Textos de Paulo Roberto Lopes
no "Diário Popular" (anos 80)

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6 de maio de 1986
Secos & Molhados
Paulo Roberto Lopes
Persiste a memória inflacionária

Apesar do congelamento de preços -- e em decorrência dele a taxa inflacionária se manterá próxima de zero nos próximos meses -- a população, ou parte significativa dela, ainda não se acostumou com a estabilidade econômica. É por isso que, na expressão do ministro João Sayad, do Planejamento, ainda persiste a "memória inflacionária", coisa que não se pode acabar por decreto, mas só com o tempo.

Para se acabar com essa memória, é preciso mudar a mentalidade das pessoas. Enfiar em sua cabeça a noção de que se foi a época de ganhos fáceis e sem grandes riscos. Que, agora, não da para viver da especulação financeira, porque, ainda segundo Sayad, "o Brasil não é mais um cassino".

Ou seja, acabou a moleza. Ou pelo menos esse é o propósito do plano de estabilização econômica.

Ocorre que mudar a cabeça das pessoas  não é uma tarefa fácil. A maior prova disso, no momento, talvez seja a fuga de recursos da caderneta de poupança.

Os poupadores não querem receber "apenas" 6% ao ano de juros e, por isso, estão fazendo saques à procura de, no entender deles,  melhores investimentos, ou para usar o dinheiro no consumo.

Sayad argumenta que 6% é uma ótima remuneração levando em conta que a caderneta de poupança é um investimento sem nenhum risco, com a garantia do governo. Em nenhum outro país se paga mais do que isso, diz o ministro, argumentando que os poupadores ainda não perceberam que a taxa a título de correção monetária que recebiam nada significava, porque se tratava apenas de uma compensação à inflação. Era, portanto, uma remuneração nominal, não real. 

O ministro lamenta que, depois de tantos anos de inflação e de correção monetária, isso não tenha ficado suficientemente claro.

A memória inflacionária também pode ser detectada nas cotações do dólar no mercado paralelo e nos índices das bolsas de valores, para onde aparentemente estão indo as pessoas que ainda acreditam ser possível a realização de grandes ganhos em curtos espaço de tempo. A conseqüência será prejuízo aos menos avisados quando as cotações caírem bruscamente, como, aliás, já ocorrem ontem com a Bolsa de Valores de São Paulo.

O ministro Sayad garante que, enquanto não for apagada da memória a inflação, não se iniciará o processo do descongelamento de preços, ainda que isso implique sacrifícios aos empresários.


Regulamentação

O ministro Almir Pazzianotto, do Trabalho, não sabe quando sairá a regulamentação das novas regras do reajuste salarial, fixadas pelo plano de estabilização econômica.

Mas se depender do ministro, a regulamentação não sai.

"Regulamentar pra quê, se para o trabalhador, não há nenhuma vantagem nisso?"

Sindicatos

O Ministério do Trabalho, no primeiro ano da gestão de Pazzianotto, reconheceu 520 entidades sindicais -- 514 sindicatos e 6 federações.

Mérito

Os economistas André Lara Resende, Pérsio Arida, Francisco Lopes, Luis Mendonça de Barros, Eduardo Modiano e Luiz Gonzaga Belluzzo recebem hoje do governador do Distrito Federal, José Aparecido de Oliveira, Medalha de Honra ao Mérito, pela elaboração do plano de estabilização econômica.

Seria o caso de se saber se ainda não é cedo demais para a distribuição de medalhas.

Desconto

A Arábia Saudita decidiu dar uma desconto no prelo de seu petróleo bruto durante este mês. A informação é da revista "Middle East Economy", que não revela o percentual do desconto.

Sabotador

A "Veja", em sua última edição, volta a localizar dentro do Governo alguns dos sabotadores do plano de estabilização econômica.

Entre os episódios, a revista revela que o senador Carlos Chiarelli (PFL-RS) forçou a Cobal (Companhia Brasileira de Alimentos) a comprar 2 mil toneladas das 15 mil toneladas de cebolas colhidas no Rio Grande do Sul e que, por falta de demanda, estão apodrecendo.

"Veja" observa que também as 2 mil toneladas adquiridas pela Colba vão se perder, por falta de armazéns adequados.

Equívoco

O presidente do Banco Central, Fernão Bracher, desmentiu ontem, em Brasília, a informação publicada pela "Veja" de que Carlos Thadeu de Freitas Gomes teria sido afastado da diretoria da área bancária do Banco Central, por ter liberado a dois bancos privados Cz$ 1 bilhão. Os bancos, segundo a revista, não estavam com problema de liquidez.

Bracher enviou à direção da revista carta exigindo a ratificação da informação.

Bispo

"A pessoa não é meio de produção, mas autor e, por isso mesmo, finalidade de todo o processo produtivo". Essas palavras são do bispo-auxiliar de Porto Alegre, Edmundo Kunz, que ontem defendeu uma nova civilização do trabalho.

Estados Unidos

O subsecretário do Comércio dos Estados Unidos para questões de comércio internacional, Bruce Smart, dará entrevista amanhã via satélite, diretamente de Washington, para jornalistas de 5 países, incluindo os do Brasil.

Os jornalistas brasileiros farão perguntas a partir de Brasília. Nota do Consulado Americano informa que Smart falará sobre as relações comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos.

Funcionalismo

O ministro João Sayad revela que os órgãos do Governo Federal e as estatais estão sendo "muito parcimoniosos" na contratação de funcionários.

Deflação

Encerrada a greve no Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE). será anunciada nos próximos dias a taxa de deflação de março, que ficará em torno de 0,5%.

Empresas & Negócios

-- No próximo dia 30, das 9 às 18 horas, a agência Centro do Banco do Brasil promoverá o seminário "Brasil-China: Experiência, Oportunidade e Alternativas", com a cooperação do Consulado Geral da República Popular da China. Informações pelo telefone 234-2226.

-- A Union Carbide do Brasil Ltda. tem novo presidente: Jean Daniel Peter, 45 anos. Ele substitui Paulo Figueiredo, que se aposenta após 35 anos de companhia, dos quais 12 na presidência.

-- A Techit - Cia Internacional, empresa especializada em construção pesada, realizará no próximo dia 12, a partir das 10 horas, leilão industrial, colocando à venda 74 lotes de equipamentos usados. O leilão será no pátio da empresa, quilômetro 209,5 da Rodovia Presidente Dutra, em Arujá.

-- A comercialização de eqüinos através de leilões, que antes da reforma econômica tinha bom desempenho, conquistou, agora, novo patamar. A informação é do empresário Rubens Buchalla, que notou, entre os criadores de cavalos, disposição para investir.

-- O Grupo Catho pesquisa de que maneira as empresas estão se adaptando ao plano de estabilização econômica. O trabalho envolve 4 mil empresas. Os resultados da pesquisa serão apresentados no seminário "Como as empresas estão modificando suas estratégias após o pacote", que será realizado no próximo dia 21 em São Paulo e 22 no Rio de Janeiro. Mais informações pelo telefone 284-7033.  

 

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