Crítica do Descobrimento do Brasil
Renato Russo não é Jorge Ben Jor, alguém que se orgulha de nunca ter escrito uma música triste. Às vezes parece ter nascido na época e no cenário errado. Sofre e se indigna como aqueles poetas do século passado, ultra-românticos e atormentados como Byron, que tratam a vida como um fardo existencial, marcada por desencontros afetivos. Descobrimento Do Brasil, sétimo e mais recente disco da Legião Urbana, seria a redenção de Renato Russo e seu grupo, reduzida às companhias de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Renato livrou-se do incômodo alcoolismo e construiu, com o grupo, um disco poeticamente menos melacólico e musicalmente muito bem resolvido. Descobrimento Do Brasil só não é, como imaginou Russo, um disco otimista. Com a produção centralizada nos três legionários, o álbum é um sutil inventário de todas as vocações musicais do grupo, a partir do punk rock sujo, com tracks de guitarra que se avolumam furiosamente em canções como "Do Espírito", até chagar a texturas bem mais suaves e melódicas, delineadas por baladas folk. Há até uma faixa instrumental de surpreendente lirismo. Renato arrisca tocar uma cítara, Dado Villa-Lobos, um bandolim. Um computador Macintosh, - através de um programa Pro Tools - é utilizado para ajustar frases de guitarras equivacadas e eliminar chiados.
O disco tem uma vocação acústica e flerta com o digital. Parece um paradoxo. Não é! A bateria eletrônica que introduz "Descobrimento Do Brasil", abre espaços para o violão e o bandolim. Renato cria as letras a partir das músicas e grooves que Dado e Marcelo lhe apresentam. O processo de desintoxicação que limpou seu corpo contamina a poesia. Russo prega um país de sangue limpo, sem mentiras, roubos ou violências. Renato sopra a depressão para longe, reerguendo a vida depois dos relacionamentos desfeitos. Recupera os amigos e tenta encontrar a felicidade. Nada, porém, em Descobrimento Do Brasil tem a marca da exaltação fácil ou do deslumbramento bobo.
Como quem já chorou muito, Renato amassa o lenço e atira as lágrimas ao lixo. A dor, mais leve, permanece.
Celso Fonseca
Extraído da Revista BIZZ de Fevereiro de 1994 - ano 10, n. 2, edição 103