O Jazz
aaaO jazz foi criado pelos negros no início do século,
no delta do Mississipi e em New Orleans. A música de jazz tem
três características principais:
* O swing. Balanço. Maneira de tocar.
* O improviso, ou individuação. Solos improvisados que se
seguem ao tema.
* A comunicação, ou função de ritual, herdada das reuniões
de igreja, onde a participação da platéia é fundamental.
aaaO jazz surge primeiro em jam
sessions, onde músicos e platéias se integram. Músicos que vem
para solar de improviso seus instrumentos e uma platéia que
participa batendo os pés e as mãos. Os músicos de jazz
inclusive encorajam a participação da platéia.
Origem
aaaA música do jazz tem suas
origens nos cantos dos escravos, usados em cerimônias tribais,
religiosas, antes da caça, no nascimento de crianças, enfim,
tudo era festejado com música cantada e com um instrumento
fundamental: o tambor.
aaaDurante a escravatura e o mercado
de escravos, os negros eram inclusive encorajados a cantar. Os
mercadores e donos de escravos achavam que a música e a dança
deixavam os negros em melhor forma. Alguns fazendeiros, no
entanto, proibiam o uso de tambores, porque achavam que eles
podiam ser usados como meio de mandar mensagens numa revolta
generalizada.
aaaDo encontro do ritmo e canções
africanas, da África Ocidental, e a música dos americanos de
origem européia, como as marchas, surgiram os spirituals, o
blues e o ragtime. O ragtime está na origem do jazz. O ritmo era
diferente, parecia-se mais com o ritmo das marchas. As primeiras
bandas de jazz, como as de King Oliver e Buddy Bolden, tocavam
ragtime. O primeiro, ou um dos primeiros a mudar a batida para
4/4 em vez do 2/4, foi Jelly Roll Morton.
aaaDo blues, o jazz pegou a chamada
blue note, que é aquela nota semitonada, que dá a
característica melancólica do blues. Antes de ser chamado de
jazz, com dois "z" ou jass, com dois "s",
como era no início, a maneira diferente de tocar e dividir o
ragtime, era simplesmente chamada de hot, quente.
aaaTocar hot, ou tocar
quente, era tocar jazz, pela sua característica de comunicação
com a platéia, que era fundamental: o jazz desde cedo, era visto
como espetáculo. Seguia assim a tradição dos ministreis do
ragtime, artistas negros, que se apresentavam em teatros e feiras
e que, por incrível que pareça, apesar de negros, pintavam o
rosto de preto.
aaaA música de jazz propriamente
dita, surgiu mais precisamente em New Orleans, na chamada
zona. Era nos bordéis, que tinham música ao vivo na
época, não me perguntem pra quê, que os músicos desenvolveram
a maneira hot de tocar. No caso do blues, por
exemplo, vários deles têm como tema histórias acontecidas
entre as prostitutas e seus cafetões. O blues St. James
Infirmary conta a história de um cafetão que vai ao
hospital e encontra a sua mina morta. Ele, então,
faz uma série de elogios a capacidade profissional da sua
mulher.
aaaNesse bordéis é que tocavam
gênios da música negra como Jelly Roll Morton, Sidney Bechet e
Louis Armstrong. Armstrong aprendeu a tocar para entrar na banda
de uma escola correcional onde ele foi parar por ter dado um tiro
na rua. Como a vida do pessoal da banda era mais fácil, ele
tratou de entrar logo para ela.
aaaLá aprendeu a tocar com um
defeito de postura que depois lhe valeu um calo na boca. Às
vezes, ele mesmo aparava este calo com uma gilete. Imaginem o
perigo! O calo era tratado com uma pomada feita especialmente
para ele por um médico particular. Armstrong se formou depois
tocando nos bordéis da zona de New Orleans. Tinha um certo
fascínio pelas prostitutas: chegou a ser casado com uma.
aaaQuem teve grande influência na
parte de harmonia no jazz em sua fase de formação foram os
músicos crioulos. Que não eram os nossos crioulos. Creole, era
como chamavam os mestiços dos negros com os colonizadores
franceses.
aaaAs primeiras formações
tradicionais de banda de jazz eram compostas de corneta,
clarineta, trombone, banjo ou guitarra, contrabaixo, bateria e
piano. Sendo que muitas bandas não tinham nem piano nem
contrabaixo. O baixo era marcado pelo bumbo do baterista. O
cornetista era sempre o principal solista do conjunto.
aaaNo começo a banda evoluía em
torno dos solos do cornetista. Em 1910, o jazz já era ouvido com
interesse e tocado por músicos brancos e, a partir de 1920,
passou a ter uma grande penetração entre as platéias brancas.
Aliás, foi a partir de 1920 que o jazz passou a ser uma música
mais "respeitável".
aaaDepois da Primeira Guerra
Mundial, os brancos americanos descobriram um novo estilo de vida
e, nessa época, começa a se firmar a indústria do show
business no cinema, no teatro, nos shows e na música. Há
também uma grande emigração negra para as grandes cidades como
Chicago e Nova York: público negro, formado por gente que ia
para as grandes cidades em busca de melhores empregos e músicos
negros que iam em busca do dinheiro daqueles que iam para as
grandes cidades em busca de melhores empregos.
aaaA partir de 1920, o jazz também
viaja pelo mundo. Orquestras vão para a Europa e excursionam
pela América do Sul. É quando desembarca no Brasil o
saxofonista Booker Pittman, pai da Eliana Pittman, que acaba
ficando no Paraná. Também não me perguntem por quê.
aaaDa mesma forma, muitos bluzeiros
saem do delta do Mississipi para Chicago nesta mesma época. O
jazz é visto como o centro destas mudanças na sociedade
americana, desta liberalização, tanto que os anos 20, ou
roaring twenties, ficam sendo conhecidos como a era do
jazz.
aaaOutro fato que contribuiu muito,
por tabela, para o desenvolvimento do jazz, foi a lei seca de
1920, lei que proibia a venda e o consumo das bebidas
alcoólicas. A grande maioria dos americanos era contra a lei
seca simplesmente porque queriam beber, mas os intelectuais e
artistas viam a lei como um resíduo terrível da Era Vitoriana,
inteiramente contra os ideais liberais dos novos tempos.
aaaEsta nova era
implicava também em mudanças culturais e sociais por parte da
vanguarda intelectual, e durante esse período surgiu um enorme
interesse pelos negros e especialmente pelos espetáculos negros.
Convém lembrar que, na época, a música de jazz ainda não era
considerada pela maioria como uma forma de arte. Os speakeasies,
cabarés onde se vendiam as bebidas ilegais, eram tidos como
românticos e a música de jazz a ideal para esses cabarés.
aaaNa época, só os artistas e
intelectuais é que sacaram a imensa contribuição artística e
cultural da nova música dos negros. Outro fenômeno muito forte
para o desenvolvimento do jazz nessa época foi a dança, que
até o século passado era uma complicação: na maior parte
quadrilhas e danças de conjunto. Agora não. A dança era
realizada por duplas, por casais. Como a dança moderna incluía
o contato quase sexual dos corpos dos pares, é claro que a moda
pegou. Houve uma onda de enormes salas de dança e de cabarés.
aaaComo o jazz dava vontade de
dançar, era uma música que sacudia com as pessoas, o mercado
para bandas de jazz era grande. Além de tudo, para os jovens do
pós-guerra, o jazz era um símbolo de rebelião contra a velha
moralidade. Este é outro dado fundamental: para a maioria dos
jazzistas, o verdadeiro jazz tem que dar vontade de dançar.
aaaA popularização do jazz nessa
época também se deve ao desenvolvimento da indústria de
discos, que a partir dos anos 20 eram produtos obrigatórios nos
lares americanos. Os discos permitiam que as pessoas dançassem
sem sair de casa.
aaaJá se viu, então, que foi a
partir de 1920 que o jazz viajou para as grandes cidades
americanas. Primeiro, Chicago, onde a política e a
administração eram dominadas pelas gangues que operavam na
venda ilegal de bebidas. A banda de King Oliver trouxe Louis
Armstrong de New Orleans, que chegou a tocar em vários cabarés
ou speakeasies de Al Capone.
aaaComo Louis Armstrong se destacava
muito na banda de King Oliver, também trompetista, acabou tendo
que ir para Nova York e, graças aos seus fantásticos dons de
showman, tocando e cantando, acabou contribuindo de uma forma
importantíssima e definitiva para o desenvolvimento do jazz.
Aliás, dois nomes se destacam nesta época como vanguardeiros e
responsáveis pela popularização do jazz. Os dois são
trompetistas: Louis Armstrong e Bix Beiderbecke.
aaaBix Beiderbecke, o primeiro
grande trompetista branco de jazz e Louis Armstrong, integrando a
banda de Fletcher Henderson em Nova York. Fletcher Henderson não
era um músico extraordinário, mas teve o grande mérito de se
cercar dos melhores músicos e arranjadores de jazz. Mais tarde,
Bix Beiderbecke participou da banda de Paul Whiteman, que era
muito mais uma orquestra de dança do que de jazz. Como na época
não se sabia muito bem o que era jazz, Paul Whiteman acabou
conhecido como o rei do jazz, título que foi dado a
ele por ele mesmo.
aaaA importância do Paul Whiteman
é que ele e a sua banda foram os primeiros a venderem 3.500.000
discos, com a música "Three O'clock In The Morning."
Para se ter uma idéia do que era vender 3.500.000 cópias
naquela época, basta dizer que no país inteiro só existiam
3.500.000 vitrolas. Quer dizer, foi vendido um disco para cada
vitrola existente no país.
aaaA partir desta época, já
beirando os anos 30, e por causa das orquestras de Fletcher
Henderson e de Paul Whiteman é que começa a surgir o jazz
sinfônico, precursor da era das grandes bandas. Grandes
orquestras de jazz começam a surgir nesse momento, como as de
Duke Elligton e de Ben Pollack. Em Chicago, o blues urbano
começava a se desenvolver com os grandes bluzeiros do delta do
Mississipi. O jazz e o blues sempre caminhando juntos.
aaaAliás, para muitos, jazz e blues
são a mesma coisa. Não são. São irmãos. Digamos que todo
jazzeiro toca blues mas nem todo bluzeiro toca jazz. Ou
vice-versa. Billie Holliday, uma das maiores cantora de todos os
tempos dizia que era muito mais uma cantora de jazz do que uma
cantora de blues. O blues, que nunca sai da moda, mesmo quando
transformado em rhythm and blues, guarda um lado mitológico que
traz do delta do Mississipi. Ainda hoje, quando um guitarrista ou
gaitista é excelente, dizem que ele vendeu a alma ao diabo.
Falavam isso nos anos 30, do guitarrista, compositor e cantor
Robert Johnson, que morreu envenenado por um marido ciumento aos
27 anos de idade.
aaaO blues também não tem
fronteiras. No Brasil temos grupos de blues como o Blues
Etílicos e solistas e compositores como o bluzeiro André
Cristovam, bluzeiro para ninguém do Mississipi botar defeito.
aaaA partir de 1935, começam a
surgir as grandes bandas da era do swing. A primeira e mais
importante orquestra foi a de Benny Goodman. Inclusive por ser a
primeira banda composta por músicos brancos e negros. Era a
primeira orquestra integrada, o que na época era uma atitude
muito corajosa e inovadora. Até então, as orquestras eram só
de negros ou só de brancos.
aaaOutras orquestras importantes da
época foram as de Count Basie, Tommy Dorsey, Duke Ellington e
Glenn Miller. É preciso dizer que a orquestra de Glenn Miller e
a de Tommy Dorsey, uma das mais populares da época, não era
tipicamente de jazz. Eram orquestras de baile, que tocavam
principalmente todo o repertório popular da época mas com uma
maneira jazística de tocar. Por isso mesmo, várias
composições dessas bandas acabaram se tornando hits populares
de jazz.
aaaUma data muito importante e
definitiva deste período: 16 de janeiro de 1938. Nesse dia houve
o primeiro grande concerto de jazz no teatro Carnnegie Hall em
Nova York. Benny Goodman e músicos das orquestras de Duke
Ellington e de Count Basie. Nesses anos áureos do jazz, os
chefes de orquestra tinham a mesma popularidade dos astros de
cinema e chegaram a participar de filmes importantes da época.
aaaA partir dos anos 30, o jazz já
tinha uma platéia branca enorme. Acontecia inclusive um
fenômeno terrível. Os negros tocavam e trabalhavam em lugares
como o Cotton Club, para platéias brancas, no Harlem, mas os
negros eram proibidos de freqüentar o lugar como público. Uma
vez, Louis Armstrong, já famoso, teve que ficar escondido na
coxia do Cotton Club para assistir a banda do Duke Ellington.
aaaNo Cotton Club, surgiu também um
grande showman do jazz. Cab Calloway. Cantor, bailarino e chefe
de orquestra. Dava um show espetacular fazendo a platéia
participar do espetáculo. O jazz influenciava também os grandes
compositores americanos como Gershwin, que chegou a escrever uma
ópera negra: "Porgy and Bess", de grande sucesso.
aaaCab Calloway participou de uma
das montagens vivendo o papel de "Sporting Life," um
cafetão de Nova York que vai ao sul em busca de mulheres. Dos
vários temas imortais desta ópera, vale lembrar
"Summertime" e It Ain't Necessarily So. O
jazz, cada vez mais, se transformava em espetáculo e aí se
percebe também uma outra faceta importante:
O Humor No Jazz
aaaAs apresentações de Louis
Armstrong tinham um lado forte de humor. Assim como as
apresentações de Lionel Hampton e Cab Calloway, mas o grande
artista e criador no gênero foi Slim Gaillard. Formou com Slam
Stewart a dupla Slim and Slam, e depois com Bam
Brown, Slim and Bam.
aaaSlim Gaillard era cantor,
guitarrista, pianista, percussionista e compositor. Slim inventou
uma maneira especial de falar, o vout. Uma língua louca.
Participou do primeiro filme de humor nonsense americano:
Hellzapoppin. Era um artista completo e irreverente.
Ele transformava tudo em jazz: menu de restaurante árabe,
cacarejar de galinhas, latidos etc. Slim Gaillard e Slam Stewart
participaram também do nascimento de outro período do jazz nos
anos 40:
O Be Bop
aaaO be bop, ou bop, era um estilo
mais rápido de tocar, com improvisos em escalas mais altas dos
instrumentos e tem, entre os seus criadores, dois dos maiores
músicos de jazz de todos os tempos: Charlie Parker, também
conhecido como "The Bird" e Dizzy Gillespie. O be bop
se desenvolveu depois da Segunda Guerra Mundial e teve o seu
apogeu nos anos 50.
aaaO bop marca a volta dos pequenos
grupos de jazz, que tocavam nas boates de jazz da rua 52, entre a
5ª e 6ª avenida em Nova York. Uma delas passou a se chamar
Birdland, em homenagem a Charlie Parker. Nesta época, se
notabilizaram músicos como Lester Yong, saxofonista; Roy
Eldridge, trompetista; Coleman Hawkins, saxofonista; Art Tatum,
pianista; e a cantora Billie Holliday.
aaaA influência desses músicos na
sociedade americana e no mundo inteiro foi enorme. Principalmente
entre os jovens, que até queriam se vestir como eles. Nos anos
50, surge também um outro movimento:
O Cool Jazz
aaaO cool é uma música de jazz com
harmonias mais avançadas, com influências de clássicos como
Stravinsky e Debussy. O cool jazz começa a se desenvolver mais
entre os intérpretes brancos, com orquestras como a de Stan
Kenton e de Woody Herman.
aaaNa Califórnia, surge também um
ramo do cool jazz chamado de west coast jazz. São grupos
pequenos como o de Gerry Mulligan com Chet Baker. Também um
sofisticadíssimo conjunto negro - o primeiro a tocar jazz de
casaca - o super elaborado Modern Jazz Quartet, com o pianista
John Lewis e o vibrafonista Milt Jackson. Lewis trazendo para o
jazz influências da música renascentista e barroca,
composições influenciadas por Johann Sebastian Bach.
aaaLogo depois, Dave Brubeck, com o
sax alto Paul Desmond. Tocado nos campus das universidades, era
considerado um jazz de elite, informado. Nesta época surge
também Miles Davis, outro dos grandes trompetistas de jazz.
aaaFalando em trompetistas há que
se dar um destaque especial para Chet Baker, um dos mais
extraordinários trompetistas de todos os tempos, também cantor
de jazz. De certa forma, pode-se dizer que Chet Baker é um
inspirador da bossa nova. Depois de alcançar imenso sucesso
comercial, Chet Baker acabou arruinado pelas drogas.
aaaDurante todo esse período, fazia
muito sucesso uma forma de jazz conhecida como mainstream, com
intérpretes como o trompetista e cantor Roy Eldrigde,
responsável pela ponte entre o swing e o bop. O mainstream, jazz
super suingado que se toca até hoje, tem
características modernas sem perder o balanço da sua origem.
Roy Eldridge era outro showman completo. Tinha uma personalidade
impressionante e Gillespie costumava dizer que só criou um
estilo próprio quando viu que não conseguia imitar Roy
Eldridge.
aaaO estilo mainstream, no fundo uma
mistura de estilos, é a forma democrática que permitiu que
músicos de várias correntes toquem na mesma jam session. É o
gosto do improviso que nos deixa, amantes do jazz e do blues,
sempre ligados nessa que é a verdadeira música clássica deste
século.
aaaNão há, em todo mundo,
compositores e intérpretes dos nossos dias que não tenham sido
influenciados pelo jazz, essa grande forma de arte criada pelos
negros em New Orleans, logo ali, na Bourbon Street, depois da
esquina.