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APOLOGIAS DO MUNDO ANTES DA QUEDA |
A escritora Katherine Mansfield faz em seus di�rios um relato da alma |
Nascida em 1888 na Nova Zel�ndia, sua ilha de beleza, e formada como escritora em Londres, Katherine Mansfield morreu de tuberculose aos 34 anos, em janeiro de 1923, ap�s tentar uma �ltima e controvertida cura com GURDJIEFF, guru de numerosos artistas. Os escritos �ntimos que dela ficaram, parte dos quais comp�em ''Di�rio e Cartas'', s�o o relato de uma alma em preparo para a morte feliz.
O �ltimo de seus belos contos, "The Canary", data de julho de 1922, quando escrever j� se tornara para ela, segundo testemunhou seu marido e insepar�vel companheiro de letras, o cr�tico John Middleton Murry, "uma luta quase imposs�vel, n�o s� contra a doen�a, mas tamb�m contra a convic��o de que um trabalho de purifica��o tinha de ser levado a efeito antes de ela dar novos passos".
Nas anota��es do di�rio, em que sua suave lucidez celebraria at� o fim "o milagre de estar viva", Katherine confirma que sua realiza��o como escritora n�o se lhe apresentava somente como um problema t�cnico, a ser resolvido pelo dom�nio da escrita. � preciso construir-se como pessoa, diz em s�ntese sua maneira de ver, para que a obra se organize em decorr�ncia disto, surgindo como a documenta��o fact�vel, natural e espont�nea das experi�ncias do esp�rito, e n�o como um relato fr�volo. "C�us! Como � dif�cil a gente se soltar _soltar as amarras e mergulhar no azul. E, ainda assim, uma vida criativa depende disto, e n�o se deseja outra coisa", anotou em 7 de novembro de 1920.
� na soltura no azul que percebemos, segundo os racioc�nios de Katherine, que a constru��o de uma pessoa come�a pela desconstru��o dos seus personagens. Numa carta de 1917, ela recomenda ao marido que "tire a m�scara", mas n�o "antes de estar certo de que h� outra por baixo, t�o terr�vel quanto a primeira, sem deixar no entanto de ser sempre uma m�scara." No di�rio, em fevereiro de 1920, ap�s a viv�ncia de um momento po�tico na contempla��o das ondas do mar _um "momento de suspens�o" em que "somos arremessados para fora da vida"_ ela toma consci�ncia de uma imensa caverna em que seus m�ltiplos egos "murmuravam, indiferentes e �ntimos," comparando-os a "velhos catadores de algas". Dois meses mais tarde, ao discutir as possibilidades de ser fiel a si mesma, volta ao assunto e se indaga ante a constela��o dos pap�is: "Verdadeira comigo? Com qual dos meus egos?"
A fragilidade a que a doen�a a exp�s, levando-a a frequentes viagens entre a Inglaterra e a Fran�a durante a Primeira Guerra, em busca de um melhor clima e de paz de esp�rito, parece ter dado a Katherine, em contrapartida, uma for�a de reflex�o incomum sobre o destino humano.
Ela se encanta com tudo que a rodeia. Tira, dos menores incidentes do dia, as li��es mais �teis. Anota minuciosamente alguns sonhos, decidida a se ver com distanciamento e coragem nos espelhos da mente. Quando pensa em seus atos, mostra grande rigor ao perseguir seus motivos, e o mesmo olhar de despedida que lan�a �s coisas em torno � posto com suprema aten��o em seu trabalho mais duro: assistir dia-a-dia, meditando e escrevendo alguma coisa a respeito, � lenta decomposi��o da personalidade que, em partes t�o imponder�veis, foi herdada e criada entre as circunst�ncias.
Era preciso sua voca��o de grandeza e sua intimidade com as quest�es fict�cias para lidar com as "centenas de egos" que ela � for�ada a hospedar nos seus limites: "Al�m das repress�es e complexos, e rea��es e vibra��es e reflex�es, h� momentos em que eu sinto n�o ser nada mais do que um funcionariozinho qualquer de um hotel sem dono, cuja tarefa se reduz a registrar a entrada dos h�spedes e entregar-lhes as chaves".
O desmonte da fic��o dos egos � o que permite a Katherine dar o "salto divino para dentro da linha divis�ria das coisas", express�o de uma carta � pintora Dorothy Brett, em 11 de outubro de 1917, antecedida de um exemplo concreto de como ela se transforma nas coisas, pela contempla��o sem barreiras, para depois as recriar pela escrita: "Quando escrevo sobre patos, juro que eu sou um pato".
� de raro quilate a sensibilidade com a qual ela observa a presen�a de outros seres, outros objetos _ vespas, borboletas, paisagens _, nos quais, livre dos seus entraves pessoais, podia entrar � vontade. A paix�o pela natureza vem-lhe da paix�o pela ilha em que nasceu e cultua, porque foi ela que a impregnou de beleza, dormindo � noite no mar para amanhecer enfeitada. E a indaga��o que lhe vem com grande espanto, em 13 de novembro de 1918, tendo em vista a facilidade com que transita entre as coisas, � por que as pessoas "n�o voam umas para as outras, n�o se beijam, choram, partilham tudo? Por que as pessoas se escondem, recuam e t�m suspeitas a respeito de tudo?" Segundo a meiga e firme Katherine, que entrava em borboletas e vespas e entrou sorrindo na morte, "� por falta de cora��o, uma esp�cie de peste que nunca as deixa florir".
Nesta edi��o cronol�gica de fragmentos do ''Di�rio e Cartas'', a tradutora e organizadora, Julieta Cupertino, intercalou discretas notas que d�o continuidade ao todo e transformam seu volume, pela boa escolha dos trechos, numa sint�tica e perfeita autobiografia da autora. Por ele assim passam tamb�m seus amigos, como D.H. Lawrence ou Virginia Woolf, expostos �s vezes a duras cr�ticas, e h� cenas da vida liter�ria inglesa que s�o lampejos de um mosaico sobre a f�rtil �poca em Londres.
Dados interessantes sem d�vida, mas que n�o se comparam � import�ncia do livro como um relato da alma _ou um bel�ssimo manual de auto-ajuda para a quebra dos egos. A cada p�gina, de fato, Katherine d� um conselho a si mesma que sempre parece v�lido para o conjunto da esp�cie. Seus recados, por�m, s�o muitas vezes cifrados. Um dos mais interessantes, j� � beira da morte, em 17 de outubro de 1922, � este: "Ser loucamente entusiasmado ou mortalmente s�rio _as duas coisas est�o erradas. Ambas passam. Deve-se ter sempre presente o senso de humor. Depende inteiramente de voc� o quanto v�, ou ouve, ou compreende. Mas tenho encontrado senso de humor em cada ocasi�o de minha vida.
Agora voc� talvez possa compreender o que significa ser 'indiferente'. � aprender a n�o se importar, e n�o revelar sua mente".
FOLHA DE S.PAULO
MAIS! / LIVROS
16/06/1995
Leonardo Fr�es � autor de ''Um Outro. Varella'' (Rocco) e ''Argumentos Invis�veis'' (Rocco), entre outros,
e traduziu George Eliot e D.H. Lawrence, entre outros.