Textos de Paulo Roberto Lopes
no "Diário Popular" (anos 80)

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11 de abril de 1986
Secos & Molhados
Paulo Roberto Lopes
Intervenção ainda é possível

Mais de 40 dias depois de ter entrado em vigor o plano de estabilidade econômica, ainda há impasse entre os empresários quanto ao deflator que deve ser aplicado aos preços. Por isso persiste a ameaça de o Governo intervir nas negociações, impondo, nos setores onde os desentendimentos são mais críticos, tabelas de índices deflatores. "Se isso vier a acontecer, será simplesmente vergonhoso, porque ficará demonstrado que os empresários não foram capazes de chegar a um bom termo", afirma Fábio Rubino, diretor-superintendente do Grupo Colamarino, de metais não-ferrosos.

Vergonhoso ou não, o fato é que poderá haver intervenção oficial já nos próximos dias, ainda que, a princípio, o próprio Governo seja contra. 

Embora admitam dificuldade nas conversações, os empresários não desejam nenhum tipo de ingerência governamental. Para Vicente Filizola, diretor de produção da Indústria Filizola, tradicional fabricante de balanças, a situação vai se arrumar com o correr de um pouco mais de tempo. "Devagar, os ponteiros se acertam", afirma, ressaltando  que a sua empresa não tem tido nenhum problema no relacionamento com fornecedores e clientes.

Esse, entretanto, não é o caso de empresas do próprio Governo, as quais vinham procurando tirar vantagem da situação. Destaca-se, entre elas, a Petroquisa, que até a última terça-feira concedia um desconto de 5,5% sobre o preço de seus produtos, vendidos a prazo, e exigia 15% de desconto no valor de serviços que lhe eram prestados por terceiros. O secretário de Empresas Estatais, Antoninho Marmo Trevisan, teve de enviar ordem às estatais para que tal procedimento não mais ocorra.

É de se esperar que as estatais, agora, passem a agir com coerência em relação às decisões da política econômica. O mesmo vale para as empresas privadas, porque, se começar a faltar produtos ao consumidor, o Governo terá de ser mais firme.

Dinheiro de sobra

Os empresários nunca tiveram tanto crédito à disposição como agora. "Os bancos não sabem o que fazer com o dinheiro dos depósitos a vista, cujo volume vem crescendo bastante desde o pacote econômico", comentou ontem um empresário que passou a receber quase todos os dias vista ou telefonema de gerentes de bancos com oferta de empréstimo. E os juros não são mais empecilho para o empréstimo. "Você nem precisa pedir para que os gerente reduzam as taxas de juros."

Ações (1)

Cerca de 40 empresas se encontram em fase de abertura de capital. A maioria delas tem capital 100% nacional.

Ações (2)

O diretor comercial da Indústrias Filizola, Rubens Filizola, admite que os altos índices da Bolsa de Valores "estão dando cosquinha" nos administradores da empresa. Mas ele garante que a "cosquinha" não evoluirá, porque a empresa encontra-se suficientemente capitalizada para tocar os seus projetos.

Ações (3)

As ações da Petrobrás, vendidas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), já estão à disposição dos investidores que quitaram as três parcelas do contrato de compra e venda. Para a retirada das ações, o investidor deve se dirigir à corretora onde foi feito o negócio.

Zona Franca

O diretor superintendente do Grupo Colamarino, Fábio F.C. Rubino, tem a informação de que muitas empresas não congelaram os salários de seus funcionários pela média dos últimos seis meses, mantendo-os com os valores de fevereiro. Como exemplo, ele citou a sua própria empresa, que tem 180 funcionários e atual no setor de metais não-ferrosos.

Pelos cálculos de Rubino, se fossem aplicadas as novas regras aos salários, os funcionários de sua empresa teriam uma perda de 19%.

Prestação de serviço

O decreto regulamentando o congelamento dos preços dos serviços cobrados por profissionais liberais (médicos, dentistas, advogados etc) será assinado pelo presidente José Sarney no início da próxima semana.

O congelamento não será uniforme. Cada profissional cobrará de acordo com os preços que praticava em fevereiro.

Extratos bancários

Os bancos já estão deixando de fornecer aos clientes extratos com a freqüência que era de costume. Também a compensação de cheques, que vinha ocorrendo em 24 horas, já dura até uma semana.

 Reforma agrária

A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) publicou, "a pedido", extenso texto na imprensa gaúcha incitando os fazendeiros à resistência armada contra a reforma agrária. Até ontem à noite, não houve nenhuma manifestação do Governo sobre o assunto.

Déficit público

O economista Emílio Pedro Maria Alfieri, do Instituto de Economia "Gastão Vidigal", da Associação Comercial de São Paulo, chegou à conclusão de que, em conseqüência do plano de estabilização da economia, a arrecadação tributária tende a subir, "uma vez que será reduzida a corrosão inflacionária entre o fato gerador do imposto e a sua arrecadação". Com isso, segundo o economista, haverá uma redução no déficit público.

Negócios

O Banco do Brasil aceitou ser o arrecadador exclusivo dos impostos municipais de São Paulo, já que, por decisão do prefeito Jânio Quadros, 31 bancos, inclusive o Banespa, foram proibido de prestar o serviço.

Lista

Muitas empresas estão lamentando o fato de os nomes de seus produtos não constarem na lista de preços máximos da Sunab. Motivo: estão deixando de ter uma propaganda gratuita.

Empresas & Negócios

-- A Shell encerrou o exercício de 1985 com o prejuízo de Cr$ 26 bilhões, contra o lucro de Cr$ 10 bilhões em 1894. Este foi o segundo prejuízo da empresa no Brasil. O primeiro foi em 1983. A empresa atua no pais nas áreas de derivados de petróleo, mineração e de produtos químicos.

-- No ano passado, a indústria ferroviária produziu 1.879 vagões de carga, 154 carros de passageiros e 28 locomotivas. Tal produção não foi suficiente par acabar com a ociosidade do setor, que há três anos se mantém em 21% na linha de vagões, 19% na de carros de passageiros e de 9% na de locomotivas. As informações são da Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer).

-- A Black & Decker lançará uma novidade: eletrodoméstico sem fio. A empresa apresentará o produto à imprensa no próximo dia 16.

-- Eduardo Alcântara Machado, da Alcântara Machado Nordeste, foi eleito para presidir a União Brasileira de Promotores de Feiras, entidade recém-criada pro 16 empresas.

-- A Artex S/A - Indústria de Artefatos Têxteis comemora no próximo mês 50 anos de existência. A empresa teve no ano passado lucro líquido de Cz$ 58,8 milhões.

-- Na segunda quinzena do próximo mês, a Curt colocará em funcionamento um laboratório profissional para fotógrafos, empresas de publicidade e indústrias.

-- A Mithus da Amazônia colocou dois novos perfumes na praça: Yukeri e Gio. Os perfumes são fabricados com base num produto extraído de glândulas de veados. Eles são considerados afrodisíacos. 

 

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