Textos de Paulo Roberto Lopes
no "Diário Popular" (anos 80)

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31 de maio de 1985
Crônica
Paulo Roberto Lopes
Novo rótulo

Confesso que outro dia, num supermercado, à procura de um achocolatado, deixei-me convencer pelo apelo de um rótulo: "Nova fórmula, mais qualidade, mais sabor, mais vida".

Comprei o produto, apesar de o seu preço ser um pouco maior em relação aos concorrentes, crente de que tinha feito um bom negócio. 

Ledo engano. Ao experimentar ao achocolatado, constatei que de novo mesmo ele só tinha o rótulo, agora com novo desenho e cores. Tive a sensação de ter sido enganado.

Temo que ocorra o mesmo com a Nova República. 

Ao longo dos anos, os políticos do  PMDB prometeram mil coisas, que fariam isso e aquilo no dia em que chegassem ao poder. Fariam uma Nova República, como prometeu Tancredo Neves.

Até mesmo os setores mais conservadores da sociedade se aliaram ao PMDB. Destaco, por exemplo, a atuação de empresários que até pelo menos o fim do chamado "milagre econômico brasileiro", em 1975, por aí, nada tiveram a reclamar do regime imposto à Nação em 1964. Empresários que, ultimamente, para acompanhar os rumos dos ventos, reivindicam mudanças, de modo que haja, entre outras coisas, justiça social.

Pois bem. Graças à mobilização popular, chegaram os dias de poder do PMDB, ainda que, da parte da oposição ao regime, fosse necessária uma aliança com dissidentes do PDS -- dissidentes que hoje proclamam serem liberais.

E onde está a Nova República?

Bem, ao se julgar pelos últimos acontecimentos, a Nova República, que ainda engatinha, corre o risco de se tornar apenas um novo e enganoso rótulo, com novas cores mas com o mesmo sabor, como aquele achocolatado que comprei.

Observo que as eleições diretas-já para a Presidência da República foram esquecidas a favor das diretas-depois.

Prometeram acabar com o arrocho salarial, mas nada foi feito até agora.

Prometeram acabar com a ajuda governamental a empresários incompetentes e corruptos, mas o que se tem hoje é o socorro ao Sulbrasileiro e ao Habitasul, para os quais vão ser liberados bilhões de cruzeiros.

Prometeram a remoção do entulho autoritário, como a lei de greve, que continua em vigor. Ou seja, para o PMDB,  o autoritarismo só não pode ser aplicado por um regime autoritário, mas pode sim por um regime dito democrático. Não é uma loucura?

Prometeram ainda não sacrificar o povo, mas já é praticamente certa a elevação dos impostos, o que, convenhamos, era de se esperar de um ministro da Fazenda que no governo anterior, como titular da Receita Federal, elevou bastante a arrecadação do Imposto de Renda.

E aqueles empresários que reclamavam por mudanças, onde estão hoje? Por que os seus discursos progressistas sumiram da imprensa? Por que,  no momento em que há um governo que se pretende ser uma transição para a democracia, esses empresários recuaram e deixaram a reivindicação por justiça social por conta somente dos políticos de esquerda e de setores da esquerda?

Paguei caro por aquele "novo" achocolatado, cujo anúncio informava de qualidades que não existem. E ficando a pensar quanto terá de pagar o povo por uma Nova República que não consegue ser nova.
               
 
 

 

 

 

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