PSICOLOGIA SOCIAL


BELEZA MULATA E BELEZA NEGRA

RESENHA SOBRE O ARTIGO DE SONIA MARIA GIACOMINI GIACOMINI, SONIA M. 1994 Beleza Mulata e Beleza Negra in Revista de Estudos Feministas N.E./94. Ano 2. Vol 2. 216-226p. Tendo com objetivo desta a apresenta��o de forma clara e cr�tica do artigo de Sonia GIACOMINI , ir� , nesta resenha, ser mostrado os argumentos e exemplos que sustentam a tese defendida no artigo. Tese esta que encontra sua correspond�ncia j� no t�tulo Beleza Mulata e Beleza Negra, onde d� se a entender que h� uma (grande) diferen�a entre essas formas de expressar a beleza da mulher negra brasileira. O artigo possui descri��es de dois lugares visitados onde ocorrem espet�culos cujo objetivo � expor os tipos de beleza que hoje � difundido no pa�s, principalmente nas grandes metr�poles brasileiras. Na primeira parte, � dada uma pequena introdu��o aos espet�culos que se convencionou a chamar de Show de Mulatas, realizados em casas noturnas e que s�o vistos e apreciados por um p�blico espec�fico e selecionado, muitas vezes estrangeiros (vale ressaltar que s�o estrangeiros brancos). GIACOMINI descreve com precis�o funcionamento desses shows, desde a recep��o, as atitudes dos clientes, �s apresenta��es e exalta��es da sensualidade e sedu��o da mulata brasileira e o �ritual� que � realizado no fim das apresenta��es, rememorando a �hist�ria m�tica da miscigena��o racial brasileira�. Mito esse que encontra sua maior express�o na hist�ria de Gilberto Freire, Casa-Grande e Senzala: a mulata como mediadora entre culturas e ra�as, vencedores e vencidos, senhores e escravos, dominadores e dominados. Ap�s essa descri��o, GIACOMINI trabalha com a id�ia de beleza contida e apresentada no show (e em outros, genericamente), decortinando a ideologia do homem branco e a ideologia da �democracia racial brasileira�, e imp�e uma dura cr�tica � vis�o que permeia essas ideologias, da mulata como a �mediadora, sedutora e sensual�, objeto de desejo do homem branco. Cr�tica que ser� retomada e mais trabalhada posteriormente. Na segunda parte GIACOMINI come�a a descrever um outro espet�culo, que � promovido por um dos movimentos negros do Rio de Janeiro, a Noite da Beleza Negra, que consiste num concurso de casais da comunidade negra, levados ao som de ritmos afro e reggae � em oposi��o ao samba ou qualquer outro ritmo que � manipulado e usado para fins de uma constru��o de uma �identidade nacional��dentro de uma clima t�o envolvente que a autora compara o espet�culo a uma festa ou uma comemora��o. Neste concurso h� os desfiles de casais, onde mostram v�rios estilos afro com um vestu�rio simples. No fim � eleito o Rei e a Rainha da Beleza Negra. Ap�s esta descri��o , GIACOMINI examina mais nitidamente as duas apresenta��es descritos por ela. Faz um paralelo entre a concep��o de beleza propagado no Show das Mulatas e na Noite da Beleza Negra. Come�a fazendo uma cr�tica cr�tica (!) na primeira concep��o, desmascarando a imagem do Brasil como o pa�s da miscigena��o e da democracia racial, t�o propagada pela ideologia racial do branco e usada ao extremo na execu��o das apresenta��es do Show das Mulatas, e expondo a origem e finalidade de tal concep��o. MULATA-INTEGRA��O-DEMOCRACIA. Democracia que encontrou na mulata o elo de media��o e integra��o de etnias e culturas t�o distintas quanto ambivalentes entre si. Integra��o que comp�e o mito da democracia racial brasileira e � rememorado e atualizado no ritual que se sucede no final das apresenta��es de tal show, assim como era na senzala da casa grande. Esta tal �democracia racial� e a exacerba��o dos atributos f�sicos e sexuais da mulata revela nitidamente, para GIACOMINI, uma esp�cie de �superposi��o de rela��o de g�nero com a rela��o de ra�a: a ra�a branca � o macho, a ra�a negra � a f�mea�. Nota- se tamb�m que o homem negro e a mulher branca n�o est�o presente nesse processo simb�lico. A mulher branca est� supostamente no lugar em que deve estar uma mulher honrada e possuidora e com quem o homem branco possui valores morais e familiares : em casa ( ou do lado do marido). O homem negro , por outro lado, n�o � considerado, logo � eliminado, pois n�o possui uma utilidade positiva para a ideologia dominante do branco: sua mulher ( i.�, a negra/mulata) est� como mediadora de ra�as e a servi�o da manuten��o e realiza��o do mito racial; a mulher branca � �honrada� e est� em casa ou do lado do homem branco, nem se cogitando uma aproxima��o. Ele s� serve para o branco na manuten��o e realiza��o do privil�gio concreto e simb�lico herdado da escravid�o, numa hierarquizada rela��o de poder . Em oposi��o a esta vis�o, a Noite da Beleza Negra, segundo GIACOMINI, � onde as mulheres exp�e a �riqueza da identidade cultural negra�, por meio das representa��es e apresenta��es das tradi��es culturais africanas. O palco �, antes de mais nada, o lugar onde se representa a identidade da comunidade negra. O homem negro, que antes fora eliminado e impossibilitado de participar da �trama racial� (grifo meu), agora v� seu lugar restabelecido, desfilando ao lado da mulher negra. Esta , por sua vez, passa de uma concep��o pejorativa � objeto de prazer sexual � para uma concep��o construtiva -- companheira possuidora do compromisso de reproduzir a cultura africana. Ao comparar as duas concep��es, GIACOMINI esclarece que �se no caso do Show das Mulatas a mulher negra simboliza a integra��o entre as ra�as, na Noite da Beleza Negra ela � signo de uma identidade a ser assumida, preservada e continuada�. Partindo dessa afirma��o e da leitura final, conclui-se que a id�ia central do artigo se encontra no confronto entre as duas concep��es a respeito da mulher negra, percebendo a import�ncia para a mulher negra o projeto da constru��o da identidade da cultura negra e o seu papel nessa constru��o, como companheira e parceira do negro e procriadora das tradi��es e cultura negras, em detrimento ao papel simb�lico fornecido , ou melhor, imposto, pela ideologia dominante de uma sociedade branca racista e machista. Quase no fim , ela escreve que � a negritude deixa de ser um estigma numa sociedade integradora onde domina o branco e o homem, para ser emblema a ser afirmado no interior de uma comunidade negra onde qualquer rela��o assim�trica parece ausente�, coroando o artigo Ao criticar e argumentarem rela��o �s concep��es dicot�micas de beleza feminina negra, GIACOMINI permeia seu artigo com as id�ias de integra��o racial de Gilberto Freire (Casa-Grande e Senzala), de observa��es de Peter Fry,Pierre Bourdieu, al�m de estudos b�sicos da composi��o do artigo, como Profiss�o Mulata , de sua pr�pria autoria. O que se deve ressaltar, por�m, � um posicionamento favor�vel da autora em rela��o � Noite da beleza Negra, em total detrimento das apresenta��es da Noite das Mulatas. N�o � percept�vel uma cr�tica mais contundente em rela��o � Noite da Beleza Negra, tomada como par�metro de compara��o, dela se exp�s s� pontos positivos e se portou como neutra. N�o � a simples a participa��o da mulher negra de um desfile como realizado pelas comunidades negras que a transformar� num agente ativo para constru��o de uma identidade social, visto que � necess�rio outras motiva��es. Por outro lado, n�o se pode pr�(-)conceituar uma mulata de show como desprovida de identidade e valores, mesmo que estes n�o sejam considerados pela ideologia dominante e submetidos a uma concep��o puramente vulgar. At� que ponto os homens negros n�o ter�o , das mulheres negras, uma mesma concep��o machista branca ( por ter sido criado e viver numa sociedade como tal) , num relacionamento com elas, dentro da vis�o do casal negro. Contudo, a impossibilidade de trabalhos puramente objetivo e a posteriori impele a tomar uma posi��o a priori , que constituir� e comprometer� a investiga��o e consequentemente o resultado de tal trabalho. Observa��es que por�m n�o tiram o brilho desta obra. * *

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