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25 de outubro de 1986
Secos & Molhados
Paulo Roberto Lopes
Morre Gudin, ficam as idéias conservadoras
O economista Eugênio Gudin, que
recentemente completou 100 anos e morreu ontem, deixa vários méritos. Primeiro
teórico de expressão da economia brasileira, influenciou várias gerações de
economistas. Polêmico, obstinado e coerente, foi implacável crítico dos
políticos que, para ele, precisam "ter vergonha na cara".
Empreendedor, criou a Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Contudo, neste momento em que Gudin é coberto de elogios, é preciso fugir da
tradição brasileira de que não se deve criticar personalidade que morre, pelo
menos enquanto não desce à sepultura, e ressaltar que ele foi e continuará
sendo o mentor de idéias conservadoras que impregnaram economistas e governos.
Idéias que são as responsáveis pelo atraso em que se encontra o país, ainda
que, evidentemente, esse não foi o intuito de Gudin, de cuja boa intenção
não se duvida.
O fato é que, se dependesse de Gudin, o Brasil seria hoje um país mais
atrasado ainda, não se industrializando para cumprir a balela de que a sua
vocação é tão-somente a agricultura.
Coube ao empresário paulista Roberto Cockrane Simonsen, morto em 1948 e que
não tem nenhum parentesco com o ex-ministro Mário Henrique Simonsen, o
importante papel de neutralizar a postura conservadora de Gudin quando à
industrialização.
Ficou famosa a polêmica que houve entre os dois em 1946. Erudito, leitor
habitual de Anatole France, Gudin sempre soube se expressar muito bem, levando a
melhor em determinados momentos da polêmica. O tempo demonstrou, contudo, que a
razão sempre esteve com Simonsen, empresário de grande visão.
Heitor Ferreira Lima, que tem 80 anos e que foi amigo de Roberto Simonsen,
lembra que Gudin sempre se posicionou contra o planejamento da economia.
Ao conversar ontem com este colunista, Lima observou que, para Gudin, o
planejamento era "coisa de comunista, coisa da União Soviética",
ainda que, no Brasil, estivesse sendo proposto por um empresário, Simonsen.
"Gudin também sempre foi contra as reformas estruturais, como a reforma
agrária", acrescentou Lima.
Por um curto período de tempo, Gudin foi ministro da Fazenda do Governo Café
Filho, em 1954. Uma de suas resoluções facilitou a entrada do capital externo
no país. Monetarista ortodoxo, adotou várias medidas impopulares para conter a
inflação.
Nunca acreditou nas democracias latino-americanas. Apoiou o Movimento de 64 e os
seus primeiros três governos. Afiou suas críticas contra os governos de Geisel
e de Figueiredo por causa da inflação e do aumento da intervenção do Estado
na economia. Ao completar 100 anos em 12 de julho, perfeitamente lúcido, fez
elogios ao Plano Cruzado.
Morre Gudin, mas ficam suas idéias, gostemos delas ou não. E em se tratando de
idéias, melhor tê-las, ainda que polêmicas, do que não ter nenhuma. Nesse
sentido, Gudin foi um grande pensador e que muito contribuiu para o debate
econômico no Brasil.
Novas montadoras
A edição da "Exame" que está chegando às bancas informa que,
"mais cedo do que se pensa, uma ou duas montadoras do Japão podem produzir
no Brasil".
A revista diz que ainda não há nenhuma decisão por parte do governo
brasileiro ou por parte de empresários japoneses, mas que, em sua visita
ao Japão, no próximo mês, o ministro João Sayad poderá iniciar os
entendimentos.
Semântica
Após o presidente Sarney ter admitido de manhã, em seu programa "Ao pé
do rádio", que haverá em breve anúncio de novas medidas governamentais,
o porta-voz do Palácio do Planalto, Fernando César Mesquita, afirmou, à
tarde, que não se cogita um novo "pacote" econômico. "Tem muito
assessor dizendo besteira", disse Mesquita.
Ao que parece, o que está ocorrendo é uma confusão semântica, porque as
medidas admitidas por Sarney e confirmadas ontem em São Paulo pelo ministro
Sayad são apenas de ajustes na economia, não se configurando, portando, um
"pacote" como foi o Plano Cruzado, que introduziu profundas
alterações na economia.
CMN
Em sua próxima reunião, que será no dia 30, o Conselho Monetária
Nacional (CMN) examinará a reestruturação do Sistema Financeiro da
Habitação (SFH). O ministro Dílson Funaro, da Fazenda, desmente a
informação de que nesta reunião será autorizado o reajuste de 32% no saldo
devedor dos mutuários.
O CMN também poderá regulamentar os fundos de investimentos de capital
estrangeiro.
Trabalho
O número de trabalhadores com carteira assinada aumentou em 5,7% a partir de
março, e o Ministério do Trabalho acredita que esse resultado significa a
transferência de trabalhadores do mercado informal para o formal (regulamentado
em lei).
As taxas de desemprego também vêm caindo sistematicamente após o Plano
Cruzado, passando de 4,18% em janeiro para 3,5% em agosto. De março a agosto,
foram criados 636 mil postos de trabalho.
Black
A Polícia Federal apreendeu US$ 9.361,32 em moedas, cheques e "travelers
checks" no escritório do cônsul honorário do Chile, Luiz Ramon
Valenzuela Kleber, em Curitiba.
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