A MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
A origem do Samba e da Bossa
Nova
gggO Samba e a Bossa Nova atualmente
são considerados no mundo todo como gêneros musicais
genuinamente brasileiros. O Carnaval, uma das maiores
manifestações de cultura popular do Brasil, tem projeção em
vários países do exterior; e a "Garota de Ipanema",
de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, é considerada uma das
músicas mais regravadas em todo o mundo. Esse reconhecimento
internacional demonstra que a cultura brasileira, apesar de ser
ainda recente, possui uma identidade musical bastante sólida e
consistente. Mário de Andrade escreveu em seu "Ensaio Sobre
Música Brasileira": "A música popular brasileira é a
mais completa, mais totalmente nacional, mais forte criação da
nossa raça até agora."(in Vasconcelos, 1991:7)
gggDe onde surgiu o Samba? Qual a
sua origem? O que foi o movimento da Bossa Nova? Este texto (esta
palestra) apresentará de forma bastante resumida alguns aspectos
da formação do Samba e da Bossa Nova no Brasil, resgatando as
origens da própria música popular brasileira. Nos limitaremos
somente aos fatos e tendências que julgamos ser mais relevantes
no sentido de influenciar diretamente o Samba e a Bossa Nova,
como o Lundu, a Modinha e o Maxixe. Será enfocado também alguns
momentos históricos das transformações destas tendências
musicais no Brasil, assim como seus principais representantes e
obras e os principais fatores sócio-politicos de cada período.
I. A origem da música popular
brasileira
gggSegundo Ary Vasconcelos, em seu
livro "Raízes da Música popular Brasileira" : "O
relógio da música popular brasileira dispara, teoricamente,
numa Terça-feira, dia 21 de Abril de 1500. Mas se isso será
verdade para duas das três grandes contribuições iniciais
a do português e a do negro é preciso não
esquecer que o Brasil já possuia a sua própria música que era,
naturalmente, a dos seus aborígenes." (Vasconcelos, Ary.
Raízes da Música Popular Brasileira. 1991:14)
gggMas um outro ponto de vista é
apresentado por José Ramos Tinhorão em seu livro "Pequena
História da Música Popular". Segundo Tinhorão, "nos
primeiros duzentos anos da colonização portuguesa no Brasil, a
existência de música popular se tornava impossível desde logo,
porque não existia povo: os indígenas viviam em estado de
nomadismo; os negros eram considerados coisas; e os
brancos e mestiços constituíam uma minoria sem
expressão...". Esta afirmação está fundamentada em uma
distinção em que o autor coloca entre música folclórica e
música popular, ou seja: música folclórica: "de autor
desconhecido, transmitida oralmente de geração em
geração"; música popular: "composta por autores
conhecidos e divulgada por meios gráficos (partituras), ou
através de gravações (disco, fitas, filmes)". Isto
equivale dizer que a música popular, para Tinhorão,
"constitui uma criação contemporânea do aparecimento de
cidades com um certo grau de diversificação
social".(Tinhorão, José Ramos. Pequena História da
Música Popular.1986:7)
gggNeste sentido, a nossa música
popular brasileira começa a aparecer juntamente com os primeiros
centros urbanos, por volta de 1730 no Brasil colonial do século
XVIII, quando Salvador e Rio de Janeiro despontam como as cidades
mais progressistas da Colônia. Até isso então, os únicos
tipos de música ouvidos no Brasil seriam os cantos das danças
rituais dos indígenas, os "batuques" dos negros
africanos e as canções e danças dos europeus colonizadores, ou
seja, a música folclórica das três raças que constituíam o
País naquele período.
gggDe uma forma ou de outra,
deixaremos uma outra resposta à questão da origem da música
popular brasileira encontrada na introdução aos Cantos
Populares do Brasil, publicada na Revista Brazileira em 1879 por
Sílvio Romero(in Vasconcelos, 1991:13): "As tradições
populares não se demarcam pelo calendário das folhinhas; a
história não sabe do seu natalício, sabe apenas das épocas de
seu desenvolvimento".
gggHoje se afirma com unanimidade
que a música popular brasileira se formou, como síntese da
nossa expressão musical urbana, através do hibridismo e da
interinfluência de sons indígenas, negros e portugueses.
II. O Lundu
gggUm fato importante a ser
destacado ainda no século XVI é a chegada do negro vindo da
África à Colônia e, com ele, sua música. É com os africanos
que o Lundu chega ao nosso país. Trata-se de gênero musical e
dança de par solto, com sapateados, batucadas, remelexos dos
quadris e a sensual "umbigada". O lundu, enquanto
dança, teve seu esplendor no Brasil em fins do século XVIII e
começos do século XIX. No início da década de 1820, essa
dança se transforma e passa a ser chamada de lundu-canção,
nome atribuído pela fina aristocracia da época que, assim, se
apropria de mais um produto lúdico-cultural do escravo.
gggAo contrário da modinha, o lundu
subiu das camadas populares para a burguesia e a aristocracia,
que lhe deram um lugar nas suas festas mundanas e na sua música
cotidiana.
gggÉ através do lundu, como
registra Mário de Andrade em vários escritos, que o negro deu
à música brasileira a sua característica mais importante: a
sistematização da síncope.(característica rítmica de um som
articulado em tempo ou parte de tempo fraco que se prolonga sobre
um tempo ou parte de tempo forte, causando a sensação de
antecipação do apoio natural do pulso).
III. A Modinha
gggGênero de canção amorosa e
sentimental, fortemente marcado pela influência da ópera
italiana, sai dos salões imperiais, das festas dos nobres, para
os festejos de rua.
gggSegundo Mozart de Araújo,
"a palavra moda tomou , no Brasil, duas acepções
distintas: a genérica, indicando, como em Portugal, qualquer
tipo de canção, e a de moda caipira, ou moda de viola, cantada
a duas vozes em terças, ainda hoje em plena vitalidade em São
Paulo, Minas e Goiás".(in Kiefer, Bruno. A Modinha e o
Lundu, 1977:9)
gggNa Segunda metade do século
XVIII ainda era costume designar pelo nome genérico de modas as
cantigas em geral. Quando, porém, Caldas Barbosa aparece
cantando as suas, segundo Tinhorão, a insistência com que usava
as frases curtas dos versos de quatro ou sete sílabas (típicos
da poesia popular) levou muito explicavelmente as pessoas a
referirem-se a tais modas novas o diminutivo de
modinhas.(Tinhorão, 1986:15)
gggNo que se refere ao processo de
formação da cultura popular urbana, o primeiro compositor
reconhecido historicamente como tal é um mulato tocador de
viola: o carioca Domingos Caldas Barbosa, o estilizador e
divulgador da Modinha. Devemos a ele a sua popularização.
gggSendo um produto musical da
aristocracia, este gênero musical contém requintes de
erudição, uma vez que alguns de seus elementos musicais foram
retirados da ópera italiana.
gggIsto, no entanto, mudaria. A
partir de Caldas Barbosa, seu discurso adquire características
mais brasileiras, mais compatíveis com um certo sentimento
nativista emergente na sociedade brasileira do período colonial.
É assim que o poeta brasileiro, em 1775, escandalizava a rainha
de Portugal pela forma direta e maliciosa de dirigir seus versos
às mulheres, acompanhado de sua viola (substituindo o piano).
gggAlém de Caldas Barbosa, temos
também Francisca E. Neves Gonzaga, a nossa "Chiquinha
Gonzaga", reconhecida como a primeira compositora popular do
país. Devemos também a ela a popularização definitiva da
Modinha no período de 1870 até 1935.
gggVale destacar ainda um importante
acontecimento de 1922: o advento do rádio, marcando o início da
cultura de massa em nosso país. A partir de 1915 a Modinha sofre
influências das canções francesas e espanholas, e a canção
popular brasileira ganha novo impulso e novos rumos. Vozes de
estilo operístico, como as de Augusto Calheiros, Francisco
Alves, Vicente Celestino, Orlando Silva e Sílvio Caldas ganham
popularidade rapidamente. É dentro deste estilo que a Modinha
vai atravessar todo o período de euforia do rádio.
IV. O Maxixe
gggO aparecimento do Maxixe,
inicialmente como dança, por volta de 1870, marca o advento da
primeira grande contribuição das camadas populares do Rio de
Janeiro à música do Brasil. Afirma-se que o Maxixe teria
nascido do esforço de se adaptar os rítmos da moda, de origem
européia (polca, schottish, mazurca), à tendência de brancos,
negros e mestiços de complicar os passos com volteios e
requebros.
gggE qual a origem do termo
"maxixe"? Bruno Kiefer, no livro "Música e Dança
Popular", nos apresenta três hipóteses da origem do nome
da dança: A primeira hipótese é citada por Mário de Andrade
em "Música, Doce Música": "...Conta-se que essa
designação derivou de um indivíduo que numa sociedade
carnavalesca do Rio, chamada os Estudantes de Heidelberg, dançou
de maneira tão especial e convidativa que todos começaram a
imitá-lo. Esse indivíduo tinha o apelido de Maxixe; e como
todos principiassem a dançar como o "Maxixe", em breve
o nome do homem passou a designar a própria dança. Ora, quem
deu esta versão fui eu, que a ouvi do compositor Villa-Lobos que
por sua vez a teria ouvido de um velho, carnavalesco em seu tempo
de mocidade, ferqüentador dos Estudantes de Heidelberg e
testemunha do fato.
gggA Segunda hipótese é contada
por Tinhorão: "O próprio nome de maxixe que a dança
tomara pela década de 1870 era usada ao mesmo tempo para tudo
quanto fosse coisa julgada de última categoria. Talvez até
porque o maxixe, fruto comestível de uma planta rasteira, fosse
comum nas chácaras de quintal dos antigos mangues da Cidade
Nova, onde nasceu a dança, e também não tivesse lá grande
valor."
gggE a terceira hipótese é dada
por Jota Efegê: "Uma dessas suposições, valendo pelo
simbolismo que lhe serve de base, é a de que o fruto do
maxixeiro (planta) sendo formado por muitas centenas, talvez
milhares de sementes agrupadas, ou, dizendo melhor, apinhadas em
seu âmago, assemelha-se aos bailes de ínfima classe, os
criouléus. Tais bailes, realizados em pequenas salas, com muitos
pares comprimindo-se em dança estabanada, rebolante,
despreocupados da etiqueta e num agarramento antifamiliar,
sugeriram a alcunha, a designação".(Kiefer, Bruno. Música
e Dança Popular, 1990.Pg.48-50)
gggSe toda a coreografia
desenvolvida até hoje pelos passistas das escolas de samba tem
sua origem no Maxixe, não podemos nos esquecer que este em quase
tudo lembra o Lundu. A evolução dos movimentos do sambista
retoma os gingados, o remelexo, a sensualidade, a umbigada, o
erotismo, os requebros, enfim, toda a ousadia da coreografia do
Lundu primitivo. Esses elementos já são suficientes para
estabelecer as semelhanças coreográficas que se originam no
Lundu, passam pelo Maxixe e mais tarde transformam-se em Samba.
V. O Samba
gggTrata-se de um sincretismo
musical onde, originalmente, estão presentes a Polca européia,
que lhe forneceu os movimentos iniciais, a Habanera,
influenciando o rítmo, o Lundu e o batuque, com o sincopado e a
coreografia, e o brasileiro "jeitinho de cantar e de
tocar".
gggO Samba não surge como gênero
musical, mas sim como dança popular. Vem da expressão
"semba", do dialeto africano quimbundo. Quer dizer
"umbigada" e serve para descrever uma dança de roda em
que os solistas chegam a tocar-se pela barriga. No final do
século XIX, emprega-se a palavra samba para designar qualquer
tipo de baile ou festa popular. Somente a partir de 1917, data da
1ª música registrada e gravada como samba ("pelo
telefone"), é que o samba se popularizou como gênero
musical e canção, mas que segundo Kiefer, não deixa de ser
ainda um maxixe por causa do acompanhamento rítmico típico do
mesmo.
gggA composição é de autoria
coletiva: a letra é de Mauro de Almeida e Didi da Gracinha, e a
música teve a participação de Sinhô, João da Baiana,
Germano, Tia Ciata, Hilário e Donga.
gggJosé Barbosa da Silva, o Sinhô
(1888-1930), foi o primeiro autor a projetar o Samba na sociedade
e aumentar-lhe ainda mais o prestígio; torná-lo mesmo a grande
expressão lúdico-musical da cidade do Rio de Janeiro. Por volta
de 1910, Sinhô já era reconhecido como pianista profissional,
recebendo o apelido de Rei do Samba.
gggO Samba urbano carioca se divide
em duas modalidades bem distintas: o samba de morro , e o samba
da cidade.
gggO Samba de morro é o produzido
pelos compositores dos morros e das favelas do Rio de Janeiro.
Muito próximo ao batuque (rítmo afro-brasileiro), ganha força
e popularidade a partir de 1922, justamente quando surgem as
escolas de samba. Trata-se de um rítmo extremamente rico em
coreografia, constantemente apresentado nas tradicionais rodas de
samba ou nos desfiles carnavalescos dos blocos e das escolas de
samba.
gggEssa popularidade, no entanto,
está estreitamente ligada ao prestígio das escolas de samba e
ao próprio Carnaval, ainda hoje, indiscutivelmente, a maior
festa popular brasileira.
gggEnquanto isso, o samba da cidade
continuava o seu percurso, mas agora na zona norte do Rio com um
jovem estudante de medicina nascido na famosa Vila Isabel: Noel
Rosa (1910-1937). Compositor de muito talento. Seu prestígio de
sambista e de bom letrista está ligado à manutenção do samba
em sua característica de crônica poética da cidade e no
conteúdo parodístico que sempre teve.
gggEm 1930 Noel faz grande sucesso
com a música "Com que roupa?" a mais
requisitada no Carnaval de 1931, batendo um recorde de tiragens
de discos para a época; foram prensados 15.000 discos. Dono de
vastíssima obra, Noel, em 1933, mostra em "Feitio de
Oração", feita em parceria com Vadico, a nova concepção
do samba; é bastente oportuno observar a intenção de
neutralizar o conflito e a competição entre os sambistas do
morro e da cidade, nos seguintes versos: "..O samba na
realidade/Não vem do morro nem lá da cidade/E quem suportar uma
paixão/Sentirá que o samba então/Nasce no coração".
gggA essa altura, o samba já não
era mais só para iniciados: tornara-se quase um fenômeno de
massa, tão rápida foi sua ascensão e prestígio popular. O
rádio alcançou maior abrangência, em grande parte em função
do interesse político do Estado, que percebe sua utilização
como veículo capaz de divulgar, em todo o território, o
sentimento de nacionalismo predominante no governo de Getúlio
Vargas (1930-1945).
gggA ação do governo continuava a
interferir na produção artística brasileira e, em particular,
na música. Em 1937, Vargas fechou o congresso nacional e
inaugurou oficialmente o Estado Novo. Nesse mesmo ano desfilava o
bloco Os Democratas, com o samba-enredo - (estilo criado no Rio
de Janeiro a partir dos anos 30, com o início dos desfiles de
escolas de samba, e descreve em versos a história escolhida como
tema do desfile carnavalesco).
gggA produção musical brasileira
entrava em rítmo de "Brasil Grande". E boa parte dos
compositores não percebia que seu trabalho era quase sempre
propaganda política exaltando os feitos do Estado Novo.
Estávamos vivendo a fase do samba-exaltação, cujo maior
representante foi, sem dúvida, Ary Barroso (1903-1964). Da obra
desse compositor deve-se destacar a Aquarela do Brasil, gravado
originalmente em 1939 por Francisco Alves.
gggO Samba-canção - De rítmo mais
lento, suas letras são românticas e sentimentais. Embora tenha
surgido efetivamente na década de 40, foi só em 1950 que ele
ressurgiu com toda força. É com Adelino Moreira, Nelson
Gonçalves, Lupicínio Rodrigues , Cauby Peixoto, entre outros,
que o samba-canção atinge sua época de glória. Músicas como
A volta do boêmio, Fica comigo esta noite e Deusa do asfalto
fazem de Adelino Moreira um dos compositores mais bem sucedidos
neste gênero musical. Enquanto isso, Nelson Gonçalves e Cauby
Peixoto têm lugar assegurado entre os "monstros
sagrados" da música popular brasileira.
VI. A Bossa Nova
gggO termo "Bossa Nova"
significa uma nova maneira de tocar e de cantar. Cansados do
estílo operístico que dominava a música brasileira até
então, os jovens compositores, instrumentistas e cantores
intelectualizados da zona sul do Rio de Janeiro buscavam algo
realmente novo, que traduzisse seu estilo de vida e mais
combinasse com o seu apurado gosto musical. Amantes do Jazz
americano e da música erudita, tiveram participação efetiva no
surgimento do gênero, que conseguiu unir a alegria do rítmo
brasileiro às sofisticadas harmonias do jazz americano.
gggMuitos autores tomam como o marco
inicial do movimento da Bossa Nova o ano de 1958, data em que
surge a expressão bossa nova, por acaso, num aviso escrito em um
quadro-negro: "Hoje, João Gilberto, Silvinha Teles e um
grupo bossa-nova apresentando sambas modernos". A expressão
foi tão feliz que os profissionais daquele show ficaram
conhecidos como os "artistas da bossa nova". Faziam
parte do grupo Bossa Nova, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Chico
Feitosa, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão e outros. A partir dali, o
termo começou a ser usado pelo próprio grupo para definir a
música que faziam.
gggNeste mesmo ano, surgiria o
primeiro disco bossa-nova com a gravação da primeira bossa
nova: "Chega de Saudade", nome da música e título do
LP. Gravado em julho de 1958 por João Gilberto, músico baiano
nascido em Juazeiro em 1931, o sucesso foi imediato. A
importância de João para a sistematização da bossa nova é
quase unânime. Influenciado pelo compositor Johnny Alf e por
novas tendências do jazz, João Gilberto inaugura uma nova
batida revolucionária para o violão, com seu toque sutil e
sincopado, utilizando estruturas harmônicas complexas, com
acordes dissonantes. Como cantor, apropria-se do tom
"intimista" e "apaziguante" de Nat King Cole
e Chet Baker.
gggSurge neste mesmo LP talvez a
música mais expressiva da bossa nova: com melodia do maestro
Antônio Carlos Jobim (1927-1994), e letra de Newton Mendonça, o
samba "Desafinado". Além da inovação rítmica, agora
intencional e mais elaborada, traz texto explicativo do
"comportamento anti-musical" dos bossa-novistas.
gggAs inovações rítmicas de Tom
Jobim, a sutileza do violão de João Gilberto, a formação
teórica e o talento de Roberto Menescal, a poesia de Newton
Mendonça e de Vinícius de Moraes , e o novo modo de
"cantar falando", informal, muito diferente do estilo
grandiloqüente do samba-canção, haviam criado uma nova
estética musical. O refinamento musical, principalmente na
harmonia e na instrumentação, diferenciava a bossa nova de tudo
o que já havia sido feito em música no Brasil.
gggA narrativa bossa-novista pode
ser dividida em dois tipos: "cor local", referindo-se
à fase inicial, onde o discurso da bossa nova ainda não se
havia envolvido com as questões político-ideológicas do nosso
país. Algumas músicas como Garota de Ipanema , O barquinho,
Lobo bobo, Corcovado, refletem em seu discurso o clima coloquial,
descontraído e cheio de humor que caracteriza a "cor
local".
gggA outra fase, chamada
"participante", aborda as questões relativas ao
subdesenvolvimento brasileiro. Destacam-se, aqui, a exploração
no trabalho, a reforma agrária, o latifúndio, o desemprego, o
subemprego, as condições de miséria do morro, do Nordeste e de
outras regiões do País. Usando uma linguagem sociologizante, a
bossa nova "participante" ingressa no seu período de
canções de protesto. Edu Lobo, Carlos Lyra, Vianinha, Guarnieri
e Geraldo Vandré foram os destaques da bossa nova engajada.
Músicas como Borondá, Chegança, Upa neguinho, de Edu Lobo,
fizeram parte da segunda fase da bossa nova, e que representaram
o que se convencionou chamar de "música de protesto".
gggNesse período, o Brasil vivia a
euforia do desenvolvimentismo econômico do governo Kubitschek.
Expandiam-se os veículos de comunicação de massa, no meio
urbano-industrial, entre os quais a televisão era a grande
sensação.
gggEm setembro de 1962, a Bossa Nova
conquistou definitivamente seu lugar no mundo da música, no
histórico espetáculo apresentado no tradicional Carnegie Hall
de Nova York. Ninguém imaginaria que aquele concerto pudesse
superar o sucesso do samba de Carmen Miranda, que chegara às
telas de Hollywood nos anos 40. Cerca de três mil pesoas lotaram
o Carnegie Hall.
gggSucesso absoluto, a bossa nova
passa a ser gravada por músicos de jazz e até por nomes como
Frank Sinatra. A partir de então, transforma-se no estilo
musical brasileiro mais influente no cenário internacional.
E Hoje?
gggO samba e a Bossa Nova
influenciaram toda uma nova geração de músicos, compositores e
intérpretes brasileiros: Por um lado, surge o "Pagode"
, nascido em São Paulo, mas muito comum no Rio de Janeiro, onde
se destaca o compositor Zeca Pagodinho. Com letras românticas, o
estilo usa além dos instrumentos de percussão, teclados,
guitarra e contrabaixo elétrico. Entre os grupos que se dedicam
a esse gênero, destacam-se Fundo de Quintal, Negritude Júnior,
Só pra Contrariar, Só preto sem Preconceito e Raça Negra.
Atualmente estes conjuntos de Pagode batem recordes na venda de
discos, como por exemplo o grupo Só pra Contrariar, que chegou a
vender em um de seus LPs mais de 2.000.000 de cópias.
gggPor outro lado, surge o movimento
do Tropicalismo, destacando-se Caetano Veloso e Gilberto Gil, e
também compositores e intérpretes que constituem a moderna MPB,
como Chico Buarque, João Bosco, Ivan Lins, Djavan, Maria
Bethânia, Gal Costa, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, e muitos
outros.