A
última
patada
do
Dragão
PEGADAS
A última patada do dragão
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Shinju
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Restos de quarto
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Gruta
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Amarras
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Permuta
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Buenos aires?
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Ponto de vista
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Queimada
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Recouvrement des notes
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Le diamètre de le diamant
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Cimetière
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Dúvida atroz
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Chuva
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Le desespèrè
Camila Brainner
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Lençois
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Tao
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Meus dez mil dias
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Telefonema
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The other side of the mirror
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Aminésia
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Caçador intrépido das estepes desiguais
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Luzes acesas
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Trajetória
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Ventania
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Presença de espírito
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Depois da "festa"
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Animal ferido esquece o dono que o feriu?
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Sonhos são indícios de delirios
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She's never hurt vefore
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Oníricas
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Encomenda
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O viajante
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Retomada
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A arte de enfeitizar o destino
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Incrédulo lilás
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Hsu, dois nos depos
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presságio
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Carência
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Saudade
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Marear
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Diário de Bordo
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Narciso
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Única
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Artista
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Opaco
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Fresta
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O instante na estante
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Montanha
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Dilapidado
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Mistério
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Mulher
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Divagações repetidas divagações
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Abrir os olhos e deixar a luz ferir
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"G"
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Olhos escuros
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Ao toque da infidelidade
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Criatura
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A última patada do dragão
Perder o sentido da luz
perder o sentimento de amar
perder a razão de viver.
Foi tamanha a ansiedade
que quando veio infalível, invencível
cruzou meu passado
retornando ao início
onde colocou-me arrependido
por ter começado a viver.
Poderia me marcar,
uma tatuagem na alma
mas, por que por amor
a cicatriz ficou no olhar?
Talvez quem me veja
não saiba por que a luz
não me sensibiliza mais,
não entra pela janela
e neles não espelha
o amor que tive, vivi.
Talvez não seja flagelo,
auto-mutilação ou graça
arrancar da face o dialogo silencioso
e joga-lo num chafariz
refletido do arco-íris,
para tranqüilo dormir colorido
no reino da escuridão.
Nesta estrada que cruz o deserto de mim
onde é proibido parar ou chorar
vagueio, cego sem bengala , sem desculpa.
Será que estou indo em frente
ou dou volta sobre minha sombra?
Haverá misericórdia ao fim do passo?
Será o sol clemente ao pedido de chuva?
ou terei que procura
o deleite do suor de cansado?
Hoje sinto na pele febril
a falta do gelo artístico
das lágrimas das nuvens vermelhas
que sempre me acompanharam
por todo destino que tive
por todo destino me dado.
Por quanto tempo chorarei
por quanto desespero sofrerei
por não poder amar
a luz de minha estrela?
Agora, aqui estou frente a frente
com o pricipício do momento
estático, desejoso de atos
lunático, pensados ou afoitos.
Quando a aurora do medo, da perda
me tomar, nada será como antes
nada será narrado para depois,
tudo dependerá do que fizer agora.
Ouço o conto sonhado da aventura.
O leve cheiro das orquídeas
paira sobre meus ouvidos loucos
como entidades do anoitecer
que roubam do dia o calor do sol
para tricotarem cachecóis
que o inverno incendiará.
Planar sobre Atacama
plantar sobre o destino de sal
- vale a pena plantar um chafariz
no meio da solidão?
Estou a um palmo da solução,
seria a frieza do calor
um alento para desistir?
Levarei comigo o meu passado íntimo
não divulgado, retratado em 3x4,
para a inércia do medo,
para os porões da morte.
- o fundo da existência é tão perto
que nem desejamos saber onde dá pé -.
daria tempo para recuar
do empurrão de coragem-
para a camiseta de perdedor
envergar vergonhosamente -
só pela satisfação alegre
de que há esperança?
O que há de insensato
em garimpar as nuvens
se na terra não colhemos
nem idéias nem amores?
Caiu um pedregulho da minha inocência
pela vontade própria mergulha ao léu
e minha curiosidade do olhar
faz-me pender e os pés imagina asas.
Navego por ares nunca voados
cruzando mil ventos, tais pássaros
tal ave de arribação,
que da vida à infinidade alva
deriva no céu escondido da plenitude.
Se vôo ou precipito
é pela simples fração da realidade,
se não me estimo
desabrocho o peito em flor.
A flecha que do arco zune
trespassa o futuro e a dor
trazendo contra o meu ardor
a última patada do dragão.
¶
Shinju
Sonhar para além da insônia
ir para onde o ônibus só vai
andar em direção do impossível
lutar por nada
viver para perder.
Que mais um kamikaze
poderia desejar
além de um juramento de amor.
¶
Restos de quarto
Meus sapatos, sós, ao pé da cama
os lençóis não queimam mais
o cheiro de mel e suor
esvaíram-se pela janela
o sono custa a chegar.
No éter dos sonhos
levito por entre seus pêlos
me embriago na sua pele
- no liminar do horizonte,
descortino seu corpo
aos olhos veladores do mundo -.
No gesto de menina
todo o fascínio de mulher
toda a sensualidade animal
todo o perigo
do labirinto do prazer.
Eregir rosas brancas
à deusa loira dos olhos verdes
para aplacar a ira
dos pensamentos maus.
¶
Gruta
A passagem é única e molhada
gruta alucinógena gruta
por todos os invernos feitos
passar para o outro lado
tem sabor de nectar.
- mescla de dois corpos -
o som do gemido conseguido
entorpece os ouvidos
dos calados cansados
que não desvendam os mistérios
da libido satisfeita
em corpos aventureiros.
¶
Amarras
É na noite que
procuro meu sol
minha luz de fevereiro.
De dia choro, fico triste
ando por portos dormidos
a ver navios ao longe
e imagino-me fugindo
para uma solitária geografia.
¶
Permuta
Nem mesmo pela própria vida
se ela fosse objeto
trocaria pelo meu amor.
Nem mesmo a própria morte
se ela fosse real
mostraria a felicidade.
De que vale a vida
se até a própria morte á recusa?
¶
Bueno Aires?
A flor que colhi com amor
no canteiro do janeiro
sempre-viva, sempre-bela
secou sob os pés
da desgraça de prata
sem deixar de exalar
o perfume do desprezo.
¶
Ponto de Vista
Olho a cidade com outros olhos
olhos de caçador, olhos perscrutador
procuro a cidade das revistas
do passado, a que ficou no coração.
Vejo que as esquinas não são
cruzamento de idéias,
que os bancos da praça não ouvem
mais as declarações de antes
não são ponto de encontro.
Ando pelas calçadas e sinto
que as árvores no seu espetáculo
nos observa
(em sua silenciosa sabedoria)
a incensar o ar
mas, também
a assassina-lo
noto que o tempo sempre foi úmido
e o clima marcadamente choroso.
As pessoas atônitas, olham para os pés
envergonhadas por serem fracas,
por não poder enfrentar a vida,
o dragão do destino
como o fazem contra o oculto físico.
A angústia pela falta de luar
enegrece o espaço vivo
do fato de andar só pelas pedras lisas
de um passeio alheio ao fim.
Meu andar cartográfico
pelas ruas dessa cidade
tem um pouco de tristeza
arrependimento, talvez
pela vida que tenho
pelas sensações de ter andado em vão.
¶
Queimadas
Bem que eu quis não me envolver
não fazer parte deste complô
nem participar do levante
queria ficar só, á margem de tudo
não estava a fim de tramóia
mas você me obrigou
aplicando a chantagem de sempre.
Agora estou nos anais da justiça
como cúmplice, por ter pactuado
tua causa; agora, nossa.
Júri nenhum irá acreditar
que esse fogo todo na mata
floresceu da fagulha
de um cigarro mal apagado.
Talvez a pena seja perpétua,
companheira,
viver para sempre juntos até morrer.
¶
Recouvrement des notes
Foram tantos tempos,
tantos tempos,
tantos tempos,
tantos tempos,
e tantos tempos.
Foram tantos dias,
tantos dias,
tantos dias,
tantos dias,
e tantos dias.
Foi uma meia vida de espera
que não sei o que perdi,
o que ganhei.
¶
Le diamètre de le diamant
Na fonte de águas turvas
entre as pedras verdes de limo
encontrei sob a lama
tal cristal de luz
vítreo de curiosidade
estilhaços de coisa alguma
- serei eu o único a reconhecer
que tal falsidade encanta?
Por anos a fio garimpei vidas
lavando almas, limpando corpos
sem saber o que procurava
sem saber o que encontrar.
Por mais a fundo que fosse
jamais teria tal luz
jamais facearia
o cristal dos meus sonhos.
Levei tempo lapidando desejos
esculpindo fantasias nos metais frios.
- prá que?
só para compara-lo à bijoux
hoje sobraram os cacos
e sinto que nada restou,
um corte no coração
e a mão sangrando.
Afogar a língua n'água
engolir nacos mil
sentar, esperar, recompor
tais alternativas
levam ao fim que não quero.
Lágrimas cristalizam nos olhos
tenho quilates de cristais
- a quem dar
tamanho colar de amor?
¶
Cimetierè
Estrategicamente
guardada num canto
juntada a outros
empreguinados de mofo
enraizado no pó das horas.
Talvez torne a vê-la
quando outro caixão vier
acumular tal
refúgio de lembranças
onde esqueço os objetos já sem uso.
Lá fora nada há para além
da solidão das estrelas
uma imaginação fictícia
que desabrocha em trevas.
¶
Dúvida atroz
Está faltando algo
neste arco-íris.
- Cadê o vermelho,
que esquinas de sombras
o escondeu?
¶
Chuva
E se a pena vale-se
esperar para imaginar
que poderei ganhar?
que poderei te ganhar?
Como explicar meu horror à chuva
se sempre estou molhado?
Sempre a chuva esteve sobre mim
sobrevivendo a momentos felizes
por anos tive que abrigar-me
por anos te esperei
hoje sei que te esqueci
te perdi num ônibus.
Hoje eu estou a chover
mas como explicar meu ódio
se sempre estou te amando.
¶
Le desespéré camila brainner
Por toda a desgraça que possa abater
por todo terremoto que houver
sempre estaremos
perplexo, perante o futuro.
A paciência de esperar pelo que vier
nos leva a loucura insana e cega
e nos torna frios, insensíveis
aliás, não sabemos nada do presente.
A procura nos carrega à pontes suspensas
bambas ao vento, insuportavelmente leves,
arriscando a jogar-nos no precipício dos sonhos.
- por que chorar sobre a natureza
se mesmo lutando contra o defeito
tenta parecer normal sobre pedras.
- e sobre a flor?
tem ela o mesmo desígnio de beleza
mesmo seca,
mesmo rejeitada?
Em tal desespero, chorar por não ter
a chance de precaver-se
de talvez evitar,
esta escolha:
esconder-se entre as terras ou,
jogar-se no sonho?
Se as pedras fossem vivas
e tivessem o desejo de viver
talvez seu desespero aplacaria
vendo a ponte do real crescer.
¶
Lençois
- Como um deus à contemplar a natureza!
viria, eu sei, o desejo de possuir
mas o olhar é duradouro
além do efêmero prazer do toque.
Agora eu sei que vendo-a deitada
tal na praia deserta
percebi no sentido do amor
toda a extensão da vida
- nunca imaginei chegar até aqui.
Amar como deus
possui-la com desejo
e no real sentido
viver num duradouro.
¶
Tao
Que cadáver esquisito é esse
tendo o corpo, um
tendo a mente, outro
A dualidade,
uma oposição para
a mesma direção.
¶
Meus dez mil dias
Levei muito tempo
tentando imagina-lo
ou ao menos como seria
e o que faria
quando tivesse que esquece-lo?
que mal dos males
me aconteceria, deixando-me débil,
aniquilado perante o desejo
sem vontade de ser
com o olhar, extasiado no passado?
talvez, não tivesse tempo
de prezar o arco- íris
nem ao menos senti-lo
orbitando minhas esperas.
Agora, perdido o tato do rosto
fiquei sem sentimento, frio.
Hoje não sei o sabor da brisa
passo um tempo enorme me escondendo
fazendo um regime de puro isolamento.
A liberdade me ecoa triste
com aroma de solidão, um farol num deserto calmo,
por mais que vôo adiante
mais perto fica minha vida, mais longe vou,
embora, fugindo de minha própria sina
fugindo de mim próprio.
¶
Telefonema
Que tal falarmos sobre
lembranças entristecidas
passado longínquo
esperanças perdidas
num papo ameno, simples
palavras que flutuem na brisa
do entardecer;
Levaríamos em conta á saudade
o clima
o tempo que ficamos longe.
Talvez a curiosidade de saber como estamos
o que aconteceu?
e o que pretendemos fazer?
- lembra? como na primeira vez.
Hoje nosso olhar é outro
a voz soa afinada sob outro diapasão.
Agora sabemos o dinossauro que somos
e de que somos capazes.
¶
The other side of the mirror
Quero te mostrar o que há ao longe
do outro lado do que vê.
Te levarei para além do reflexo do espelho
sensibilizada a luz das horas
do vôo das aves ausentes
noturnas, silenciosas
que sob os nimbos ideais
tecem seu dia, meu destino.
Tira-la da tristeza de estar atracada a um cais
em dia de vento açoitado,
podendo alegre cavalgar sobre ondas
no livre baile do vento.
Vejo na boca d'água
seu paladar afoito
naufragar em êxtase
deixando tatuagens no corpo
que pontuam o desejo que corre nos meus nervos.
¶
Aminésia
Hoje percorro outros caminhos
freqüento outros bares
meu cometa desviou da rota
vou a outros mundos,
outros planetas,
conhecer outras vidas
mas, por que faço, não sei
esqueci a razão.
Não precisa tentar achar-me
eu nunca sei onde vou estar.
¶
Caçador intrépido das estepes desiguais
Queria te beijar a boca
mas você fugia como uma garotinha
foge do misterioso, escondido, oculto,
daquilo que causa curiosidade
se te pego forte, cabelo vai ao vento
balança revoltado, hesitante,
se te trago ao peito, me olhas
feito gata desprotegida, miando
querendo algo mais que o permitido.
Se te rasgo, achas que sou tarado
que te seduzo, te enfeitiço
te conduzo a territórios arriscados,
à loucura, sem passagem de volta.
- você não entendeu a manhã de vista,
o xis da questão imposta?
Talvez minha obsessão,
essa tatuagem cravada nos ossos
não passe de frescura de adolescente,
mas até onde posso ir andando por este passeio
se todos os lugares são os mesmos
a despeito dos rostos dos que passam,
das mentiras pregadas nas paredes
dessas casas que escondem idéias
divergentes das minhas?
tá certo que não sou o tipo ideal,
desses bonecos estirados em revista de mulher,
que minha voz não seja de galã
ao contrário,
mas meu delírio de aço chega a te buscar
e te leva para além dos condores
das vontades contidas entre os dedos,
para o silêncio que o amor cintila.
¶
Luzes acessas
Velar meus olhos roxos de paixão
sobre as cortinas do segredo inoportuno
e lavar a alma
no jarro diáfano da alegria
ainda que a lua cubra o sol
estarei sempre a aguardar
sua volta, regresso
para o tronco da qual[
além da prima beleza,
levou no coração
a certeza que te quero de novo
iluminada pela luz
que deixei acesa.
¶
Trajetória
Começo a entender a sintaxe do medo
e do amor com a sua morfologia.
Essa teoria que rege a vida,
a rota das estrelas.
- me conte a história do rio de luz?
agora posso interpreta-la,
sigo o curso natural das coisas,
sem os acidentes geográficos
dessa história infeliz.
Eu. era. sou. serei. serão sereias
as mulheres solitárias que nessa batalha,
onde não sabem
se lutam, se ganham ou se estão perdidas
nesta mesquinha cidade sem remorso?
Gostaria que tudo fosse fingimento
e que soubesse lidar com o segredado
mas sem felicidade, que molhada
pela chuva do inverno
encolheu, esqueirou-se pelo boeiro,
torna-se difícil, quase oculto o futuro.
O perfume volatilizado no tempo
tem essência de mandragora,
estilhaça-se no ar em mil intenções frágeis,
em contrapartida da alma,
são perenes essas incontáveis fagulhas
que cintilam no olhar noturno.
Devo voltar para onde nunca devia ter saído?
- onde?
sabe-se lá onde, só que aqui é que não fico.
¶
Ventania
Os grãos da miragem são leves
infinitamente penosos,
na voz do vento
voam cantando entristecido,
pela ausência da amante do lado,
o choro dos esquecidos, dos reservados.
Triste, trilham opacos a via
brilham no acaso de um dia
sabendo que a noite é fria, cruel
e que não deixa nenhuma alegria luzir
nenhum amor florir
nenhum amor brotar
nesta terra de sal
terra de solitários
terra de sós, de otários
terra sem sol.
¶
Presença de espírito
O que vê à frente
num íntimo relampejo de luz?
a cor inexplicável da ilusão
- forte, marcante na retina enganada-
vai para além de tudo que há
fica sepultada no breu das cores vividas
guardada em cinzenta recordação,
para ser ressuscitada no futuro
quando a saudade das antigas imagens
ferir os olhos do coração agoniado.
¶
Depois da "festa"
Foi ato impensado
mas tudo que usou
cada prega de fita
cada laço nos cabelos
tinha algo a ver com aquela festa
por traz de cada tempo perdido
na maquilagem, no esmalte,
nos apetrechos enfeitiçadores
havia sempre a intenção de agradar
de quer se dar.
ela não iria se expor assim
sem ter pensado em algo antes,
afinal, esse riso de satisfação,
de esgotada, de "calma, calma"
não pode ser mentira,
seu gemido,
conseguido no último galho de cipreste,
ainda o tenho brandindo no ouvido
foi tão profundo quanto a noite passada
e seu corpo, nu, como o céu
sem estrelas, sem marcas
sem o véu do medo
estava ali, resplandecente lua
no sono, como natureza vegetal.
Eu que pensava que ela fosse uma miragem
coisa do outro mundo, mas
ela era de carne e osso
prazer e autoridade
desejo e possessão.
Se eu levantar, ela acorda,
se eu for embora, vai faltar-lhe afeto
se ela acordar e resolver ir embora
vou ficar cultuando uma deusa de mármore
branca, fria, de olhar estarrecido pelo passado
é por isto que vou ficar aqui
quieto, defensor e amante
como um cãozinho ao lado da dona.
¶
Animal ferido esquece o dono que o feriu?
Levado ao quarto escuro, pela segunda
nada além de um palmo do nariz
somente escuridão, vazio, o que há?
trabalhos reforçados sem reconhecimento
perdi a razão do certo errado
da diferença entre o inferno
e imensidão do mar.
A vontade de optar,
escolher entre o claro
ou claro que escuro!
perco coisas que duvido ter feito.
Agora não sei onde procurar-me
ás vezes falo sozinho
e não me entendo.
O que a solidão faz aos olhos.
Passei dias prado, com medo de mexer
hoje sei que tenho o relógio atrasado
e meu tempo é irreal.
Levei tanto tempo dos outros
agora pago o vexame em dobro
mais juros e correção
e todos esses encargos que me dão
tento não incomodar
grito surdo e mudo o que sinto
mas, nem sempre consigo.
Tudo é magoa de cisal,
pânico dos gatos afogados.
O veneno me corria do dente.
Por favor, feche a porte, não me espie
não gosto que me critiquem por chorar.
¶
Sonhos são indícios de delírios
Quando penso em ficar sobre nuvens lentas
você me dá uma insônia
daquelas grandes
daquelas que dura toda a lunação
que cruza todo o porão do meu céu,
demora para sair
fica como nódoa de bananeira
eu que deito e durmo, alegre sou assim
tô sonhando acordado
cada coisa utópica, onírica como toda esperança,
loucura instigada por demônios
subversão da vontade dos neurônios
inadiplentes que turvam ainda mais
essa cabeça já sem desejo
tumultuada por muitos regressos, voltas, revoltas
pela inquietude dos ventos noturnos do sul
devido a mudanças bruscas no temperamento
pela densidade relativa no clima do momento
carrego punhais sob essa calma fingida
disfarce das rugas ciumentas inadmissíveis
essa dor que contamina, proliferando pelo
meu corpo, nervos, movimentos e nas minhas atitudes
exposta no pelotão da oposição imposta,
pronto para atira-los contra o teu silêncio,
tua defesa, sua parede, seu segredo,
contra tudo que tira debaixo da unha, da saia
e usa para me possuir, me levar
a outra dimensão com sua malícia.
De manhã uma raiva preguiçosa
vai me fixar nos lençóis mexidos
rixa entre querer e ter.
Sob o eclipse da luz do tempo desconhecido
narro até o fim o trajeto da paixão
lá encontrarei vestígios dos desígnios
dos signos tatuados em pétalas
multifacetadas das flores da pele
daquela que amei.
Só que não estarei mais sonhando
ficarei olhando para cima
vendo as nuvens decidindo lentas sobre mim.
¶
She's never hurt before
Vivo uma realidade
parida de sonhos
lacunas infinitas
desgraças que leva em malas
pedaços de vida
para longe, distante dos desejos.
Segue ermos caminhos
desvios, atalhos, becos
sempre em frente única
ignorando o que passou
um passado frio, nevasca.
Quero pelo menos hoje, quero
ser dono do meu nariz,
usar minha identidade
decidir sobre meu tempo
sobre a chuva, sol, vento
que roupa colocar
seguir a ranhura do mármore
o contorno das nuvens
ir sem o dever de dizer prá onde.
¶
Oníricas
Marionetes fantásticas
com fios lunáticos
em que sombras escondes
em que páginas ficaram, esperando-me
nesse encontro desgovernado
ás cegas, na calada do desvio?
Teu rosto, o tenho entalhado nos meus olhos
visão ás claras, porém proscrita
apesar desta esfera de influência
ainda o tenho meta orfoseado
na esperança de ter encontrar
Será que tua presença fatal
me terá tirado a vida
depois de tudo o que aconteceu?
¶
Encomenda
Benção ou flagelo
seria o que você é
além do sacrifício
além da dor
seria você o que é
e por isto tenho que aceitar
aquilo que traz
disposta a dar
sem saber se quero
sem saber o que quero?
¶
O viajante
Agora não dá mais
do jeito que tá a floresta
negra, sinistra e estranha,
qualquer obstáculo é um susto
qualquer pássaro é desgraça
qualquer sombra é afronta.
Voltar é começar de novo.
Uma tendência de girar
sobre o mesmo ponto cardinal.
Tenho intimidade com essa vida
posso debochar do meu azar,
carrego tudo que acarreta
sofrimento e magoa.
Nem ao menos reclamo
da mochila cheia
de excessos e temperança.
Parar ou seguir: eis a questão.
esperar ou cair?
ambas ciladas da escuridão.
No silêncio da espera
o amor cresce,
planta rasteira cobre o chão.
e a isca destas armadilhas?
a esguia silhueta opaca do futuro.
no espelho, tal qual foi a floresta
que ora vejo refletida
- sem remorso, sem ódio -
há sempre uma saída a contornar,
há sempre uma maneira a repensar
há sempre uma palavra que não foi dada
há sempre um beijo que não foi entregue
há um jeito de reiniciar
sem ter que voltar ao principio.
¶
Retomada
Olha, tenho tanto segredo contigo
que o silêncio me acusa
e essa cumplicidade no olhar
nos delata sem defesa.
a verdade escondida sob as unhas
não me permitem desistir,
mesmo que o risco de errar
me faça pensar em não querer mais.
¶
A arte de enfeitiçar o destino
Irão seguir o caminho que trilhei
sentirão na face
a dor de ser nojo.
Não, não é pecado o que desejo,
se é vingança não acredito
em sua gratidão.
Jamais pensei
jamais imaginei
estar no início
onde tudo começou
mas do outro lado do espelho.
¶
Incrédulo lilás
Cansei de tê-la em meus sonhos
(encontros e encantos)
no espaço rápido do olhar
não há dúvida de sua existência
afinal, esperei tanto e tantas
que não acredito na sorte.
Minha alma vazia numa mesa.
a cabeça cheia caída ao chão,
seja por esquecimento, desprezo
é frágil frasco para uma aventura.
- agora que líquido guardar?
você não conhece ainda meus demônios'
tenho a chave errada de uma certa porta
que esconde minhas trevas
um passado recente e falso
um cadafalso enganoso
que me deixou com vergonha da luz.
Mais que sorte necessito de chance
mais que vida necessito de alguém
mais que qualquer uma, necessito de você.
serei subjugado pelo amor
serei singelo, serei quente
serei calmo, serei amigo
serei claro como a gota
que trago entre os dedos
fruto de um azar inacabado.
Hoje rio doce da beira do mar amargo.
¶
Hsu, dois anos depois
De tanto esperar
o estupido idiota
dormiu na vida
acordou morto.
Viestes acompanhada,
não me acorde.
Como você se sente
vendo um bobo?
Muitos me avisaram
que você não viria
ainda tenho forças
para seguir o atraso
de uma oportunidade
que não me foi dada
quando precisei.
Some, por que não
vale a pena, perder.
Sempre tive medo de expor-me
agora aberta a chaga, me ferí
estou ferido e com medo
mesmo gostando
mesmo querendo
não estava comigo
não te senti junto
a alegria que tu esperava
a acreditava, estava
entre nós, muitos.
¶
Presságio
Para onde você pensa que a humanidade se dirige?
você não acha que ela ficou parada
marcando passo na cadência da tua vida?
Perdida por entre colunas
lenços ao ventos
nuvens enquadradas na janela
lá fora as lendas se cumprem
e se perdem na verdade,
labirinto de portas,
corredores falsos, idéias vãs.
- how many the philosophy will exist
between the sky and the earth?
ninguém, sabe com que roupa vem o medo,
quando descortinados os segredos da noite,
horas afixiadas em que
não se está certo de nada.
esquisita coisa de esquiva
indecisão pura
estou tão sozinho, quero dormir
quero teu colo
socorro, estou com medo.
¶
Carência
Vou continuar a brincar com sonhos
mesmo sabendo que o castigo
é a insônia, falta do real
que escurece o quarto amplo
em que hábito.
ninguém é obrigado a enxergar a luz
que fere os olhos.
mesmo sabendo que ela ofusca
aquilo que se imagina.
- talvez ela nunca venha a saber
o que se passou comigo
o que se passa comigo.
o que passou, ficou marcado.
deixa assim.
¶
Saudade
Quando se caminha por destinos acidentados
não percebemos que estamos sendo empurrados
puxados, jogados para os outros lados
que estamos tropeçando na sombra, na vida
que não estamos no sentido concreto.
ninguém se feri e acha graça
daquilo que o motivou,
embora o sangue assuste
a escolha é de cada um.
o medo de cair e não ter ajuda,
cega; sofremos tudo para não estar só.
Vale a vida tamanha morte?
¶
Marear
Ainda que longe do mar
sinta sob a língua
o gosto do sal,
sem querer penso no sabor
dos momentos que deixaram existir.
Sometimes, questions me, I haven't answer
que correntes marítimas foram aquelas
que te levaram no repuxo
da festa de fim de ano
me deixando vago, num porto
justo no meu aniversário?
Tá certo que todas as águas
correm para o mar
embora meu amor esteja
permanentemente refletindo
as montanhas que me cercam.
As vezes, tento impedir as ondas,
meu castelo não alisar,
tento , tento, tento não perder.
As vezes, tento não te amar
mas o mar é implacável.
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Diário de bordo
Durante todo esse tempo ....
e eu que pensava
que a serra, a altura
me fariam esquecer
dragão, serpente e o mar.
Você não imagina
as luas que tive que cruzar.
Trago uma marca no peito
que mudou a paisagem da vida.
Culpo o mar por não te amar
e temo que deus me diga adeus
por tamanha blasfêmia.
Cortar a árvore para colher o fruto
e reclamar da próxima safra.
Noto que os ponteiros não andam
talvez, sem estimulo.
Sempre esperei pelo inverno
com o coração no verão.
encontrar o ponto exato
entre
o que você me fez
e o que gostaria que acontecesse.
enfrentar a fantasia de olhos abertos.
desculpe-me vale menos que
perdoa-me pelo que vou fazer.
O que há de novo no passado
além da tristeza do presente.
Cem touros cruzam a pradaria
indo em direção
do horizonte imaginário.
Centauros cruzam o corpo
indo em direção ao realmente.
Eu não poderia esperar
não pude ficar a sombra da árvore
talvez o destino viesse implacável
e me deixasse morto para a vida,
sem uma manhã seguinte.
Cultivei segredos em campos estranhos
frutos proibidos aos olhos seus,
gestos incompreendidos
sabores escusos, atos silenciosos, delatores.
Me disseram que o amor é falso, intempestivo
chuva forte em alto oceano,
uma vez lanhado, toda vida marcado:
a eterna luta de fugir, esquecer
e querer de novo sofrer, sangrar, rasgar-se.
durante todo esse tempo
escavei dunas
nos recônditos recursos da natureza humana.
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Narciso
Um rio que revolve a terá mais dura
tenazmente desloca pedras e obstáculos
levando de roldão todos os passados
aqueles que se banham nele.
Lava, produz, enfeita ou esclarece
nem mesmo o rio ou suas águas
conseguiriam explicar
tamanho curso de correnteza gerado
Sem espuma, sem barulho.
puro silêncio flutua nas águas
escuras; abismo, profunda existência.
quanta sabedoria se esconde sob o lodo?
da nascente que se perde no ontem
muitos amores foram contornados,
foi desviado do leito natural
teve quedas, chuviscos dispersivos
estilhaçaram seu ideal.
Mas nem mesmo o sol castigante da indiferença
pode fazê-lo morrer. no leito seco corre
o espírito calmo de quem procura mar.
Há chuva. a chuva há de vir um dia.
as pedras clamam o descaso e pedem proteção
por mais longa existência, que haja azar
não mais, esquecida pela natureza.
sob o fogo dos mistérios
voam luzes brancas, negras noites
espelhadas na curiosidade superficial
na tênue idéia de sê-lo em beleza.
De todos os rios concebidos
talvez haja outros com porte, volume
limpidez, frescor e paisagem
aquém ou além
do que vislumbrado ao sair da mata.
seus olhos se esqueceram das outras águas
nunca ouvirá o nada escutado
o sabor e o entorpecimento do ar,
nada será igualado
quando deitares no trapiche do convite.
talvez se pudesse querer algo
queria me retratar nestas águas.
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Única
Mira! faz tanto tempo
que não os vemos ....
a ronda das estrelas
agora está em outra praça
neste céu, só cometendo bobice;
de sã já foram todas loucas.
só você restou no horizonte
saudoso da lembrança.
Calos na personalidade
me fustigam à espera.
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Artista
Vivo, represento o velho cego
que garimpa estrelas no deserto.
na senil tristeza encontro
asas as recordações repentinas
longas esperas, amores utópicos
aragens súbitas me deixam atônito
só, como toda árvore no inverno.
Haverá tempo para mais uma vida
que de tanto querer
esqueci de tê-la?
Ora, maldito por de sol
levou-me a oportunidade tênue
e agora fiquei a ver navios
se tatuarem, vermelho alaranjados
nos corpos das nuvens andarilhas.
Quantas eclipses ainda sentirei na pele
até que você me venha iluminada?
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Opacos
Como te esquecer
se cada segundo da ausência
desvirtua meu tempo,
desagrega minhas idéias,
dilapida essa vida
em quilates tão efêmeros...
empreguina meu olhar
com uma neblina, tão profunda,
de um poço sem função.
deserto nenhum me agüentaria
desejar todas as miragens.
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Fresta
Receio de desejar
de querer, de poder ter
de ser manipulado
(para fora)
pela razão do desejo.
Não quero o que não tenho
o que está longe em outro lado
cruzado ao atalho
onde só o pensamento perturbado
pode ir e enlouquecer.
Por debaixo da porta encerrada
entram palavras proibidas,
expulsas do jardim,
são frias, chatas, fulgases
rápidas e doloridos; negras.
mesmo sendo a satisfação
inimiga do prazer
aceito a desilusão que ela me traz.
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O instante na estante
Entro, te obstruo os móveis
enquanto te tenho, vivo
enquanto me tens, preocupo-me.
o sol não sai
e no céu destas esquinas
chove sem parar.
- angústia encrustada
nas estátuas do tempo
deturpa as idéias e gestos
torna-os pesados, fardos lentos
- por quanto há de se caminhar?
você me lê e não me encontra
muito antes pelo contrário
me troca.
agora, me procura e não me vê,
seria o caso de estar perto
e admitir que posso acordar
muito antes do relógio despertar.
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Montanha
A tatuagem ainda pulsa
depois de todo vento
ainda há amor
fluindo por veias e redes.
medos e receios
entopem as linhas de acesso
tornando complexa
a retomada do curso.
uma única gota morena
sobressai no lago loiro
trazendo saudade do tempo
que choveu do seu céu.
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Dilapidado
O destino não prega peça sem estopa
ainda tenho cravado nas costas
o tempo de imensurável lentidão.
sobre o estigma do meu ser
a insuportável tristeza de amar.
querer ter o ser
me expõe,
me trespassa
me enferruja
me deixa
corroído por asfixia.
que corpo vai lhe captar
o toque que transitei-lhe?
nossa rua continua sem nome.
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Mistério
A fumaça levita no quarto
tricoteia mensagens cegas,
solidifica sonhos.
olhos fechados
turvam a autenticidade estática
deturpa parte de mim.
acordado, acaso de me perder,
perdido jamais vejo o que falo.
como representar a seta que me feri
se não ignoro o arco que à lança?
- por que me agridem?
que desdita virá com o cometa?
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Mulher
O poder de fazer-se desejar
a condição de não ser querida.
o querer a sua hora,
o dever de satisfazê-la.
o direito de muitos
o suplicio de não tê-la.
ouvir a voz e desfalecer,
tentar a surdez inútil.
o calor na pele,
o gozo num toque.
o perigo de ser devorado,
precaver-se sobre o aviso:
seria não se possui,
ama-se, sinceramente.
¶
Divagações repetidas divagações
( ... )
no vôo da coruja,
viajo ao som do vento,
transporto idéias de infância,
levo longe a saudade,
deslizo ...
( ... )
¶
Abrir os olhos e deixar a luz ferir
- que horas eram quando cutelo quebrou a brisa?
o futuro cai por terra
o vento foge em desalinho pelo cordão telefônico
o machado ainda sangra,
amorosamente
perdido, escondido, renegado.
agora é de se esperar que a terra chupe a chuva
que o sol aqueça os ânimos,
que a lua, hoje
misteriosamente só,
cheia de segredos,
cheia de acertos,
faça florescer nos campos
o medo de pontos,
medo de referências,
medo de lugares,
medo de nada.
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"G"
Bem no meio da noite
tive um desejo alheio a vontade
identificado, concreto, eu.
emoções negativas retrataram meu estado de sono.
o que há de se fazer
com esse quarto caminho afogado
escondido atrás da realidade
perdida por entre lembranças?
desperto,
me vejo policiar-me
tateando em busca de significados,
diretrizes e bases
trabalho
a representação restrita da liberdade de si.
Olhos escuros
Flores, fumaça, vela.
a vela que se acende
a luz que se apaga
viemos do escuro quente
vivemos no escuro nada
vamos para o escuro frio.
os homens de branco que nos tiraram para viver
hoje estão de preto
nos colocam no leito escuro eterno.
sempre voei em volta dos que foram
alheio as lágrimas
choro e apegos,
frieza dominada, controlada
vontade que inunda
sem válvula de escape.
- quando os meus forem, onde pousarei?
nascer, morrer
imagens no mesmo espelho
vidro e prata
vida e morte
o círculo se completa
e gira rumo ao sentido de tudo
rumo à unidade
rumo à eternidade adquirida.
- tenho medo de ser imortal,
aliás, tenho medo de viver.
como conseguir tanto
em tão pouco tempo
e ainda se tornar "luz"?
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Ao toque da infidelidade
Há um certo toque
que transborda o rio
ao ponto de gotejar
em minhas mãos penetrantes
pegajosas gotas
que desliza ao entrar
ao sair quando te bebo.
que mares de saudades singar
que veios escavar
em que deserto procurar
a ilha desse rio?
que sede!!!
nessa essência sacio-me
esse defeito tenho sempre
esse prazer que lembro.
nas noites,
morro desesperado,
concentrado nesse toque.
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Criatura
Tenho medo de lua cheia
medo de desejar
medo de querer
medo de trair
a lua cheia traída de desejo quer outra.
são loiras, morenas
qualquer uma na sombra da noite.
uma sede,
um beijo,
uma relação.
um fio de sangue
corre do conto da boca satisfeita
por fazer amor.