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9 de setembro de 1985
Crônica
Paulo Roberto Lopes
Mamata parlamentar
Ainda está para surgir um
político que, de cima de um palanque ou diante da câmera de tevê, tenha
coragem de assumir com toda a franqueza os seus verdadeiros propósitos.
Alguém, enfim, que diga assim: "Senhoras e senhores, votem em mim, porque
almejo não, evidentemente, cuidar do povo -- que ele se vire --, mas dos meus
interesses".
Ou então isto: "Já que a mamata não é possível para todos, votem em
mim, porque, se eleito, eu a desfrutarei para vocês".
Ou ainda isto: "Meu povo, vote em mim; tô louco por uma mordomia".
É claro que há políticos sérios, honestos, que bem representam os
eleitores.
Mas essa não é a impressão que se tem quando somente dois ou três deputados
comparecem à reabertura dos trabalhos da Câmara Federal.
Vi, nos jornais, a foto do plenário vazio, só com o presidente da Câmara
dirigindo-se a poltronas onde não havia ninguém.
Fiquei a pensar o que havia de errado com aquelas poltronas. Onde existem
poltronas mais macias e convidativas do que aquelas?
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Alguém poderá dizer que talvez as
poltronas das estatais e das entidades da administração públicas sejam mais
confortáveis, mas nelas não cabem todos os deputados.
Um deputado federal ganha hoje cerca de 66 salários mínimos -- Cr$ 22
milhões. Mas paga Imposto de Renda sobre apenas Cr$ 2,7 milhões, que é a
parte do salário de um tal de "subsídio fixo".
Entre outras coisas, o parlamentar tem auxílio transporte (Cr$ 8 milhões na
Câmara e Cr$ 5 milhões no Senado), franquia telefônica (3 milhões), cota
postal (1,4 milhão), quatro passagens áreas por mês, apartamento (5 milhões
de aluguel) e assistência médica completa.
Tudo isso e mais, no plenário, uma confortável poltrona, que nem sempre é
usada, pois, afinal, ninguém agüenta tanta mordomia.
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