RESENHA SOBRE O TEXTO DE LUIZ FERNANDO ROLIM BONIN --->
BONIN, LUIZ F.R. 1998. Indivíduo, cultura e sociedade in Psicologia Social Contemporânea (org). Petrópolis: vozes. 58-71p.
A presente leitura de “Indivíduo, cultura e sociedade” de Bonin é de grande importância para uma boa compreensão sobre a constituição do indivíduo, a construção subjetiva do sujeito enquanto homem histórico-cultural, não esquecendo, porém, que ele é um ser biológico. O título do texto reflete muito bem a posição da psicologia social como gestora de uma integração, interação e relação com outros domínios da ciência moderna e contemporânea (tendo em vista a que o indivíduo tem sido estudado pela psicologia, a sociedade pela sociologia e a cultura pela antropologia social). Esta interação é muito bem desenhada por Bonin na construção de sua tese, usando tantos argumentos psicobiológicos, antropológicos quanto sociológicos.
De início, Bonin parte do pressuposto de que o homem se difere dos outros animais por ser um animal cultural e que o domínio do uso da fala marca o início do processo de interpretação e interação com o simbólico contido nas instituições culturais. Através da fala (Elias 1995 & Vygotsky 1984) a criança internaliza controles e planejamentos para seus comportamentos pré-programados ligados à sua estrutura biológica (os “instintos”), controles e planejamentos que passam de um plano interpessoal(das relações sociais) para um plano intrapessoal, onde tal processo desenvolverá um controle egóico (Lúria 1987) no indivíduo, que , finalmente o propiciará e o habilitará controlar suas atividades e de outrem. Assim, o jeito de andar, de se expressar, hábitos de higiene, emoções, o modo de fabricar e usar instrumentos, será adquirido nas relações socio-culturais, onde o indivíduo sofrerá o processo de “enculturação” (Herskovits 1948), assimilando uma quantidade substancial da cultura que o cerca e desenvolvendo características que o tornará “humano” –i.é, que o tornará um ser socializado, em oposição a um “homem selvagem”- (Klaneberg 1972). “Valores culturais [afetarão] a aquisição do conhecimento e habilidades , as preferências e julgamentos estéticos, morais e acadêmicos...”(Bonin , pág. 70). Logo chega-se à conclusão de que as relações interpessoais são crucias para conceituar o “eu”. Tudo isso vai permear e dar sustentação à principal argumentação desenvolvida ao longo do texto pelo autor: “O indivíduo não está isolado acima da sociedade nem tampouco a sociedade paira sobre os indivíduos”(op cit 59), isto porque a sociedade é composta de indivíduos, e “o indivíduo é um ser intencional e criativo, em constante transformação, e que coletivamente pode mudar o processo cultural que o constitui”(op cit 70). Em outras palavras, indivíduo e sociedade se interagem através de uma relação dialética, não dicotômica, entre si. A sociedade é uma rede de inter-relações individuais em constante mobilidade, relações idealizadas e realizadas não por indivíduos passivos, nem por “super-homens”(grifo meu, não havendo uma relação direta com o ‘super-homem’ de Nietsche), mas por indivíduos que possuem uma subjetividade construída
Num dado momento no texto, Bonin explana essa construção do ego com alguns exemplos que reforçam sua tese, sendo um dele sobre a construção de “eu” na cultura estadunidense e na cultura japonesa. Na cultura estadunidense o “eu” é constituído sobre a base cultural onde as pessoas se vêem independentes e autônomas, com o desejo de se sobressaírem às outras. E´ o que Bonin chama de “eu” independente. Este tipo de ego é menos sensível e menos atento aos outros do que o ego interdependente, predominante na cultura japonesa. Nesta cultura, a construção do self se dá sobre uma sólida base grupal. O “eu” não existe por si só, , existe na relação grupal, familiar, etc. Por isso a empatia pelo outro é fundamental para manter o equilíbrio do grupo. Logo se percebe que é a sociedade que irá fornecer os “materiais”(grifo meu) para a construção de uma subjetividade de seus indivíduos. Como só pode se dar daquilo que possui, uma sociedade irá construir um indivíduo que possuirá, em sua formação subjetiva, características e traços próprias dela.
Bonin vai permear seu texto com pontos de vista de autores como Elias(1995)- auto controle egóico -, Mead(1953)- conceito de identidade (me ou mim)-, Luria(1990) e Vygotsky (1990)- definição de cultura (criticada posteriormente) e a transição entre planos interpessoal e intrapessoal-, Geertz( 1978)- uma importante concepção de cultura -, e outros, além de seus próprios textos em outros livros.
Sendo assim, o texto é uma boa ferramenta para a o início da compreensão de uma psicologia cultural e social. Alguns pontos, porém, ficaram na superfície, como o poder da ação coletiva na transformação das instituições e costumes, e o valores sendo analisados também na dimensão de relações de poder (ex: raça, sentimento de nação, identidade, etc); pontos que não tiram , porém, o brilho desta obra.
***
Links to other sites on the Web
abrapso
ufmg
estudos dioliveirah sobre sociologia básica
voltar para página inicial
caso você descorde e/ou queira expressar sua opinião, escreva para:[email protected]