Textos de Paulo Roberto Lopes
no "Diário Popular" (anos 80)

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12 de agosto 1983
Enfoque Econômico
Paulo Roberto Lopes
Múltis vão pagar acima de 80% do INPC

As empresas multinacionais vão desobedecer o decreto-lei 2.045, que limita os reajustes salariais a 80% do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor). O salário dos funcionários dessas empresas vai, portanto, aumentar acima desse limite. A informação, publicada pela "Gazeta Mercantil", é do Grupo Integrado de Salários (GIS), formado por gerentes de salários de 17 multinacionais. Fazem parte do grupo, entre outros, os gerentes de salário da Bayer, Sandoz Hoechst, Ciba-Gelgy, Dupont, Johnson, Pfizer, Henkel, Kodak, Eternit, Bast, Kibon e Monsanto.

Como se sabe, o arrocho salarial imposto pelo decreto-lei 2.045 atende a uma exigência do Fundo Monetário Internacional (FMI). Uma exigência, não custa frisar, defendida pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e pelo ministro Delfim Netto, do Planejamento.

FMI, Fiesp e Delfim entendem que só com o arrocho salarial a inflação começará a declinar.

Pergunta-se: ao conceder reajustes salariais acima de 80% do INPC, as multinacionais estariam desafiando o FMI e o governo, numa atitude política?

O GIS não se preocupa com essa questão. Até porque, segundo integrantes do grupo, o Governo não deveria se meter tanto na política de reajuste salarial.

Para o GIS, as empresas não serão prejudicadas se concederam reajustes para os trabalhadores que ganham até dez mínimos pela totalidade do INPC. 

Os gerentes deixam claro que tais  reajustes não têm nada a ver com caridade por parte das multinacionais. Tudo se trata de uma questão de mercado, explicam. "Se uma empresa, de uma determinada comunidade de igual porte, paga menos que outra, termina por perder bons profissionais ou por criar um clima negativo entre os seus empregados", diz Roberto Justo Fernandes, que faz parte do grupo.

Algum empresário nacional poderá achar curiosa essa repentina preocupação das multinacionais em não ter "um clima negativo" em suas fábricas e escritórios. Pode-se argumentar, nesse caso, que se trata de mais uma jogada das múltis para se fortalecerem ainda mais no País, ocupando espaços da iniciativa privada nacional. Pode ser até isso. Mas como provar? Além do mais, neste momento em que a população perde poder aquisitivo, é preciso pensar duas vezes antes de se criticar quem resguarda os salários da inflação.

Não são apenas as empresas multinacionais que vão reajustar os salários acima dos 80% do INPC. A Rede Ferroviária Federal também vai -- ainda que forçada pelos tribunais --, pelos menos para os seus funcionários gaúchos. É que estes moveram uma ação para que tenham reajustes de acordo com a política salarial de 1977, e não com base no referido decreto-lei.

O Tribunal Regional do Trabalho aprovou a ação por unanimidade, o que foi surpreendeu alguns observadores. Agora, a ação terá de passar por outras instâncias da Justiça, mas a opinião do advogado dos ferroviários é que ela vai se consolidar. Se realmente assim ocorrer, haverá um precedente, e ferroviários de outros Estados poderão tentar obter a mesma decisão. Pelo menos enquanto o decreto-lei 2.045 não passar pelo Congresso Nacional.

Secos & Molhados

-- A Souza Cruz está colocando a boca no trombone. É que os reajustes nos preços dos cigarros estão reduzindo o consumo. A população está sem dinheiro, diz Bruce Donald, diretor financeiro da empresa, lembrando que os preços subiram 102% no ano passado, mais do que a inflação.

-- O senador Roberto Campos, muito citado ultimamente por Guilherme Afif Domingos, presidente da Associação Comercial de São Paulo, será homenageado pela entidade no próximo dia 19, às 20h30, "por suas contribuições em favor da livre iniciativa".

-- Em visita ao Brasil, o empresário japonês Mario Yokoyama, presidente da Yokoyama Electric, não se impressiona com a gravidade econômica do país. Para ele, "o esforço coletivo" vai tirar o pais do fundo do poço, a exemplo do que aconteceu com o Japão depois da Segunda Guerra.

Esforço coletivo? Bem, este "produto", ao que parece, está em falta no Brasil, talvez porque o Japão tenha ficado com todo ele.

No Brasil, o que funciona mesmo é a máxima "cada um para si e a inflação para todos". A começar pelos empresários, que estão mais interessados em remarcar os preços do que se engajarem em uma campanha de combate à inflação.

-- Pronto! Feito mais um acordo com o Fundo Monetário Internacional. Considerando que as autoridades brasileiras costumam não cumprir acordos, resta saber quando é que os técnicos do FMI voltarão ao pais para mais uma rodada de conversação.         

     

 

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