre todas
as nossas rosas encarnadas
encrostadas nas antigas
sabedorias
colhidas em livros mumificados
boiar por olhares petrificados
o gosto da paciência
que todo amor profusa
por lábios sequiosos,
tristemente afastados
por contos fatais
e dúvidas celestes.
me perco nos desertos das horas
que me cercam,
cruzo dunas existenciais
percorro vales incompletos
de luzes artificiais
e por todo canto
lugar ou espelho
que olho,
vejo você.
lembranças
só chove,
melancolia,
lágrimas.
pesar
coração pesado
arrastado
caminho de cobra.
parceira
penso na parceira esvanecida
por uma alameda
entre o olhar e um sonho
como um girassol carente
rodopio os movimentos lunáticos
à procura de um eco
toda a paisagem repousante
daquele olhar
ainda nutre fantasia
de esculpi-la realmente.
agora que um labirinto tímido
nos iludi,
venero a ponte do pretexto
que não vejo, mas
urdo treliças na torre de marfim
com as pulsações
do coração só.
um olhar por sobre a esquina
sob os escombros
de uma busca lograda
encontrei
quebrados, junto ao insólito
alguns choros, soluços
gritos e palavras de ordem
que ainda verminavam
pela superfície
dos amores baldados.
febre
cuspi da língua ressequida,
camelos falados,
oásis hipnóticos,
beijos distorcidos,
exílios voláteis,
caravanas nômades
de desafios discrepantes
na tentativa de seduzir,
a ampulheta de almejos
me lança
neste Saara de 50 graus.
cio
na luz do teu olhar, teu perfil
te quero, longe das metáforas.
aqui, perto, com a serenidade
do seu corpo, sua paixão idílica
moldo na superfície do tato
afagos, beijos e carinhos.
pela frágil seda azul que te oculta,
diviso a contínua dúvida do medo
escuta os rumores.
escuta o código morse
soletrado do coração,
mensagens oblíquas, entretidas
em te amar.
um pedaço de encanto me encanta.
brindo às estrelas, os sorrisos de ipê,
os cúmplices silenciosos
figuram nas dobras das estações
que se abrem lentamente
por entre seus lábios
a harpa dos prazeres, fantasia a noite
tece loucas visões aquecidas,
me conduz angustiado, pelo sereno,
para o lado oposto do corredor do sono
os odores da solidão sopram pelas veias
os vestígios, vagam por entre as palavras
soltas, são véus que suspiram ao vento.
acendem o lume tênue da cobiça
feito de pétalas vazias e vivas
por prerrogativas dos ditados
aceito, tremendo as fibras,
i indício do cio como suicídio:
- amo sentidamente no segredo.
ansiedade
franqueio o armário
o odor dos simulacros
desativa os sonhos
as pedras de mofo
ferem sutilezas,
faceiam ignorâncias
reavivam verdades
funde a razão
sobrevoam as lágrimas
que brotam da ira
os vestígios germinam,
enlouquecidos, nos cabides vazios
as vestes, sem vida,
foram amontoadas
amordaçadas
esquecidas.
�
algumas pétalas dos aforismas,
esquecidas pelo florista
sou aquele
que escreve
com os olhos.
arde nos meus olhos
o fogo simbólico do não
deixei a tristeza
e pranto
tatuados
na palma da mão.
jamais serei entendido
naquilo que não sei.
esquecer por amar:
até quando essa trilha
seguirá à minha frente?
hoje,
eu me afogo
e você me salva.
até a próxima tinta
a face revela o sentido.
há gritos de solidão
estampados nas paredes ofegantes
de um sombrio quarto frio.
a expectativa
corrói as emoções,
destroi a vontade.
não desperdice
sua paixão
em vão.
perdição
sobre os caminhos dos dinossauros
aqueles que tomam atalhos,
apagam as pegadas dadas,
destrocam as intenções
dissipam
camuflam
dissimulam o olhar.
como descobriram a trilha?
espiões revelarão os segredos?
agentes delatarão investidas?
para onde vai esse caminho?
sabe-se através do instinto
que algo na carne nos torna único.
fuji
não é bem assim
o contrário não é o fim
sinto uma vontade quente
uma sensação provocante
de fugir para outro lugar
para poder te amar,
assim.
vulcão com o topo branco
- paisagem bucólica de inverno -
arde o gozo em lava
quando açoitado pelo prazer.
determinação da vontade
te sigo, persigo suas pegadas
torço para que me pegue
me cate.
não te quero perto para admirar
desejo seu caroço, sua semente
preciso te reproduzir ao longo
de todos os meus caminhos.
quantas pontes,
quantas pontadas, estocadas pelas costas
emboscadas e mesquinhas armadilhas
terei que aceita?
quanto tempo,
quantas tempestades, chuvas de canivetes
relâmpagos vis e raios indômitos
terei que suportar?
quantas noites
quantas insônias, sonos agitados
sonambulismo vagos
terei que conviver
até você se deitar comigo?
franco
você tem seus caprichos
e eu entendo-os
compreendo sua liberdade
e acredito em mim
pensando em você.
por achar que tenho
o amor escasso
faz pouco caso de mim.
franco, vida
branco, dúvida.
agosto
sustos de gatos
desespero de gatos
amor de gatos.
gatos no cio comem melão
para matar a sede
ou para lambuzar-se,
lamber-se mutuamente?
fusão
a vontade que nos funde
o quente que nos une
o calor que emanamos
dos corpos colados
é a mesma que nos isola
nos mantém
cegos e apaixonados.
o portal dos tempos
um relâmpago perdido no meio da noite.
vestida de preto, no meio da névoa
a morte acaba de nascer.
um antagonismo necessário
para quem vive na neblina.
sempre um dia inédito
uma noite única
para quem cruza
a soleira da floresta de mármore.
vulcão
quando tudo parecia
ter perdido a direção
o sentido, o cheiro, o nexo
um tremor medonho
nascido dos subterrâneos do medo
deslocou paetês de mim,
deixando-me exposto, ventilado
pelo sentimento que flui ardente
dos meus olhos fitos em você.
agora, só me resta esconder as lavas.
maneiras
como suportar o fogo cruzado
do amor roubado?
o que fazer com a moral nua
jogada na sarjeta do acaso?
como poderei advinhar
a intensidade
das chuvas de solidão?
como evitar que
os ventos da discórdia
serpenteiem meus olhos?
como não melindrar sua vida
se o silêncio dos meus jeitos
não conseguiram escalar sua atenção?
como possuir aquilo que foi gerado
quieto no coração?
como caminhar seguro
por entre desertos impostos?
como alinhavar os encontros
se o fio da meada encontra-se
perdido num labirinto de palha?
como guardar segredo
se o que sei esta escrito nas nuvens?
como retroceder ao beijo
que me estilhaçou
em mil perguntas inóspitas?
lápide
o que você vai fazer hoje?
daqui a 5 anos
você pode estar morta.
não pense,
eu pensei demais
e morri devendo
a mim mesmo.
escrava
me empresta teu corpo
quero trocar teu gosto
desamarrar seus impulsos
dar liberdade à carne
ao sangue, ao ser
quero te fazer correr
as torrentes dos amores devastadores
leva-la atrás do desejo
ajuda-la
a encontrar o caminho
a sua alforria.