Textos de Paulo Roberto Lopes
no "Diário Popular" (anos 80)

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26 de julho de 1985
Crônica
Paulo Roberto Lopes
O presidente ator

Nos Estados Unidos, um ator virou presidente da República. No Brasil, um presidente poderá virar ator. Pelo menos essa é a impressão que se tem diante de assessores do Palácio do Planalto que recorreram ao veterano ator de teatro e de TV Paulo José para dirigir o pronunciamento do presidente Sarney à nação.

Nos EUA, Reagan foi um ator ridículo e é um presidente mais ridículo ainda. Espera-se que Sarney se saia bem melhor com presidente do que ator.

Por ora, cumpre-se registrar que Sarney está se caindo bem -- como ator. Graças, certamente, aos préstimos do talentoso Paulo José.

Consta inclusive que, antes da gravação que foi ao ar na segunda-feira, houve, no palácio, um corre-corre de assessores presidenciais para aparar o bigode de Vossa Excelência.

-- Rápido, uma tesoura bem afiada, disse um dos assessores. 

Houve até quem sugeriu a convocação de dona Solange Hernandez. "Ela entende muito de tesoura, porque por muito tempo foi uma eficaz chefe do Departamento de Censura."

-- Nada disso, teria retrucado um outro assessor. "Dona Solange corta demais."

E aí começou a polêmica:

-- É melhor cortar demais do que não cortar nada, disse um terceiro colaborador, para acrescentar o seguinte: "Se o bigode presidencial ficar comprido, o povo poderá achar que Sarney é um ventríloquo, o que, evidentemente, não pegaria bem. Vocês já imaginaram a frase 'o Brasil vai dar certo' saindo das profundezas de um bigode? Ninguém iria acreditar."

Não se sabe até aonde foi a polêmica, mas o fato é que o presidente apareceu na TV com o bigode devidamente censurado, digo, aparado.

O pronunciamento teve boa repercussão. Agradou a gregos e troianos, embora o pau entre eles continue comendo solto.

Até os jovens gostaram do desempenho do presidente. Um deles teria afirmado que "foi um barato o primeiro vídeo-clip da Nova República".

Na verdade, apenas duas, três pessoas não gostaram do pronunciamento. Segundo elas, o presidente disse tudo o que vai fazer, mas esqueceu de falar como ele vai fazer. Parece que essas pessoas têm razão, porque daqui a 20 dias o presidente voltará à TV para se explicar melhor.

Espera-se que, desta vez, Sarney lembre-se que o pais já tem bons atores e o que só falta é um bom presidente.

 

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