Breve Memória da Ilha dos Esquecidos e dos Usos e Costumes de Sua Gente

     

Tradução do Relatório

          

De como são os que vivem nesta formosa ilha e

de como sabem pouco de sua própria história, 

não por falta de crônicas do Reino, mas pela 

curta memória que todos têm por aqui.

    

   

Como já tentei explicar-vos, nos relatos anteriores, há, nesta ilha, um Grande Rei e vários outros Reis, todos menores que aquele, mas, entre si mesmos, também uns menores que outros, a depender ora da extensão dos territórios que regem, ora da estima que deles tem o Rei Maior, ora da riqueza do reino de cada um.

    
Item     Aqui, mais que em qualquer outra parte, é verdadeiro o ditado “Rei morto, Rei posto”, de tal maneira que de cada rei morto ou posto o povo só lembra um feito, de sorte a se dizer de um rei ter iniciado uma obra, de seu sucessor, tê-la paralisado, de quem sucedeu a este ter mandado começar nova obra, que, depois, terá sido mandada suspender por outro, e, assim, sucessivamente, ficando todos muito felizes, cada um a seu tempo, pois os que não têm interesse em findamento de obras sucedem aos interessados nos seus inícios, e por outros, como aqueles, serão sucedidos depois, cada qual ficando com um quinhão de fama. E isto é coisa tão estabelecida que, às vezes, já nem é necessário começarem-se as obras, pela certeza de que, depois, serão abandonadas, e, em assim se procedendo, evitar-se-ão os trabalhos dos mestres de construção e os dos de destruição, embora o cofre da Coroa pague a uns e a outros, como teria sido justo pagar pelo justo trabalho, como se tal houvesse sido executado.
    
Item     Não se sabe certo a origem do Reino, mas há três acontecimentos por todos conhecidos, embora suas datas não sejam muito precisas. O primeiro dos fatos sabidos é a chegada dos cristãos, gente das partes da Europa, que diziam ter aportado aqui por necessidade de se evitarem calmarias do mar, porém, aqui chegados, procederam como se tivessem vindo a propósito, trazendo paramentos para a santa celebração de missa, espelhinhos para distribuição com os do local e escrivão para tudo relatar; sabe-se, ainda, que aquela gente procedeu à fundação de coroa própria no trono local, com muito gosto dos da terra, aliás, embora nem o usuário do manto real fosse natural destas partes e nem por aqui tenha permanecido no ordenamento das coisas do reino, partindo-se, logo depois, para a península européia que faz oitão com as terras da África (seu filho parece ter sido bom Rei, pois, embora posto fora do trono, vive na lembrança de todos, com suspiros e ais de muita saudade!); finalmente, o mais importante acontecimento foi a consolidação do Reino que dura até hoje. É sobremaneira desta última idade que passo a relatar-vos mais pormenorizadamente os fatos, por serem muito interessantes os acontecidos aqui.
     
Item     O Reino, conforme o conhecemos atualmente, teve seus limites e forma de governo inaugurados há muitos anos atrás, há tantos anos que parece o tempo dever ser medido em séculos, exceto se alguém, muito esperto, correr a buscar as Crônicas do Reino para tirar a dúvida, o qual, então, passará a ser tido por pessoa de vastos conhecimentos e de grandes cabedais de cultura.
Item     Perdoe-me o Bom Deus se estiver eu sendo injusto com tão cativante gente, mas algum físico que, além de conhecer rudimentos de anatomia, soubesse desvendar coisas da mente teria, por cá, um vasto campo para exercer sua arte; e, se descobrisse ele alguma poção para curar amnésia, haveria de ser riquíssimo, porque são todos os daqui muito faltos de memória.
     

    
Item     Se eu não tivesse ciência certa de que vós e os que vos cercam acreditaríeis em mim, por saberdes que a verdade é meu lema, não haveria eu de narrar-vos alguns casos, acontecidos cá nesta terra, que podem parecer-vos estranhos, e que aí, no vosso palácio, seriam motivo de muita troça, semelhantemente acontecessem.
       
Item     Tempo atrás, o Rei Maior mandou alguns emissários de sua extrema confiança, levar convite a um membro do Parlamento para ser Mordomo-mor; quase no mesmo instante, confidenciou a Rainha a amigo seu, de confiança real, que era intenção verdadeira de seu augusto esposo fazê-lo, a ele, amigo de tanta fidelidade, Mordomo-mor de Palácio; o primeiro dos convidados, por uma hora completa, esteve em conversação animada com o próprio Rei Maior, mas este já não lembrava os motivos de tal visita, de modo que ambos se entretiveram em variadíssimos assuntos, sem que se confirmasse o convite; o protegido da Rainha, onde lhe serviu bons vinhos e ótimas viandas, mas também sem receber confirmação do convite feito na véspera. Como o Rei não tivesse lembrança viva dos convites por ele mandados fazer, convidou um terceiro personagem para o mesmo bom emprego, que prontamente foi aceito e celebrado com festa, sóbria é verdade, mas cheia de oratória. E ficaram muito satisfeitos todos os de palácio: o Rei Maior, porque se lhe ajuntou fiel Mordomo-mor; este, porque passou a ter mais poder para obrar melhor, e os outros dois convidados, digo, dois olvidados, não só se amofinaram, como ainda disseram tal cargo não lhes apetecer.
     
Item     Foi pelos mesmos idos que se deu um inusitado fato, muito comentado na meia semana em que permaneceu na memória dos vassalos; o Rei Maior tinha um provedor da Real Fazenda, tido por homem sisudo e de muita competência, o qual, desde algum tempo, demonstrava intenção de deixar seu cargo, por necessidade de dar ele mais atenção ao que lhe pertencia; o Rei, encarecidamente, suplicava-lhe permanecer à frente dos cuidados do dinheiro da Coroa. Ora, o Rei Maior, que dizia estimá-lo sobremaneira, fez reunir três ou quatro Reis Menores com os quais combinou deveriam pedir-lhe, a ele Rei Maior, a substituição do dito Provedor; e ele o fez assim, ou por esquecer que aquele Provedor da Real Fazenda já lhe pedira aposentação ou por outro qualquer motivo de mim desconhecido. Reunidos, os Reis Menores não se lembraram do limite da combinação, e tanto se entusiasmaram com a farsa, que não só exigiram a aposentação do dito provedor como, também, falaram outras coisas cruéis, tais como absência de ordens reais e necessidades de alterações profundas no ordenamento das coisas do Reino; se falharam no combinado, falhou também a memória real acerca da combinação, e o Rei Maior ficou muito agastado, por uns poucos dias, até que se esqueceu do fato.
    
Item     Sobre o mesmo Provedor há, relativamente à sua aposentação, um episódio que pode parecer muito estranho, não a mim, mas a quem não tiver a ditosa sorte de conhecer os costumes e a gente destas partes; como o Bom Deus foi pródigo e me deu a fortuna de lidar com esta gente e de ter ciência de seus costumes, passo a narrar-vos o que sucedeu, assegurando-vos ser tudo verdadeiro, pois ouvi os fatos da boca honrada que não peca por mentira; mesmo tendo o Rei Maior instado para que permanecesse no cargo, o Provedor entregou-lhe documento em que lhe comunicava sua necessidade de afastar-se do cargo, imediatamente; o Rei convocou, súbito, o Grande Ancião, e lhe confiou o encargo de convidar o Hospitalário para assumir a Real Fazenda; enquanto esses dois confabulavam sobre a magnificência do convite, o Rei Maior, mais por lhe anuviar-se a memória do que por qualquer outra causa, convidou, no mesmo tempo, para a mesma honraria, um dos Reis Menores; quando este saía dos jardins palacianos, chegava o Grande Ancião, e se cruzaram, este anunciando ter o Hospitalário aceitado o convite real, aquele comunicando também ter sido convidado; se este último não se deleitou com a dualidade do convite, aquele outro não ficou menos agastado; como o Rei Menor saía, mas o Grande Ancião chegava, coube a este protestar junto ao Rei Maior por tão esdrúxula situação, pois, se é princípio filosófico que duas matérias não podem estar no mesmo espaço, como poderiam duas pessoas ocupar um só cargo? Ao Rei Maior acudiu estranha solução, o contrário da justiça de Salomão: nem o Rei Menor nem o Hospitalário haveria de ser o escolhido. Porque, nesta terra, tanto a gente é diferente da de outras partes, como são diferentes as relações entre os poderes, o Grande Ancião tem tão comprido o seu poder como o tem o Rei Maior, depois de muitas confabulações amigáveis e declarações recíprocas de que um não aceitava fosse nomeado o indicado pelo outro, acertou-se fosse incluída nas discussões a possibilidade de se escolher o Conservador dos Museus, havido por dado aos livros e de profundo saber sobre metais e moedas; depois de elogios à fidelidade do Conservador dos Museus, a conclusão, afinal: nem o Grande Ancião o queria, de fato, para Provedor da Real Fazenda, nem o Rei Maior aprovava seu nome, de que decorreu o anúncio acordado de uma quarta personagem, que passou a primeiro na lista, e foi eleito para tão nobre cargo.
    
Item     A falta de memória é tão acentuada, por aqui, que um outro Rei Maior, que reinou há algum tempo, ao se lhe perguntar o que mais desejava ao ser posto do trono, muito candidamente respondeu: “Que todos vós me esqueçais”, tendo ele próprio esquecido que necessária não seria tal recomendação, por ser, já, tão costumeiro o olvido por cá; muitas pessoas malentenderam ter estado ele a fazer escárnio e, só por rixa ou falta de caridade, esqueceram-lhe o nome verdadeiro, mas não deixam de citar tão descuidado anelo, alcunhando-o “O Inesquecível”.
    
Item     Era este Rei, O Inesquecível, cavaleiro muito bom, tão hábil no manejo das rédeas quão sincero em suas sentenças; conta-se – e me garante amigo verdadeiro, a quem gabo pelo amor à verdade, tal feito até constar da crônica do Reino – conta-se que, um dia, passeava na praça o Rei, por entre a multidão que o reverenciava, com muito respeito e muito mais acatamento, e, enternecido por amor de tão carinhosa gente, não se conteve e exclamou: “Ó, meus súditos, cheirais a meu cavalo”. Como sói acontecer, entre a multidão havia alguns sujeitos, como há joio entre o trigo bom, que passaram a difamar o Rei, dizendo aos ouvidos dos seus comparsas ter sido o cavalo comparado ao povo, quando, na verdade, o Rei só quisera comparar, no muito bom sentido, o cheiro do povo ao dos cavalos.
    

    
Item     Ainda sobre este Rei Maior, registrou o cronista que ele muito se enfadava do trono e do cetro real, mais desejando acabasse o tempo que durasse o seu poder, esquecendo que quanto mais se mede a sombra, mais demora o sol a se deitar; e tão apressado era seu gênio, de vontade de montar, que, quando terminou seu tempo de reinado, saiu O Inesquecível pela porta de serviçais, não por maldade, mas por esquecimento de passar o trono ao novo Rei que o haveria de suceder.
       
Item     Defeitos tinha ele, pois era mortal e aos mortais Deus permite alguns pecados; mesmo tendo erros, as suas virtudes eram maiores que as suas faltas, e amava o Rei tanto o seu povo que queria com todos dividir o seu poder, de modo que os contrários a este seu desejo prometia ele mandar prender ou arrebentar.
   
Item     Mas, nunca foi necessária providência de tal gravidade, porque a gente desta terra é muito cordata e tem grande mansidão, mesmo quando, como os cordeiros, vai, calada, ao tosquiador; gente mais cordata nunca vi, nem creio haver em todo o orbe terrestre; se há algum desconforto ou geral reclamação, basta irem os arautos às torres dar sucinta explicação e, logo, todos concordam com o ponto de vista real. Esta é, sem dúvida, uma forma de sabedoria toda particular desta gente; assim, o que ontem se havia por erro, hoje se tem por verdade, o que antes se pensava estar correto, tem-se, hoje, por errado; no caso da primeira proposição, regozijam-se todos por terem abraçado a verdade, no da segunda, deleitam-se, também, todos, por terem abandonado o que se concluiu ser mau caminho; e nesta sabedoria popular reside a felicidade geral, com muito sadio prazer e muita alegria geral, em grande gozo espiritual, diferente, em suas causas, daquela felicidade impura e hedonística que pregavam os antigos pagãos.
    
Item     Com este magnífico estado de espírito, sabem todos que aos insucessos de hoje sucederão os acertos de amanhã, e à fome, a abastança; e se demorar a solução, ela virá para o tempo dos filhos, ou dos netos, ou dos bisnetos, ou da quarta geração; e assim pensam todos, mesmo os solteiros e os que não pretendem tomar estado de casado e, ainda, os que sabem ser estéreis; e nesta esperança vã, sofrem os que vivem hoje e igualmente padeceram seus pais, seus avós e seus mais longínquos ancestrais.
    
Item     Quando alguma providência palaciana é anunciada, sabiamente a população se divide em duas partes, uma das quais é a favor da medida, e a outra, contra; se correrem bem as coisas, a primeira parte se enche de júbilo, por ter acreditado antes; a outra parte se deleita, então, por mudar de lado, dizendo “Antes tarde do que nunca”, ou “Há mais virtude quando se reconhece o erro”, e abraçam-se uns e outros. Mas, se as coisas não tiverem dado certo, alegram-se, igualmente, todos, os que eram contrários, porque já esperavam tal resultado, os outros, porque seus parentes e amigos acertaram – e não importam quais sejam as conseqüências.
   
Item     Muito cordatos, disse eu, Príncipe e Senhor, e não erro em afirmá-lo; mas sendo cordatos, os daqui não abandonam um justo orgulho do que é seu. Como esta ilha é um paraíso, e até se diz nela ter nascido Deus (e nisto não vai heresia nem blasfêmia, pois não se duvida sobre a sua eternidade), acredita-se que os outros povos só têm a aprender com o daqui, ante o qual, aliás, todos se devem curvar. O gênio dos de cá é o mais inventivo, o espírito é o mais alegre, a natureza é a mais exuberante e rica, diz-se por aqui, mesmo sem se conhecerem outros povos, sem se terem visitado outras terras. E neste pensar, vão-se os de cá achando ser tudo aqui muito bom, e, se porventura se aperta a vida, a dos outros povos deve ser muito pior; se aqui falta algum bem, para os outros deve faltar tudo.
     
Item     Pode parecer-vos, Príncipe, que tal entendimento é sem propósito; confesso-vos, quando aqui cheguei, também assim pensei, mais por engano meu que por verdadeiro e real conhecimento. Hoje, sei, por estar há tempo entre esta boa gente, que, às vezes, é enganosa a primeira impressão, pois o que se tem por humildade é, quase sempre, cavilação, o que se tem por soberba é, às vezes, humildade verdadeira.
    
Item     Estas conclusões, só as tirei depois de muitas negociações na cobrança dos valores que a Coroa de cá vos deve; pois me disse o Provedor da Real Fazenda não pagar uma só moeda se isto fizer falta aos daqui, ou que só pagará um pouco se lhe for emprestado muito mais, e, ainda, que só saldará parte dos juros se se aumentar o débito do principal. Se vós ficais admirado, muito mais fiquei eu, porque sempre entendi que o devedor se explica ao credor, mas, por cá, aquele acha que deve convocar a este, para adoção de suas regras, tudo numa posição muito diferente daquela que o Provedor tem, quando anda por aí; e diz, voltando, que não disse o que disse, mas, o que disse, não diz que disse.
    
Item     Este assunto, contudo, parece muito grave, mas não é, pois se o Rei não pagar hoje, pagará amanhã, e seus arautos dirão alto e em bom som “Pagou, mas só quando lhe conveio”, esquecendo (que a memória aqui é muito curta) que a cada dia cresce mais o débito, e que os juros parem novos juros.
    
Item     Como têm que a ilha é um grande paraíso, são os daqui muito modernosos, fazendo cidades, jardins e palácios como poucos tenho visto fora daqui, e não haveria exagero em afirmar-vos que se juntando os palácios e edificações reais do mundo todo seriam eles menos que os daqui. Quando um Rei Maior, ou um Menor, diz querer um reino moderno, logo os geômetras e os arquitetos tramam novos edifícios, sem lhes importar a desnecessidade ou pouca serventia e, muito menos, se os serviços atendem ao que a gente quer; por isso, talvez não acrediteis no que passo a afirmar: não há leito para enfermos, nem medicina para os pobres, pois são poucos os recursos da Coroa, mas são caros e majestosos os monumentos à memória do Rei Morto, que foi Rei sem ter subido ao trono.
    

      
Item     Inventiva e moderna, a gente destas bandas tem engenhos que nem vós, Príncipe, nem outros Príncipes ou Reis, conheceis. Cada qual dos que vivem aqui tem um minúsculo engenho, do qual não tenho maiores conhecimentos, por ser muito secreto o seu uso, e cuja origem ainda não consegui saber, apesar dos esforços que tenho despendido. Não conheço seu formato, e nem como são suas engrenagens; apenas sei que o titulam “Achômetro”, e é muito difundido o seu uso, por causa de sua geral utilidade, pois a cada um que o consulta, o “Achômetro” oferece a solução para o problema, seja qual for sua natureza. Este engenho, usam-no muito os filhos do povo e, muito mais, os encarregados, pelo Rei Maior, da condução do Reino.
           
Item     Se é muito comum o “Achômetro”, muito raro é um outro engenho do qual eu mesmo tenho só uma vaga notícia, e parece de pouca utilidade por aqui, o qual engenho tem o nome de “Mancômetro” – não o conheço, e, portanto, não posso apresentar-vos nem pormenor nem descrição, pois dele não faço uso e nem os que me cercam, também.
                
Item     O “Achômetro” é de extrema utilidade para quem o possui, mais pronto nas respostas e mais exato em tirar dúvidas do que o eram a sibila e o oráculo de Delfos; qualquer cidadão, assim, é capaz de pronunciar-se sobre medicina, o cirurgião, sobre agricultura, o agricultor, sobre teologia, o teólogo, sobre política, o político, sobre dança, cada qual com mais segurança sobre a matéria tratada, como se ela fosse sua especialidade.
Item     E, assim, são muitas pessoas escolhidas para altos postos da hierarquia, sem virtudes para seu desempenho e sem conhecimento do assunto, confiadas, só, no engenho fabuloso que utilizam; e se os resultados são, às vezes, desastrosos, têm certeza os entendidos, e certo também estou, não terá sido culpa dos engenhos, nem também dos escolhidos, mas dos inimigos da nação.
  

  
Item     No que pese a gente ser ordeira, a nação tem grandes inimigos, divididos e definidos dentro de três grandes grupos, o primeiro dos quais é, de maneira geral, chamado de estrangeiro; o segundo assiste por aqui mesmo, e denominam-no patrão; o terceiro é incerto, depende sua identificação do ponto de vista de cada um: ora é o político, ora o eleitor, ora o pregador, ora o ouvinte do sermão, ora o que sai, ora o que entra, ora o mestre, ora o discípulo, ora o soldado, ora o paisano, ora aquele, ora este, ora um e ora outro. Neste salta-e-cai, neste vai-e-vem, quem erra se perdoa, não assume por si a culpa, pois o “Achômetro”, diz-se, ajudou corretamente, e se não houve sucesso, foi alheio erro e não por dano seu.
  
Item     E tão certa é esta gente de que o poderoso não peca, que, se por acaso, um mal intencionado ou mais desavisado denunciar algo mal obrado, não se demite o obrador, nem dele se exige correção; antes, ao denunciador se pune, investiga-se-lhe a vida, e o peso da lei lhe cai por cima, não sobre o denunciado, numa inversão do que parece lógico, ao contrário do que é mais usual em outros reinos que conheceis.
    
Item     Esta aparente falta de lógica só não tem sentido para os alheios, que os da terra estão muito satisfeitos com sendo assim a ordem das coisas. Esta ordem corre por aqui com sinais trocados; o que deve ser grande, aqui é pequeno, e o esquerdo é direito, de tal modo que a ilha, sendo triangular, tem mais gente na parte estreita do que na larga; se na cidade a vida é cara, se no campo a vida é pura, logo a gente deixa o campo, vai corromper-se na cidade, se a Coroa paga mal, que o Rei é quase pobre, todos querem ser empregados reais; se onde a terra é larga há pouca gente, onde é fértil é, também, desabitada; e os ricos ficam mais ricos, os pobres mais pobres, e quem está entre um e outro só tem uma escada, que é descendente, não por isto lhe apetecer, mas por assim parecer prescreverem as leis em vigor.
     
Item     Como vos mandei dizer, Príncipe, em outra relação, deveras são muito estranhas as leis aqui vigentes; a maior de todas elas diz serem todos os de cá iguais, homens e mulheres, grandes e pequenos, ricos e pobres, eleitos e eleitores, governantes e governados; mas como vos falei, por aqui são os sinais trocados, e, por conseguinte, governantes só têm direito, só deveres os governados; eleito não serve a eleitor, pelo contrário, este só vem depois daquele e se lhe sobrar oportunidade, porque, se houver uma só cadeira, fica de pé o eleitor, que ao eleito não se deve desrespeito; o tributo é cobrado de todos, em progressão aritmética, mas aos ricos se lhes dão abatimentos, em progressão geométrica, e, se quereis, Príncipe, entender tal problema matemático, só vos direi que a razão desta última é o dobro da daquela.
     
Item     Mas, como têm todos muito pouca memória, esquecem uns e outros as pequenas diferenças, e o que se tira do bolso de todos serve para corrigir os maus negócios de uns poucos. É isto feito com segurança e maior tranqüilidade, pois se o rico pede falência, apressada vem socorrer-lhe a Coroa, com os dinheiros dos tributos recolhidos de todos, porque, afinal, se todos são iguais, devem ser ajudados os falidos, pela repartição do ônus por entre todos, igualmente, que todos são iguais, por definição.
     
Item     É tão comum esta prática, e parece tão saudável aos do local, que os Reis Menores, cujas casas de empréstimos tenham jogado fora ou mal administrado seus recursos, correm ao Rei Maior e suplicam, ansiosos, “Intervinde em minha casa, pondo lá vossos fiscais”, na certeza de que a Coroa sanará tão vexatória situação, e o que deveria ser pena é, de fato, premiação, porque se perdoam os devedores, pagam-se os credores, e saem todos ganhando: os últimos, por se lhes aumentar o cabedal, aqueles, por não se lhes diminuir o capital bem guardado. Vede, Príncipe, quão formosa é esta gente, em cuja terra se implora intervenção, mui diferentemente de outros reinos, onde tal evento leva o tom de punição.
     
Item     Em falando de punição, convém esclarecer-vos, ó Príncipe, que seu gênero, por aqui abrange três espécies, cada qual de mais difícil entendimento, sendo a primeira espécie a de que falei acima, que de nome é purgação, mas de natureza é premiação, aplicável, esta espécie, tanto aos entes jurídicos quanto às pessoas naturais, de tal modo que, como pela intervenção se saneiam as finanças dos entes jurídicos, também, esdruxulamente, punem-se, com sua aplicação, as pessoas que ocupam muito altos ofícios ou que assistem em palácios.
       
Item     A estes, pune-se, ou com ostracismo em embaixada permanente junto a outros reinos, ou com cargo mais pesado e de maior responsabilidade, a conquanto de salário mais vantajoso; isto é feito, porém, com muito tato, para que não se agastem demais os punidos, nem a população lhe caia em cima, com troças ou outras formas de falta de caridade.
      
Item     A segunda espécie de punição, mais grave que a primeira e mais amarga nos seus efeitos, consiste em afastar-se o que mal obrou e lhe confiar cargo igual e de igual salário. Mais dolorosa é esta penitência, porque, se em relação à espécie anterior permite-se ao punido apresentar sua carta de demissão, nesta não se lhe dá tal oportunidade, e ficam súditos a saber ter havido intenção de se lhe aplicar pena real.
      
Item     A terceira pena é de todas a mais dura: sente-se o punido posto à frente da população, para que todos saibam não ter ele obrado muito bem – cria-se novo cargo isolado, só para ser ocupado por quem mal obrou. Seu infortúnio fica logo de conhecimento geral, seu feito é motivo de maledicência, e sofre seu espírito em sabendo que os outros sabem por qual motivo foi criado seu novo cargo (e dói-lhe mais o espírito do que doem as suas carnes). É assim, com caridade, que, aqui, se corrige quem pecou e se castiga quem errou.
    
Item     Não penseis, entretanto, ó Príncipe e Senhor meu, que tal código penal seja extensivo ao pequeno também, pois estareis cometendo enorme engano; aos plebeus, com muita sabedoria, aplica-se o preceito bíblico “Corrige teu filho com a vara”, ou o dito popular “O pai que no filho não bate, quando velho de tristeza se abate”. Se os pequenos não se corrigem, mais se deve à maldade de seus corações do que à falta de admoestações, pois são muitos, por aqui, os níveis de correção, com cacete, corda e cadeia. Tão comum são tais admoestações, que um rei, não me lembro de seu nome, dizia, com fundada convicção, “Governar é pegar, prender e soltar”, ao que o povo juntava, à guisa de correção, “Governar é pegar, prender, bater, e só depois soltar”, esquecido, certamente, que cada um estaria sujeito a ser, de igual modo, também governado.
      
Item     Mas, não só penas existem, que justos aqui também convivem e, como os varões da Santa Bíblia, estão eles cheios de paciência, pois cada qual sabe que quem cai hoje amanhã se levanta, quem perde agora, depois vencerá, quem não consegue de pronto, depois conseguirá. Tão sábia lição de bem viver bem aprendida é aqui, de tal maneira que os derrotados pelos eleitores ingratos são pelo Rei premiados. A cada tempo, dependendo da vontade do Rei Maior ou da dinastia reinante, faz-se, aqui, um sufrágio para escolher os representantes da gente na grande Casa Redonda; os melhores cidadãos, os mais sábios e os mais corretos são escolhidos, então, para o assento que o povo lhes dá, por merecimento puro; e se alguém merecia tal reconhecimento, mas a gente não o escolheu, não se amofina o candidato, pois o Rei Maior ou algum Rei Menor há de lhe prover um cargo digno, do tamanho de sua dignidade, e quanto maior houver sido a derrota, tão maior será seu cargo.
       
Item     Este justo sistema é muito sábio e muito vantajoso (de mais vantagem que sapiência, dizem alguns mal satisfeitos), pois quem perde não se perde, se gastou, vai recuperar, e, por seu modo de obrar, depois há de ganhar um assento entre os nobres do reino. Não importa conhecimento de matéria, não se exige tirocínio, que o antes derrotado usará o seu “Achômetro” na hora das decisões e, se não prejudicar os interesses daqueles que o tiveram indicado para tal cargo, tudo bem, a vida corre, se não deu certo, agora, talvez dê certo depois, o reino é rico e há de suportá-lo, não irá o mundo, só por sua incúria, acabar-se. Felizmente, nesta terra, são os erros tão poucos, tão numerosos os acertos, que a gente, muito feliz, é rica, sadia e educada.
       
Item     Estas conclusões só as tenho depois de muito observar como se procede por aqui, pois foi difícil chegar até os costumes da gente destas bandas, não por serem as pessoas tímidas ou arredias, mas, por ser estrangeiro, pensava eu ser discriminado, porque, como já vos disse, classificam os de cá ao estrangeiro como uma das três espécies responsáveis por tudo de mal que praticam os da terra. Entretanto, só quase agora via classificação ser teórica, e não prática, pois, a cada dia, tenho constatado que os daqui têm muita admiração por tudo que é de fora. É título honroso ter estudado em outras partes do orbe terrestre, não interessando aos demais a qualidade da disciplina cursada; é excelente o curriculum de quem tiver ido a qualquer país de outra região, por trabalho ou recreio; é motivo de máxima admiração saber alguém ler o alfabeto de escrita diferente e, mui supremo gozo e máximo bom gosto, usar-se de artefatos estrangeiros, seja ceroula, alfaia ou água de cheiro; emprego não há melhor, nesta ilha, que o pago por empreiteira de outra nação (mas, não obstante tal fascínio, juntam-se todos, em praça pública, na hora do aperto, e gritam “Vivamos nós, abaixo os estrangeiros”, como se culpados fossem estes pelo estio, pela lagarta e pela má administração).
   
Item     Ainda bem que são poucos os casos de má administração, pois os daqui são, às vezes, exigentes, e logo querem reparação do dano feito à coisa pública; mas, precedendo-se-lhes em providências, os do poder punem os que tiverem obrado de mal modo, obrigando-os a uma das três modalidades de punição que já mencionei: ostracismo em embaixada, nomeação para cargo de responsabilidade maior, ou ocupação de novo cargo, tudo para boa penitência do mau obrador.

      
Item     Não penseis, contudo, serem, amiúde, aplicados tais castigos, não por causa de parca intenção punitiva, mas por serem raros os que erram; e quando se cometem enganos, são estes tão mínimos que o Rei Maior, ou um Menor, dependendo de sua jurisdição, não só os perdoa como dá ânimo aos que erraram, para alevantarem suas cabeças; e o faz por bem, e faz bem, pois não é elogiável o grande que abandona o menor, nem o é o pai que deixa o filho exposto ao riso ou à inveja de alheia pessoa, porque a inveja é pecado reprovável e, não fora serem duros o Rei como os que o cercam, talvez muitos da terra se excederiam, em se entregando a tal pecado.
    
Item     Felizmente, por serem sábios e conhecedores da melhor doutrina e mais profunda teologia, aqueles que ocupam o mais alto poder não só não atendem a murmúrios de invejosos como, logo, desmascaram os murmuradores, e, para que outros não se contaminem pela inveja, aqueles são identificados como inimigos do reino e da nação e, não raro, são apontados como aliados aos estrangeiros ou como agentes de seus interesses.
      
Item     Providência assim tão caritativa, de tão suave correção, tem sido praticada todo tempo, aqui, com bons frutos alcançados, e só não acabou a inveja, totalmente, porque são os da terra de espírito forte, mas de carne fraca. Entretanto, tão seguro e bom é o método utilizado que (perdoe-me o bom Deus, se me desgarro da melhor ortodoxia teológica) de pecado passou a inveja quase à classe de leve falta.
   
Item     E por falecerem a maledicência e a inveja, pode o Rei ou podem os que o cercam terminar suas grandes obras, para grande contentamento e maior satisfação dos da terra, pelo bom uso de seus tributos, nas coisas utilíssimas e de bom proveito para o uso geral.
     
Item     É do bom uso geral dos tributos que se fazem os belos palácios, dos quais já vos disse serem tão opulentos que não há, no resto do mundo, outros igualáveis a eles. E são tão bons e ilustrados os mestres arquitetos de cá, como o são os mestres construtores, também. E porque sabem do gosto refinado que têm todos aqui, grandes e pequenos, agem os construtores com tão espantosa precisão de cálculo a ponto de não durarem as paredes e as colunas e os tetos de suas belas construções mais do que duas ou três décadas, quando muito; e alguns são tão esmerados em suas obras que, terminada a construção, mal entram seus moradores e já têm de sair, e se não saem tão rapidamente cai-lhes o teto à cabeça, e não por imperícia, mas por refinamento de técnica, as quais são modernas por aqui e muito mais o são os métodos de construção, como nunca havia eu visto; e assim se procede, de propósito, para que não haja casa velha, como acontece em alguns reinos que vós conheceis, onde casas de trezentos ou mais anos são comuns e estão de pé, com muita segurança, é verdade, mas fora de gosto e, muito mais, da moda.
      
Item     Se têm engenho apreciável os construtores, muito mais admiráveis são os arquitetos! Estes procedem a seu gosto particular, na ilha, com muita originalidade, mas como o direito é esquerdo, o sinal de menos vale como se fosse o de mais, que tudo nesta ilha é diferente, os mestres arquitetos são muito inventivos em seus riscados: onde há luminosidade, mandam eles pôr, nas janelas, vidros escuros e cortinas pesadas, de modo a se acenderem lampiões o dia todo, num efeito muito próprio e de grande beleza; nas regiões mais frescas, fazem-se as edificações bem calafetadas, e os de dentro passam a usar abano, por necessidade; onde chove muito, levantam-se edificações de estranho traçado, de modo que se molhem, entre o caminho de fora e a porta, os que saírem e os que chegarem, tudo com a finalidade, certamente, de se fazer sentir, no corpo, o contato com os fenômenos naturais (o que é muito saudável e recomendável, conquanto que incômodo).
       
Item     Como em outras partes do mundo, há, por aqui, também, alguns maledicentes (poucos, mas há), e eles dizem não ter havido propósito, às vezes, em tais tipos de construção tão diferente, mas, sim, falha de arquiteto em não se ter lembrado de verificar as condições climáticas de cada lugar, ou, dizem outros, tais falhas são devidas à pressa dos projetistas, arquitetos e construtores, porque se não terminarem a obra, tão rapidamente, é capaz de ela ruir por sobre as próprias cabeças dos mestres pedreiros, sem oportunidade, sequer, de eles tirarem seus andaimes, antes do desastre.
      
Item     Não sei porque vos narro tais coisas, se podem parecer-vos tão mesquinhas. Mas, antes que possais julgar-me mal, apresso-me a esclarecer que o último item só serve para exemplificar existirem, também, por aqui, uns maledicentes, levados por inveja, ou invejosos de natureza, como relatei um pouco mais atrás – são eles muito poucos, felizmente, e, por serem assaz conhecidos, não lhes dão ouvidos nem o Rei Maior nem qualquer dos Reis Menores.
        
Item     Quando, há muito tempo atrás, quis um Rei mandar abrir gigantesca estrada na floresta, logo os invejosos e maledicentes apelidaram-na “Transnada”, porque, diziam eles, haveria aquele caminho de ir de ponto algum a nenhum ponto, como se na geografia física houvesse vácuos. Cuidou o então Rei Maior de não ouvir tais disparates e começou sua obra, com muita solenidade e maior gasto; e só não se terminou tão grande empreendimento porque ele desceu do trono, e seu sucessor, seguindo a regra geral, interrompeu aquela obra, para iniciar outra, mais bonita e majestosa, não estrada, mas caldeira possante, a de maior vapor do mundo, para que desse calor a todas as cidades grandes que há nesta ilha.
                  
Item     A obra da caldeira foi iniciada, porém não terminada, pois o sucessor do Rei Maior que a começara paralisou-a, dentro da regra geral, para iniciar outro caminho também gigantesco, que acompanhasse a parte mais setentrional de toda a ilha. Feitos os traçados, iniciados os desmatamentos, aprontadas algumas obras de arte, foi suspenso o serviço, pois ao novo Rei Maior pareceu mais conveniente que se iniciasse outro caminho diferente, para carroças movidas a vapor; esta última obra, contudo, não foi, ainda, paralisada, por não ter sido iniciada; trará, no futuro, muita fama ao pai da idéia de sua criação, quando o futuro Rei Maior ordenar a suspensão de seus trabalhos, como é costumeiro por aqui, porque semelhantes tipo de caminho já foi, outra vez, em diferente parte da ilha, iniciada, sem ter sido acabada.
       
Item     São os negócios públicos feitos, de maneira geral, aqui, com muito discernimento e dentro dos regulamentos de como bem gerir a coisa pública. Por isto, apesar dos maledicentes e invejosos, prosseguem os de Palácio em seus propósitos, sem lhes dar atenção, mandando que se apure a exatidão dos gastos, a justeza dos contratos e a regularidade dos serviços, de modo que quem tiver tido dúvidas passe a ter certeza da correção do negócio, tudo com muita lisura e bastante às claras, pois qualquer sombra de irregularidade é alvo de profunda investigação, com promessas de punição a quem merecê-la, seja grande ou pequeno.
      
Item     Manda-se apurar qualquer notícia de possível irregularidade, só por atenção ao merecimento que tem o povo, mas como os de cá são muito bons administradores, nunca ficou provada qualquer irregularidade ou se comprovou o mais leve deslize, nos contratos de obras públicas. Ainda assim, são, por vezes, tão severos o Rei e os regulamentos, que, mesmo nada tendo sido provado, e só por causa de murmúrios mais fortes, pune-se alguém, com um dos três castigos mais duros: embaixada, maior cargo ou função nova.
      
Item     Pode parecer haver injustiça ou dureza demasiada, mas tal conclusão não será exata, pois, como se diz aqui todo poder emanar do povo, entendem os hermeneutas do reino que, se há murmúrios populares e mostras de insatisfação, devem ser punidos aqueles contra os quais se murmura, porque é regra geral imperante no direito local que a lei dos costumes e dos desejos reais deve sobrepor-se à letra do escrito. Haveis vós de perguntar “Tal sistema não pode favorecer injustiça, interpretando-se, erradamente, a vontade popular, se é da natureza humana que, entre todos, haja bons e haja maus”?
      
Item     Não, Príncipe, não há injustiça em assim tomar-se decisão, responder-vos-ei, porque quando se reúnem os que vão decidir que melhor solução adotar, sabem eles que há bons e maus, aqueles em maior número que estes, e medem, pelo tamanho do murmúrio, se é verdadeiro ou falso tal comentário; se se concluir que os murmúrios de insatisfação partem de invejosos ou de maledicentes, apressam-se os de Palácio a demonstrar ao resto da população quão errados estão os da minoria e quão certos os do poder; se a conclusão é de que os murmúrios partem dos bons, amigos e fiéis ao Rei, toma-se, de pronto, a decisão de punir o indivíduo, aplicando-se-lhe a penalidade adequada, mas tudo com muita discrição, em ambiente de muita caridade, para que o punido esteja a salvo de sofrer mais do que merece; se a ele couber ser deslocado para outro cargo, não se lhe criará nova função, nem será mandado para embaixada – e assim, com muita justiça, será punido com a medida que for mais conveniente.
        
Item     Para que todos tenham igual oportunidade e não se mortifiquem os pequenos, por causa dos maiores, quando o Rei Maior decide fazer uma grande obra, pregam-se, em todos os lugarejos e em todas as praças, editais relativos a tal intenção; reúnem-se os interessados e os que têm capacidade para enfrentar tal empreitada, em local isolado, e, com muita igualdade, e maior fraternidade, harmonia e admirável cortesia, entre eles repartem a obra a ser feita, de modo que cada um tenha o seu justo quinhão. Assim, por exemplo, procedeu-se na abertura dos caminhos e na construção de outras grandes obras.
      
Item     Ainda recentemente, quando o Rei resolveu, com muita sabedoria e com amparo da opinião geral, fazer um caminho para carroças movidas a vapor ligando as partes meridionais ao setentrião, reuniram-se os melhores empreiteiros e, atendendo às condições exigidas e às regras estabelecidas, dividiram, com o maior senso de igualdade, a obra toda como se lhes foi mais conveniente, de modo que ao maior construtor de partes planas coubesse a região de menos acidentes geográficos, e assim por diante, com tal precisão de cálculo e com tão perfeita amizade que cada um ganharia seu justo lucro, em igualdade com os demais; só porque alguns maledicentes acharam que devia ter sido feito sorteio, em vez de exata divisão, procedeu-se à rigorosa investigação sobre a boa ou má intenção dos citados construtores, e, como após a borrasca vem o sol, após a noite chega o dia, os que investigaram tal procedimento mostraram, com provas, as mais acatáveis, ter sido tudo feito com muita retidão.
       
Item     A respeito desta obra, aliás, deu-se um fato muito interessante, que mostra como têm curta a memória os que aqui vivem: aquele sisudo e honrado Provedor da Real Fazenda de que vos falei, num dos primeiros itens deste relato, juntamente com outros assistentes do Rei Maior, assinara, antes de deixar seu cargo, arrazoado bem fundamentado, propondo a construção desse caminho, por necessário, útil e inadiável. Perguntado, pouco tempo depois que estava longe do Palácio, qual sua opinião sobre tal caminho, respondeu achá-lo desnecessário, inútil e procrastinável; e se assim falou, fê-lo por esquecimento, não por malícia ou malquerença, que ele é homem de muita honradez.
    

     
Item     Esqueceram-se, aliás, os idealizadores dessa obra de que o Erário estava com poucas moedas, em situação de fundos insuficientes para cobrir os gastos necessários; ao serem alertados para o estado tão minguado dos recursos, não se amofinaram eles, nem desistiram, e, com muita candidez, assentaram que nas nações amigas haveriam de conseguir recursos, esquecidos, certamente, de que os da ilha devem aos de fora mais do que podem pagar, e que seus juros devidos ultrapassam seu capital.
     
Item     Gozam os desta ilha de saúde excelente, tanto as crianças quanto os mais idosos, e só por isto é que se justifica haver tão poucos hospitais. A arte médica é bem própria, diferente bastante da que vós conheceis por aí; curam-se as doenças, aqui, por antecipação, isto é, antes que surjam, já cuidam os cirurgiões de amputar as partes que, no futuro, poderão molestar-se. Assim, se alguém estiver com um olho perdido, por perdido deixa-o o cirurgião, e logo extrai o outro olho, antes que se contamine este também; se a perna esquerda estiver com gangrena, amputa-se somente a direita; se o rim de um lado não funciona, extrai-se o do outro.
     
Item     Haveis, certamente, de exclamar “Que medicina diferente”! E eu vos explico que, assim procedendo, agem os cirurgiões muito bem, pois se o olho, ou a perna, ou o rim estava realmente perdido, e ao doente não restava outra esperança, é bem melhor que antes de o mal atingir o outro olho, a outra perna ou o outro rim, seja o órgão sadio extraído, pois, desta maneira, ao invés de o paciente morrer de mal incurável em dois olhos, ou em duas dores, sente o moribundo apenas uma dor, e se, por elementar aritmética, sabe-se que um é a metade de dois, conclui-se que o pobre moribundo só sentirá a metade das dores.
     
Item     São os cirurgiões muito competentes e mais esperançosos ainda, de modo que, ainda se pondo vela à mão de quem morre, tem o cirurgião ou o físico esperança de que o moribundo, de repente, se restabeleça, e só se dá por vencido quando exala o último suspiro o paciente, pois é certo o ditado “A esperança é a última que morre”. Conta-se, aqui, publicamente, que um varão escolhido para Rei Maior padecia de mortal infecção; depois de pregado ao leito por quarenta dias, já sem pulso, e quase sem respiração, o cirurgião que o assistia foi à torre do hospital para dizer ao povo, com sorriso de esperança e esperançosos suspiros, “Poderia estar pior o doente, mas acho que, se não amanhã, ou na próxima semana, talvez no outro mês, estará de pé o nosso Rei, saudável e reinando”. Embora, no momento seguinte, falecesse o venerável enfermo, cobriu-se o cirurgião de glória e gabavam-lhe todos a grande esperança, dizendo “Que grande doutor! Que lição de esperança! Morria o paciente, mas sua fé não se abalava!” Tão grande era a fama de ciência do cirurgião, que todos reconheciam. “Infelizmente, o moribundo não resistiu ao tratamento”, ou “Com tanto cuidado do cirurgião, mas o doente não colaborou”.
    

   
Item     São os da política tão desprovidos de validade e de qualquer ambição de poder que, por unanimidade, escolhem os partidários de uma bandeira um só representante para por todos falar, de maneira que, ao invés de quarenta dezenas de representante do povo discutirem uma lei, bastam três ou quatro, no máximo cinco ou seis, chegarem a um acordo; assim, ganham todos, pois enquanto estes poucos falam e decidem por muitos, todos os outros ficam a dedicar-se ao atendimento dos interesses da nação. Eles, os da política, são representados pelo Grande Ancião, o qual tem quase tão grande poder quanto o tem o Rei Maior, e só não o sobrepuja por este não o permitir. É o Grande Ancião figura venerabilíssima, acatado por suas virtudes pessoais, dotado de tão grande sabedoria no trato com seus pares, adversários ou partidários, e conhece tão bem a arte da política que dele se diz quando parece dormir estar mais acordado, quando parece acordado estar mais dormindo.
     
Item     São os políticos muito versáteis e tão ávidos de bem servir ao povo que fazem parte, sempre, do partido a que pertencer o Rei Maior; e fazem isto pela boa certeza que têm de os de Palácio precisarem de seu apoio, para governarem cada vez melhor. E como os partidos dão apoio ao Rei, dá este àqueles os cargos principais da administração do reino, independentemente de os que vão ocupá-los serem peritos, ou não, nos ofícios que lhes são atribuídos. Mas por serem muito versáteis todos os da ilha, tanto os políticos como seus amigos, desincumbem-se, muito a contento, dos cargos públicos que recebem.
   
Item     Destarte, licenciados em leis desempenham cargos que deveriam ser de arquitetos, estes ocupam os que deveriam ser de geógrafos, estes se encarregam dos que deveriam ser de físicos, e assim por diante, mais valendo o prestígio de quem indica alguém para algum cargo, do que a exigência de capacidade ou de experiência acumulada.
    
Item     Mas, não deveis pensar mal deste sistema, pois ele tem funcionado muito bem, tão bem que nenhum político pensa em mudá-lo, e se assim o querem todos é por ser o melhor modelo para a ilha, porque, como já escrevi, não têm os políticos interesse pessoal algum nisto, senão bem servir seu povo; e por bem servi-lo, aliás, é que exigem os políticos serem os empregos melhores e de mais responsabilidade ocupados só por seus amigos e conhecidos. Assim agindo, têm eles firme consciência de estarem entregando a administração da coisa pública somente às pessoas merecedoras de sua maior confiança.
    
Item     Porque confiança não se compra nem se força, mas se conquista, como dizem os daqui, são os cargos públicos ocupados por pessoas muito chegadas aos políticos, vindo, primeiramente, os filhos, depois os genros, cunhados, sobrinhos e afilhados, numa ordem muito natural de parentesco familiar, que a família se une, aqui, por laços muito estreitos. É tão exemplar a unidade da família, e são todos os dela tão ligados uns aos outros que, às vezes, os genros têm assento mais próximo ao chefe de família do que os próprios filhos destes, e, nesta ordem, têm confiados a si os melhores cargos.
       
Item     Por saberem que o Rei, seja o Maior, seja algum dos Menores, não poderá bem reinar sem seu apoio, os políticos são todos, sempre, de agremiação ou coloração política que o Rei tiver adotado. Para quem não conhece os costumes da terra, pode parecer volubilidade a pressa com que mudam de cor política os representantes do povo. Se o Rei Maior, amanhã, adotar bandeira de cor diferente da que tinha hoje, adotarão essa mesma cor todos os políticos, ou, pelo menos, sua grande maioria, não lhes importando o que tiverem dito ontem, dizem hoje ou dirão amanhã. Mais apóiam o Rei – este é o princípio da política – do que perfilam nos seus entendimentos pessoais.
     
Item     Por causa dessa pressa em apoiar o ocupante do trono, os políticos que ontem eram republicanos são, hoje, realistas, os parlamentaristas de ontem serão os absolutistas de amanhã, se já não o forem hoje. Aqueles que, ontem, exigiam, nas praças, que o Rei Maior fosse escolhido por sufrágio direto dos eleitores, dizem, hoje, ser isto incabível e atentar contra a boa ordem estabelecida. Quando algum político procede a modo de contrariar o que entendem os que assistem em palácio, é simplíssima a solução que se adota por aqui; dá-se-lhe um cargo importante, uma secretaria ou boa chancelaria, não para si, mas para seu protegido, e o Rei terá dois aliados: o próprio político e seu filho, ou genro ou afilhado.
      

    
Item     Narram as Crônicas do Reino que havia um político, jovem ainda, de futuro dos mais promissores, conhecidíssimo da população da ilha por ter apresentado, na assembléia da Casa Redondas, uma proposta de lei para que o Rei Maior fosse escolhido por eleição do povo, no método de sufrágio a que chamam, aqui, direto. Menos de um ano depois, foi aquele político encarregado, pelo Rei Maior, de cuidar para que todos os lavradores tivessem sua própria terra para lavrarem. Ou porque, como os demais, tivesse aquele político memória assaz curta, ou porque se tivesse convencido do contrário, quando outros políticos, de diferente agremiação, quiseram levantar, de novo, o assunto de sufrágio direto, aquele jovem político a que me referi foi o primeiro e dos mais inflamados em oratória a defender o sistema vigente, dizendo tal tipo de sufrágio não se encaixar nos melhores costumes políticos da ilha, e que tal proposição legal seria própria somente de quem quisesse agir contra a ordem estabelecida.
      
Item     Mas como tal político não tivesse cuidado bem para que cada lavrador tivesse sua própria terra, o Rei Maior achou por bem dispensar sua ajuda; e ele, quando lhe perguntaram alguns curiosos porque estaria deixando aquele ofício, respondeu “Por não concordar que não haja escolha do Rei, diretamente pelo povo”, esquecido, tenho certeza e podereis tê-la vós também, da última posição que tomara contra tal idéia, confirmando o ditado que os romanos já adotavam sobre voarem as palavras.
     
Item     Mas, se a nós surpreende o agir dos homens da política, mais estranho é o procedimento dos religiosos. Como o direito é o avesso por aqui, muito diferentemente se pratica a santa religião cá nesta ilha. Aqui se tem por teólogo qualquer um que vista hábito de clérigo ou de frade, qualquer um que escreva a pôr em dúvida a doutrina, e tanto mais se é considerado e por maior teólogo se é tido quão mais afastado se estiver de Roma.
      
Item     Conta-se que, há algum tempo, um frade da religião de São Francisco andou expondo prédicas que Roma considerou suspeitas. Instado a explicar-se perante os teólogos romanos, o frade, após admoestações, foi aconselhado a refletir por dois anos sobre os ensinamentos basilares da Igreja. Ao retornar à ilha, foi o bom franciscano ovacionado pelos não-crentes, como herói, chegando ele mesmo a levantar os braços, em largos sorrisos, em sinal de vitória, como se tivesse voltado de uma olimpíada. E, mais interessante, os que se dizem ateístas encheram folhas e mais folhas de papel, a tentar explicar ter estado corretíssimo o entendimento do frade e incorreta a doutrina de Roma.
    

    
Item     Este mesmo frade foi visitar uma nação cuja religião oficial é o paganismo e o ateísmo, e de lá voltou muito cheio de si, e, mui candidamente, declarou que, ali, verdadeiramente, encontrara a prática do Evangelho de Cristo.
   
Item     Pois se não bastasse tal despropósito, dois bispos foram também àquela nação e, ou por pretenderem parecer diferentes ou por muito se impressionarem pelo que viram durante uma semana em que foram assistidos pelo lugar, aqui desembarcaram gritando em alto e bom som “Lá se praticam as mais puras virtudes cristãs”.
      
Item     Penso, Príncipe e Senhor, que já tendes uma idéia de como procedem os desta terra e de como são todos por aqui assaz esquecidos, não só da própria história da ilha, como, também, dos princípios sadios e corretos que nas outras nações se entende devam reger as relações entre o Estado e as pessoas e entre estas mesmas.

   

Item     Mas, repito, Senhor, que os de cá não praticam o erro por assim o quererem, senão por acharem estar corretamente agindo.
     

     

Finis tertiae relationis de factis ignotae insulae

Finis tertiae relationis de factis ignotae insulae 

Fim do terceiro relatório sobre os acontecidos na ilha desconhecida

       

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